A imprensa e o lixo flutuante na Baía de Guanabara


RONIE LIMA

A imprensa vive criticando – com razão – o andar da carruagem das ações de despoluição da Baía de Guanabara, que, como já ficou claro, não atingirão a meta de coleta e tratamento de 80% dos esgotos das cidades de sua bacia hidrográfica até as Olimpíadas do Rio, em 2016. Mas, para não ficar nesse círculo vicioso de só apontar o lado negativo das coisas, os meios de comunicação – em especial as emissoras de TV e de rádio – podem contribuir, de forma propositiva, para a tão almejada despoluição – em especial no que tange ao problema do lixo flutuante.

Como? Liderando campanhas publicitárias de educação ambiental para que a população deixe de jogar lixo nas ruas, córregos, rios, mares e nas águas da Baía de Guanabara. Em especial, abrindo espaços gratuitos em sua grade de programação, demonstrando sua boa vontade em participar desse importante esforço educacional dos fluminenses.

Até porque o lixo flutuante na baía é um tipo de problema ambiental que, se ficarmos só esperando o Estado agir, danou-se. Trata-se de uma questão que, se a sociedade não se envolver como um todo, não será resolvido – sequer minorado. Afinal, como impedir que milhões que vivem no entorno continuem a jogar tudo e qualquer coisa em cursos d’agua que vão parar na Baía de Guanabara?

Vamos combinar: o brasileiro médio, do mais pobre ao mais rico, é um povo sem educação ambiental – e porcalhão por natureza. Joga lixo em qualquer lugar que lhe dá na telha.

Tudo bem: lixo é uma questão essencialmente municipal, cabendo às prefeituras promoverem sistemas eficientes de coleta e de destinação final dos resíduos urbanos para tratamento. Mas, obviamente, nunca existirá exército suficiente de garis capaz de deixar nossas cidades limpas se, antes de tudo, os moradores e visitantes não assumirem suas responsabilidades de cidadãos ambientalmente conscientes, parando de jogar lixo em qualquer lugar.

Aliás, em termos de saneamento da baía, um ponto que avançou muito, na gestão do então secretário do Ambiente Carlos Minc, foi o tratamento de lixo nos municípios de sua bacia hidrográfica, que, apoiados pela SEA, passaram a destinar seus resíduos sólidos para aterros sanitários – fechando lixões municipais.

Mas, repito: sem consciência ambiental de todos os cidadãos, vai continuar chegando lixo nas águas da Guanabara!

Falar mal de governo, do tão famigerado Estado, dos políticos, enfim, sempre foi o caminho mais fácil para brasileiros que cismam em enxergar apenas no Poder Público alguns males que, no fundo, têm a ver com o próprio jeito de ser da sociedade com um todo. Enfim, nós não costumamos assumir nossa própria culpa no cartório.

NOVA POSTURA

E aqui surge o papel fundamental dos meios de comunicação. Uma boa educação ambiental deve começar dentro de casa, na família, e nas escolas – para que as crianças de hoje sejam transformadas nos adultos responsáveis de amanhã. Mas esse processo educativo ganhará muito em escala se for assumido – e liderado – pelos grandes conglomerados de comunicação – em especial os detentores de emissoras de TV e rádios, com seus sites e redes sociais.

Os acionistas majoritários dos meios de comunicação e os jornalistas devem ser unir para, juntamente com agências publicitárias, prefeituras e o governo do Estado do Rio de Janeiro, elaborarem campanhas criativas que, permanentemente, estimulem a população a agir adequadamente no que tange a grandes questões ambientais. E não falo somente da destinação adequado do lixo, mas também, entre outros, do uso mais racional da água e do consumo de energia.

O mundo moderno pede uma nova postura de todos – menos negativista, mais propositiva, mais colaborativa. A imprensa precisa incentivar mais, em suas reportagens, editoriais e espaços publicitários, os projetos e ações que incentivem o brasileiro a construir um país melhor, mais consciente dos seus direitos e, principalmente, dos seus deveres.

OK, é importante denunciar, mostrar o podre, criticar o que está errado. Mas isso tem que vir acompanhado, de forma mais equilibrada, de uma linha editorial em que se destaque o bom exemplo.

Não vamos construir um Brasil novo, um mundo novo, só criticando, metendo o pau. Chega de abrir espaço a todo instante para os porta-vozes da crítica fácil – daqueles que só sabem apontar erros e defeitos, sem apresentar uma proposta positiva que seja.

Que tal combinarmos assim com os repórteres: toda vez que um entrevistado fizer alguma crítica, pergunte: “Tá bom, mas dito isso, qual a sua sugestão prática para que isso não se repita, para que essa situação melhore?”.

E no caso de um governante que repetir que os recursos são escassos e que ainda há muito por fazer, que tal emendar sempre com perguntas do tipo: “Tá bom, dito isso, qual ação coordenada, qual projeto, qual iniciativa a curto e médio prazo o governo está articulando para alavancar os recursos necessários? Quais as etapas, quais as obras mais urgentes? Que projetos já foram elaborados para poder captar recursos para a sua execução? Que tipo de política coordenada o governo está implementando com empresários, prefeitos, agências financeiras etc. para viabilizar as ações necessárias para despoluir a Baía de Guanabara?”.

Sim, recuperar a Baía de Guanabara é algo complexo. Fala-se que, até agora, chegou-se a 50% de despoluição. Eu não acredito nesse percentual. Embora seja importante reconhecermos que houve avanços no saneamento da baía nos últimos anos, acredito que esse percentual esteja mais próximo de 40% de coleta e tratamento dos esgotos sanitários produzidos pelos 8,4 milhões de habitantes do entorno da baía.

Ou seja: ainda há muito por fazer, com muitos recursos sendo necessários! Além dos recursos até agora mal empregados no famigerado PDBG (Programa de Despoluição da Baía de Guanabara), da ordem de 760 milhões de dólares, o governo estadual alocou, nos últimos anos, novos recursos de quase R$ 2 bilhões para atacar o problema. Só que técnicos mais experientes falam que serão necessários, no mínimo, mais R$ 6 bilhões para se alcançar a universalização do saneamento do entorno e, consequentemente, chegar à despoluição de 100% do espelho d´água da Baía de Guanabara.

E mais: como essa despoluição depende, antes de tudo, do avanço da coleta e tratamento de esgoto das 16 cidades que integram a Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara, é necessário, antes de tudo, a constituição de uma autoridade pública – de preferência alguém subordinado diretamente ao governador – com força política para articular projetos, financiamentos e coordenar (com muitas pressão política!) as ações de saneamento das prefeituras.

COMPETIÇÕES OLÍMPICAS

De qualquer forma, do ponto de vista do risco para as competições náuticas das Olimpíadas, sinto desapontar a imprensa negativista, mas é pouco provável que possam ser prejudicadas pela poluição das águas da baía.

Em primeiro lugar, existem fortes correntes, vindas do Oceano Atlântico, que ajudam a diminuir em muito a poluição das águas da baía na área onde ocorrerão as competições. O problema maior seria então o lixo flutuante. Mas aí também pode haver “solução”, mesmo que paliativa, com o emprego de uma frota de ecobarcos para recolher o lixo que estiver flutuando horas antes das competições.

Lógico que, no caso, não seria uma solução confortável, pois exporia nossas fraquezas ambientais, com emissoras de TVs, rádios, sites, jornais e demais publicações do mundo inteiro apontando o exército de ecobarcos necessário para “limpar” as raias das competições náuticas. Ou seja: um mico internacional!

Por isso, se não queremos fazer feio e passar vergonha com a porcariada flutuante na baía, mesmo que não prejudiquem as competições náuticas, é preciso que os meios de comunicação e a população deixem de ficar apenas criticando, passando a colocar a mão na massa e assumindo suas responsabilidades nessa questão.

Há tempo para essa transformação cultural? De forma radical, de uma hora para outra, acho pouco provável. Mas a vida é assim: caminhamos e evoluímos por etapas. Então, mesmo que até as Olimpíadas seja difícil essa transformação, se começarmos desde já, certamente as águas da Baía de Guanabara estarão um pouco melhor do ponto de vista do lixo flutuante, melhorando nossa imagem perante o mundo Olímpico.

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