10. RESPEITABILIDADE – Comentários sobre o Viver – Krishnamurti


Ele garantia não ser ganancioso, satisfazer-se com pouco; afirmava
que a vida lhe tinha sido boa, embora estivesse sujeito às
costumeiras misérias da existência humana. Era um homem pacato,
despretencioso, e esperava que nada viesse perturbar-lhe o suave modo
de vida. Não era ambicioso — dizia — mas orava a Deus, para que
lhe conservasse o que tinha: a família e o ritmo tranqüilo de sua
existência. Dava graças a Deus por não se ver atolado em problemas
e conflitos, como os amigos e parentes. Estava-se tornando rapidamente
uma pessoa respeitável e feliz, na convicção de ser um dos da
élite. Não o atraíam outras mulheres e levava uma vida doméstica
pacífica, embora não faltassem as costumeiras rusgas conjugais. Não
tinha vícios dignos de nota, rezava muito e adorava a Deus. “Que
sucede comigo” — perguntou — “que não tenho problemas?” Sem esperar
resposta e, com um sorriso confiante, levemente mesclado de
tristeza, começou a contar o seu passado, o que fazia atualmente, e a
espécie de educação que estava dando aos filhos. Acrescentou que
não era liberal, mas costumava dar um pouquinho, aqui e ali. Convencera-
se de que cada um deve lutar para conquistar uma posição
no mundo.
A respeitabilidade é um flagelo, um mal que corrói a mente e o
coração. Insinua-se furtivamente e destrói o Amor. Ser respeitável
é sentir-se vitorioso, é talhar para si mesmo uma posição no mundo,
construir em torno de si uma muralha de segurança, daquela segurança
que vem com o dinheiro, o poder, o sucesso, a capacidade ou
a virtude. Este isolamento arrogante gera ódios e antagonismos nas
relações humanas, que constituem a sociedade. Os homens respeitáveis
são sempre a nata da sociedade, e, como tais, causadores de
conflitos e sofrimentos. Os respeitáveis, como os desprezados, estão
sempre à mercê das circunstâncias; as influências do ambiente e o
peso da tradição têm para eles excepcional importância, porquanto
escondem a sua pobreza interior. Estão sempre na defensiva, cheios
de medo e de suspeitas. O medo habita-lhes os corações, e por isso a
indignação é sua virtude. Sua virtude e devoção são suas defesas.
Tais indivíduos são como tambores: vazios por dentro; barulhentos
quando batidos. Os homens respeitáveis nunca podem estar abertos
à Realidade, pois, como os desprezados, estão fechados em sua preocupação de aperfeiçoamento próprio. A felicidade lhes é negada,
porque evitam a Verdade.
Ser não-ávido e não ser generoso são duas coisas muito estreitamente
aparentadas. Ambas, constituem um processo de auto-isolamento,
uma forma negativa de egocentrismo. Ser ávido significa que
precisamos estar ativos, para passar à frente dos outros; lutar, competir,
ser agressivos. Se nos falta este ímpeto, isto não significa que
estamos livres da avidez mas, sim, apenas num estado de auto-enclausuramento.
A concorrência é uma perturbação, uma luta perniciosa;
por essa razão cobre-se o nosso egocentrismo com a palavra não-
-avidez. Ser generoso com a mão é uma coisa; sê-lo com o coração
é outra. A generosidade da mão é coisa relativamente simples, dependendo
do padrão cultural de cada um etc.; a generosidade do
coração, porém, é de significado muito mais profundo, requerendo
amplo percebimento e compreensão.
Por outro lado, o não ser generoso é uma absorção em si mesmo,
agradável e cega, sem movimento para fora. Este estado de absorção
tem suas atividades próprias, semelhantes às de alguém que sonha;
entretanto, jamais despertam uma pessoa. O processo do despertar
é doloroso; por isso, muitos moços ou velhos preferem que os deixemos
em paz, para que possam tornar-se respeitáveis, e morrer.
Gomo a generosidade do coração, a generosidade da mão é um
movimento para fora, mas não raro doloroso, enganador e revelador
do eu. A generosidade da mão é fácil de adquirir; a do coração,
porém, não é coisa cultivável, porque é livre de toda e qualquer
acumulação. Para se perdoar, deve ter existido uma ferida; e para
se ser ferido é preciso ter havido acumulações de orgulho. Não
haverá generosidade do coração, enquanto existir memória identificadora,
o eu e o meu.

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