A auto-sabotagem como mecanismo de defesa


Há momentos da vida que reconhecemos que estamos prontos para dar um novo salto, para efetivar uma mudança profunda. Lançamos-nos num novo empreendimento, numa nova relação afetiva, mudamos de cidade e até mesmo de apelido.

É como se tivéssemos dado um grande salto para cair no mesmo buraco. E que por mais que tentemos mudar e agir diferente, de um jeito ou outro, acabamos cometendo os mesmos erros do passado, fruto de armadilhas criadas por nós mesmos.

Trata-se da auto-sabotagem, um ciclo de repetição de comportamentos destrutivos sustentados pelo nosso inconsciente.

Isso ocorre porque, apesar de querermos mudar, nosso inconsciente ainda não nos mostrou caminho para isso, não conseguimos enxergar a saída para tal!

Em nosso íntimo escutamos e obedecemos sem nos darmos conta, ordens de nosso inconsciente geradas por frases que escutamos inúmeras vezes quando ainda éramos crianças. Toda família tem as suas. Por exemplo: “Não fale com estranhos” é uma clássica. Como a nossa mente foi programada para não falar com estranhos, cada vez que conhecemos uma nova pessoa nos sentimos ameaçados. Uma parte de nosso cérebro nos diz: “abra-se” e a outra adverte: “cuidado”.

Num primeiro momento, o desafio em si é encorajador, por isso nos atiramos em novas experiências e estamos dispostos a enfrentar os preconceitos. No entanto, quando surgem as primeiras dificuldades que fazem com que nos sintamos incapazes de lidar com esse novo empreendimento, percebemos em nós a presença desta parte inconsciente que discordava que nos arriscássemos em mudar de atitude: “Bem que eu já sabia que falar com estranhos era perigoso”.

Cada vez que desconfiamos de nossa capacidade de superar obstáculos, cultivamos um sentimento de covardia interior que bloqueia nossas emoções e nos paralisa. Muitas vezes, o medo da mudança é maior do que a força para mudar. Por isso, enquanto nos auto-iludirmos com soluções irreais e tivermos resistência em rever nossos erros e aprender com eles, estaremos bloqueados. Desta forma, a preguiça e o orgulho serão expressões de auto-sabotagem, isto é, de nosso medo de mudar. Dificilmente percebemos que nos auto-sabotamos. Nós nos auto-iludimos quando não lidamos diretamente com as raiz (es) de nosso (os) problema(as).

“Quando acreditamos apaixonadamente em algo que não existe, nós o criamos. O inexistente é o que não desejamos o suficiente”

(Franz Kafka)

 

A auto-ilusão é um jogo da mente que busca uma solução imediata para um conflito, ou seja, um modo de se adaptar e acomodar a uma situação dolorosa, porém que não represente uma mudança ameaçadora.  Não é fácil perceber que a traição começa em nós mesmos, pois nem nos damos conta de que estamos nos auto-sabotando!

Na auto-ilusão, tudo parece perfeito. Atribuímos ao tempo e aos outros a solução de nossos problemas: com o tempo a dor de uma perda passará; seu amado (a) irá se arrepender de ter deixado você e voltará para seus braços como se nada tivesse acontecido. No entanto, só quando passarmos a ter consciência de nossos erros é que não seremos mais vítimas deles! Temos uma imagem idealizada de nós mesmos, que nos impede de sermos verdadeiros. Produzimos muitas ilusões a partir desta idealização. Muitas vezes, dizemos o que não sentimos de verdade. Isso ocorre porque não sentimos o que pensamos!

Muitas vezes não queremos pensar naquilo que sentimos, pois, em geral, temos dificuldade para lidar com nossos sentimentos sem julgá-los. Sermos abertos para com nossos sentimentos demanda sinceridade e compaixão. Reconhecer que não estamos sentindo o que deveríamos sentir ou gostaríamos de estar sentindo é um desafio para conosco mesmos. Algumas de nossas auto-imagens não querem ser vistas!

É nossa auto-imagem que gera sentimentos e pensamentos em nosso íntimo. Podemos nos exercitar para identificá-la. Mas este não é um exercício fácil, pois resistimos em olhar nosso lado sombrio. No entanto, uma coisa é certa: tudo que ignoramos sobre nossa parte sombria, cresce silenciosamente como uma bola de neve e um dia será tão forte que não haverá como deter sua ação. Portanto, é a nossa auto-imagem que dita nosso destino.

A auto-imagem não é permanente. De fato, o sentimento em si existe, no entanto o seu poder de sustentação será totalmente perdido assim que você perder o interesse por alimentar a auto-imagem. Nesse instante, você pode ter uma experiência inteiramente diferente da que você julgou possível naquele estado anterior de dor. É tão fácil deixar a auto-imagem se perpetuar, dominar toda a sua vida e criar um estado de coisas desequilibrado… No nível atual, antes de começarmos a meditar sobre a auto-imagem, não percebemos a diferença entre nossa auto-imagem e nosso ‘eu’. Mas, se pudermos reconhecer apenas alguma pequena diferença entre a nossa auto-imagem e nós mesmos, ou ‘eu’ ou ‘si mesmo’, poderemos ver, então, qual parte é a auto-imagem.

Por diversas questões complexas, o indivíduo sofre diante da existência da satisfação de um desejo, por mais simples que seja. Realizações trazem angústia e ansiedade, sendo assim, o receio à felicidade gera conflitos internos. Trata-se de um processo inconsciente, é como se houvesse uma ‘briga’ interior, onde o seu lado consciente e racional diz: “eu quero, eu posso, eu mereço” e o seu lado inconsciente e irracional contra diz: “ e seu eu gostar?E seu eu for feliz? E se der certo? Então, vou ter que mudar?Ai que medo do novo!” Não basta apenas o desejo de mudar, de fazer algo diferente, se nossas crenças e  padrões continuam os mesmos. Você continuará repetindo o mesmo comportamento e puxando o seu próprio tapete.

“Uma parte de mim, é claro, quer realizar esse desejo. É a mais consciente, talvez a mais salutar, a que vê que as coisas não estão tão bem assim e que já há muito tempo precisavam ser mudadas. Outra metade de mim não quer, por culpa, covardia, raiva e desejo de vingança (contra os pais, real ou imaginário) e até acomodação. Essa parte é geralmente inconsciente e reprimida. Mas está lá. Inicia-se então um jogo de forças entre a parte consciente e inconsciente do ego, entre desejo e pressão social. Como em tudo, quem for mais forte ganha.” (Liane Alves – especialista em comportamento)

O psicanalista freudiano americano Stanley Rosner, com seus quarenta anos de experiência, afirma que a maioria das pessoas não percebe o que faz e preferem acreditar que a insatisfação é apenas fruto de algo externo.  Essa negação faz com que a pessoa siga em frente, mas sempre sofrendo de alguma forma. A auto-sabotagem pode se manifestar em absolutamente todos os aspectos da vida: no namoro, no casamento, na criação de filhos, na escola, no trabalho. E sua origem, muitas vezes, se dá lá atrás, na infância, no núcleo familiar que é onde adquirimos referências e construímos nossa base de percepção e atuação no mundo, incluindo traumas, absorção de características da personalidade de quem convivemos e até sentimentos de abandono, rejeição, culpa, entre outros. A chave está na origem dos conflitos.

Como mudar? Evitar essas repetições destrutivas é muito difícil, porque elas estão consolidadas em nosso inconsciente desde muito cedo. Por isso eu digo que estar ciente de seu padrão de repetições é extremamente importante, eu diria que é o primeiro passo. Mas o caminho para estancar esse comportamento é ir de encontro ao trauma que está na raiz de tudo.

A viciação “estupidifica”, “emburrece” a criatura! Triste, mas fatídico.

Os complexos de rejeição e inferioridade auto-sabotam, num caminhar de um passo para frente, e dois para trás. Não deixando o indivíduo ir para frente, se auto-realizar, conquistar, ser feliz, é como se não merecesse.

Na auto-sabotagem a criatura fecha portas para ela mesma. Como é que  o outro, o mundo, o universo pode confiar e continuar a dar chances e oportunidades a alguém que insiste em repetir erros, desperdiçando oportunidades?

A ação dos complexos destrutivos leva a auto-sabotagem, ao erro, a culpa e a penalização num circulo vicioso. Instinto de morte ou ‘thanatus’, autodestrutivo, num suicídio indireto parece comandar a atitude destas pessoas.

Enquanto os complexos negativos e destrutivos estiverem no comando, ocorrerá só repetição de auto-sabotagem, negativismo e penalizações. Por mais talentos, conhecimentos e inteligência que o indivíduo possa ter, se não investir nas competências do emocional, do espiritual, num processo de integração, entendimento e transformação interior, não conseguirá se auto realizar como um Ser Integral.

São vários os motivos porque nos dedicamos consciente ou inconscientemente à auto-sabotagem: sentimento de não merecer, culpar outros, medo de brilhar, ressentimentos antigos… Em realidade de cada vez que fazemos auto-sabotagem estamos a violar-nos. E tudo isto porque há aspectos de nós que preferíamos que não existissem, e há aspectos que temos medo de mostrar ao mundo com receio das críticas alheias.

Vamos então começar a fazer as pazes conosco, com os aspectos que gostamos e apreciamos e também com todos aqueles aspectos que andamos a rejeitar, a negar e a fingir que não existem.

É necessário que comecemos a nos agradar. Mas isto só é possível quando nos perdoamos por tudo o que fizemos no passado. Enquanto não o fizermos iremos andar sempre com uma falta de energia que não somos capazes de explicar. É a energia da nossa integridade.

De cada vez que não nos respeitamos, de cada vez que ignoramos a voz da nossa intuição, estamos a violar-nos. E fazemos isso diariamente. Fingimos que estamos bem porque temos medo de pedir aquilo que precisamos. Violamo-nos quando estamos com pessoas com quem não queremos estar. Violamo-nos quando vamos todos os dias para um trabalho onde não sentimos alegria nem utilizamos a nossa criatividade. Violamo-nos quando somos pagos para fazer vinte e apenas conseguimos fazer dez.

Quando descobrimos as muitas maneiras que utilizamos para nos violar e auto-sabotar, é normal que uma tristeza invada nosso ser. Podemos transformar essa tristeza em compaixão por termos coragem de olhar para dentro de nós mesmos sem mentiras nem negações, e assumir que tudo faz parte do nosso processo evolutivo.

Encerro este artigo longo e complexo com esta citação para que meus queridos leitores façam uma reflexão e possam enxergar “uma luz no fim do túnel”.

“Vivi uma vida longa e passei por muitos problemas, muitos dos quais nunca aconteceram” (Mark Twain)

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