2 DE ABRIL – DIA MUNDIAL DA CONSCIENTIZAÇÃO DO AUTISMO


2 DE ABRIL – DIA MUNDIAL DA CONSCIENTIZAÇÃO DO AUTISMO

Holanda, 22 de março, 2018

Por Fatima de Kwant

 

 

No próximo dia 2 de abril, o mundo celebra o dia do autismo. Apesar de muitas famílias não terem motivos para celebração, seja porque ainda lutam muito pelos direitos e bem-estar de seus filhos autistas, a data é internacionalmente festejada. É um dia em que todos falam nesta síndrome ainda desconhecida por muita gente. Penso no que falar para uma comunidade que não conhece tão bem o autismo. Escolhi alguns tópicos e espero que meu texto faça alguma diferença para aqueles que desconhecem o autismo.

O autismo, também chamado de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma condição neurológica que pode afetar a maneira como um indivíduo se socializa, se comunica e como este se comporta e se desenvolve. É definido como um vasto Espectro dividido em três graus: severo, moderado e leve. Entre os dois extremos, existe uma grande escala de diferente tipos. Ainda que assuste muita gente, o autista não é alguém para ser temido, tampouco desprezado. O autista é, antes de mais nada, um ser humano e, como tal, deseja as mesmas coisas que todo ser humano almeja: ser feliz e ser aceito. Independente do diagnóstico (autismo severo, moderado ou leve), todo autista tem o direito de ser feliz. Para que isso seja possível é preciso o mínimo de preconceito e o máximo de motivação de todos com quem ele convive, em casa e fora dela. É importante que a família se una a profissionais que entendam a necessidade da criança se sentir bem, em primeiro lugar. Unidos, deverão traçar um plano onde a seguinte pergunta seja respondida:

 

Como podemos viabilizar o bem estar deste autista?

A pessoa que se sente bem, tem vontade de participar e aprender. O autista que se sente bem, não foge à regra. Pais, familiares e terapeutas devem observar a criança autista a fim de possibilitarem instrumentos que viabilizem seu bem-estar e progresso consequente.

FAMÍLIA

A família é a base de toda criança. Como os pais e familiares (irmãos, avós, tios etc.) reagem, irá influenciar o comportamento, o bem estar e o aprendizado da criança. A família deve procurar estabelecer uma boa relação com todos os que vão cuidar do autista, incluindo os professores e os profissionais. Autismo é um trabalho de equipe; cada um faz sua parte.

Os familiares podem ajudar. É comum pensar-se que o autismo é um problema dos pais. No entanto, as famílias onde há uma ou mais crianças com autismo que dividem emoções e ocupações com outros membros, relatam um grande progresso de seus filhos.

DIAGNÓSTICO

Ao receberem o diagnóstico de TEA (Transtorno do Espectro do Autismo) – o primeiro impacto com a nova realidade do autismo -, muitos pais descrevem a fase como a mais difícil. Todas as ilusões que até então existiam, são desfeitas. Os planos inerentes a qualquer pai ou mãe em relação ao filho/a é desafiado. Dali para frente, nada será como antes. Porém, o que os médicos e os livros não dizem é que a mudança nem sempre é ruim. Pais precisam reaprender a ter ilusões, porque todo autista se desenvolve! Todo autista pode aprender. Qualquer autista pode chegar ao máximo de sua capacidade. Nunca se sabe até onde um autista vai progredir. Fato é que as intervenções precoces – os tratamentos, terapias e estimulação intensiva – possibilitam grandes vitórias para os autistas.

 

O diagnóstico não é uma sentença; ele não define o futuro de

uma criança autista. O meio onde ela vive, sim.

 

DIFICULDADES

As principais limitações dos autistas são consequência de suas comorbidades (síndromes, doenças ou distúrbios que podem ter alem do autismo): hiperatividade, depressão, ansiedade, Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), bipolaridade, Transtorno Opositor Desafiador, Transtorno Sensorial, etc.

Quem nunca se achou “meio autista”, alguma vez? Ouvimos muitos dizerem: “todos nós somos um pouco autistas.” Existe um fundo de verdade nessa afirmação, pois todos nós, seres humanos, temos nossas peculiaridades, manias, medos, e qualquer coisa que não seja considerado normal. Porém, a classificação de autismo é algo bem mais complexo do que as esquisitices que nos definem, individualmente. Para ser diagnosticado autista, deve haver ausência ou diferenciação acentuada em ao menos dois dos três elementos: Interação Social, Comunicação e Comportamento Típico/normal.

 Interação Social é o contato com as pessoas a nossa volta. Bebês pequenos já interagem com seus pais antes de falar. Eles o fazem através do sorriso, do olhar direcionado e da atenção compartilhada. Com o passar do tempo, a interação vai aumentando: falam, reagem ao que lhes é dito, buscam conforto nos pais, brincam com irmãos ou amiguinhos da escola, etc.   A interação social é uma condição indispensável para o desenvolvimento e constituição das sociedades. Por meio dos processos interativos, o ser humano se transforma num sujeito social. A interação social é o primeiro passo para a Comunicação.

Comunicação é nosso modo de compreender e fazer-nos compreendidos. Pode ser através da fala, de palavras escritas, gestos, desenhos, pictogramas e até da música. Muitos autistas se comunicam, mas não falam. A ausência da fala não significa, obrigatoriamente, que uma pessoa autista não possa se comunicar. Muitos autistas falam, mas não se comunicam. Eles comunicam o que querem ou quando querem. É o caso da pessoa que fala somente sobre seu tema de interesse, sem perguntar ou ouvir o que o interlocutor tem a dizer; ou o autista que só emite informação, mas não dialoga. Neste caso, não é uma comunicação EFICIENTE. A comunicação é essencial para a participação de um indivíduo na sociedade.

Comportamento é o modo como a pessoa (re)age. Para o autista conviver razoavelmente bem (comportamento), socialmente, ele precisa entender (comunicação) o que se espera dele. Uma vez entendido, há chances de que queira interagir. Por isso a interação, a comunicação e o comportamento acabam sendo interdependentes; um elemento “funciona” melhor com o outro.

Estimular o bom andamento da tríade é preciso. Os pais, os professores e os terapeutas devem observar a criança, suas necessidades específicas e, como tal, traçar um plano individual de desenvolvimento. Para isso, é preciso que se desviem um pouco do padrão, respondendo às perguntas:

O que a criança precisa?

  • Do que gosta?
  • Do que não gosta?
  • O que lhe transtorna tanto, a ponto de desencadear um surto?
  • Quais são seus talentos?
  • Quais suas dificuldades?
  • Observações extremamente importantes (por exemplo: tem mania de fugir).

AUTISMO NA ESCOLA

A Educação no Ocidente, como conhecemos, exige que todos sejamos iguais. As pessoas neurotípicas (com o desenvolvimento neurológico normal) tentam se adaptar, constantemente, ao que é exigido delas pela sociedade: regras sociais, de comportamento, rapidez e alguma disciplina. Já os autistas, crianças que não se guiam por tais regras, ficam “entre a cruz e a espada”. Como conduzir esse grupo tão distinto de crianças? Talvez pudéssemos começar usando a nossa criatividade, deixando o paradigma do Ensino tradicional e observando a criança: o que ela gosta de fazer? Como podemos chamar sua atenção e incluí-la nas tarefas? Suas preferências são uma porta para o ensino.

Exemplos:

1-A criança adora um determinado desenho animado. O professor usa o personagem do seu desenho favorito para despertar o interesse da criança.

2- A criança não é verbal. O professor não insiste falando a mesma frase cinco vezes em seguida, caso ela não reaja ao seu comando. O professor busca meios alternativos de comunicação (pictogramas, tablet, desenhos, música, etc.)

3- A criança não consegue se concentrar na sala de aula. O professor analisa a eventualidade de hipersensibilidade de ordem sensorial e tenta supri-la com:

  • fones de ouvido;
  • carteira separada das outras crianças;
  • o uso de algum material que possa ser manuseado durante a aula;
  • óculos escuros.

Além disso, o professor sempre pode optar por:

  • Dar-lhe mais tempo para executar uma tarefa
  • Dispensá-la da execução de uma tarefa,
  • Proporcionar um local supervisionado onde a criança possa ter o seu time-out, caso seja necessário.

São pequenas adaptações que podem surtir um efeito muito bom na produtividade e no comportamento de um aluno autista.

FELIZ

O autista pode ser uma pessoa feliz e ter uma qualidade de vida muito boa, independente do seu nível de funcionamento. O autista também conta com você para que isso aconteça. Quando vir um autista, não sinta pena; pergunte se pode ajudar, elogie o que ele faz de bom, não julgue, não desista de falar com ele, caso não olhe nos seus olhos – não é falta de educação: ele pode estar processando o que você diz e olhar nos seus olhos pode atrapalhar este processo.

Não pense que ele tem uma deficiência intelectual caso não fale; ele pode saber mais do que você, apesar da ausência da fala. Ao mesmo tempo, não o superestime caso fale muito bem; ele pode ter um grande desafio interno (medo ou depressão).

No autismo, muita coisa não é o que parece. Dê-se a chance de conhecer o autismo.

 

*Fatima de Kwant é jornalista e especialista em Autismo & Desenvolvimento e Autismo & Comunicação Social na Holanda, onde vive desde 1985. Criadora do Projeto Autimates, Fatima é mãe de um adulto com autismo que saiu do grau severo para o mais leve.

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