Comentários sobre o viver – Krishnamurti – O SABER


9. O SABER
Esperávamos o trem e já era tarde. A plataforma era suja e
barulhenta, o ar acre. Muitas outras pessoas esperavam, como nós.
Havia choro de crianças, uma mãe amamentava o seu nenê, vendedores
apregoavam os seus artigos, bebia-se café e chá, e a estação
estava cheia de movimento e de vozearia.
Passeávamos de um lado para outro, sobre a plataforma, observando os nossos próprios passos e o movimento de vida ao redor de
nós. Um homem aproximou-se e começou a falar em mau inglês.
Disse que estivera a observar-nos e se sentira impelido a dizer-nos algumas palavras. Com abundância de sentimento, prometeu levar uma vida pura e deixar de fumar, a partir de então. Disse que não
era instruído: não passava de um simples puxador de rickshaw^ ) .
T inha um olhar forte e um sorriso agradável.
Enfim, o trem chegou. No carro, um homem apresentou-se.
Famoso letrado, conhecia muitas línguas e fazia, desembaraçadamente, citações em qualquer delas. Era um homem carregado de anos e de saber, próspero e ambicioso. Falou a respeito da meditação, dando
porém, a impressão de que não falava apoiado na própria experiência.
Seu Deus era o deus dos livros. Sua atitude perante a vida era a tradicional e convencional. Acreditava no casamento precoce, pré-ajustado, e num rígido código de vida. Tinha consciência de sua
justado, e num rígido código de vida. Tinha consciência de sua própria casta e das diferenças de capacidade intelectual das castas.
Mostrava-se singularmente vaidoso de seu saber e posição. O sol se punha e o trem atravessava uma região encantadora.
O gado recolhia-se, erguendo uma poeira dourada. No horizonte,
nuvens pesadas e negras; ouvia-se, longínquo, o estrondo do trovão.
Quanta alegria num campo verdejante, e como é aprazível aquela
aldeia lá na dobra da montanha! Descia a escuridão. Um grande
gamo azul pastava na campina; não ergueu sequer os olhos quando
o trem passou, resfolegante.
O saber é um relâmpago entre duas escuridões; mas o saber não é capaz de elevar-se acima e além da escuridão. O saber é essencial p ara a técnica, assim como o carvão para a locomotiva; mas não pode
alcançar o desconhecido. O desconhecido não pode ser apanhado na rede do saber. O saber tem de ser posto de parte, p ara que o
desconhecido possa existir; mas como isto é difícil!
O nosso ser está arraigado no passado, nosso pensamento baseado no passado. O passado c o conhecido, e a reação do passado está
sempre sombrando o presente que é o desconhecido. O desconhecido
não é o futuro, porém o presente. O futuro _é apenas o passado a
abrir caminho através do presente incerto. Esse vão, esse intervalo,
é preenchido pela luz intermitente do saber, que esconde o vazio do
presente; no entanto, esse vazio encerra o milagre da vida.
A paixão pelo saber, é como outra paixão qualquer; oferece uma
fuga aos terrores do vazio, da solidão, da frustração, do medo de
ser nada. A luz do saber é um manto suntuoso, debaixo do qual está
uma escuridão em que a mente não pode penetrar. A mente tem pavor
a este desconhecido e por esta razão foge para o saber, para as teorias,
as esperanças, a imaginação; e justamente este saber constitui um
obstáculo à compreensão do desconhecido. Pôr de parte o saber é
abrir a porta ao medo; negar a mente, o único instrumento de compreensão
que possuímos, é tornar-se acessível ao sofrimento e à alegria.
Mas não é fácil pôr de parte o saber. Ser ignorante não é ser destituído
de saber. A ignorância é falta de autopercebimento; e o saber
é ignorância, quando não há compreensão das atividades do eu. A
compreensão do eu é a libertação das prisões do saber.
Só se está libertado do saber, quando se compreende o processo
da acumulação, a base do impulso para a acumulação. O desejo de
acumular é o desejo de segurança e de certeza. Este desejo de certeza,
pela identificação, pela condenação e justificação, é a causa do temor,
o qual destrói toda a comunhão. Quando há comunhão, não há mais a
necessidade de acumulação. A acumulação é resistência egocêntrica,
e o saber torna mais forte esta resistência. A adoração do saber é
uma forma de idolatria, e nunca dissolverá o conflito e o sofrimento
existentes em nossa vida. O manto do saber esconde nossa crescente
confusão e sofrimento, mas nunca nos libertará desse estado. Os
caminhos da mente não nos conduzirão à Verdade, fonte da felicidade.
Saber é negar o desconhecido.

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