Karma Yoga – Swami Vivekananda – Capítulo 1 – Karma e seus Efeitos sobre o Caráter


Capítulo 1 – Karma e seus Efeitos sobre o Caráter

Aa plavra karma se deriva do sânscrito kri, fazer; toda ação é karma. Tecnicamente, esta palavra quer dizer: os efeitos
das ações. Metafisicamente é usada com o seguinte significado:
é o efeito provocado por nossas ações anteriores. Porém em Karma-Yoga só tratamos da palavra karma como equivalente
de ação. A meta da humanidade é o conhecimento; este é o ideal único da filosofia oriental. O propósito do homem não
é o prazer, mas sim o conhecimento. A felicidade tem seu fim.
É um erro supor que o prazer é a meta. O motivo das misérias do mundo está em o homem pensar ingenuamente que o prazer é a finalidade que ele deve buscar. Depois de algum tempo, ele
descobre não é rumo à felicidade, porém ao conhecimento, que se dirige; compreende que e que tanto aprende através do bem como do mal.
O desfilar do prazer e da dor ante sua alma lhe sulca diferentes
traços, e estas impressões combinadas formam o seu
“caráter”. Se considerardes o caráter de um homem, notareis
que ele não é mais do que um agregado de suas tendências, a
soma das inclinações de sua mente; achareis que a desgraça e a
felicidade são fatores equivalentes na formação de seu caráter.
O bem e o mal atuam de forma semelhante na formação do caráter.
Em certas ocasiões a desgraça é melhor mestre do que a felicidade. Se estudássemos os grandes caráteres, chegaríamos
a crer que na maioria dos casos a desgraça lhes ensinou mais do que a felicidade; que a pobreza lhes ensinou mais do que a riqueza, e que foram os reveses mais do que os elogios o que lhes despertou o fogo interior.

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Sabemos, porém, que este conhecimento é inato; nada
nos vem do exterior; tudo está no interior. Quando dizemos
que um homem “conhece”, deveríamos dizer que ele “desconhece”;
o que um homem “aprende” é em realidade apenas
aquilo que ele “descobre” ao tirar as envolturas de sua alma, a
qual é um depósito inesgotável de conhecimentos.
Dizemos que Newton descobriu a gravitação. Estaria ela
por acaso oculta em algum lugar à sua espera? Não. Estava em
sua própria mente; chegou o momento determinado e ela se
descobriu. O conhecimento que o mundo possui como um tesouro
provém da mente; a grandiosa biblioteca do universo está
oculta em vossa própria mente. A queda de uma maçã chamou
a atenção de Newton, e então ele estudou a sua própria
mente; pôs em ordem os seus pensamentos e descobriu um novo,
ao qual denominou “lei de gravitação”. Isto não estava na
maçã nem em lugar algum. Portanto, todo conhecimento mental
ou espiritual está na mente. Em muitos casos ele permanece
oculto até que sua cobertura vai se retirando pouco a pouco e
então dizemos que “estamos aprendendo”.
O progresso no conhecimento é o resultado do processo
de descobrir. O homem em que se vai levantando este véu, é o
que mais conhece; naquele em que o véu se mantém caído, é
ignorante, e quem conseguiu erguê-lo de todo, chegou a onisciência.
Sempre existiram homens oniscientes e espero que haverá
milhares deles nos séculos futuros.
O conhecimento está na mente como o fogo está na pedra.
É a fricção que o faz brotar. O mesmo acontece com os
nossos sentimentos e ações: sorrisos e lágrimas, alegrias e tristezas,
gargalhadas e gemidos, maldições e bênçãos, elogios ou
censuras. Se nos estudássemos com imparcialidade, veríamos
que cada um deles surgiu do nosso interior, por um impulso
provocado por golpes exteriores. O resultado é aquilo que so

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mos. A reunião de todos estes golpes é o que chamamos Karma,
ou ação. Cada impulso mental ou físico dada à alma, através
do qual é provocada a chispa, e que se apresenta como poder
e conhecimento, é, karma; usando a palavra em seu sentido
mais amplo, estamos sempre acumulando karma. Quando estou
falando, é karma; os que me escutam, é karma; respiramos
Karma; andamos, karma. Tudo quanto fazemos física ou mentalmente
e deixa suas marcas em cada um de nós, é karma.
Há certas ações que são como uma reunião, a soma total
de um grande número de ações pequenas. Se nos aproximarmos
das costas do mar e escutarmos as ondas arrebentarem-se
contra as rochas, percebemos um grande barulho; no entanto,
uma onda está formada por milhões de pequeninas ondas, cada
uma das quais percebemos um ruído característico que nós não
percebemos; a única coisa que ouvimos é o conjunto de todas
elas. Do mesmo modo, cada batida do coração é uma ação;
certas ações as sentimos e se tornam tangíveis para nós, sendo,
no entanto, nada mais do que uma reunião de pequenas ações.
Se desejais conhecer o caráter de um homem, não vos detenhais
em seus grandes atos. Qualquer néscio pode se converter
em herói em certas circunstâncias. Observai um homem quando
executa suas ações comuns e insignificantes; essas são em
verdade as que revelam o seu verdadeiro caráter, ou o caráter
de um grande homem. As grandes ocasiões fazem grande o
mais vulgar dos homens, porém só é grande aquele cujo caráter
é sempre grande, sempre igual em todos os momentos.
Em seus efeitos sobre o caráter, o karma é o poder maior
que o homem tem que enfrentar. O homem é de certo modo
um centro que atrai para si todos os poderes do universo, e
uma vez reunidos, os emite novamente numa poderosa corrente.
Este centro é o homem real, o onipotente, o onisciente, e
atrai a si todo o universo. Bem e mal, felicidade e miséria, tudo
corre para ele e se reúne ao seu redor, e modela a poderosa

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corrente das tendências que formam o seu próprio caráter, e as
atira para o exterior. Assim como tem o poder de atrair, tem
também o poder de emitir.
Todas as ações que vemos no mundo, os movimentos
sociais, tudo quanto nos rodeia, não representa nada mais do
que o produto do pensamento, a manifestação da vontade do
homem. Máquinas, instrumentos, cidades, tudo é manifestação
da vontade humana; e a vontade resulta do caráter, e o caráter é
ação do karma. Como é karma, é a manifestação da sua vontade.
Os homens de vontade poderosa têm sido grandes trabalhadores;
almas gigantescas dotadas de uma vontade capaz de
arrancar os mundos de suas órbitas, e essa vontade foi adquirida
mediante um trabalho persistente efetuado durante séculos.
A vontade de um Buda ou de um Jesus não podia ser adquirida
em uma só vida. Sabemos quem foram. seus pais, porém, nada
nos prova que eles tivessem pronunciado uma só palavra em
benefício da humanidade.
Milhões de carpinteiros como José existiram, milhões
vivem ainda. Existiram no mundo milhões de pequenos reis
corno o pai de Buda. Se somente se tratasse de uma transmissão
hereditária, como explicar que esse rei, que não foi obedecido
nem pelos seus criados, fosse pai de um filho a quem
meio mundo adora? Como explicar o abismo que medeia entre
o carpinteiro e seu filho, a quem milhões de seres humanos
adoram como um Deus? A resposta escapa à teoria da hereditariedade.
Donde lhes veio a gigantesca vontade que Buda e
Jesus impuseram ao mundo! Donde provém o acúmulo de poder?
Deve ter estado neles presente durante eras incontáveis,
crescendo sempre, até que para o bem da sociedade apareceu

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um Buda, e depois um Jesus que continua expandindo Seu poder
através de nossos dias.
Tudo isto é produto do karma, isto é, ação. Ninguém
pode obter coisa alguma, a não ser merecendo-a. Esta é uma lei
eterna. Um homem pode lutar toda a sua vida para conseguir
riquezas, pode enganar a mil pessoas, porém no fim, se não
merece ser rico, sua vida se torna insuportável. Podemos acumular
milhares de objetos para o nosso bem-estar físico, porem
só o que merecemos é realmente nosso. Um néscio pode comprar
todos os livros do mundo e ordená-los em sua biblioteca,
porém só será capaz de ler aqueles que merece; e este merecimento
é resultado do karma. Nosso karma determina o que
merecemos e o que somos capazes de assimilar.
Somos responsáveis pelo que somos e podemos nos
converter naquilo que desejamos ser. O que somos agora é resultante
de nossas ações passadas. Devemos atuar bem no presente,
a fim de modelar resultados bons para o futuro que ambicionamos.
Direis: “qual é a utilidade de aprender a agir? Cada
qual faz como quer”. Porém não devemos desperdiçar nossas
energias. Falando sobre Karma-Yoga, o Bhagavad-Gita diz
que devemos executar todo trabalho com habilidade, como se
fosse uma ciência; sabendo-se como trabalhar, obtêm-se os
maiores resultados. Deveis recordar que a ação não é nada
mais do que a exteriorização do poder da mente que já existia
nela. O poder está dentro de cada homem, da mesma forma
que o conhecimento. As ações são golpes que o despertam e o
fazem surgir.
O homem se move por vários motivos; não pode haver ação sem um motivo que a determine. Algumas pessoas desejam
ser famosas e trabalham para isso. Outras ambicionam dinheiro
e lutam por ele. Outras buscam poder e se esforçam por
alcançá-lo. Há as que desejam o céu e tentam conquistá-lo. Há as que querem imortalizar seu nome. Isto não acontece na China,
onde nenhum homem consegue um título em vida; é um
costume melhor de que o nosso, apesar de tudo. Na China,
quando um homem se revelava em qualquer coisa, davam-lhe
um título de nobreza a seu pai já morto, ou a seu avô.
Os militantes de certas seitas maometanas trabalham toda
a vida para obter um túmulo importante.
Conheço seitas em que, quando nasce uma criança, já
lhe preparam um túmulo. Segundo eles, este é o maior trabalho
do homem, e quanto maior e suntuoso for o Túmulo, tanto
mais rico se supõe que o homem é. Outros fazem benefícios;
depois de cometerem toda a classe de maldades, levantam um
templo ou dão dinheiro aos sacerdotes para que lhes assegurem
um lugar no céu. Pensam que esta dádiva os purificará e assim
receberão o perdão de suas culpas.
São estes os motivos que levam o homem a agir. Há, porém,
aqueles que trabalham por amor ao trabalho. Em cada país
existe uma elite que trabalha só por amor ao trabalho, sem se
preocupar com recompensa alguma. Trabalha simplesmente
porque o trabalho lhe faz bem. Há outros que beneficiam os
pobres e a humanidade por motivos mais elevados; só por
amor ao bem. Quando se pretende o renome ou a fama, raras
vezes se consegue resultados imediatos, pois geralmente eles
são alcançados quando já estamos velhos e fatigados desta vida.
Se um homem trabalha sem motivo egoísta, será que não
ganha coisa alguma? Sim, ganha algo de mais elevado. O altruísmo
é a maior recompensa, melhor mesmo do que a saúde,
porém os homens não têm paciência de praticá-lo. Amor, verdade e altruísmo não são meras figuras de retórica, sem as realidades
que devem constituir nosso mais elevado ideal, mesmo
que seja apenas pelo poder que estas qualidades lhe conferem.

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Primeiramente, um homem que trabalha cinco dias ou só cinco
minutos sem nenhum motivo egoísta, sem pensar no futuro, no
céu, nem no castigo, chegará a ser um poderoso gigante moral.
É difícil de se levar isto à prática, porém, em nosso íntimo reconhecemos
o seu valor e o bem que produz.
Quando o homem se torna impessoal, possui a maior manifestação de poder. Um carro arrastado por quatro cavalos
pode precipitar-se de uma montanha, estando sem freios, ou
pode também o cocheiro brecá-lo. Qual a maior manifestação de poder: refrear os cavalos ou deixá-los precipitar-se? Uma
bala de canhão atravessa o espaço, corre uma distância considerável
e cai; outra é detida por uma parede, e o choque gera
um calor intenso. Toda manifestação de energia impulsionada por um motivo egoísta, é uma delapidação, pois não produzirá
poder que volte ao seu agente; porém, se ela for contida, desenvolverá
potência.
Este autocontrole produzirá uma vontade enérgica, um Buda ou um Cristo. Os ignorantes não conhecem este segredo;
no entanto ambicionam dirigir a humanidade. Mesmo um tonto
pode dirigir o mundo, se ele trabalhar e esperar; basta aguardar
alguns anos, reprimir a néscia ideia de governar, e quando tiver
alcançado isto, terá conquistado o verdadeiro poder. A maioria
das pessoas não enxerga além de alguns anos, como certos
animais não veem além de alguns passos. O mundo é um círculo
estreito. Não temos paciência de olhar um pouco além, e
por isto nos tornamos perversos e imorais. Esta é a nossa debilidade
e impotência.
Nenhuma forma de ação, por inferior que seja, deve ser
desprezada. Deixai que o homem que não conhece o que existe
de melhor, trabalhe com fins egoístas, em busca do nome e da
fama; porém, aproximai-vos cada vez mais de motivos mais
elevados e procurai empreendê-los. “Temos direito ao traba

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lho, porém não ao seu fruto”. Não penseis nos frutos. “Por que
preocupar-se com os resultados?” Se desejais ajudar um homem,
nunca penseis no agradecimento. Se necessitais realizar
uma obra grande ou boa, não vos inquieteis pelo resultado.
Surge agora uma pergunta difícil, relativa ao ideal da
ação. É necessária atividade intensa; devemos trabalhar sempre.
Não podemos estar um minuto sem trabalhar. Então, como
descansar? Eis aqui um aspecto da luta da vida: o trabalho em
cujo torvelinho somos rapidamente arrastados. E eis o outro: A
calma, a sossegada renúncia; tudo é paz ao seu redor, há muito
pouco ruído e exibição; só a natureza com seus animais, suas
plantas e montanhas. Nenhum deles apresenta um quadro perfeito.
Se um homem acostumado à solidão se põe em contato
com o torvelinho do mundo, será sacrificado por ele; da mesma
forma que o peixe que vive no fundo do mar e é levado à
sua superfície, morre pela ausência da pressão que mantinha a
sua integridade. Pode um homem habituado ao tumulto da vida
encontrar-se-á à vontade num lugar tranquilo? Não. Sofrerá, e
é bem possível que perca a razão. O homem ideal é aquele que
em meio do maior silêncio e solidão encontra atividade intensa,
e em meio da maior atividade sente o silêncio e a tranquilidade
do deserto. Um homem assim aprendeu o segredo da restrição:
governa-se a si mesmo. Enquanto anda pelas ruas de
uma grande cidade repleta de tráfico, sua mente está tranquila
como se estivesse em uma caverna aonde não pudesse chegar
um único som, e trabalha intensamente todo o tempo. Este é o
ideal do Karma-Yoga, e se o tiverdes alcançado, tereis aprendido
realmente o segredo da ação.
Devemos, porém, começar pelo princípio, aceitar os trabalhos
tal qual nos chegam, e nos tornar cada dia mais altruístas.
Devemos realizar a obra e encontrar o motivo que a inspi

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ra; e quase sem exceção, nos primeiros anos acharemos que
nossos motivos são sempre egoístas; porém gradualmente este
motivo se desvanecerá, até que por fim possamos realizar uma
obra verdadeiramente altruísta.
Todos podemos esperar que um dia ou outro, lutando
continuamente pela senda da vida, chegará um tempo em que
sejamos perfeitamente altruístas; e no momento que o conseguirmos,
todos nossos poderes se concentrarão e o conhecimento
que já é nosso se manifestará.

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