12. A EXPERIÊNCIA E O VIVER – Comentários sobre o Viver – Krishnamurti


O vale estava mergulhado na sombra, e o sol poente tocava os
cumes das montanhas distantes, cujo esplendor, na luz crepuscular,
parecia vir-lhes de dentro. Ao norte da longa estrada, as montanhas
eram nuas e áridas, devastadas pelo fogo; ao sul, os montes verdejavam,
pejados de arbustos e de árvores. A estrada reta cortava ao
meio o extenso e gracioso vale. As montanhas, naquela tarde, pareciam
tão próximas, tão irreais, tão leves e frágeis! Aves de grande
porte circulavam, sem esforço, nas alturas. “Ground squirrels” (1)
atravessavam vagarosamente a estrada, e ouvia-se, distante, o ronco
de um avião. De ambos os lados da estrada estendiam-se laranjais
bem alinhados e bem cuidados. Depois do dia quente, sentia-se um
cheiro muito forte de sálvia (2) , de terra e de feno requeimados pelo
sol. As laranjeiras escuras ostentavam os seus pomos brilhantes. As
codornizes piavam e um “road runner” (3) desapareceu nas moitas.
Uma lagartixa de cauda muito longa (4), assustada pelo cachorro,
fugiu, coleando por entre as ervas secas. A tranqüilidade da noite
descia sobre a terra.
A experiência é uma coisa, o viver outra. A experiência é uma
barreira ao viver; agradável ou desagradável, impede o florescimento
do viver. A experiência já está presa na rede do tempo, já está no
passado; tornou-se memória, que só toma vida como reação ao presente.
A vida é o presente; não é experiência.

O peso e força, da experiência ensombram o presente, e assim o viver se torna experiência.
A mente é experiência, o conhecido, não pode pôr-se no “estado de viver” ; o seu viver é continuação da experiência. A mente só conhece a continuidade, e não pode receber o novo enquanto dura
a sua continuidade. O contínuo não conhece o viver. A experiência
não é o meio de se conhecer o viver, que é um estado sem experiência.
A experiência tem de cessar, p ara dar lugar ao viver.
A mente só pode chamar sua própria projeção, o conhecido.
Não se poderá viver o desconhecido, enquanto a mente não deixar de ju n ta r experiência.

O pensamento é expressão da experiência; é reação da memória; e enquanto o pensamento intervém, não é possível
o viver. Não há nenhum meio ou método para se pôr fim à experiência; porque o meio é justamente um obstáculo ao viver.
Conhecer o fim é conhecer a continuidade; e ter um meio para alcançar o fim é sustentar o conhecido. O desejo de realização tem
de desaparecer; este desejo é que cria o meio e o fim. A humildade
é essencial para o viver. Mas, com que sofreguidão a mente absorve o
viver para convertê-lo em experiência! Como se apressa a pensar
no novo, e torná-lo, assim, velho! É assim que ela cria o “ experimentador”
é a “ coisa experimentada” , de onde nasce o conflito da
dualidade.
No viver não há experimentador nem coisa experimentada. A
árvore, o cão, a estrela vespertina, não são objetos para ser experimentados
pelo experimentador; são o próprio movimento do viver.
Não há separação entre o observador e a coisa observada; não há
( 2 ) V a r ie d a d e de h o r te lã . (N . d o T .)
(3 ) Pá ssa ro dos EU A , sem e lh an te ao cuco , de h áb ito s terre stre s.
(N . d o T .)
(4 ) “ S n a k e -liz z a rd ” ( la g a rtix a – s e rp e n te ) . (N . do T .)
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tempo, intervalo espacial para o pensamento se identificar a si mesmo.
O pensamento está de todo ausente, mas o ser está presente. Este
estado de ser não pode ser pensado nem meditado, e não é uma coisa
p ara ser alcançada. O experimentador tem de cessar de experimentar,
para dar lugar ao ser. Na tranqüilidade do seu movimento está
o atemporal.

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