O mundo novo, aqui e agora!


RONIE LIMA

A maior geleira da Antártica Oriental – a Tooten, com 120 km de comprimento por 30 km de largura – está derretendo; surpreendendo cientistas que a consideravam à prova de correntes mais quentes do oceano. A seca assola o Sudeste brasileiro, faltando água – algo impensável para muitos, em especial num país que detém uma das maiores reservas de água doce do planeta. Sim, os eventos climáticos extremos estão aumentado de frequência e intensidade. E daqui a pouco, vamos nos dar conta de outro problemão: o aumento do nível dos mares.

A economia de mercado está em frangalhos. Muito mais do que a pobreza, a desigualdade econômica e social está fazendo vítimas para tudo quanto é lado, alimentando guerras, disputas e radicalismos de toda a espécie – do terrorismo ao banditismo urbano; inclusive em favelas. Estrangulado pelo desenvolvimento técnico-científico – que moderniza a produção, mas dispensa mais e mais empregados – e pela destruição da natureza, com o avanço do aquecimento global, o modo de produção capitalista beira o ponto de não retorno.

Deu para entender? Pessoal, os tempos chegaram. Começou a Pororoca – ambiental, climática, econômica, sociocultural. O chamado Apocalipse. É definitivo? Não. A não ser que a humanidade tome tenência, mude radicalmente de rumo, sendo mais equilibrada e tolerante, e caia de cabeça na construção de um consenso mundial em torno de algo inadiável: um novo Contrato Social.

A humanidade precisa construir a base de novos modelos de se fazer economia, com baixo consumo de carbono, e de se relacionar socialmente, com mais equilíbrio e justiça social. Com mais preservação ambiental. A chamada Economia Verde.

Não vamos tapar o sol com a peneira. Uma grande revolução educacional e cultural é necessária, como base de qualquer mudanças política e econômica mais eficaz e democrática. Seremos capazes disso? Sinceramente, não sei. Os problemas acumulados são de tal ordem de grandeza que as mudanças precisam ser muito rápidas e profundas. Até porque se não vierem, vamos torrar cada vez mais em guerras (até por água!), disputas territoriais e eventos climáticos extremos.

Algo muitas vezes impensável num planeta em que a maioria da população continua a estimular e apoiar (muitas vezes inconscientemente) o crescimento populacional e o consumismo desvairado, desenfreado.

No entanto, dos males, o menor. Como se costuma dizer, as pessoas só aprendem com a dor. Talvez aqui no Sudeste brasileiro, com a carência de água, os pensadores mais antenados, esclarecidos, que vivem em duas das maiores cidades do planeta – São Paulo e Rio de Janeiro – engrossem um movimento sociocultural pelo incremento de iniciativas e modelos de vida sustentáveis.

O discurso velho de guerra, de inspiração marxista, de que antes precisamos mudar as estruturas sociais, a base da economia etc., é bom para alimentar papo de intelectual em mesa de bar. Mas é pouco eficiente, produtivo. Sim, é importante mudarmos leis, formularmos novos padrões econômicos, de funcionamento do Estado etc. e tal. No entanto, nunca é demais lembrar: quem implementa mudanças são pessoas de carne e osso, e não entidades abstratas.

Quem afinal promove mudanças estruturais? Os ETs? O fantasma do Marx?

O novo Contrato Social só pode nascer a partir de mudanças interiores, de pessoas sensíveis que começam a engrossar, lentamente que seja, um caldo sociocultural transformador. O novo mundo está dentro de nós. As pessoas mais antenadas, mais espiritualizadas, eu diria, são as que vão – sempre foi assim na história da humanidade! – liderar os processos de renovação social, econômica e ambiental que se fazem necessários.

Nunca foi tão importante os líderes políticos, da sociedade, do Poder Judiciário, os intelectuais da Academia, dos diversos setores do saber, enfim, nunca foi tão importante as pessoas se agruparem em torno de projetos de reformulação e construção de novas leis, de vida social, de ações empresariais verdes, de reforma do Estado. Simplesmente, não dá mais para continuarmos desse jeito.

Precisamos de teorias e práticas renovadoras. Precisamos estimular a compra de produtos ecológicos, investimentos relacionados com empregos verdes, com fontes alternativas de energia, com o pensar grande, mas de forma localizada, com cidades menos inchadas, compactas, empresas com menor tamanho, com funcionários e acionistas que participem mais de sua administração.

Precisamos estimular práticas menos consumistas – não só de água e energia, mas que diminuam a sede desenfreada por produtos sempre e sempre novos, como carros, celulares etc. Precisamos de produtos cada vez mais ecológicos.

O pensamento político, então, atingiu níveis de pobreza intelectual apavorantes. Tanto as soluções estatistas ou mercadológicas já eram há muito tempo; seja à direita ou à esquerda. O mundo da economia baseado no símbolo do dinheiro – cada vez mais fictício, sem lastro numa real base de produção industrial e agrícola – está se esgotando. Assim como a outra face dessa mesma moeda podre: o Estado.

Essa mudança de paradigma de vida pode parecer complexa para a maioria das pessoas, algo quase na esfera do impossível. E o é. Mas só enquanto não passarmos a atuar feito formiguinhas, construindo hoje – mesmo que pareça algo muito lento – o mundo do amanhã. Ficar parado à espera do mundo novo é que não dá mais pé!

É a tal história. Se a pessoa tem um discurso muito bonito, de avanço social, de mudanças estruturais, o que a impede de começar a mudar o mundo – para melhor – dentro da sua própria casa, do seu trabalho? O que a impede de ser alguém melhor dentro da própria família, do seu círculo social mais próximo, dando exemplos edificantes? Melhorar não é fácil – ainda mais quando temos preconceitos e estilos de vida negativos tão arraigados em nosso ser. Mas não é impossível!

Sinceramente: dá para acreditar nos bons propósitos de alguém que diz que deseja mudar o mundo, mas não consegue avançar – um tiquinho que seja – dentro da sua própria casa, nos locais que frequenta e trabalha? Alguém que não consegue mudar a si próprio pode se dar ao luxo de querer mudar o mundo?

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