KARMA YOGA – Swami Vivekananda


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Índice
Capítulo 1 – Karma e seus Efeitos sobre o Caráter ……………… 3
Capítulo 2 – Cada um é grande em seu próprio meio ………… 12
Capítulo 3 – O Segredo do Trabalho ……………………………….. 28
Capítulo 4 – O Que é o Dever? ………………………………………. 39
Capitulo 5 – Não é ao mundo que ajudamos, e sim a nós
mesmos ……………………………………………………………………….. 48
Capítulo 6 – Desapego é a abnegação completa ……………….. 57
Capítulo 7 – Liberdade ………………………………………………….. 69
Capítulo 8 – O Ideal de Karma-Yoga ………………………………. 83

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Capítulo 1 – Karma e seus Efeitos sobre o Caráter

A palavra karma se deriva do sânscrito kri, fazer; toda ação é karma. Tecnicamente, esta palavra quer dizer: os efeitos
das ações. Metafisicamente é usada com o seguinte significado: é o efeito provocado por nossas ações anteriores. Porém
em Karma-Yoga só tratamos da palavra karma como equivalente de ação. A meta da humanidade é o conhecimento; este é o ideal único da filosofia oriental. O propósito do homem não
é o prazer, mas sim o conhecimento. A felicidade tem seu fim.
É um erro supor que o prazer é a meta. O motivo das misérias
do mundo está em o homem pensar ingenuamente que o prazer é a finalidade que ele deve buscar. Depois de algum tempo, ele descobre não é rumo à felicidade, porém ao conhecimento, que
se dirige; compreende que tanto o prazer como a dor são seus mestres e que tanto aprende através do bem como do mal.
O desfilar do prazer e da dor ante sua alma lhe sulca diferentes traços, e estas impressões combinadas formam o seu
“caráter”. Se considerardes o caráter de um homem, notareis
que ele não é mais do que um agregado de suas tendências, a
soma das inclinações de sua mente; achareis que a desgraça e a
felicidade são fatores equivalentes na formação de seu caráter.
O bem e o mal atuam de forma semelhante na formação do caráter.
Em certas ocasiões a desgraça é melhor mestre do que a felicidade. Se estudássemos os grandes caráteres, chegaríamos
a crer que na maioria dos casos a desgraça lhes ensinou mais
do que a felicidade; que a pobreza lhes ensinou mais do que a
riqueza, e que foram os reveses mais do que os elogios o que
lhes despertou o fogo interior.

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Sabemos, porém, que este conhecimento é inato; nada
nos vem do exterior; tudo está no interior. Quando dizemos
que um homem “conhece”, deveríamos dizer que ele “desconhece”;
o que um homem “aprende” é em realidade apenas aquilo que ele “descobre” ao tirar as envolturas de sua alma, a
qual é um depósito inesgotável de conhecimentos.
Dizemos que Newton descobriu a gravitação. Estaria ela por acaso oculta em algum lugar à sua espera? Não. Estava em
sua própria mente; chegou o momento determinado e ela se
descobriu. O conhecimento que o mundo possui como um tesouro
provém da mente; a grandiosa biblioteca do universo está oculta em vossa própria mente. A queda de uma maçã chamou
a atenção de Newton, e então ele estudou a sua própria
mente; pôs em ordem os seus pensamentos e descobriu um novo,
ao qual denominou “lei de gravitação”. Isto não estava na
maçã nem em lugar algum. Portanto, todo conhecimento mental
ou espiritual está na mente. Em muitos casos ele permanece oculto até que sua cobertura vai se retirando pouco a pouco e
então dizemos que “estamos aprendendo”.
O progresso no conhecimento é o resultado do processo
de descobrir. O homem em que se vai levantando este véu, é o
que mais conhece; naquele em que o véu se mantém caído, é
ignorante, e quem conseguiu erguê-lo de todo, chegou a onisciência.
Sempre existiram homens oniscientes e espero que haverá
milhares deles nos séculos futuros.
O conhecimento está na mente como o fogo está na pedra.
É a fricção que o faz brotar. O mesmo acontece com os nossos sentimentos e ações: sorrisos e lágrimas, alegrias e tristezas,
gargalhadas e gemidos, maldições e bênçãos, elogios ou
censuras. Se nos estudássemos com imparcialidade, veríamos
que cada um deles surgiu do nosso interior, por um impulso
provocado por golpes exteriores. O resultado é aquilo que somos. A reunião de todos estes golpes é o que chamamos Karma,
ou ação. Cada impulso mental ou físico dada à alma, através do qual é provocada a chispa, e que se apresenta como poder
e conhecimento, é, karma; usando a palavra em seu sentido
mais amplo, estamos sempre acumulando karma. Quando estou
falando, é karma; os que me escutam, é karma; respiramos
Karma; andamos, karma. Tudo quanto fazemos física ou mentalmente
e deixa suas marcas em cada um de nós, é karma.
Há certas ações que são como uma reunião, a soma total de um grande número de ações pequenas. Se nos aproximarmos das costas do mar e escutarmos as ondas arrebentarem-se
contra as rochas, percebemos um grande barulho; no entanto,
uma onda está formada por milhões de pequeninas ondas, cada uma das quais percebemos um ruído característico que nós não percebemos; a única coisa que ouvimos é o conjunto de todas
elas.

Do mesmo modo, cada batida do coração é uma ação; certas ações as sentimos e se tornam tangíveis para nós, sendo,
no entanto, nada mais do que uma reunião de pequenas ações.
Se desejais conhecer o caráter de um homem, não vos detenhais
em seus grandes atos. Qualquer néscio pode se converter em herói em certas circunstâncias. Observai um homem quando executa suas ações comuns e insignificantes; essas são em
verdade as que revelam o seu verdadeiro caráter, ou o caráter
de um grande homem. As grandes ocasiões fazem grande o
mais vulgar dos homens, porém só é grande aquele cujo caráter
é sempre grande, sempre igual em todos os momentos.
Em seus efeitos sobre o caráter, o karma é o poder maior
que o homem tem que enfrentar. O homem é de certo modo
um centro que atrai para si todos os poderes do universo, e
uma vez reunidos, os emite novamente numa poderosa corrente.
Este centro é o homem real, o onipotente, o onisciente, e
atrai a si todo o universo. Bem e mal, felicidade e miséria, tudo
corre para ele e se reúne ao seu redor, e modela a poderosa corrente das tendências que formam o seu próprio caráter, e as
atira para o exterior. Assim como tem o poder de atrair, tem também o poder de emitir.
Todas as ações que vemos no mundo, os movimentos
sociais, tudo quanto nos rodeia, não representa nada mais do
que o produto do pensamento, a manifestação da vontade do homem. Máquinas, instrumentos, cidades, tudo é manifestação
da vontade humana; e a vontade resulta do caráter, e o caráter é
ação do karma. Como é karma, é a manifestação da sua vontade.
Os homens de vontade poderosa têm sido grandes trabalhadores;
almas gigantescas dotadas de uma vontade capaz de
arrancar os mundos de suas órbitas, e essa vontade foi adquirida
mediante um trabalho persistente efetuado durante séculos.
A vontade de um Buda ou de um Jesus não podia ser adquirida
em uma só vida. Sabemos quem foram. seus pais, porém, nada nos prova que eles tivessem pronunciado uma só palavra em benefício da humanidade.
Milhões de carpinteiros como José existiram, milhões
vivem ainda. Existiram no mundo milhões de pequenos reis
corno o pai de Buda. Se somente se tratasse de uma transmissão
hereditária, como explicar que esse rei, que não foi obedecido
nem pelos seus criados, fosse pai de um filho a quem
meio mundo adora? Como explicar o abismo que medeia entre
o carpinteiro e seu filho, a quem milhões de seres humanos adoram como um Deus? A resposta escapa à teoria da hereditariedade.
Donde lhes veio a gigantesca vontade que Buda e Jesus impuseram ao mundo! Donde provém o acúmulo de poder?
Deve ter estado neles presente durante eras incontáveis,
crescendo sempre, até que para o bem da sociedade apareceu

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um Buda, e depois um Jesus que continua expandindo Seu poder através de nossos dias.
Tudo isto é produto do karma, isto é, ação. Ninguém
pode obter coisa alguma, a não ser merecendo-a. Esta é uma lei
eterna. Um homem pode lutar toda a sua vida para conseguir
riquezas, pode enganar a mil pessoas, porém no fim, se não
merece ser rico, sua vida se torna insuportável. Podemos acumular
milhares de objetos para o nosso bem-estar físico, porem
só o que merecemos é realmente nosso. Um néscio pode comprar
todos os livros do mundo e ordená-los em sua biblioteca,
porém só será capaz de ler aqueles que merece; e este merecimento
é resultado do karma. Nosso karma determina o que merecemos e o que somos capazes de assimilar.
Somos responsáveis pelo que somos e podemos nos converter naquilo que desejamos ser. O que somos agora é resultante
de nossas ações passadas. Devemos atuar bem no presente,
a fim de modelar resultados bons para o futuro que ambicionamos.
Direis: “qual é a utilidade de aprender a agir? Cada
qual faz como quer”.

Porém não devemos desperdiçar nossas
energias. Falando sobre Karma-Yoga, o Bhagavad-Gita diz que devemos executar todo trabalho com habilidade, como se
fosse uma ciência; sabendo-se como trabalhar, obtêm-se os maiores resultados. Deveis recordar que a ação não é nada
mais do que a exteriorização do poder da mente que já existia
nela. O poder está dentro de cada homem, da mesma forma
que o conhecimento. As ações são golpes que o despertam e o
fazem surgir.
O homem se move por vários motivos; não pode haver
ação sem um motivo que a determine. Algumas pessoas desejam
ser famosas e trabalham para isso. Outras ambicionam dinheiro
e lutam por ele. Outras buscam poder e se esforçam por
alcançá-lo. Há as que desejam o céu e tentam conquistá-lo. Há

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as que querem imortalizar seu nome. Isto não acontece na China,
onde nenhum homem consegue um título em vida; é um
costume melhor de que o nosso, apesar de tudo. Na China, quando um homem se revelava em qualquer coisa, davam-lhe
um título de nobreza a seu pai já morto, ou a seu avô.
Os militantes de certas seitas maometanas trabalham toda a vida para obter um túmulo importante.
Conheço seitas em que, quando nasce uma criança, já
lhe preparam um túmulo. Segundo eles, este é o maior trabalho
do homem, e quanto maior e suntuoso for o Túmulo, tanto
mais rico se supõe que o homem é. Outros fazem benefícios;
depois de cometerem toda a classe de maldades, levantam um
templo ou dão dinheiro aos sacerdotes para que lhes assegurem
um lugar no céu. Pensam que esta dádiva os purificará e assim receberão o perdão de suas culpas.
São estes os motivos que levam o homem a agir. Há, porém, aqueles que trabalham por amor ao trabalho. Em cada país
existe uma elite que trabalha só por amor ao trabalho, sem se
preocupar com recompensa alguma. Trabalha simplesmente
porque o trabalho lhe faz bem. Há outros que beneficiam os
pobres e a humanidade por motivos mais elevados; só por
amor ao bem. Quando se pretende o renome ou a fama, raras
vezes se consegue resultados imediatos, pois geralmente eles
são alcançados quando já estamos velhos e fatigados desta vida.
Se um homem trabalha sem motivo egoísta, será que não
ganha coisa alguma? Sim, ganha algo de mais elevado. O altruísmo
é a maior recompensa, melhor mesmo do que a saúde,
porém os homens não têm paciência de praticá-lo. Amor, verdade
e altruísmo não são meras figuras de retórica, sem as realidades
que devem constituir nosso mais elevado ideal, mesmo
que seja apenas pelo poder que estas qualidades lhe conferem.

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Primeiramente, um homem que trabalha cinco dias ou só cinco
minutos sem nenhum motivo egoísta, sem pensar no futuro, no
céu, nem no castigo, chegará a ser um poderoso gigante moral.
É difícil de se levar isto à prática, porém, em nosso íntimo reconhecemos
o seu valor e o bem que produz.
Quando o homem se torna impessoal, possui a maior
manifestação de poder. Um carro arrastado por quatro cavalos
pode precipitar-se de uma montanha, estando sem freios, ou
pode também o cocheiro brecá-lo. Qual a maior manifestação
de poder: refrear os cavalos ou deixá-los precipitar-se? Uma
bala de canhão atravessa o espaço, corre uma distância considerável
e cai; outra é detida por uma parede, e o choque gera
um calor intenso. Toda manifestação de energia impulsionada
por um motivo egoísta, é uma delapidação, pois não produzirá
poder que volte ao seu agente; porém, se ela for contida, desenvolverá
potência.
Este autocontrole produzirá uma vontade enérgica, um
Buda ou um Cristo. Os ignorantes não conhecem este segredo;
no entanto ambicionam dirigir a humanidade. Mesmo um tonto
pode dirigir o mundo, se ele trabalhar e esperar; basta aguardar
alguns anos, reprimir a néscia ideia de governar, e quando tiver
alcançado isto, terá conquistado o verdadeiro poder. A maioria
das pessoas não enxerga além de alguns anos, como certos
animais não veem além de alguns passos. O mundo é um círculo
estreito. Não temos paciência de olhar um pouco além, e
por isto nos tornamos perversos e imorais. Esta é a nossa debilidade
e impotência.
Nenhuma forma de ação, por inferior que seja, deve ser
desprezada. Deixai que o homem que não conhece o que existe
de melhor, trabalhe com fins egoístas, em busca do nome e da
fama; porém, aproximai-vos cada vez mais de motivos mais
elevados e procurai empreendê-los. “Temos direito ao traba

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lho, porém não ao seu fruto”. Não penseis nos frutos. “Por que
preocupar-se com os resultados?” Se desejais ajudar um homem,
nunca penseis no agradecimento. Se necessitais realizar
uma obra grande ou boa, não vos inquieteis pelo resultado.
Surge agora uma pergunta difícil, relativa ao ideal da
ação. É necessária atividade intensa; devemos trabalhar sempre.
Não podemos estar um minuto sem trabalhar. Então, como
descansar? Eis aqui um aspecto da luta da vida: o trabalho em
cujo torvelinho somos rapidamente arrastados. E eis o outro: A
calma, a sossegada renúncia; tudo é paz ao seu redor, há muito
pouco ruído e exibição; só a natureza com seus animais, suas
plantas e montanhas. Nenhum deles apresenta um quadro perfeito.
Se um homem acostumado à solidão se põe em contato
com o torvelinho do mundo, será sacrificado por ele; da mesma
forma que o peixe que vive no fundo do mar e é levado à
sua superfície, morre pela ausência da pressão que mantinha a
sua integridade. Pode um homem habituado ao tumulto da vida
encontrar-se-á à vontade num lugar tranquilo? Não. Sofrerá, e
é bem possível que perca a razão. O homem ideal é aquele que
em meio do maior silêncio e solidão encontra atividade intensa,
e em meio da maior atividade sente o silêncio e a tranquilidade
do deserto. Um homem assim aprendeu o segredo da restrição:
governa-se a si mesmo. Enquanto anda pelas ruas de
uma grande cidade repleta de tráfico, sua mente está tranquila
como se estivesse em uma caverna aonde não pudesse chegar
um único som, e trabalha intensamente todo o tempo. Este é o
ideal do Karma-Yoga, e se o tiverdes alcançado, tereis aprendido
realmente o segredo da ação.
Devemos, porém, começar pelo princípio, aceitar os trabalhos
tal qual nos chegam, e nos tornar cada dia mais altruístas.
Devemos realizar a obra e encontrar o motivo que a inspi

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ra; e quase sem exceção, nos primeiros anos acharemos que
nossos motivos são sempre egoístas; porém gradualmente este
motivo se desvanecerá, até que por fim possamos realizar uma
obra verdadeiramente altruísta.
Todos podemos esperar que um dia ou outro, lutando
continuamente pela senda da vida, chegará um tempo em que
sejamos perfeitamente altruístas; e no momento que o conseguirmos,
todos nossos poderes se concentrarão e o conhecimento
que já é nosso se manifestará.

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Capítulo 2 – Cada um é
grande em seu próprio
meio
Segundo a filosofia sânkya, a natureza se manifesta mediante
três forças ou modalidades, chamadas em sânscrito
satwa, rajas e tamas. Estas forças são no mundo físico o que
podemos chamar equilíbrio, atividade e inércia. O que caracteriza
tamas, é a obscuridade ou inércia; rajas é atividade expressa
como atração e repulsão, e satwa é o equilíbrio das duas.
Em cada homem existem três forças. Algumas vezes
predomina tamas; então nos tornamos preguiçosos, inativos;
achamo-nos escravizados por certas ideias e nos sentimos pesados.
Outras vezes prevalece a atividade, e outras, enfim, este
repousado equilíbrio de ambas. Porém, nos homens comuns
predomina sempre uma destas forças. A característica de certos
homens é a inatividade, a preguiça; a de outros, a atividade, o
poder, a energia; e em outros encontramos a doçura, a calma e
a nobreza, resultantes do equilíbrio entre a ação e a inação.
Tanto nos animais como nas plantas e nos homens encontramos
as manifestações mais ou menos típicas destas diferentes
forças.
Karma-Yoga trata especialmente destes três fatores. Ensinando
o que são e como empregá-los, auxilia-nos a realizar
melhor nossas ações e com maior satisfação. A sociedade humana
é uma organização hierárquica. Todos sabemos o que é
moralidade; ninguém ignora o que é dever; não obstante, é fácil
comprovar que sua interpretação difere em cada país. O que
é moral em um pode não o ser no outro. Por exemplo: num pa

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ís os primos podem casar-se e noutros este fato é imoral. O
mesmo se pode dizer entre cunhados. Em certos países as pessoas
podem casar-se uma só vez, e em outros, muitas vezes, e
assim sucessivamente. No entanto, deve haver uma regra fixa,
universal, de moralidade.
O mesmo acontece relativamente ao dever. A ideia de
dever varia muito entre as diferentes nações; porém temos intuição
de que deve existir alguma ideia universal do dever. Do
mesmo modo, uma certa classe da sociedade supõe que certas
coisas constituem o seu dever enquanto que outra classe crê o
contrário, e se horroriza se os tivesse que fazer. Aparecem dois
caminhos: o do ignorante que pensa existir uma única senda
que conduz à verdade, e o do sábio que, de acordo com a nossa
constituição mental ou dos distintos planos da existência em
que nos encontramos, supõe que a moral e o dever têm de variar.
O importante está em saber que há graduações no dever e
na moralidade; que o dever de um estado de vida em certas
circunstâncias não pode ser o de outro.
Daremos um exemplo: Todos os grandes mestres nos
ensinaram que não devemos oferecer resistência ao mal, que a
não-resistência é o mais elevado dever de moralidade. Todos
sabemos que se certo número de pessoas tentasse por em prática
esta máxima, o edifício social cairia em pedaços, os malvados
tomariam posse de nossas propriedades e de nossas vidas,
e fariam conosco o que desejassem. Bastaria que esta nãoresistência
fosse, praticada um só dia, para haver um desastre.
No entanto, reconhecemos a verdade contida no ensinamento
de “não resistir ao mal”.
Isto nos parece o mais elevado dos ideais; porém, ensinar
esta doutrina equivaleria a condenar grande parte do gênero
humano. Mais ainda, seria fazer-lhes sentir que estão sempre
agindo mas seria causar-lhe escrúpulos de consciência por

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todos os seus atos. Isto os debilitaria, e esta constante autodefesa-
aprovação alimentaria mais vícios do que qualquer outra
debilidade. Para o homem que começou a odiar- se, a porta da
degeneração está aberta, e o mesmo acontece a uma nação.
Nosso primeiro dever é não nos odiarmos, pois para
progredir precisamos primeiro ter fé em nós e em seguida em
Deus. Portanto, a única alternativa que nos resta é reconhecer
que o dever e a moralidade variam segundo as circunstâncias.
Não devemos crer que o homem que resiste ao mal está praticando
o mal , pois, segundo as circunstâncias em que se acha
colocado, pode até ser este o seu dever.
Lendo o Bhagavad-Gita, muitos de nós ficamos assombrados
ao nos deparar no segundo capítulo com Sri Krishna
chamando Arjuna de hipócrita e covarde, por se recusar a lutar
e resistir. Sendo seus adversários parentes e amigos, disse-lhe
Arjuna que a não-resistência era o mais elevado ideal do amor.
O ensinamento contido nestas palavras significa que todas as
ações possuem dois extremos iguais: o positivo e o negativo.
Quando as vibrações luminosas são muito lentas, não as
vemos, da mesma maneira que não as vemos quando são demasiado
rápidas. A mesma coisa acontece com o som; quando
muito baixo, não o ouvimos, nem quando é muito alto. O
mesmo se dá com a resistência e a não-resistência. Um homem
não resiste porque é débil e preguiçoso, e portanto não resiste
porque não pode agir assim; outro, sabe que pode dar um golpe
irresistível se quiser, e no entanto, não só não o dá, como bendiz
seu inimigo. O que não resiste por debilidade, peca, e portanto
não pode receber nenhum benefício da não-resistência;
enquanto que o outro cometeria um pecado se resistisse.
Buda abandonou seu trono e renunciou à sua posição
social, o que foi uma verdadeira renúncia; porém não pode haver
renúncia no caso de um mendigo que não tem nada a re

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nunciar. Assim, pois, devemos ser sempre muito cuidadosos
quando falarmos sobre a não-resistência e o amor ideal. Primeiramente,
é necessário sabermos se temos, realmente o poder
de resistir ou não. Então, se o temos e renunciamos, estamos
realizando um grande ato de amor; porém, se não podemos
resistir e estamos nos enganando com a ideia de que somos
guiados por motivos dos mais elevado amor, estamos fazendo
exatamente o contrário. Arjuna se tornou covarde em
presença do poderoso exército que tinha contra si; seu amor o
fez esquecer seu dever para com sua pátria e seu rei. Por isto
lhe disse Sri Krishna que era um hipócrita: “Falas como um
sábio, porém tuas ações te denunciam como um covarde; portanto,
levanta-te e luta”.
Esta é a ideia central de Karma-Yoga. Karma-yogue é o
homem que compreende que o mais elevado ideal é a nãoresistência,
e além disso que, esta não-resistência é a mais alta
manifestação de Poder, quando realmente se possui; e também
que a resistência ao mal é um passo no caminho para alcançar
o, poder da não-resistência. Enquanto não tiver alcançado este
ideal, o dever do homem é resistir ao mal; deve trabalhar, deve
lutar e resistir com toda a força de que seja capaz. Só então,
quando tiver obtido o poder de resistir, será uma virtude a nãoresistência.
Certa vez encontrei em meu país um homem que anteriormente
eu havia conhecido como muito ignorante e estúpido.
Não sabia nada nem desejava saber; vivia como um bruto. Perguntou-
me o que deveria fazer para conhecer a Deus; o que faria
para ser livre. “Podeis dizer uma mentira?”, perguntei-lhe.
“Não”, respondeu-me. “Então deveis aprender à dize-la. É melhor
dizer uma mentira do que ser um bruto ou um pedaço de
madeira. Sois inativo. Porque, com certeza, ainda não alcançastes
o mais elevado estado, aquele que está além de todas as
ações, o estado de serenidade e calma; sois demasiado torpe

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para fazer o mal”. Mas, este é um caso extremo, e eu caçoava
com ele; o que eu desejava demonstrar é que um homem deve
ser ativo para chega, â perfeita calma.
A inatividade deveria ser evitada por todos os meios.
Atividade é sinônimo de resistência. Resistir a todos os males
mentais e físicos, e quando o tiverdes conseguido, virá a calma.
É muito fácil dizer: “Não odeies ninguém, não resistas ao
mal”, Porém todos sabemos o que isto significa na prática.
Quando nos observam, podemos fazer uma ostentação de nãoresistência,
porém em nossos corações se encontra o câncer
que nos corrói. Não experimentamos a calma que provém da
não-resistência, mas compreendemos que seria melhor resistir.
Se ambicionais riquezas, porém ao mesmo tempo sabeis
que o mundo considera mau o que desejais, talvez não vos atireis
à luta para as conseguirdes mas vossa mente ficará dia e
noite atrás do dinheiro. Isto é hipocrisia e não serve de nada.
Atira-vos ao mundo e depois de algum tempo, quando tiverdes
sofrido e gozado de tudo o que há nele, a renúncia virá, e com
ela a calma. Assim, pois, satisfazeis vossos desejos, e logo
chegará o momento em que reconhecereis quão pouco valem;
porém, antes de terdes realizado esses desejos e passado por
essa atividade, é impossível que vos encontreis em estado de
completa calma, serenidade e autodomínio.
Estas ideias de serenidade e renúncia têm sido pregadas
desde milhares de anos; todos as conhecem desde a infância, e
no entanto muito poucos no mundo alcançaram realmente esse
estado. Não sei se já vi em minha vida vinte pessoas que gozassem
realmente de calma e praticassem a não-resistência; eu
que já percorri a metade do mundo!
Cada homem deveria fixar seu próprio ideal e esforçarse
em realizá-lo; esta é a maneira mais segura de progredir do
que impondo seus ideais aos outros homens, ideais que jamais

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conseguirão realizar. Por exemplo, se dermos à criança a tarefa
de caminhar vinte milhas, ou ela morre, ou uma apenas entre
mil se arrasta até a meta para chegar ao fim, rendida de cansaço.
Algo semelhante a isto é o que fazemos geralmente com o
mundo. Nem todos os indivíduos de uma sociedade determinada
possuem a mesma mentalidade, a mesma capacidade e idêntico
poder de fazer as coisas; devem, pois, auxiliar diferentes
ideais, e nós não temos o direito de criticar nenhum ideal.
Cada pessoa deve esforçar-se tanto quanto possível para
realizar seu próprio ideal. Não é justo que eu seja julgado por
vossos métodos, nem os vossos pelos outros. A macieira não
deve ser julgada como se fosse um carvalho, nem o carvalho
como uma macieira. Para julgar a macieira deveis aplicar o sistema
da macieira, e para o carvalho, o seu próprio sistema.
Unidade na variedade é o plano da criação. Por muito
que os homens e mulheres sejam diferentes entre si, há uma
unidade fundamental. Os diferentes caracteres individuais e as
diversas classes de homens e mulheres são variações naturais
na criação. Por isto não devemos julgar sempre da mesma forma
nem abdicar do nosso ideal. Tal procedimento só dá lugar a
uma luta antinatural, e o resultado é que o homem começa a
odiar a si mesmo e se vê impedido de ser um bom religioso.
Nosso dever é ajudar para que cada um viva melhor o seu ideal,
esforçando-se ao mesmo tempo para que este ideal se aproxime
o mais possível da verdade.
Na ética hindu este fato foi reconhecido há muito tempo;
suas escrituras estabelecem diferentes regras para as várias
classes de homens: para o chefe de família, para o sannyasin (o
que renunciou ao mundo) e para o estudante.
A vida do indivíduo, segundo as escrituras hindus, tem
seus deveres particulares, à parte dos que interessam à comunidade.
O hindu principia a sua vida como estudante, depois se

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casa e se converte em chefe de família; na velhice retira-se e
finalmente abandona o mundo e se torna sannyasin. Estas diferentes
etapas de sua vida estão determinadas por certos estados.
Nenhum desses estados é considerado superior ao outro; a
vida do casado é tão nobre como a do celibatário que se dedicou
à obra religiosa.
O varredor da rua é tão importante e glorioso como o rei
em seu trono. Tirai este do seu trono e obrigá-lo a realizar o
trabalho do varredor, e vereis como ele se comporta. Colocai o
varredor no trono e vereis como governa. É inútil dizer que o
homem que vive fora do mundo é maior do que o que vive nele.
É muito mais difícil viver no mundo e adorar a Deus, do
que abandoná-lo e viver uma vida pobre e cômoda.
As quatro classes da Índia foram ultimamente reduzidas
a duas: a de chefe de família e a de monge. O chefe de família
se casa e cumpre os seus deveres de cidadão; e o dever do outro
é dedicar todas as suas energias à religião, pregar e adorar a
Deus.
Dir-vos-ei algumas passagens do Maha-Nirvana-Tantra,
que trata deste assunto, e vereis que é uma tarefa difícil ser um
homem chefe de família e cumprir ao mesmo tempo todos os
seus deveres.
“O chefe de família deve ser devoto de Deus: o conhecimento
de Deus deve constituir a finalidade de sua vida. No
entanto, deve trabalhar constantemente, cumprir seus deveres e
abandonar os frutos de suas ações a Deus.
É coisa muito difícil trabalhar e não se preocupar com os
resultados, ajudar um homem e não pensar no agradecimento,
fazer alguma boa obra renunciando de antemão o proveito
econômico e moral que nos pudesse resultar. Até o mais tímido
covarde se torna valente quando o mundo o enaltece.

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Um louco pode executar ações heroicas quando a sociedade
as aprova e aplaude, porém, um homem ser sempre bom
sem contar com a aprovação de seus semelhantes, é em verdade
o maior sacrifício que pode fazer! O dever do chefe de família
é ganhar o sustento para ele e os seus, porém deve ter o
cuidado de não fazê-lo valendo-se de mentiras ou enganos,
nem roubando aos seus semelhantes; deve lembrar que sua vida
é para Deus e os pobres.
Sabendo que o pai e a mãe são os representantes visíveis
de Deus, o chefe de família deve tratar de agradá-las por todos
os meios ao seu alcance. Se o pai e a mãe estão contentes,
Deus está satisfeito com o filho. É realmente um bom filho
aquele que nunca diz palavras grosseiras a seus pais.
Diante dos pais não deve mostrar-se engraçado, nem revelar
impaciência ou raiva. Em presença do pai e da mãe, o filho
deve inclinar-se respeitosamente, permanecer de pé, e não
sentar-se sem que eles lhe ordenem.
Se o chefe de família tem alimentos, bebidas e roupa
sem olhar primeiro se seus pais, filhos, esposa e pobres estão
necessitando destas coisas, ele comete pecado. A mãe e o pai
são as cansas de seu corpo; por conseguinte, o filho deve sofrer
todos os aborrecimentos para fazê-los felizes.
Do mesmo modo são os seus deveres para com a sua esposa;
ninguém deve desprezá-la; deve considerá-la como se
fosse sua própria mãe. E ainda quando se encontre em dificuldades,
o marido não deve irritar-se com a esposa.
Aquele que pensa numa mulher a não ser sua esposa, e a
prejudica mesmo que seja mentalmente, vai para o inferno.
Diante de mulheres não se deve dizer palavras grosseiras,
nem se gabar. Não se deve dizer: “Eu fiz isto ou aquilo”.

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O chefe de família deve agradar sua esposa com dinheiro,
roupas, amor, fé e palavras doces, sem aborrecê-la. O homem
que conquistou o amor de uma casta esposa, alcançou um
grande êxito em sua religião e possui todas as virtudes”.
São os seguintes os deveres dos pais para com os filhos:
“Um filho deve ser criado carinhosamente até os quatro
anos; instruído até os dezesseis; aos vinte, empregado, nalgum
trabalho, e então ser tratado afetuosamente pelo pai como seu
igual. Da mesma forma deve ser tratada uma filha, e educada
com o maior cuidado. E quando se casar, o pai deve dar-lhe
joias e bens.
“Depois, o dever do homem é atender seus irmãos e irmãs,
e os filhos destes se são pobres; e ainda os demais parentes,
seus amigos e serviçais. É seu dever auxiliar as pessoas da
mesma povoação, os pobres e todos os necessitados de ajuda.
Se um homem possui meios suficientes e não ajuda seus parentes
e pobres, é considerado um bruto e desumano.
“Deve evitar excessiva atração por alimentos, roupas,
cuidados com o corpo, pois que isto ressumbra luxo. O chefe
de família deve ser puro de coração e limpo de corpo, sempre
ativo e disposto a agir. “Para com os seus inimigos deve ser
herói. É dever seu resistir-lhes. Este é o dever do chefe de família.
Não deve lamentar-se nem mostrar-se passivo. Se não se
comporta como herói perante os inimigos, ele deixa de cumprir
o seu dever. Para os amigos e parentes deve ser manso como
um cordeiro.
“É dever do chefe de família não reverenciar os malvados,
porque se os reverencia, estimula-lhes a perversidade.
Cometerá grande erro se não considerar os que são dignos de
respeito ou as pessoas honradas. Não deve ser demasiadamente
pródigo de sua amizade; deve observar as ações e as atitudes

21
das pessoas com as quais deseja ter amizade, e só se tornar
amigo delas depois de bem observá-las.
“Deve abster-se destas três coisas: falar de si mesmo,
proclamar seu nome e seus poderes e referir-se às riquezas e
aos segredos que os outros lhe confiaram.
“O homem não deve dizer se é pobre ou rico, nem jatarse
de sua fortuna. Não deve consultar opiniões alheias. Tudo
isto é dever religioso, não é uma vã sabedoria profana; se o
homem não cumprir estes preceitos, deverá ser considerado
imoral.
“O chefe de família é a base do edifício social; o que
mais possui. O pobre, o débil, as crianças e as mulheres que
não trabalham, dependem do chefe de família; portanto, ele
deve cumprir os seus deveres sem se sentir humilhado. Se se
mostra fraco ou cometeu algum erro, não deve falar em público,
e se te me fracassar em qualquer empreendimento, não devia
falar nele.
“Pôr-se em evidência não somente é impróprio como o
torna inapto para a execução de seus legítimos deveres na vida.
Ao mesmo tempo deve esforçar-se para adquirir conhecimentos
e fortuna. Este é o dever, e se não o cumpre, não será considerado.
O chefe de família que não se esforça por conseguir
fortuna, é desconsiderado, porque dele dependem centenas de
pessoas. Se obtiver fortuna, estas pessoas poderão gozar dela.
“Se não fossem centenas de homens que têm se esforçado
para se tornarem ricos e o têm conseguido, o que seria desta
civilização, destes asilos e destes grandes edifícios?
“Nestes casos não é, censurável buscar riqueza, porque é
para distribuí-la. O chefe de família é o centro vital de qualquer
sociedade. Para ele é um culto adquirir e gastar nobre

22
mente a riqueza, pois o que luta para tornar-se rico por meios
lícitos e propósitos bons, está fazendo praticamente a mesma
coisa que o anacoreta em sua cela, orando, pela salvação das
almas. Em ambos encontramos o mesmo aspecto de uma
mesma virtude, que é a abnegação e sacrifício inspirados pelo
sentimento de devoção a Deus e a tudo quanto é seu.
“Deve lutar para adquirir um bom nome; não deve jogar
nem frequentar a companhia de malvados, nem mentir nem
provocar inquietude a ninguém.
“Comumente os homens empreendem coisas que não
podem realizar, e buscam enganar e enganam as pessoas que
possuem os meios que lhes faltam. Há também o fator tempo.
O que no momento é um fracasso, pode em seguida transformar-
se em êxito.
“O chefe de família deve dizer a verdade, falar carinhosamente,
utilizando-se das expressões que condizem com a
cultura daquele que as ouve; não deve falar da vida alheia.
“O chefe de família, fazendo lagos, plantando árvores à
beira dos caminhos, construindo logradouros e abrigos para
homens e animais, abrindo estradas e construindo pontes, alcança
a mesma meta que o maior dos yogues”.
Esta é uma parte da doutrina de Karma Yoga a atividade
e dever do chefe de família. Mais além se diz: “Se o chefe de
família morre na batalha, lutando pelo seu país ou por sua religião,
chega à mesma meta que o yogue pela meditação”, mostrando
assim que o que é dever para um não o é para outro. Isto
não quer dizer, que este dever humilhe e o outro eleve; cada
dever tem seu lugar adequado, e segundo as circunstâncias em
que nos achemos colocados, assim será a maneira de cumprirmos
os nossos deveres.

23
Do mesmo modo se infere que a debilidade é condenável.
Esta ideia particular de nossos ensinamentos ocorre tanto
na filosofia como na religião e no serviço. Se lerdes os “Vedas”,
encontrareis muitas vezes repetida esta palavra: “intrepidez”.
O temor denota debilidade. Um homem deve cumprir o
seu dever sem se preocupar com a crítica dos demais.
Se um homem se isola do mundo para adorar a Deus,
não deve pensar que aqueles que ali vivem e agem não estão
adorando a Deus. Nem os que vivem no mundo dedicados às
suas esposas e filhos devem pensar que os que o abandonaram
sejam desprezíveis e vagabundos. Cada um é grande em seu
meio. Ilustrarei este pensamento com um conto.
Certo rei costumava formular esta pergunta aos sannyiasins
que chegavam ao seu país: “Qual é o homem de maior
mérito: o que abandona o mundo e se torna sannyasin ou o que
vive no mundo e cumpre os seus deveres de chefe de família?”
Muitos sábios tinham pensado em resolver este problema. Uns
asseguravam que o sannyasin era o de maior mérito; porém o
rei lhe pedia que provassem esta afirmação. Quando não conseguiam
fazê-lo, ordenava-lhes a se tornarem chefes de família.
Outros diziam: “O chefe de família que cumpre seus deveres,
é o homem meritório por excelência”. Ao que o rei respondia
pedindo provas. Quando não podiam dar-lhes, ordenava-
lhes que fossem chefes de família.
Chegou por último um jovem sannyasin a quem o rei dirigiu
a mesma pergunta. “Cada um, oh! rei, é grande em seu
próprio meio”. Prova-o, disse o rei. “Provar-vos-ei”, respondeu
o sannyasin, “porém primeiro deveis vir viver comigo durante
alguns dias para que eu possa prová-lo”. O rei consentiu e seguiu
o sannyasin fora de seu território. Atravessaram muitos
países, até chegarem a um grande reino em cuja capital se rea

24
lizava uma solene cerimonia. O rei e o sannyasin ouviram o
ruído dos tambores e das músicas, e também dos discursos;
O povo estava reunido nas ruas enfeitadas de flores. O
rei e o sannyasin pararam para ver e ouvir o que se passava. O
pregador proclamava em alta voz que a princesa, filha do rei
daquele país, estava ali para escolher esposo entre os que aparecessem
diante dela.
Era um antigo costume da Índia que as damas escolhessem
esposo desta maneira; cada uma tinha uma ideia sobre a
classe de homem que ela desejava para marido: umas preferiam
o mais rico, e assim sucessivamente. Os príncipes dos países
vizinhos se apresentavam ante ela com suas mais luxuosas
vestes. As vezes também se serviam de pregadores que apregoavam
suas qualidades e as razões que os levavam a alimentar
a esperança de ser os preferidos. A princesa era conduzida
em seu trono de um lado a outro, com grande pompa. Olhava
os admiradores, ouvia suas declarações e se não lhe agradavam,
dizia: “Adiante”, esquecendo-se por completo dos pretendentes
desprezados. Se, pelo contrário, algum lhe agradava,
atirava sobre ele uma coroa de flores, e casavam-se.
A princesa do país no qual o nosso rei e sannyasin tinham
chegado, celebrava uma dessas interessantes cerimonias.
Era a princesa mais bela do mundo, e seu esposo governaria
seu reino depois da morte de seu pai. O gosto da princesa era
casar-se com o mais formoso, porém não encontrava nenhum
que a agradasse. Várias vezes já esta cerimônia havia se realizado,
porém a princesa não escolhera o esposo. Esta reunião
era a mais bela de todas, e a mais concorrida. A princesa surgiu
em seu trono, conduzida pelos seus cortesãos. Parecia não
olhar para ninguém, e todos começaram a ficar descontentes.
Neste momento chegou um jovem, um sannyasin, belo como o

25
sol descendo à terra, e colocou-se num recanto para observar o
que estava acontecendo.
O trono com a princesa foi levado até ele, e logo que ela
o viu, parou e atirou-lhe a grinalda sobre o peito. O jovem
sannyasin devolveu-a, dizendo: “Que absurdo é este? Eu sou
um sannyasin. A mim que me importa o matrimônio?” O rei
pensou que aquele homem fosse pobre e por esse motivo não
se atrevia a casar-se com a princesa, e então lhe disse: “Com
minha filha te entrego metade do meu reino agora, e o resto
depois de minha morte, e pôs novamente a grinalda na cabeça
do sannyasin. O jovem a devolveu de novo, dizendo: “É, um
absurdo. Não preciso casar-me”. E seguiu rapidamente o seu
caminho. Mas a princesa, que se tinha enamorado profundamente
daquele jovem, disse: “Se não me casar com ele, morrerei”,
e foi-lhe ao encalço.
Então o nosso sannyasin disse ao rei: “Rei, sigamos este
par”, e caminharam atrás dele uma distância regular. O jovem
sannyasin que havia recusado casar-se, internou-se mato a dentro
algumas milhas. Chegou então a um bosque, onde penetrou
seguido da princesa, e ambos, por sua vez, eram seguidos pelos
outros dois personagens. Mas o cobiçado sannyasin conhecia
muito bem o bosque com suas intrincadas sendas, de modo que
logo desapareceu, sem que a princesa pudesse descobri-lo. Depois
de procurá-lo em vão, durante muito tempo, sentou-se sob
uma árvore e começou a chorar, pois não sabia como sair do
bosque. Neste momento nosso rei e o sannyasin se aproximaram
e lhe disseram: “Não choreis; ensinar-vos-emos o caminho
para sair daqui, porém a esta hora já está muito escuro. Ali está
uma árvore frondosa, descansemos sob sua copa, que pela manhã
partiremos cedo e vos mostraremos o caminho”.
Naquela árvore morava um passarinho com sua companheira
e seus filhinhos. O passarinho olhou para baixo, e ao ver

26
os estrangeiros, disse à sua esposa: “Que faremos, querida? Há
três hóspedes em casa; faz frio e não temos fogo”. Começou a
voar e conseguiu um pequeno tição de fogo; levou-o no bico e
deixou-o cair entre os hóspedes que lhe ajuntaram lenha e puderam
acender bom fogo. Porém o passarinho não estava satisfeito.
De novo disse à sua esposa: “Que faremos, querida? Estas
pessoas têm fome e não temos alimentos. Somos donos da
casa; nosso dever é dar alimento a todos os que chegam à nossa
porta. Devo fazer o que possa, e lhes darei meu corpo”. Dito
isto, lançou-se em meio do fogo e pereceu. Os hóspedes o viram
cair e trataram de salvá-lo, porém não houve tempo.
A companheira do passarinho viu o que seu esposo havia
feito e disse: “Aqui há três pessoas, e elas só têm um pássaro
para comer. Não é bastante; meu dever, como esposa, é não
deixar que tenham sido vãos os esforços de meu esposo. Que
os hóspedes disponham de meu corpo também!” E atirou-se à
chama, que a queimou.
Então os três filhotinhos, ao verem que ainda não era suficiente
o alimento para os três hóspedes, disseram: “Nossos
pais fizeram o que puderam e todavia não basta. Nosso dever é
continuar sua obra. Que vão nossos corpos também!” E se atiraram
igualmente ao fogo.
Assombrados com o que viram, os personagens não puderam,
como é lógico, comer aqueles pássaros. Passaram a
noite sem comer, e de manhã o rei e o sannyasin indicaram o
caminho à princesa, que regressou para a casa de seu pai.
Então o sannyasin disse ao rei: “Rei, vistes como cada
um é grande em seu próprio meio. Se quiserdes viver no mundo,
vivei como aqueles pássaros, disposto a qualquer momento
a vos sacrificardes pelos outros. Se quiserdes renunciar a ele,
sede como aquele jovem, para quem a mais formosa mulher e
um reino nada significaram. Se quiserdes ser um chefe de fa

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mília, fazei com que vossa vida seja um sacrifício pelos demais.
Se escolherdes a vida da renúncia, não olheis a beleza
nem o dinheiro, nem o poder. Cada um é grande em seu próprio
meio; porém o dever de um não é o dever do outro”.

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Capítulo 3 – O Segredo do
Trabalho
Ajudar os outros aliviando suas necessidades físicas é
muito importante, porém o auxílio é tanto maior quanto maior
é a necessidade e duradouro o auxílio. Se as necessidades de
um homem podem ser aliviadas durante uma hora, devemos
ajudá-lo; se podem ser remediadas por um ano, o auxílio será
maior; porém se for eliminado para sempre, este será, sem dúvida,
o melhor auxílio que lhes será prestado.
O conhecimento espiritual é o único que pode destruir
nossas misérias para sempre; os demais só satisfazem as necessidades
por algum tempo. O conhecimento do espírito é o único
que consegue destruir para sempre o desejo; assim, o auxílio
espiritual é o mais elevado auxílio que se pode oferecer ao
homem. Quem dá conhecimento espiritual é o maior benfeitor
do gênero humano, e por isto vemos que foram sempre os homens
de maior poder que auxiliaram a humanidade em suas
necessidades espirituais, porque a espiritualidade é a verdadeira
base de nossa vida.
Um homem são e espiritualmente forte, será forte em
qualquer outro aspecto, se assim o desejar; enquanto não houver
fortaleza espiritual no homem, nem mesmo suas necessidades
físicas poderão ser satisfeitas. Depois do auxílio espiritual
vem o intelectual; a dádiva de conhecimento é muito mais
elevada do que a de alimento e roupa; é ainda maior do que a
de dar vida a um homem, porque a vida deste consiste realmente
no conhecimento. A ignorância é morte, o conhecimento
é vida. E esta é de pouco valor se transcorre na obscuridade,
engolfada na ignorância e na miséria.

29
Vem em seguida o auxílio físico. Ao considerarmos a
questão do auxílio ao demais, devemos tratar sempre de não
cometer o erro de crer que o auxílio físico é o único que se pode
dar. Não só é o último como também o menor, pelo motivo
de não produzir uma satisfação permanente.
A necessidade que sinto quando tenho fome, satisfaço-a
comendo, porém, a fome volta; meu sofrimento só termina
quando estou satisfeito, acima de toda necessidade. Então a
fome não me fará infeliz; nenhum sofrimento nem dor poderá
comover-me. Portanto, aquele auxílio que tende a nos tornar
espiritualmente fortes, é o mais elevado; segue o intelectual, e
em último lugar o físico.
As misérias deste mundo não podem ser resolvidas somente
pelo auxílio físico; enquanto a natureza do homem não
mudar, as necessidades físicas persistirão, bem como as desventuras,
sem que auxílio físico algum possa remediá-las totalmente.
A única solução está em purificar a humanidade. A
ignorância é a mãe de todos os males e misérias. Quando o
homem tiver luz, e for puro e espiritualmente forte e educado,
então a miséria findará. Ainda que convertamos nossas casas
em asilos de caridade e povoemos a terra de hospitais, as misérias
humanas não terminarão enquanto não se mudar a índole
do homem.
Lemos, no Bhagavad-Gita, repetidas vezes, que todos
devemos trabalhar incessantemente. Toda obra é por sua própria
natureza composta de bem e mal. Não podemos realizar
obra alguma que não redunde em benefício de algo ou de alguém;
nem pode haver coisa alguma que não provoque mal em
algum lugar. Em cada ação tem que haver necessariamente
partes de bem e de mal; no entanto nós aconselham que atuemos
sem parar. Ambos, o bem e o mal, produzirão seus resultados,
seu karma.

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A boa ação nos trará bom efeito, e a má, a sua má consequência;
porém, tanto uma como a outra estão ligadas à nossa
alma. A solução obtida no Gita relativamente a esta propriedade
da ação, é que, se deixamos de nos ligar à ação que praticamos,
ela não produzirá nenhum efeito sobre a nossa alma.
Procuremos compreender o significado desta frase: “não ligarse”
à ação.
O sentido do Gita é o seguinte: Agir incessantemente,
porém desligado da ação.
Samskara pode ser traduzido aproximadamente por
“tendência inerente”. Comparando a mente com um lago, cada
onda que vem à superfície não desaparece totalmente; deixa
atrás de si um movimento que a pode fazer ressurgir novamente.
A este movimento capaz de tornar a manifestar-se uma nova
onda, é que se chama samskara.
Cada trabalho que cumprimos, cada movimento que realizamos,
cada pensamento, deixa uma impressão na substância
mental, e mesmo que esta não seja visível na sua superfície,
age profundamente, isto é, subconscientemente. O que nós sabemos
é determinado a cada instante pela soma destas impressões
mentais. O que eu sou neste momento é o resultado das
impressões de minha vida passada. A isto chamamos caráter; é
o que está determinado em cada homem pela soma total de suas
impressões. Se prevalecem as boas, seu caráter será bom; se
o contrário, será mau.
Se um homem diz frequentemente más palavras, tem
maus pensamentos e executa más ações, sua mente estará cheia
de más impressões; estas influirão em seus pensamentos e
ações sem que ele seja consciente delas. Portanto, estas más
impressões atuam continuamente, e o resultado deve ser mau;
esse homem tem que ser mau, e não poderá evitá-lo. O produto
dessas impressões desenvolverá nele um forte poder que cons

31
tituirá o motivo de suas más ações; será como uma máquina
em mãos daquelas impressões, e estas o obrigarão a praticar o
mal.
Da mesma forma, se um homem tem bons pensamentos
e pratica boas ações, a soma total dessas impressões será boa, e
o levará a praticar boas ações, talvez mesmo inconscientemente.
Quando um homem praticou certo número de boas obras e
teve bons pensamentos, experimenta uma tendência irresistível
para o bem; e mesmo quando quiser praticar o mal, sua mente,
que é a soma total de suas tendências, não lhe permitirá. Neste
caso se diz que o bom caráter do homem já está firme.
Assim como a tartaruga oculta as patas e a cabeça dentro
de sua carapaça, e embora a façais em pedaços não a descobrireis,
assim o caráter do homem que tem controle sobre si está
definitivamente firmado. Controla as suas forças internas e
ninguém poderá modificar sua vontade. Por este contínuo reflexo
de bons pensamentos, de boas impressões que se movem
na superfície da mente, a tendência para o bem se robustece,
resultando disto que nos sentimos capazes de controlar os indryas
(os órgãos dos sentidos ou centros nervosos).
Só desta forma o caráter será moldado; só então o homem
conhece a verdade, e já não pode fazer mal a ninguém.
Podeis deixá-lo em qualquer companhia; não haverá perigo
nenhum para ele.
Há, todavia, um estado superior a este: é o desejo de libertação.
Deveis lembrar-vos que a liberdade da alma é a meta
de todas as yogas, e cada uma destas conduz ao mesmo resultado.
Por meio das obras, os homens podem chegar ao estado
que Buda alcançou em grande parte pela meditação e Cristo
pela devoção. Buda foi um jnani ativo; Cristo um bhakta, porém
ambos alcançaram a mesma meta. A dificuldade está em

32
que a libertação implica inteira liberdade; liberdade de fazer o
bem, tanto como de praticar o mal.
É como uma cadeia de ouro, que escraviza tanto como
uma de ferro. Tenho um espinho cravado num dedo e uso outro
espinho para extraí-lo; depois, atiro fora os dois; não tenho
necessidade de guardar nenhum espinho, porque acima de tudo,
são espinhos. Da mesma forma, as más tendências têm de
ser contrapostas pelas boas, e as más impressões da mente, pelas
ondas frescas e boas, até que todo o mal desapareça quase
por completo, ou seja submetido e controlado num recanto da
mente; porém as boas tendências também devem ser conquistadas.
Desta forma o homem “ligado”, “desliga-se”. Agi, porém
não permitais que a ação ou o pensamento produza uma
profunda impressão em vossa mente; deixai que as ondas vão e
venham. Que as ações importantes provenham dos músculos
do cérebro, porém não permitais que se gravem profundamente
em vossa alma.
Como pode isto acontecer? Observemos que as impressões
de uma ação à qual nos ligamos perduram.
Posso encontrar-me com centenas de pessoas durante o
dia, e entre elas com uma apenas a quem amo; quando chega a
noite e penso em todas as fisionomias que vi, só uma se apresenta
em minha mente: a que talvez me olhou menos, porém
que amo; as demais se terão desvanecido. Minha atração por
aquela pessoa causou em minha mente uma impressão mais
profunda do que todas as outras. Fisiologicamente as impressões
foram todas iguais; cada uma das fisionomias que vi se
retratou na retina e o cérebro se apoderou da imagem; no entanto,
o efeito na mente não foi o mesmo. Muitas das pessoas
eram talvez inteiramente novas para mim, porém aquela da
qual tive um rápido vislumbre, encontrou associações internas.
Talvez já a tivesse gravada em minha mente durante anos, tal

33
vez conhecesse muitíssima coisa sobre ela, e esta nova visão
despertou centenas de recordações adormecidas em minha
mente; e talvez esta impressão já fora repetida um sem número
de vezes do que as outras fisionomias, e por isto produziu tal
efeito em minha mente.
Por conseguinte, sabe “desligados”; deixai que as coisas
atuem, porém que atuem nos centros cerebrais. Agi constantemente,
porém não permitais que uma só onda domine vossa
mente. Trabalhai como se fosseis estrangeiros aqui na terra;
trabalhai incessantemente, porém não vos ligueis à ação; ligarse
é algo terrível.
Este mundo não é nossa habitação; é somente um dos
muitos estados pelos quais estamos passando. Recordai aquele
grande ditado da filosofia sânkya: “A totalidade da natureza é
para a alma, não é a alma para a natureza”. A natureza não
existe senão para a educação da alma; não tem outro significado;
está aqui, porque a alma deve ter conhecimento e libertarse
pelo conhecimento.
Se tivéssemos sempre este pensamento, jamais nos ligaríamos
à natureza; saberíamos que esta é um livro aberto que
devemos ler, e que já não terá valor algum para nós quando tivermos
adquirido o conhecimento que ele encerra. No entanto,
nos identificamos com a natureza; pensamos que a alma lhe
pertence, que o espirito é para a carne, e, como afirma o provérbio,
pensamos que o homem “vive para comer” e não que
“come para viver”. Consideramos a natureza como se fossemos
nós mesmos e deste modo nos ligamos a ela. E quando
nos ligamos a ela, em nossa alma se produz uma profunda impressão,
que nos domina e nos leva a agir não como homens
livres mas como escravos.
O ponto capital deste ensinamento é que devemos agir
como “senhores” e não como “escravos”. Não vedes como to

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dos trabalham? Ninguém pode estar em absoluto repouso. Noventa
e nove por cento dos homens trabalham como escravos e
o resultado é a miséria; todos trabalham egoistamente. Trabalhai
por liberdade. Trabalhai por amor. A palavra Amor é muito
difícil de ser compreendida. O amor não existe, enquanto
não existir liberdade. Não há possibilidade do verdadeiro amor
no escravo. Se conquistais um escravo e o fazeis trabalhar em
vosso proveito, ele cumprirá seu ganha-pão, porém não haverá
amor nele. Do mesmo modo, quando nós trabalhamos para as
coisas do mundo como escravos, não pode haver amor em nós,
e o nosso trabalho não é verdadeiro trabalho.
Isto é tão certo com referência ao trabalho que realizamos
para os nossos parentes e amigos, como ao trabalho feito
para nós mesmos. Trabalho egoísta é trabalho de escravo, e eis
aqui uma prova: Cada ato de amor acarreta felicidade; não há
ato de amor que não traga paz e alegria. A existência, o conhecimento
e o amor estão intimamente relacionados; onde está
um também estão os outros dois. São os três aspectos do Um
sem Segundo. Existência-Conhecimento-Felicidade.
Quando esta existência se torna relativa, conhecemo-la
como mundo; este conhecimento se modifica logo como conhecimento
das coisas do mundo, e esta felicidade constitui a
base do amor que o coração do homem é capaz de sentir. Portanto,
o verdadeiro amor nunca pode reagir de maneira a causar
dor ao ser amado. Suponde que um homem ame uma mulher.
Ele a quer só para si e a zela constantemente; necessita têla
a seu lado; que coma e se mova a seu mandato. É escravo
dela e quer possuí-la como escrava. Isto não é amor, mas apenas
uma espécie de afeto mórbido de escravo. Não pode ser
amor, porque provoca dor. O amor não produz reações dolorosas;
o amor só produz felicidade. Quando tiverdes conseguido
amar vossa esposa, esposo e filhos, a todo o mundo, ao universo,
de tal modo que não haja reação de dor ou de ciúmes, nem

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sentimento egoísta algum, então estareis no estado apropriado
de desligar-vos.
Krishna disse: “Contempla-Me, Arjuna. Se Eu deixasse
de agir um só instante, o universo todo desapareceria. Nada tenho
a ganhar na ação; sou o Senhor único. Por que atuo então?
Porque amo o mundo”. Deus está desligado porque ama; um
amor assim verdadeiro, desfaz nossas ligações. Onde quer que
haja apego pelas coisas mundanas, há atração física entre grupos
de partículas de matéria; algo que atraia os corpos cada vez
mais próximos e que não se podem juntar bem, produz dor, porém,
onde há amor real não existem de nenhum modo atrações
físicas. Tais amantes podem estar a mil milhas de distância um
do outro e seu amor será sempre o mesmo; não morre, e jamais
provocará dor.
Obter este desapego pode ser o trabalho de uma vida,
porém, logo que o tivermos alcançado, nos encontraremos na
meta do amor e conquistaremos a liberdade; nos libertaremos
das cadeias da natureza e a contemplaremos tal qual é. Não
conseguirá mais prendermos; seremos inteiramente livres e não
tomaremos em consideração o resultado das ações. Para que
nos preocuparmos com os resultados?
Pedis recompensa a vossos filhos. Nosso dever consiste
em trabalhar para eles, e aí termina o assunto. Em tudo, aquilo
que fizerdes por um semelhante, por uma cidade ou por um Estado,
assumi idêntica atitude: não espereis recompensa. Se podeis
tomar invariavelmente a posição de quem dá livremente,
sem pedir recompensa alguma, então vosso trabalho não produzirá
ligações. Estas somente vêm quando esperamos recompensa.
Se agir como escravos produz egoísmo e trevas, agindo
como senhores de nossas próprias mentes gozaremos a felicidade
de retidão e justiça; porém vemos que no mundo o reto e

36
o justo são palavras vãs de crianças. Há duas coisas que guiam
a conduta do homem: o poder e a compaixão. O exercício do
poder leva invariavelmente ao egoísmo. Os homens e as mulheres
aproveitam-se tanto quanto possível do poder, ou das
vantagens que dele podem tirar.
A compaixão é a essência do céu. Para ser bons, devemos
ser clementes. Até a justiça e o direito devem ser apoiados
na clemência. Pensar em tirar proveito da obra quê realizamos,
prejudica nosso progresso espiritual; ainda mais: provoca a miséria.
Há outra maneira de levar à prática a misericórdia e a caridade
altruísta: é considerar as obras como “adoração” (quando
cremos num Deus pessoal). Deste modo abandonamos o
fruto de nossas ações ao Senhor; e adorando assim, não temos
o direito de esperar nenhuma gratidão pelas obras que fazemos.
O Senhor age incessantemente e está sempre livre de ligações.
Assim como a, água não pode molhar a folha do Loto,
assim também a obra não pode escravizar o homem altruísta. O
altruísta e desligado pode viver em meio da multidão de uma
cidade pecadora e não ser manchado pelo pecado.
Esta ideia de abnegação absoluta está ilustrada no seguinte
conto: Depois da batalha de Kurukshetra, os cinco irmãos
pândavas celebraram um imponente sacrifício, dando ao
mesmo tempo esmolas aos pobres. Todos estavam assombrados
ante a magnificência do sacrifício e diziam que nunca se
vira outro igual no mundo. Mas depois da cerimônia chegou ali
um pequeno rato, cuja metade do corpo era dourada e outra
metade parda. Principiou então a espojar-se no assoalho da sala
do sacrifício, e depois disse: “Isto não é sacrifício”. “Como?”,
disseram, “dizes que isto não é sacrifício? Ignoras quanto
dinheiro e joias foram distribuídos aos pobres e quanto cada

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um deles se tornou rico e feliz? Este foi o sacrifício maior que
um homem já realizou.
Porém o ratinho retrucou: “Certa vez, numa pequena aldeia
residia um pobre brâmane com sua esposa, seu filho e sua
nora. Eram muito pobres e viviam das pequenas dádivas que
lhes eram oferecidas por pregarem e ensinarem. Aquela cidade
passou por um período de fome durante três anos e o pobre
brâmane sofreu muito mais do que outrora. Finalmente, quando
à família que há dias já não se alimentava, o pai trouxe uma
maçã e um pouco de farinha de cevada que tivera a sorte de
conseguir, dividiu tudo em quatro partes iguais e deu uma a
cada familiar. Preparavam-se para comê-la, porém nesse momento
bateram à porta. O pai a abriu e apareceu um hóspede.
(É bom saber que na índia um hóspede é pessoa sagrada: é
considerado como um Deus enquanto dura a hospedagem, e
deve ser tratado com devoção). Então o pobre brâmane lhe disse:
“Entrai, Senhor; bem-vindo sejais”. Pôs diante do hóspede
seu alimento, que ele comeu rapidamente, dizendo: “Oh! Senhor,
faz dias que não como, e este alimento ainda veio aumentar
a minha fome”. Então a esposa disse a seu marido:
“Dá-lhe a minha parte”, ao que ele disse: “não”. Porém ela insistiu,
dizendo: “Está aqui um esfomeado e nosso dever como
chefes de família é dar-lhe de comer. Como esposa cumpro o
meu dever dando a minha parte, visto que não tens nada mais
para lhe oferecer”. E a deu. Mas, depois de comê-la, o hóspede
ainda estava com fome. Em vista disso, o filho disse: “Tomai
também a minha parte. O dever de um filho é ajudar os pais a
cumprirem suas obrigações”. O hóspede comeu, mas não se
mostrou satisfeito, e por isto a esposa do filho lhe deu a sua ração.
O hóspede saiu bendizendo-os. Naquela mesma noite, os
quatro morreram de fome.
Alguns grãos daquela farinha caíram no chão, e ao espojar-
me nela, a metade de meu corpo ficou dourado, como ve

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des. Desde então venho correndo o mundo inteiro, procurando
outro sacrifício como aquele, porém em nenhuma parte o encontro,
o que não me permitiu dourar a outra parte do meu
corpo. Portanto, afirmo que isto não é sacrifício.
A caridade começa a desaparecer na índia; os grandes
homens diminuem em número. Quando estudava inglês, li um
conto sobre um menino que trabalhava e dava algo à sua mãe,
e por isso era elogiado! Que significa isto? Nenhum menino
hindu poderá compreender esta espécie de moral. Eu a compreendo
agora depois de conhecer a ideia ocidental: cada qual
para si; e alguns homens ficam com tudo o que possuem,
abandonando pais, mães, esposas e filhos! Este não deve ser
nunca o ideal de um chefe de família.
Estais agora em condições de compreender um karmayogue:
ajudar, ainda que seja à custa de sua vida, dos seus semelhantes,
sem esperar o fruto da ação. Mesmo quando fordes
enganados milhões de vezes, não vos impressioneis nem penseis
no que estais fazendo. Nunca vos orgulheis de vossas esmolas
aos pobres, nem espereis sua gratidão; ficai, ao contrário,
agradecido porque tivestes ocasião de praticar a caridade.
Também vereis claramente que ser perfeito chefe de família é
muito mais difícil do que ser sannyasin. A verdadeira vida de
trabalho é, em verdade, tão dura, se não mais, do que a verdadeira
vida de renúncia.

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Capítulo 4 – O Que é o
Dever?
No estudo de Karma-Yoga é preciso saber o que é o dever.
Se devo fazer algo, primeiramente devo conhecer meu dever.
A ideia do dever é diferente em cada nação. Os maometanos
afirmam que o que está escrito no Corão é seu dever; os
hindus o que está nos Vedas, e os cristãos o que está na Bíblia.
Vemos, pois, que há diversas ideias sobre o dever, as quais
mudam segundo os estados da vida, os períodos históricos e as
nações. É impossível definir claramente o termo “dever”, bem
como nenhum outro termo abstrato universal; só podemos fazer
uma ideia do que ele representa, mediante o conhecimento
de seus resultados.
Quando certos acontecimentos ocorrem em nossa presença,
experimentamos um impulso natural ou adquirido a agir
de certa maneira; quando surge este impulso, a mente reflete
sobre a situação; umas vezes pensa que é bom agir de certo
modo em certas condições, e outras que é injusto fazê-lo em
condições idênticas. O conceito mais universal do dever é que
o homem bom deve agir de acordo com a sua consciência. Porém,
como se pode atribuir que um ato se converta em dever?
Se um cristão encontra um pedaço de carne e não o come para
salvar sua própria vida, nem para conservar a de outrem, sem
dúvida sentirá que não cumpriu o seu dever. Porém, se um
hindu se atreve a comê-la ou dá-la a outrem, com certeza sentirá
também que não cumpriu o seu dever.
No século passado teve grande popularidade na Índia
um bando de ladrões chamados thugs; acreditavam que seu,
dever consistia em matar a todos quantos fossem ricos e tirarlhes
o dinheiro; quanto maior fosse o número de vítimas, tanto

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mais se estimavam a si mesmos. Porém, geralmente, se um
homem sai à rua e mata um semelhante, sente remorso e percebe
que praticou um mal; porém, se este mesmo homem como
soldado de um regimento, mata não um, mas vinte, com
certeza se sente feliz e pensa que cumpriu seu dever. Dar uma
definição do dever é, pois, impossível. No entanto, existe o dever
em seu aspecto subjetivo.
Qualquer ação que nos aproxime de Deus, é boa e representa
nosso dever; qualquer outra que nos afaste de Deus, é má
e não representa nosso dever. Do ponto de vista subjetivo, vemos
que certos atos têm tendência a exaltarmos e enobrecernos,
enquanto que outros tendem a nos degradar e embrutecer.
Mas não é possível estabelecer com certeza o resultado que determinados
atos terão nas pessoas. Há, no entanto, um conceito
do dever que foi universalmente aceito, em todas as idades,
seitas e países, e que está sintetizado neste aforismo sânscrito:
“Não façais mal a nenhum ser. Não fazer mal a ninguém é virtude;
fazer mal a alguém é pecado”.
O Bhagavad-Gita alude frequentemente aos deveres que
dependem do nascimento e da posição social. O nascimento, a
posição na vida e na sociedade determinam, em grande parte, a
atitude moral e mental dos indivíduos e as suas diversas atividades
na vida. Portanto, nosso dever é praticar a ação que nos
exalte e enobreça de acordo com as atividades e ideias da sociedade
na qual nascemos. Devemos, porém, recordar muito particularmente
que os mesmos ideais e atividades não prevalecem
em todas as sociedades e países; a ignorância deste preceito
é a causa principal dos ódios entre nações. O americano
pensa que quando realiza um acordo segundo os costumes de
seu país, este é o melhor, e quem não agir da mesma forma, é
malvado. O hindu crê que seus costumes são os melhores do
mundo e quem os não pratica são perversos para os seres hu

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manos. Este erro é muito comum, porém é muito prejudicial,
porque é causa da metade dos egoísmos existentes no mundo.
Quando visitei a exposição de Chicago, alguém me tirou
o turbante. Olhei e vi que se tratava de um homem muito bem
vestido e de boa aparência. Falei-lhe, e como o fiz em inglês,
ficou envergonhado. Noutra ocasião, achando-me no mesmo
local, alguém me deu um empurrão. Quando lhe perguntei
porque fazia isto, me disse envergonhado: “Por que vos vestis
desta maneira?” As simpatias dos dois homens estavam limitadas
à sua maneira de falar e de vestir. A opressão que as nações
poderosas exercem sobre as mais débeis, é causada por
este princípio: falta de fraternidade. O homem que me perguntou
por que não me vestia como ele e o que me maltratou por
causa do meu traje, talvez fossem bons, excelentes pais e corretos
cidadãos; porém, sua bondade desapareceu diante de um
homem vestido de maneira diferente. Os estrangeiros são explorados
em todos os países porque não sabem como se defenderem;
por isso levam à sua terra falsas impressões dos povos
que visitaram. Os maridos, soldados e comerciantes se comportam
de modo diferente; talvez por isto os chineses chamem
aos europeus e americanos “diabos estrangeiros”. Não diriam
assim se conhecessem o lado bom e generoso dos ocidentais.
Por conseguinte, devemos sempre nos habituar a observar
o dever dos demais segundo o seu ponto de vista e não julgar
os costumes do outros povos de acordo com os nossos
usos. Devo acomodar-me ao mundo e não ele a mim. Assim,
vemos que o ambiente corrige a índole de nossos deveres e o
melhor que temos a fazer no mundo é cumprir nossos deveres
a todo o momento.
Cumpramos primeiramente nossos deveres naturais, e
assim cumpriremos o dever correspondente à nossa posição
social na vida. Existe, no entanto, um mal considerável na na

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tureza humana. É que ninguém se observa a si mesmo. Crê ser
sempre digno de ocupar um trono como o próprio rei; no entanto,
mesmo que saiba cumprir primeiro os deveres de sua posição,
outros lhe advirão mais elevados.
Quando trabalhamos com entusiasmo, a natureza nos recompensa
de toda a forma e logo nos coloca na posição apropriada.
Nenhum homem pode ocupar por muito tempo a posição
à qual não está adaptado. De nada serve queixar-se e indispor-
se com a natureza. Quem executa uma tarefa inferior,
nem por isto é um homem inferior. Ninguém deve ser julgado
pela natureza de seus deveres, e sim pela maneira e espírito
com que os executa.
Mais tarde constataremos que a ideia de dever sofre mudanças
e que a obra maior só se cumpre quando não existe nenhum
motivo egoísta. No entanto, a obra realizada com um
dever é a que nos faz atuar independentemente da ideia de dever.
Quando a obra se converte em culto, a realizamos por
amor a ela mesma. Diremos que a teoria do dever é idêntica
nas outras yogas, sendo seu objetivo a atenuação do eu inferior
para que o Eu superior possa brilhar; isto é, diminuir a perda
de energias no mundo inferior de existência para que a alma
possa manifestar-se em planos mais elevados. Isto se alcança
pelo cumprimento do dever, que é a causa da perda dos desejos
inferiores. A organização social vem se desenvolvendo desta
forma, consciente ou inconscientemente, no campo da ação e
experiência, onde, pela limitação do egoísmo, damos lugar a
uma ilimitada expansão da verdadeira natureza do homem.
O dever raras vezes é agradável; só quando o amor o
impulsiona consegue evitar os atritos. Se assim não fosse, como
poderiam os pais cumprir os deveres para com seus filhos?
Os esposos para com suas esposas e vice-versa? Não vemos
diariamente como os seres se desentendem? O dever é agradá

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vel se realizado com amor, porém o amor não brilha em todo o
seu esplendor quando se tira a sua liberdade de expressão. É
livre aquele que é escravo dos sentidos, da cólera, dos ciúmes e
de inumeráveis erros que ocorrem na vida humana? Em todas
as asperezas que encontramos na vida, a mais alta expressão de
liberdade consiste em suportá-las com paciência. As mulheres
escravas de seus próprios temperamentos, irritáveis e ciumentas,
estão propensas a culpar os seus maridos, e a afirmar sua
“liberdade” tal como elas a entendem, ignorando que de tal
modo provam ser escravas.
A castidade é a primeira virtude do homem e da mulher,
e é muito raro o homem que, por extraviado que esteja, não seja
atraído por uma terna e casta esposa. O mundo não é, apesar
de tudo, tão mau como parece. Muito se fala de maridos brutais
e de impureza dos homens, porém, não é certo que existe o
mesmo número de mulheres brutais e impuras? Se as mulheres
fossem tão boas e puras como o são as suas frequentes afirmações,
seguramente não haveria no mundo um só homem impuro.
Que brutalidade existe que não possa ser conquistada pela
castidade e pureza? Uma boa e casta esposa para quem todos
os homens, exceto seu esposo, são como filhos, e que assume
para todos eles uma atitude de mãe, se tornará tão grande no
poder de sua pureza que não haverá um só homem, por brutal
que seja, que não sinta uma atmosfera de santidade em sua
presença. Do mesmo modo, cada homem deve olhar todas as
mulheres, exceto a sua, como olharia sua própria mãe, filha ou
irmã. De outro lado, o honrem que ministre religião deve considerar
todas as mulheres como se fossem sua própria mãe, e
portar-se diante delas como um filho.
A posição da mãe é: a mais elevada do mundo, pois é o
único posto onde podemos aprender e praticar o altruísmo. O
amor a Deus é o único que supera o amor de mãe; todos os
demais são inferiores. O dever da mãe é pensar primeiro em

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seus filhos e depois em si mesma. Mas, se os pais pensam primeiramente
em si mesmos, o resultado será que entre pais e
filhos se estabelece a mesma relação que entre os pássaros e
sua descendência, os quais logo que podem voar, desconhecem
os pais.
Bendito, em verdade, é o homem que pode olhar todas
as mulheres como a representação da maternidade de Deus.
Benditas, em verdade, as mulheres para as quais os homens representam
a paternidade de Deus. Benditos os filhos que consideram
seus pais como a Divindade manifestada na terra.
A única maneira do homem progredir é cumprir os deveres
com os mais próximos, e deste modo ir acumulando forças
para poder ir mais alto. Um jovem sannyasin foi a um bosque;
ali meditou, adorou e praticou yoga por muito tempo. Depois
de alguns anos de rude trabalho, achando-se um dia sentado
sob uma árvore, caíram sobre sua cabeça umas folhas secas.
Olhou para cima e avistou um corvo e uma gralha que discutiam
no alto da árvore. Muito contrariado, lhes disse: “Como
vos atreveis a atirar estas folhas secas sobre a minha cabeça?, e
como ao pronunciar estas palavras os olhou colérico, de sua
cabeça saiu um raio de fogo que converteu os pássaros em cinza.
Sentiu-se então muito feliz pelo desenvolvimento desse poder;
podia fulminar um corvo e uma gralha só com um olhar.
Passado algum tempo, precisou ir à cidade mendigar pão. Chegou
à porta de uma casa e disse: “Mãe, dá-me de comer?” Ao
que respondeu uma voz: “Espera um pouco, filho meu”. O jovem
pensou: “Desgraçada mulher, como vos atreveis a fazerme
esperar? Ainda não conheceis meu poder”. Enquanto pensava
isto, ouviu-se de novo a voz que dizia: “Menino, não vos
envaideçais tanto, pois aqui não há corvos nem gralhas”.
O sannyasin, todo assombrado, ficou esperando. Por
fim, apareceu uma mulher, e ele, caindo a seus pés, lhe disse:

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“Mãe, como sabias isto?” E ela respondeu: “Filho meu, eu não
conheço vossa yoga nem vossas práticas. Sou uma mulher vulgar.
Filo esperar porque meu marido está doente e o estava
atendendo. Toda a minha vida me esforcei por cumprir meu
dever. Quando era solteira, cumpria meus deveres para com os
meus pais; agora, que sou casada, cumpro meus deveres como
esposa; esta é toda a yoga que pratico. Todavia, cumprindo o
meu dever, cheguei a ser iluminada; por isto posso ler vossos
pensamentos e saber o que haveis feito no bosque. Se quereis
saber algo de mais elevado, ide ao mercado da cidade e ali encontrareis
um vyadha, que vos ensinará algo que devereis saber”.
O sannyasin pensou: “Para que hei de ir a esta cidade para
ver um vyadha?” Mas depois resolveu ir. Quando chegou à
cidade, encontrou um mercado a certa distância e viu um carniceiro
grande e gordo que cortava a carne com uma enorme
faca, falando e comerciando com várias pessoas. O jovem disse:
“Valha-me, Senhor. É este o homem de quem tenho de
aprender? Parece a encarnação do demônio”.
O homem o olhou e disse: “Olá, swami! Fostes mandado
aqui por aquela senhora? Sentai-vos um pouco até que eu termine
minhas obrigações”. O sannyasin pensou: “O que irá me
acontecer?” Sentou-se. O homem continuou seu trabalho, e
uma vez terminado, pegou o dinheiro e disse ao sannyasin:
“Vinde, Senhor; vinde à minha casa”. Quando chegaram, ele
lhe ofereceu um assento e lhe disse: “Esperai-me aqui”, e foi
para o interior da casa. Aí, lavou seus velhos pais, deu-lhes de
comer e fez tudo quanto foi possível por agradá-los, depois do
que se voltou para o sannyasin e perguntou: “Que posso eu fazer
por vós?” O sannyasin lhe fez algumas perguntas relativas
à alma e a Deus, e o vyadha lhe deu para ler um fragmento do
Mahabarata chamado o Vyadha Gita, que contém um dos
mais belos ensinos da Vedanta. Quando o vyadha terminou seu
ensinamento, o sannyasin ficou assombrado. Então lhe perguntou:
“Com um conhecimento como o vosso, como é que estais

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no corpo de um vyadha cumprindo tão horrível trabalho?” “Filho
meu”, replicou o vyadha, “nenhum dever é feio, nenhum
impuro. Meu nascimento me colocou neste ambiente. Em minha
infância aprendi o comércio; estou desligado e trato de
cumprir o meu dever. Procuro cumpri-lo como chefe de família,
e também fazendo todo o possível por tornar felizes meus
pais. Não conheço vossa yoga, nem sou sannyasin, nem abandono
o mundo para ir aos bosques; no entanto, tudo o que tendes
visto e ouvido, é o que recebo, por cumprir desligadamente
o meu dever; é o que corresponde à minha posição”.
Conheço na Índia um Sábio, um grande yogue, um dos
homens mais assombrosos que vi em minha vida. É original;
não ensina ninguém; se lhe fazeis uma pergunta, não responde,
pois não quer assumir a atitude de mestre; porém, se esperais
alguns dias, no curso de uma conversação fará que esta recaia
sobre o assunto e projetará sobre ela uma luz maravilhosa.
Comunicou-me uma vez o segredo da ação: “Que o fim e os
meios se associam”. Quando fizerdes qualquer trabalho, não
penseis em outra coisa. Leva-lo ao fim, como um ato de adoração,
como se cumprísseis o mais elevado culto, e concentrai
nele toda vossa vida.
Assim, no conto que acabo de referir, o vyadha e a mulher
cumpriram seu dever com alegria e boa vontade, resultando
da a conquista da iluminação. Isto demonstra claramente
que a reta execução dos deveres em qualquer esfera da vida,
sem pensar nos resultados, conduz à mais alta realização da
perfeição da alma.
O trabalhador que se liga aos resultados é o que se queixa
da natureza do dever que lhes coube pelo destino. Para o
trabalhador desligado, todos os deveres são igualmente bons e
constituem eficazes instrumentos para destruir o egoísmo e a
sensualidade, e também para assegurar a independência da al

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ma. É comum superestimarmos nossos méritos. Nosso deveres
são proporção muito maior do que estamos dispostos a confessar.
A competição desperta a inveja e mata a vontade. Para os
descontentes, os deveres se tornam desagradáveis; nada os satisfaz
e sua vida redunda num fracasso. Continuemos trabalhando,
cumprindo o nosso dever, à medida que vamos avançando,
e então, com segurança, conseguiremos ver a Luz!

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Capitulo 5 – Não é ao
mundo que ajudamos, e
sim a nós mesmos
Antes de considerar com maior extensão a forma pela
qual a devoção nos auxilia em nosso progresso espiritual, permiti-
me que abra um breve parêntese para outro aspecto do
que na Índia entendemos por karma. Todas as religiões constam
de três partes: filosofia, mitologia e ritual. A filosofia é,
primeiramente, a essência da religião; a mitologia a explica
mediante as vidas mais ou menos legendárias dos grandes homens,
as histórias e os relatos de acontecimentos surpreendentes.
etc., e o ritual dá a esta filosofia uma forma ainda mais
concreta, com o fim de que todos a possam interpretar.
O ritual é karma obrigatório em toda a religião, pois
muitas pessoas não podem compreender as coisas espirituais
abstratas, senão depois de terem alcançado o suficiente desenvolvimento
espiritual. É fácil pensar que podemos compreender
tudo, porém quando chega o momento de pormos em prática
nosso conhecimento, vemos que é mui difícil entendermos
as ideias abstratas. Portanto, os símbolos constituem um poderoso
auxiliar, que não podemos abandonar. Desde tempos
imemoriais, os símbolos foram usados Por todas as religiões.
Em certo sentido, não pensamos a não ser por meio de símbolos;
acaso não são as Palavras símbolos do pensamento? E ainda
podemos dizer que o próprio universo é um símbolo que
oculta Deus. Esta simbologia não é mera concepção da Mente
humana. A simbologia religiosa é resultante de um crescimento
natural, e se assim não fosse, como é que determinados símbolos
estão indissoluvelmente associados a determinadas ideias?
Certos símbolos são universalmente conhecidos. Muitos de

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vós pensam que a cruz nasceu com o Cristianismo. Porém é
um fato comprovado que antes do Cristianismo existir, antes
de Moisés ter nascido ou que os Vedas fossem conhecidos, antes
de se registrar qualquer conhecimento, já existia este, símbolo.
Sabe-se que a cruz esteve entre os astecas e fenícios; e
que, todas as raças a conheceram. Além disto, o símbolo do
Salvador crucificado parece haver sido conhecido em todas as
nações. O círculo tem sido um símbolo muito importante em
todo o mundo. Por outro lado, existe o símbolo mais universal
de todos, que é a cruz suástica.
Durante certo tempo acreditou-se que fosse criação dos
budistas, porém descobriu-se que já era conhecido na Babilônia
e no Egito. O que demonstra isso é que estes símbolos não
podem ser meros sinais convencionais; deve existir alguma associação
natural entre eles e a mente humana. A linguagem
não é convencional; as ideias se correspondem com as palavras
de maneira natural. Os símbolos que representam ideias podem
ser sons e cores. Os surdos-mudos devem pensar mediante
símbolos que não são sons. Cada pensamento cria uma forma
específica; isto se chama na filosofia sânscrita Nâma-Rupa,
nome e forma. É tão impossível criar convencionalmente um
sistema de símbolos como criar uma linguagem.
Nos símbolos ritualistas conservamos uma expressão do
pensamento religioso da humanidade. É fácil dizer que são
inúteis os rituais, templos e outros elementos de adorno; até as
crianças podem fazer esta afirmação. Mas é fácil comprovar
que aqueles que se ligam aos templos são algo diferentes daqueles
que se abstêm de fazê-lo. Por conseguinte, associar-se a
um determinado templo, a rituais e outras formas concretas das
religiões, tende a despertar na mente de seus devotos as ideias
simbolizadas por essas coisas concretas; e não se ignora que

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todos os rituais são simbólicos. O estudo e a prática destas coisas
fazem parte de Karma-Yoga.
No entanto, esta ciência da ação possui muitos outros
aspectos. Um deles é conhecer a relação entre o pensamento e
a palavra, e quanto pode ser adquirido mediante o poder desta.
Em todas as religiões é conhecido o seu poder, e até mesmo
alguns afirmam que a criação teve origem na palavra. O aspecto
externo do pensamento de Deus é a palavra; e como Deus
pensou e quis antes de criar, a criação é resultante da palavra.
Na violência e precipitação da vida materialista, nossos nervos
endureceram e perderam a sensibilidade. Quanto mais velhos
somos e mais experiências adquirimos, mais insensíveis nos
tornamos, e terminamos por não fazer caso das coisas que nos
rodeiam.
A natureza humana primeiro se impõe algumas vezes e
nos leva a inquirir e considerar alguma destas ocorrências; esta
reflexão é o primeiro passo para a luz. Além do alto valor filosófico
e religioso da Palavra, vemos que os símbolos sonoros
desempenham papel importante no drama da vida humana. Eu
vos falo, porém não vos toco; as vibrações do ar causadas por
minhas palavras vão aos vossos ouvidos, tocam vossos nervos
e produzem efeitos em vossa mente. Não podeis impedir isto.
Pode haver algo mais assombroso? Um homem chama outro
de néscio; este se põe de pé, cerra os punhos e lhe dá uma bofetada.
Vede o poder da palavra. Uma mulher chora desconsolada;
outra passa e lhe dirige palavras de consolo; o desesperado
aspecto da aflita desaparece e começa a sorrir. Pensai no
poder destas palavras.
Agi com potente energia, tanto na mais elevada filosofia
como na vida prática. Noite e dia manipulamos inconscientemente
esta força, sem tratar de indagar sua essência. Conhecer

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a natureza desta força e utilizá-la corretamente também é uma
parte de Karma-Yoga.
Nosso dever para com os outros baseia-se em ajudá-los,
fazer bem ao mundo. Por que devemos fazer bem ao mundo?
Aparentemente para ajudarmos a nós próprios. Tratar de ajudar
o mundo deveria ser nossa mais elevada aspiração; porém, se
pensarmos um pouco, veremos que o mundo não precisa de
nosso auxílio. Este mundo não foi criado para que vós e eu o
ajudássemos. Uma vez li um sermão que dizia: “O mundo é
muito bom porque nos oferece a oportunidade de ajudar os
demais”. A primeira vista este sentimento é muito belo; porém,
não é uma blasfêmia dizer que o mundo precisa de nosso auxílio?
Não podemos negar que há muita miséria nele; socorrer o
próximo, portanto, é o que de melhor podemos fazer, ainda
mesmo que saibamos que a única coisa que nisso fazemos é
auxiliarmos a nós mesmos.
Quando eu era criança, tinha uns ratos brancos e os
guardava em uma caixa munida de umas rodas feitas de modo
que, quando os ratos andavam nela, as rodas giravam incessantemente
e os ratos ficavam no mesmo lugar. É o que acontece
ao mundo com o nosso auxílio. O único auxílio positivo consiste
em nos obrigar a uma ginástica moral. O mundo não é
nem bom nem mau; cada homem constrói um mundo para si
mesmo. Se um cego principia a pensar no mundo, o suporá
frágil ou duro, frio ou quente. Constituímos uma massa de felicidade
e infortúnio; podemos observar isto centenas de vezes.
Geralmente os jovens são otimistas e os velhos pessimistas.
O jovem tem a vida ante si, e o velho se queixa porque
envelheceu mais um dia; centenas de desejos que não puderam
ser satisfeitos fervem em sus corações. No entanto, ambos estão
em condições idênticas. A vida é boa ou é má, segundo as
atitudes mentais com que a observemos; por si mesma, não é

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nada. O fogo, por si mesmo, não é bom nem mau. Quando nos
dá calor, dizemos: “Que bom fogo!” Quando nos queima o dedo,
o maldizemos. Segundo o uso que dele façamos, produz
em nós uma sensação agradável ou desagradável. O mundo é
perfeito. Por perfeição entendemos aquilo que está admiravelmente
adaptado a seus fins. Podemos estar seguros de que caminhará
completamente bem sem nossa ajuda, e que não tem
necessidade de que percamos a cabeça por sua causa.
Todavia, precisamos praticar o bem; o desejo de fazer o
bem é o que de mais elevado podemos aspirar, desde que aceitemos
o princípio de que é um grande privilégio ajudar os outros.
Não vos coloqueis num alto pedestal, com uma moeda na
mão, enquanto dizeis: “Tomai, pobre homem”. Agradecei mais
do que o pobre, pois deste modo tivestes a oportunidade de
ajudar a vós mesmo, ajudando o pobre. O beneficiado não é
quem recebe, e sim aquele que dá. Agradecei àqueles que vos
deram a oportunidade de ser benevolente e misericordioso,
pois só assim chegareis neste mundo a ser puro e perfeito. Todas
as boas ações nos levam à pureza e perfeição. Que de melhor
podemos fazer? Construir um hospital, abrir estradas, erguer
asilos de caridade, organizar uma festa de beneficência e
reunir dois ou três milhões de dólares, edificar um hospital
com um milhão, com o segundo dar bailes e beber champanha
e com o terceiro deixar que os administradores roubem a metade,
e o resto, finalmente que chegue aos pobres. Que representa
isto? Um golpe de vento destrói tudo em cinco minutos.
Que devemos então fazer? Uma erupção vulcânica pode
arrasar os nossos hospitais e nossas estradas. Abandonemos
esta conversa inútil de querer fazer bem ao mundo; ele não
precisa do vosso auxílio nem do meu; no entanto, devemos fazer
o bem constantemente, porque isto constitui uma bênção
para nós. Esta é a única maneira de chegarmos a ser perfeitos.
Nenhum dos mendigos que temos auxiliado, nos devem um só

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centavo; ao contrário, somos nós que lhes devemos o favor de
nos terem permitido ajudá-los. É erro pensar que nós temos o
poder de fazer bem ao mundo, ou acreditar que auxiliamos tais
ou tais pessoas. É um pensamento falso, e os pensamentos falsos
produzem miséria.
Imaginemos um homem que ajudou seu semelhante e
espera recompensa, e como este não lhe foi grato, ele se sente
infeliz. Por que devemos esperar a recompensa daquilo que fazemos?
Agradecei ao homem que permitiu ser ajudado, considerando-
o um Deus. Não é um grande privilégio sermos permitido
adorar Deus ajudando nossos semelhantes? Se estivéssemos
verdadeiramente desligados, nos livraríamos desta expectativa
e poderíamos praticar no mundo muito trabalho útil.
Nunca traz infelicidade nem miséria a ação realizada sem se
esperar recompensa. O mundo continuará com suas tristezas e
alegrias por toda a eternidade.
Havia um pobre homem que necessitava de certa importância
em dinheiro e, não se sabe como, tinha ouvido dizer que
se ele pudesse se utilizar dos serviços de um gênio, poderia
obrigá-lo a trazer-lhe dinheiro e tudo quanto desejasse. Por isto
estava ansioso por encontrar algum, e saiu em busca de alguém
que lhe facilitasse os meios de consegui-lo. Finalmente, topando
com um sábio que possuía poderes, pediu-lhe auxílio. O sábio
perguntou-lhe por que desejava um gênio, “É para trabalhar
para mim; ensina-me como posso obtê-lo, senhor, porque
necessito muito”, replicou o homem. O sábio disse: “Não vos
inquieteis; ide à vossa casa”.
No dia seguinte o nosso homem foi novamente ver o sábio
e tornou a suplicar-lhe: “Dai-me um gênio; eu preciso de
um gênio, senhor; ajudai-me”. Por fim o sábio se cansou e lhe
disse: “Tomai este talismã, repeti tal palavra mágica e vos aparecerá
um gênio que fará tudo que lhe determinardes. Mas ten

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de cuidado; são seres terríveis e devem estar constantemente
ocupados; se deixardes de lhe dar trabalho, ele vos tirará a vida”.
O homem replicou: “Isto é fácil, dar-lhe-ei trabalho para
toda a minha vida”. Foi ao bosque e depois de repetir várias
vezes a palavra mágica, um enorme gênio se lhe apresentou e
disse: “Eu sou o gênio, e fui conquistado por vossa magia; deveis
Ter-me ocupado constantemente, senão vos matarei”. O
homem lhe ordenou: “Construí-me um palácio”. “Já está construído”,
lhe disse. “Traz-me dinheiro”, disse logo. “Aqui está o
dinheiro”, respondeu-lhe o gênio. “Abre este monte e edifica
uma cidade neste lugar”. “Já está feita” , replicou; “que quereis
mais?” Então o homem começou a temer, por não ter nada
mais para mandar fazer, pois o gênio fazia tudo num momento.
O gênio não esperou: “Ou me dais serviço ou vos mato”, lhe
disse.
O pobre homem estava aterrorizado; não havia ocupação
para dar-lhe; todo assustado, correu à casa do sábio e lhe suplicou:
“Oh! Senhor, salvai-me a vida”. E como este lhe perguntasse
o que acontecia, lhe respondeu: “Não tenho nada mais
para mandar o gênio fazer; tudo o que lhe ordeno, fá-lo num
momento, e ameaça matar-me se eu não lhe der mais trabalho”.
Naquela hora chegou o gênio: “Vou matar-vos”, exclamou
e se dispôs a fazê-lo. O homem começou a tremer e a rogar
ao sábio que lhe salvasse a vida. Este lhe disse: “Eu vou
encontrar-vos uma saída. Observai aquele cão que tem a cauda
enrolada. Tirai rapidamente vossa espada, cortai-a e mandai o
gênio endireitá-la”. O homem assim fez. O gênio pegou a cauda
e com muito jeito conseguiu endireitá-la, porém, sempre
que a largava, ela se enrolava de novo. Durante dias inteiros
endireitava a cauda e esta tornava a enrolar-se, até que por fim
exclamou:
“Jamais me vi em tal aperto; sou um velho e veterano
gênio, porém nunca me vi em tão grande dificuldade. Vou

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propor-vos um trato: permiti que me retire e vos deixarei tudo
o que já vos dei, comprometendo-me a não vos fazer mal algum”.
O homem ficou contente e o aceitou alegremente.
Este mundo se parece com a cauda enroscada do cão: as
pessoas têm lutado para endireitá-la durante centenas de anos,
porém quando a soltam, ela se enrola de novo. Como poderia
ser de outro modo? Todos têm que aprender primeiro a agir
sem se ligar à ação; então já não será um fanático. Quando
compreendermos que este mundo é como a cauda enrolada do
cão, que nunca se endireitará, então não seremos fanáticos.
Se não houvesse fanatismo no mundo, este progrediria
mais rapidamente. É um erro crer que o fanatismo pode contribuir
de algum modo para o progresso do gênero humano; ao
contrário, é uma peçonha que, criando ódios e cóleras, é a causa
das pessoas lutarem entre si, tornando-se insensíveis à compaixão.
Pensamos que tudo quanto fazemos ou possuímos é o
melhor do mundo, e que o que não fazemos nem possuímos
não tem valor. Assim, recordai-vos do exemplo da cauda enrolada,
para evitar vos tornardes fanáticos. Não tendes necessidade
de vos atormentar nem de perder o sono por causa do
mundo; seguirá seu caminho sem vós. Somente quando tiverdes
evitado o fanatismo, agireis bem. É o homem mentalmente
equilibrado, de juízo sereno e capaz de experimentar simpatia
e amor, que faz boa obra e se favorece a si mesmo. O fanático
é néscio e não sente; jamais pode modificar o mundo nem se
tornar puro e perfeito.
Em síntese, os principais pontos deste capítulo são: Primeiro,
recordar que somos devedores do mundo e que este nada
nos deve. É um grande privilégio para nós sermos permitido
fazer algo pelo mundo. Ao ajudá-lo, em realidade nos ajudamos
a nós mesmos. Segundo, que há um Deus neste universo.

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Não é certo que este universo flutue sem destino e tenha necessidade
do vosso auxílio ou do meu. Deus está sempre presente
nele. É imortal, eternamente ativo e infinitamente vigilante.
Quando todo universo dorme, Ele permanece velando; age incessantemente;
as mudanças e manifestações do mundo são
obra Sua. Terceiro, não devemos odiar ninguém.
Este mundo continuará sempre sendo uma mistura de
bem e de mal.
Nosso dever é simpatizar com os débeis e amar, inclusive,
os malfeitores. O mundo é um grande ginásio moral, onde
devemos exercitar-nos para ser cada dia mais fortes espiritualmente.
Quarto, não devemos ser fanáticos, porque o fanatismo
é oposto ao amor. Ouvireis continuamente que os fanáticos
dizem: “Eu não odeio o pecador e sim o pecado”; porém estou
disposto a ir a qualquer parte, por longe que seja, para encontrar
o homem realmente capaz de distinguir entre o pecado e
pecador. É muito fácil dizer. Se pudéssemos distinguir bem entre
qualidade e substância, poderíamos chegar a ser perfeitos.
Não é fácil fazê-lo. E quanto mais tranquilos formos e menos
alterados estiverem os nossos nervos, mais amaremos e melhor
agiremos.

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Capítulo 6 – Desapego é a
abnegação completa
Assim como cada ação que de nós emana a nós volta
como reação, também nossas ações podem agir sobre outras
pessoas e as desta sobre nós. Certamente já tendes reparado
que quando as pessoas cometem más ações, tornam-se cada
vez mais pervertidas, e que, quando começam a praticar o bem,
ficam cada vez mais fortes e aprendem a fazer o bem em qualquer
ocasião. Esta intensificação da ação só se explica porque
agimos e reagimos uns sobre os outros.
Tomemos um exemplo na física. Enquanto executo uma
ação, pode-se dizer que minha mente vibra de determinada
maneira, e todas as mentes que estão em circunstâncias análogas
serão afetadas por minha mente. Se numa habitação colocamos
diferentes instrumentos musicais afinados no mesmo
tom, observa- se que, quando se toca um deles, os outros vibram
reproduzindo a mesma nota. Do mesmo modo, todas as
mentes que têm a mesma tensão, serão afetadas pelo mesmo
pensamento.
Supondo que eu cometa um ato mau, minha mente vibra
com uma frequência especial e todas as mentes semelhantes
podem ser afetadas pela vibração de minha mente. Da mesma
forma, quando pratico uma boa ação, minha mente vibra em
outra frequência e as que estão em uníssono com a minha têm
a possibilidade de ser afetadas por ela. E este poder de uma
mente sobre outra variará em proporção à intensidade do pensamento.
Segundo este símile, pode-se dizer que assim como as
ondas de luz podem levar milhões de anos antes de alcançar

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um objeto, assim também as ondas mentais podem viajar centenas
de anos antes de encontrar um objeto com o qual vibrem
em uníssono. É provável que nossa atmosfera esteja cheia de
vibrações mentais boas e más. O pensamento projetado por um
cérebro segue vibrando, por assim dizer, até encontrar uma
mente devidamente sintonizada que o capte. Da mesma forma,
quando um homem comete más ações, induz em sua mente um
certo estado vibratório, e as ondas correspondentes pugnarão
por alcançá-la. Esta é a razão pela qual um malfeitor se torna
cada vez pior. Suas ações se intensificam.
A mesma coisa acontece com as pessoas que praticam
ações boas; sua mente capta cada vez mais as boas ondas existentes
na atmosfera, e com elas intensifica suas ações boas.
Consequentemente, corremos um perigo duplo ao praticarmos
o mal. Primeiro, nos abrimos a todas as más influências que
nos rodeiam, e segundo, criamos um mal que afetará os outros,
talvez daqui a cinquenta anos. Ao fazer o mal, prejudicamos a
nós mesmos e aos demais. Ao fazer o bem, beneficiamos a nós
mesmos o ao mesmo tempo aos demais. Como todas as outras
forças do homem, as do bem e as do mal se acumulam no exterior.
De acordo com a Karma-Yoga, a ação realizada não pode
ser destruída enquanto não tiver dado seus frutos; ninguém
pode impedir seus resultados. Se eu pratico uma ação má, terei
que sofrer por ela; não há nada no universo capaz de evitar ou
detê-la. Do mesmo modo, se faço algo de bom, não existe poder
no universo que impeça suas boas consequências. A causa
deve ter o seu efeito; nada a pode impedir ou minorar. Agora
se apresenta uma questão muito sutil, referente a Karma-Yoga:
é que nossas ações, boas ou más, estão Intimamente relacionadas
umas com as outras. Não podemos traçar uma linha demarcatória
e dizer: esta é inteiramente boa e aquela má. Não

59
existe ação que não produza bons e maus frutos ao mesmo
tempo.
Tomemos um exemplo mais próximo. Eu vos falo: alguns
de vós pensam que estou fazendo bem e que ao mesmo
tempo mato centenas de micróbios na atmosfera; logo faço mal
a outros. Quando a ação nos interessa muito de perto ou afeta
gratamente a quem conhecemos, dizemos que é boa. Por
exemplo: minha conversação poderá parecer muito agradável
para vós, porém os micróbios opinarão de maneira diferente.
Não vedes os micróbios, porém vedes a vós mesmos. A maneira
como minha conversação vos afeta se torna evidente para
vós, porém não a maneira como ela afeta os micróbios. Do
mesmo modo, se analisarmos nossas más ações, veremos também
que elas têm podido produzir algum bem. Aquele que na
boa ação descobre o segredo da ação e em meio do mal algum
bem, conheceu o segredo da ação.
Mas, que resulta de tudo isto? Pois não pode existir nenhuma
ação inteiramente pura nem perfeitamente impura no
sentido de fazer o bem ou mal. Não podemos respirar nem viver
sem causar mal aos outros, e cada partícula de alimento
que comemos tiramo-la da boca de um terceiro. Nossas próprias
vidas destroem micróbios, porém nós temos que crescer
às custas de uns e de outros. Disto se deduz que a perfeição
jamais será alcançada pela ação. Mesmo que atuemos durante
toda a eternidade, não conseguiremos sair deste intrincado
emaranhado; podeis agir sem cessar; não existirá fim para esta
inevitável associação de bem e de mal no resultado da ação.
Consideremos o segundo ponto: qual é o fim da ação?
Observamos que a maior parte das pessoas crê que chegará
uma época em que o mundo será perfeito; que não existirão
mais enfermidades, desgraças e maldades. Esta ideia é muito
boa para animar e entusiasmar os ignorantes, porém, se pen

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sarmos um momento, veremos que não pode ser assim. Acaso
o bem e o mal não são o verso e o reverso de uma mesma moeda?
Como pode existir bem sem mal ou mal sem bem? Que
entendemos por perfeição? A vida perfeita cairia numa contradição.
A vida é uma luta contínua entre nós mesmos e o exterior.
Continuamente nos encontramos lutando com a natureza
externa, e se somos vencidos, nossa vida sucumbe. Por exemplo,
lutamos por alimento e ar. Se qualquer destas coisas nos
faltarem, morreremos. A vida não é uma coisa amável que se
desliza suavemente, e sim, um esforço contínuo. Esta luta
complexa entre o interior e o exterior é o que chamamos vida.
É, pois, evidente que quando cessar esta luta, terminará também
a vida.
O que se entende por felicidade ideal, é a cessação da luta.
Mas então a vida terminou, porque a luta só se acaba quando
a vida termina. Temos visto que ajudando o mundo, ajudamos
a nós mesmos. O efeito principal de nossa ação em benefício
alheio é ela purificarmos a nós mesmos. Esforçando-nos
constantemente em fazer o bem aos outros, conseguimos esquecermos
de nós mesmos; este esquecimento do eu é a grande
lição que nos falta aprender. O homem pensa nesciamente que
pode achar a felicidade, porém depois de muitos anos de luta
descobre que a verdadeira felicidade consiste em matar o egoísmo,
e que ninguém, exceto ele, pode fazê-lo feliz.
Cada ato de caridade, cada pensamento de simpatia, cada
ação boa reduz nossa vaidade e fez com que nos consideremos
insignificantes; portanto, tudo é bom. Aqui achamos que
JNANA, BHAKTI e KARMA convergem para o mesmo ponto.
O ideal mais elevado é a eterna e total abnegação: esquecer o
“eu” para não pensar mais do que no “tu”. Quer seja o homem
consciente ou inconsciente disto, karma-yoga o leva até o fim.

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Um sacerdote poderá espantar-se da ideia de um Deus impessoal,
insistirá sobre o pessoal e sustentará sua identidade e individualidade
própria. Porém sua ética, se é realmente boa, só
pode estar baseada na mais elevada abnegação. Esta é a base
de toda a moral; podeis torná-la extensiva a todos os homens,
animais, ou anjos, porém é a única ideia básica, o único princípio
fundamental que nos sustenta todo sistema de moral.
Encontrareis várias espécies de homens neste mundo.
Primeiro existem os homens divinos, cuja abnegação é completa;
esses fazem o bem aos outros, mesmo à custa do sacrifício
de suas vidas. Se existissem cem homens desses em alguns
países, tais países nunca teriam motivos para se afligir; porém,
infelizmente, eles são muito poucos, Em seguida, existem os
homens bons, que fazem bem aos outros mas desde que não se
prejudiquem a si mesmos; e uma terceira classe: os que para o
bem de si mesmos prejudicam os demais. Um poeta sânscrito
disse que existe uma quarta classe de pessoas que fazem o mal
só pelo prazer de fazê-lo. Assim também encontramos, de outro
lado, o homem mais elevado que faz o bem só por amor ao
bem.
Existem duas palavras sânscritas: pravritti que significa
“atrair”, e nivritti, “repelir”. Atrair é o que chamamos o “eu” e
“meu”; inclui as coisas que enriquecem o “eu” com posição,
dinheiro, poder, fama e nome. Este é o pravritti, a tendência
natural de cada ser humano: tomar tudo de toda as partes e
amontoá-lo, ao redor de um centro, sendo este o próprio e importantíssimo
eu do homem. Quando esta tendência começa a
declinar, quando se converte em nivritti, “repelir”, então começam
a moralidade e a religião. Tanto pravritti como nivritti
são resultantes da ação; a primeira é má, a segunda é boa. Nivritti
é a base fundamental de toda moralidade e religião, e sua
perfeição absoluta consiste em estar sempre disposto a sacrificar
a mente, o corpo e tudo mais por nosso semelhante.

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Quando um homem alcança este estado, chega à perfeição
da Karma-Yoga. Este é o mais elevado resultado das boas
ações. Mesmo que o homem não tenha estudado nenhum sistema
de filosofia, não tenha acreditado nem creia em Deus e
não tenha orado uma só vez em toda a sua vida, se o simples
poder das boas ações o levarem a um estado em que esteja disposto
a dar a sua vida pelos seus semelhantes, encontrar-se-á
no mesmo ponto do homem religioso ou do filósofo. Então vereis
que o filósofo religioso ou o homem. de ação estão todos
no mesmo ponto, e que este ponto é a abnegação.
Por muito que se diferenciem os sistemas filosóficos e
religiosos, os homens se inclinam com reverência e respeito
ante o que está pronto a se sacrificar pelos demais. Já não se
trata de credo nem doutrinas. Os grandes inimigos das ideias
religiosas se inclinam ante um ato de completa abnegação. Não
vistes que até o cristão mais fanático, quando lê a Luz da Ásia,
de Edwin Arnold, sente veneração pelo Buda que não pregou
Deus algum, e somente o auto sacrifício? O que acontece é que
o fanático ignora que suas aspirações na vida coincidem plenamente
com as daqueles a quem critica. O devoto, mantendo
seu pensamento sempre fixo em Deus, chega ao mesmo ponto
e exclama: “Faça-se a Tua vontade”, sem reservar nada para si
mesmo. Isto é abnegação. O filósofo, com seu conhecimento,
compreende que o eu é uma ilusão e o abandona facilmente;
isto é abnegação. Deste modo, karma, bhakti e jnana se reúnem
num ponto só; e isto foi ensinado pelos pregadores antigos
quando afirmavam. que Deus não é o mundo. Uma coisa é
o mundo e outra é Deus; o que eles entendem por mundo é
egoísmo. O altruísmo é Deus. Alguém pode viver num trono
ou palácio de ouro e ser perfeitamente altruísta, e por isto estará
em Deus. Outro pode viver numa cabana, vestir farrapos, e
no entanto, se é egoísta, estará intensamente submerso no
mundo.

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Dissemos que não podemos fazer o bem sem ao mesmo
tempo praticar o mal, nem fazer o mal sem ao mesmo ter que
realizar algum bem. Em vista disto, como podemos agir? Existiram
seitas que de um modo fantástico pregaram o suicídio
como único meio de se libertar do mundo; porque, se um homem
vive, tem que forçosamente matar pobres animais e plantas,
e fazer o mal a algo ou alguém. Por conseguinte, segundo
eles, a única maneira de se livrar do mundo é morrer. Os jainistas
aprenderam esta doutrina como o ideal mais elevado.
Este ensinamento parece lógico; porém a verdadeira solução se
encontra no Bhagavad-Gita. É a teoria de não se ligar, de não
apegar-se a nada, mesmo cumprindo-se o dever na vida.
Compreendei que vos achais completamente separado
do mundo, embora vivais nele, e qualquer coisa que fizerdes
não a façais por amor a vós mesmo. Os efeitos de toda ação
que realizardes em vosso proveito, terão que pesar sobre vós
mesmos. Se é boa, recebereis o bom resultado; se é má, o mau.
Mas, qualquer ato que não seja praticado em vosso exclusivo
benefício, seja qual for, não terá efeito sobre vós. Há uma sentença
muito expressiva em nossas escrituras, que esclarece esta
ideia: “Mesmo que ele mate todo o universo e a si mesmo, não
é o matador nem o morto, quando sabe que ele não age por si
mesmo de nenhuma maneira. Portanto, Karma-Yoga ensina:
“Não abandones o mundo; vive nele, assimila suas influências
de toda forma que puderes, porém se tiver que ser em proveito
de teu gozo próprio, não atues de maneira alguma”.
Gozar não é a meta. Primeiro mata teu eu e em seguida
considera todo mundo como se fosses tu mesmo, como os antigos
cristãos que costumavam dizer: “O homem velho deve
morrer”. Este homem velho é o conceito egoísta de que todo o
mundo foi feito para que dele desfrutemos. Os pais néscios ensinam
seus filhos a orar: “Oh! Senhor. Tu criaste este sol e esta
lua para mim”, como se o Senhor não tivesse outra coisa em

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que se entreter. Não ensineis a vossos filhos semelhante tolice.
Além disso, há pessoas que pecam por outras razões: ensinamos
que os animais foram criados para satisfação de nosso estômago
e que o universo existe só para gozo do homem. Do
mesmo modo, um tigre poderia dizer: “O homem foi criado para
mim”, e orar: “Oh! Senhor, que malvados são os homens, ao
não se colocarem voluntariamente ao alcance de minhas mandíbulas;
estão violando Vossa Lei”. Se é para nós que o mundo
foi criado, nós, reciprocamente, fomos criados para ele. Que o
mundo haja sido criado para o nosso prazer é a ideia mais perversa
de quantas nos podem escravizar. Milhões de seres
abandonam periodicamente este mundo, e outros milhões vêm
ocupar o seu lugar. O mundo é para nós o que nós somos para
ele.
Para agir com retidão, temos que abandonar primeiramente
a ideia de apego. Em segundo lugar, não devemos interferir
nos acontecimentos, e sim, manter-nos em posição de testemunhas
e continuar trabalhando. Meu Mestre costumava dizer:
“Considerai vossos próprios filhos como o faz a ama”. A
ama se encarrega de vossos filhos, acaricia-os e brinca com
eles, tratando-os tão ternamente como se fossem seus; porém
logo que a despedis, preparará sua roupa e sairá da casa sem
que se recorde de vossos filhos. Assim deveis ser vós com tudo
quanto considerais como vosso. Sois a ama, e se credes em
Deus, crede também que todas estas coisas que considerais
vossas são realmente Suas.
A maior debilidade se insinua às vezes como o maior
bem e força. É um erro pensar que alguém dependa de mim ou
que possa fazer o bem a outrem. Esta crença é a causa de nosso
apego, e do apego surge a dor. Alimentemos a convicção de
que nada depende de nós. Todos somos ajudados pela natureza,
e mesmo que faltassem milhões de nós, tudo correria da
mesma forma. O curso da natureza não será alterado por vós

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nem por mim; porém, como já foi dito, é um grande privilégio
para vós e para mim que se nos permita ajudar os outros, para
nos educarmos a nós mesmos. Esta lição devemos aprender a
todo transe, e quando a tivermos aprendido, nunca. mais seremos
infelizes; poderemos ir a qualquer parte e nos misturarmos
na sociedade sem perigo. Podeis ter regimentos de serviçais e
ainda reinos para governar, contanto que procedais baseandovos
no princípio de que o mundo não é para vós nem ele vos
necessita imprescindivelmente. Por exemplo, morre um vosso
amigo; deteve-se por isso o mundo, e espera o regresso de vosso
amigo para continuar sua marcha? Não; continua girando.
Tirai de vossa mente a ideia de que tendes de fazer algo pelo
mundo, pois ele não precisa de vosso auxílio. É uma tolice
pensar que se nasceu para ajudar o mundo; há nisso muita vaidade
e egoísmo cobrindo-se com a máscara da virtude. Quando
tiverdes compreendido que o mundo não depende de vós nem
de ninguém, vossa ação já não produzirá uma reação dolorosa.
Quando derdes algo a um homem e não esperardes nada dele,
nem mesmo a gratidão, sua ingratidão em nada vos afetará.
O karma é quem regula as ações entre os seres humanos.
Ninguém dá nada, senão que os outros nos exigem a propriedade
que tinham depositado em nossas mãos. Por que deveis
estar orgulhosos por terdes dado algo? Sois apenas o depositário
do dinheiro ou dos bens que vos foram confiados, e o mundo
os exige por seu próprio karma. Qual é, pois, a razão de vos
orgulhardes? Não há nada de importante no que dais ao mundo.
Quando adquirirdes o sentimento do desapego, nada será
bom nem mau para vós. Só o egoísmo produz a diferença entre
o bem e o mal. É coisa difícil, porém, com o tempo chegareis a
compreender que nada no universo tem poder sobre vós, a menos
que o permitais. Nada tem poder sobre o Eu do homem, a
não ser que o Eu abdique de sua independência. Assim, não
vos ligando mas sobrepondo-vos impedis que qualquer poder
possa influir sobre vós. É muito fácil dizer que nada vos afeta,

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porém, qual é o homem a quem nada afeta? A quem a má fortuna
não altera o ritmo de seus pensamentos nem modifica seu
caráter e costumes?
Houve na Índia um grande sábio chamado Vyasa; foi
conhecido como autor dos aforismos vedantinos e como um
santo. Seu pai pensou em chegar à perfeição mas fracassou.
Seu avô também não conseguiu êxito. Sua bisavó intentou sem
o conseguir. Vyasa mesmo não a alcançou de maneira perfeita,
porém seu filho Shuka nasceu perfeito. Depois de ensinar-lhe a
verdade, Vyasa mandou seu filho à corte do rei Janaka Videka.
(Videka significa “sem corpo”). Embora rei, tinha esquecido
completamente que era um corpo, pois o sentia o espírito. O rei
soube que o filho de Vyasa estava a caminho para aprender
com ele a sabedoria e fez certos preparativos antecipadamente.
Quando o menino se apresentou às portas do palácio, os guardas
não fizeram caso dele. Unicamente lhe indicaram um assento
e aí ele permaneceu três dias e três noites sem que ninguém
lhe desse uma palavra. Filho de um grande sábio, seu pai
era honrado por todo o país, e ele mesmo era uma pessoa muito
respeitável; no entanto, os grosseiros e vulgares guardas do
palácio não lhe deram atenção. Em seguida, e de maneira imprevista,
os ministros do rei e altos dignitários chegaram-se a
ele e o receberam com as maiores honras. O rosto sereno de
Shuka não se alterou em nada pelo tratamento que lhe dispensaram;
era em meio do luxo o mesmo que quando aguardava à
porta. Então foi levado ante o rei. Estava este sentado no trono,
e havia música e danças e outras diversões. O rei lhe deu um
copo de leite, cheio até a borda, e lhe pediu que desse sete voltas
ao redor da sala sem que derramasse uma só gota. O menino
pegou o copo e fez o que lhe fora ordenado. Tal como o rei
o desejou, sete vezes deu a volta, em meio da música e da atração
dos formosos rostos sem derramar uma só gota. A mente
do jovem não podia ser distraída por coisa alguma, a menos
que ele quisesse. E quando levou o copo ao rei, este lhe disse:

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“Só poderia eu repetir-vos o que vosso pai vos ensinou e
aprendestes; conheceis a verdade: voltai para casa
Assim, o homem que exerce controle sobre si mesmo
não pode ser escravo de nenhuma coisa externa. Sua mente está
liberta; unicamente um homem assim está para viver apropriadamente
no mundo. Geralmente se encontram nos homens
duas opiniões acerca do mundo. Os pessimistas dizem: “Que
horrível é este mundo; que perverso!” Os otimistas, ao, contrário:
“Quão belo e maravilhoso!” Para os que não controlam suas
mentes, o mundo é mau. Este mesmo mundo será bom para
nós, desde que sejamos donos de nossas mentes. Então nada
poderá afetar-nos, nem seu mal; acharemos que tudo ocupa seu
lugar adequado, que tudo é harmonioso. Alguns que começam
por dizer que o mundo é um inferno, terminam por julgá-lo um
céu quando conseguem controlar suas mentes. Se somos verdadeiramente
karma-yogues e desejamos alcançar o autodomínio,
onde quer que comecemos estaremos certos de terminar na
perfeita abnegação; e logo que este eu ilusório tenha desaparecido,
o mundo, que a princípio nos parecia mau, se transformará
no próprio céu. Sua mesma atmosfera será bendita; cada rosto
humano nos parecerá bom. Tal é o fim e aspiração do Karma-
Yoga e tal sua perfeição na vida prática.
As yogas não se contradizem; cada um deles nos conduz
ao mesmo fim e nos torna perfeitos; só que devem ser rigorosamente
praticados. Todo o segredo se encontra na prática.
Primeiro deveis ouvir, em seguida pensar e depois agir. Isto é
certo em Karma-Yoga. Primeiro tendes que compreender o que
é; muitas coisas que não compreendeis, se tornarão claras ao
escutardes e pensardes nelas frequentemente. A explicação de
tudo esta finalmente em vós mesmo. Ninguém foi realmente
educado por outro; cada qual tem que se educar a si mesmo. O
mestre externo só oferece as sugestões que despertem o mestre
interno e o ponham em situação de compreender as coisas. Es

68
tas então se nos apresentam claras, por nosso próprio poder de
percepção e pensamento, e as realizaremos em nossa própria
alma; e esta realização, ao desenvolver-se, se converterá num
intenso poder de vontade. Primeiro temos o sentimento, depois
o querer e por último a vontade (essa tremenda força que correrá
em cada veia, nervo e músculo, até que todo o conjunto de
vosso corpo se transforme num instrumento de altruísta yoga
de ação).
Esta aquisição não depende de nenhum dogma ou crença.
Não importa que se seja judeu, cristão ou gentio. Sois altruísta?
Esta é a questão. Se o sois, sereis perfeito sem ler um só
livro religioso nem entrar numa só igreja ou templo. Cada uma
de nossas yogas está apta a tornar o homem perfeito, mesmo
sem auxílio dos outros, porque todos chegam ao mesmo fim.
As yogas da ação, sabedoria e devoção podem servir como
meios diretos e independentes para a aquisição de “moksha”.
“Só os néscios dizem que o trabalho e a filosofia são diferentes”.
Para os sábios, ainda que pareçam diferentes, ambos conduzem
à meta da perfeição humana.

69
Capítulo 7 – Liberdade
Além do significado de atuar, dissemos que, psicologicamente
considerada, a palavra karma quer dizer causação.
Qualquer trabalho, ação ou pensamento que produza um efeito,
chama-se karma. Assim, “lei de karma” significa “lei de causa
e efeito”. Onde quer que exista uma causa, produz-se um efeito;
esta necessidade não pode ser evitada, e é, segundo nossa
filosofia, uma lei que se cumpre em todo o universo, enquanto
de um modo é o resultado de uma ação passada, de outro modo
se converte em causa de seu próprio efeito. É necessário, além
disso, considerar o que significa a palavra lei. Por lei entendemos
a tendência de repetir uma série de fenômenos. Quando
vemos um fato seguido de outro ou que transcorre simultaneamente,
esperamos que esta sequência ou coexistência torne a
ocorrer.
Os antigos lógicos e filósofos da escola Nyâyâ denominavam
esta lei de Vyâpti. Segundo eles, nosso conceito de lei
se deve à associação. Uma série de fenômenos está em nossa
mente, associada a certas coisas, segundo uma ordem invariável;
desta forma, qualquer coisa que percebemos num dado
momento é imediatamente transferida a outros fatos de nossa
mente. Toda ideia, ou, segundo nossa psicologia, cada vibração
produzida na substância mental chitta, deve dar nascimento
a vibrações semelhantes. Esta é a ideia psicológica da associação
e o motivo é apenas um aspecto deste princípio. A associação
se chama Vyâpti. No mundo externo a ideia de lei é
igual à do mundo interno: a expectativa de que um fenômeno
particular seja seguido por outro e que a série se repita. Portanto,
estritamente falando, a lei não existe na natureza. Praticamente
é um erro dizer que a gravitação existe na terra ou que
há alguma lei que exista objetivamente nalguma parte da natureza.

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A lei é o método ou a maneira como nossa mente percebe
um série de fenômenos; tudo está na mente. Certos fenômenos
que ocorrem sucessiva ou simultaneamente, capacitam
nossas mentes a perceber o método da série, e constituem o
que chamamos lei.
A imediata questão a considerar é a definição de uma lei
universal. Nosso universo e a porção de existência caracterizada
pelo que os psicólogos sânscritos chamam Desha-kâlanimitta,
ou seja, o que a psicologia europeia chama espaço,
tempo e causação. O universo é apenas uma parte da existência
infinita, posta num molde particular composto de tempo, espaço
e causação. Do que se deduz que a lei é semente possível
dentro deste universo condicionado, não podendo existir lei alguma
fora dele. Quando falamos de universo, entendemos somente
a porção de existência limitada por nossa mente; o universo
dos sentidos, que podemos ver, sentir, tocar, ouvir, pensar
e imaginar. É o único que está sob a lei; além dele a existência
não pode estar sujeita à lei, porque a causação não se estende
fora do mundo de nossas mentes. Tudo quanto esteja fora
do alcance de nossa mente e sentidos, não se acha submetido
à lei de causa e efeito, pois não há associação mental de
coisas na região inacessível aos sentidos, nem causação sem
associação de ideias.
Somente quando “o ser” ou existência está modelado em
nome e forma, é que obedece à lei de causação; diz-se, então,
que está sob a lei, porque toda lei tem sua essência na causação.
Portanto, não pode existir o livre arbítrio; mesmo estas palavras
são uma contradição, porque o que conhecemos é a vontade,
e tudo o que conhecemos está dentro do nosso universo, e
modelado pelas condições de espaço, tempo e causação. Tudo
quanto conhecemos ou podemos conhecer está por força submetido
à lei de causação, e por consequência não pode ser livre.
Agem nele outros agentes, que por sua vez se transformam

71
em causa. Porém aquilo que se transformou em vontade, será
livre quando romper os moldes em que está encerrada: espaço,
tempo e causalidade. Provém da liberdade, modela-se na matriz
das ligaduras, sai dela e volta de novo à liberdade.
Tem-se procurado saber donde vem e aonde vai este
universo; e tem-se respondido que vem da liberdade, sujeita-se
à fatalidade e volta de novo à liberdade. Assim, quando dizemos
que o homem não é mais que o ser infinito se manifestando,
queremos dizer que só uma parte muito pequena dele é em
realidade o homem; este corpo e esta mente que percebemos
são apenas uma parte do todo, apenas um ponto da existência
infinita. O universo é somente uma partícula da infinita existência,
e todas nossas leis e limitações, nossas alegrias, nossas
felicidades e nossas esperanças, estão dentro dele; todo nosso
progresso e nossa decadência se acham nos limites de sua pequena
jurisdição. De maneira que vedes quão infantil é esperar
uma continuação deste universo (criação de nossa mentes) e
aguardar o céu que, depois de tudo, só pode ser uma repetição
deste mundo que conhecemos. Como vedes, é um desejo impossível
e infantil adaptar a totalidade da existência infinita a
esta existência limitada e condicionada que conhecemos.
Quando um homem afirma que terá sempre a mesma
coisa que agora possui, ou, como tenho dito algumas vezes,
quando ele pede uma religião confortável, podeis estar seguro
de que se degenerou tanto que já não é capaz de pensar em algo
mais elevado do que o é atualmente. Este homem é tão só o
que são suas mesquinhas circunstâncias atuais. Esqueceu sua
natureza infinita, e seu pensamento se circunscreve às pequenas
alegrias, tristezas e aborrecimentos do momento. Pensa
que esta coisa finita é o infinito; e não somente isto, mas não
quer abandonar tão ridícula ideia. Aferra-se desesperadamente
a Trishnâ, a sede de viver, que os budistas chamam Tanhâ e
Tissâ. Podem existir milhões de classes de felicidades, de se

72
res, de leis, de progresso e de causação atuando fora deste pequeno
universo que conhecemos, pois a totalidade de tudo isto
compreende apenas uma seção de nossa natureza.
Para alcançar a liberdade, devemos transcender os limites
do nosso universo. O perfeito equilíbrio, ou o que os cristãos
chamam a paz, que se encontra além de todo entendimento,
não pode ser conquistado neste mundo, nem no céu nem em
lugar algum onde nossa mente possa pensar, os sentidos perceber
e a imaginação conceber. Nenhum destes lugares pode nos
dar a liberdade, porque todos eles estariam dentro de nosso
universo e este está limitado pelo tempo, espaço e causação.
Podem existir lugares que sejam mais etéreos do que nossa terra,
onde os prazeres sejam mais intensos, porém mesmo esses
lugares estarão dentro de nosso universo, e portanto, sujeitos à
lei; por conseguinte, devemos ir mais além, e a verdadeira religião
começa onde termina o nosso universo. As rápidas alegrias
e sofrimentos findam onde a realidade começa. Enquanto
não abandonarmos a sede de viver, a atração pela existência
transitória e condicionada, não teremos nem sequer a esperança
de vislumbrar essa infinita liberdade que existe além do limitado.
É lógico que não existe mais do que uma só maneira de
obter esta liberdade (uma das mais nobres aspirações da humanidade):
o desprezo desta pequena vida, deste pequeno universo,
desta terra, do céu, do corpo, da mente e de tudo o que está
limitado e condicionado. Se renunciarmos o nosso apego por
este pequeno universo dos sentidos e da mente, seremos imediatamente
livres. É o único modo de se livrar dos laços e ir
além das limitações da lei e da causação.
Todavia, é, sumamente difícil deixarmos de nos aferrar a
este universo; muito poucos o conseguem. Nossos livros mencionam
um dos modos de obtê-lo. Um é chamado nei, neti (isto

73
não, isto não), e o outro se chama iti (isto); o primeiro é negativo
e o segundo positivo. A maneira negativa é a mais difícil e
só possível para homens de mentes elevadas e poderosa vontade;
desses que se põem de pé e dizem: “Não, não aceito isto”, e
a mente e o corpo obedecem sua vontade, e surgem vencedores
da prova. A maioria da humanidade escolhe o modo positivo, o
caminho do mundo, usando de todas as limitações para romper
essas mesmas limitações. Esta é também uma maneira de renunciar;
só que age de maneira lenta e gradual, conhecendo as
coisas, gozando delas e obtendo, desta maneira, experiência,
conhecendo a natureza das coisas até que a mente termina por
abandoná-las.
O primeiro modo de se desligar é mediante o raciocínio;
o segundo, pela experiência. O primeiro é a senda da jnanayoga
e se caracteriza pela negativa de realizar qualquer obra; o
segundo é, a karma-yoga, aquela que age sem cessar. Todos
devem trabalhar no universo. Só aqueles que estão satisfeitos
com o Ser, cujas mentes nunca saem fora do Ser, para quem o
Ser é tudo em todos, não trabalham. Os demais devem trabalhar.
Uma corrente que flui por seu impulso próprio cai numa
cova e forma um redemoinho, e depois de girar algum tempo
volta a seguir seu curso. A vida humana se assemelha a esta
corrente. Penetra no redemoinho, gira neste mundo de espaço,
tempo e causação exclamando: “meu pai, meu irmão, meu nome,
minha fama, etc.”, e por fim sai dali e readquire a liberdade
original. Conhecendo-a ou não, sejamos ou não conscientes
dela, todos trabalhamo-los para sair do sono do mundo. A experiência
do homem é para torna-lo capaz de sair deste torvelinho.
Que é Karma-Yoga? É o conhecimento do segredo da
ação. Todo universo trabalha. Para que? Para sua elevação, pa

74
ra sua liberdade. Desde o átomo até o mais elevado dos seres,
trabalha para alcançar a liberdade de mente, do corpo e do espírito.
Todas as coisas pugnam continuamente por obter a liberdade
e fugir da escravidão. O sol, a lua, a terra, os planetas,
todos trabalham para se libertarem das limitações. As forças
centrífugas e centrípetas da natureza caracterizam o nosso universo.
Em vez de sofrermos para chegar a conhecer as coisas
como elas são, aprendemos de Karma-Yoga o segredo da ação,
o método de trabalhar, a maneira de agir.
Uma soma enorme de energia pode ser gasta em vão, se
não soubermos como utilizá-la. Karma-Yoga transforma o trabalho
em ciência, e com seu auxílio aprenderemos a utilizar
melhor as forças deste mundo. A ação é inevitável, e assim deve
ser; porém devemos atuar com o mais elevado propósito.
Karma-Yoga nos ensina que este mundo possui uma
existência efêmera, passageira, e que a liberdade não se encontra
aqui, porém mais além. Para poder escapar das ligaduras do
mundo, devemos viver com cautela. Podem existir pessoas excepcionais,
como as que acabo de citar, capazes de se desligarem
do mundo, como uma cobra abandona sua pele e separada
dela a contempla. Sem dúvida alguma existem esses seres excepcionais,
porém o resto da humanidade tem que passar lentamente
pelo mundo da ação; karma yoga ensina o processo e
o método de realizá-lo com vantagem.
“Trabalha sem descanso porém abandona tudo aquilo
que te ligue ao teu trabalho”. Não vos identifiqueis com coisa
alguma. Conservai vossa mente livre. As dores e misérias que
contemplais são as condições necessárias deste mundo. A pobreza,
a riqueza e a felicidade são momentâneas; não pertencem
de forma alguma à nossa natureza real. Nossa natureza está
muito além do sofrimento e da felicidade, além dos sentidos
e além da imaginação.

75
No entanto, devemos continuar trabalhando sem descanso.
“O sofrimento vem do fato de se ligar à ação”. No momento
em que nos identificamos com a ação, sentimo-nos infelizes;
porém, não nos identificando com ela, evitamos a desgraça.
Se um lindo quadro pertencente a qualquer pessoa fosse
posto ao fogo, não nos sentiríamos infelizes, porém, quando é
o nosso próprio quadro que se queima, então nos consideramos
infelizes. Por que isto? Os dois quadros são formosos, talvez
cópia do mesmo original, porém em um caso se sente muito
mais aflição do que no outro. É porque no último caso nos
identificamos com o quadro, o que não aconteceu com o primeiro.
O eu e o meu são a causa de toda dor. Com o desejo de
posse surge o egoísmo, e com ele a miséria. Cada ato, cada
pensamento egoísta, nos liga a alguma coisa, e imediatamente
nos convertemos em seus escravos.
Cada ondulação em chitta que diz “eu e meu”, liga imediatamente
uma cadeia em nós e nos transforma em escravos, e
quanto mais dissermos “eu e meu” , mais aumentaremos a escravidão
e a aflição.
Portanto, Karma-Yoga nos ensina a desfrutar a beleza de
todos os quadros do mundo, porém sem nos identificarmos
com nenhum deles. Nunca digais “meu”. Quando disserdes esta
coisa é minha, o sofrimento surgirá imediatamente. Nem sequer
digais mentalmente “filho meu”. Possuis um filho, porém
não digais “meu”. Se o fizerdes, começareis a ser infelizes.
Não digais “minha casa” nem “meu corpo”. Toda a dificuldade
está nisto. O corpo não é vosso, nem meu, nem de ninguém.
Os corpos vem e se vão impulsionados por leis naturais, porém
nós não somos nada mais do que o testemunho, e como tais,
donos de nossa liberdade. Este corpo não é mais independente
do que um quadro ou uma parede. Por que havemos de nos li

76
gar a um corpo? Se alguém pinta um quadro, quando o termina
segue seu caminho. Não projeteis esse tentáculo de egoísmo:
“eu devo possuí-lo”. Tão logo o projeteis, começa a desdita.
Assim, karma-voga diz: controlai primeiramente o tentáculo
do egoísmo, e quando o tiverdes conseguido, não permitais
que a mente se submerja de novo nas ondas do egoísmo.
Então podereis enfrentar o mundo e trabalhar tanto quanto puderdes.
Frequentai qualquer companhia, aonde quer que vades,
e nunca sereis contaminados pelo mal. A folha de Loto está na
água mas esta não pode aderir a ela; assim sereis vós no mundo.
Isto se chama vatragya, ou desapego. Creio que já vos disse
que sem desapego não pode haver yoga.
O não ligar-se a coisa alguma é a base de todos as yogas.
O homem que renuncia viver numa casa, usar vestimentas
ricas ou comer alimentos delicados, e mora no deserto, pode,
não obstante, estar muito ligado. Sua única posse, seu corpo,
pode ser tudo para ele, e enquanto viver estará lutando por
amor ao seu próprio corpo. O desligar-se não é ação que possamos
cumprir com o corpo físico, porém com a mente. A cadeia
que nos escraviza ao “eu e ao meu” está na mente. Se nosso
corpo e nossos sentidos estiverem desligados, seremos livres
em qualquer parte em que nos encontremos.
Um homem pode ocupar um trono e estar perfeitamente
desligado; outro pode vestir farrapos e no entanto estar ligado.
Primeiro deveis alcançar este estado de desapego e em seguida
trabalhar incessantemente. Karma-Yoga dá o método que nos
auxiliará a renunciar toda atração, mesmo que em verdade seja
muito difícil.
Eis aqui os dois métodos para se desligar de todo laço. O
primeiro é para os ateus. Estes estão entregues às suas próprias
forças; atuam mediante a sua vontade própria e os podares de

77
sua mente e discernimento, dizendo: “eu não devo estar ligado”.
Para os crentes, existe outro método, muito mais fácil:
abandonam os frutos da ação ao Senhor, trabalhando sem ligar-
se aos resultados. Qualquer coisa que vejam, sinta, façam
ou ouçam, é para Ele, pois nenhuma ação boa que realizarmos
merece alcançar benefícios. Pertencem ao Senhor; portanto, os
frutos devem ser d’Ele. Permaneçamos desligados e não esqueçamos
que nada mais somos do que servos que obedecem
ao Senhor, nosso Amo, e que os motivos que impulsionam Suas
ações nos são desconhecidos.
Tudo o que adorardes, tudo o que fizerdes, cedei-o ao
Senhor e ficai em paz. Estejamos em paz conosco mesmos e
cedamos ao Senhor nosso corpo, nossa mente e tudo mais como
um sacrifício. Em vez do sacrifício de verter oblações no
fogo, realizai este grande sacrifício dia e noite: o sacrifício do
vosso pequeno eu. “Buscando as riquezas deste mundo, Tu
foste a única riqueza que encontrei; eu me sacrifico a Ti. Buscando
alguém a quem amar, Tu foste o único amado que encontrei;
eu me sacrifico a Ti”. Repitamos isto dia e noite, e
acrescentemos: “nada para mim; não importa se a coisa é boa
ou má, ou indiferente, pois tudo sacrifico a Ti”. Renunciemos
dia e noite o nosso eu ilusório até que isto se converta num hábito,
até que nos penetre no sangue, nos nervos e no cérebro,
até que a todo o momento o corpo obedeça a esta ideia de renúncia
do eu. Então, mesmo que vos acheis num campo de batalha,
vos sentireis livre e em paz.
Karma-Yoga nos ensina que o conceito corrente do dever
está em plano inferior; não obstante todos nós devemos
cumprir nossos deveres. No entanto, comprovamos que esta
concepção do dever é causa frequente de grandes infelicidades.
O dever se transforma em uma enfermidade para nós; empurra

78
nos continuamente para diante. Apodera-se de nós e faz-nos
miseráveis. É o veneno da vida humana. Esta ideia de dever é a
canícula de um dia de verão que abrasa o mais íntimo da alma
humana. Olhai estes pobres escravos do dever. Não lhes sobra
tempo nem para fazerem suas orações, nem para se banharem.
O dever os absorve continuamente. Vão trabalhar e ali o dever
os domina. Voltam para casa, e ali pensam no trabalho do dia
seguinte. O dever pesa sobre eles. Vivem como escravos, até
que por fim caem nas calçadas e morrem encilhados como se
fossem cavalos. É assim que compreendem o dever, quando o
único dever é estar-se desligado e agir como ser livre, abandonando
as obras a Deus.
Todos os nossos deveres Lhe pertencem. Felizes aqueles
que recebem Suas ordens. Servimos enquanto nos cumpre servir;
se fazemos bem ou mal, a quem interessa? Se fazemos o
bem, não colhemos o fruto; se fazemos o mal, ficamos livres
de cuidados. Estai tranquilos. Sede livres e trabalhai. Esta classe
de liberdade é muito difícil de se obter. Quão fácil é interpretar
a escravidão como um dever: a mórbida atração da carne
pela carne! Os homens se esforçam por obter aquilo que lhes
apetece. Perguntai-lhes por que o fazem, e vos dirão: “é meu
dever”. Porém mentem, pois em realidade se trata da absurda
avidez pelo ouro e pela ganância.
Mas, depois de tudo isto, que é o dever? É o impulso da
carne, de nossas ligações, e quando temos um laço estabelecido,
chamamo-lo dever. Por exemplo: nos países onde não existe
o matrimonio, não há deveres entre marido e mulher; os
amantes vivem juntos em virtude de suas ligações, e esta classe
de vida familiar chega a estabilizar-se no transcurso de algumas
gerações até converter-se em dever. É, por assim dizer,
uma espécie de enfermidade crônica. Quando as ligações se
tornam crônicas, as batizamos com o pomposo nome de dever.
Então lhes oferecemos flores, soam os clarins, recitamos al

79
guns versos dos livros sagrados, e geralmente o mundo continua
em suas lutas e os homens se roubam uns aos outros em
nome deste dever.
O dever é bom quando ponha cobro à brutalidade. Pode
ser benéfico para os homens inferiores, incapazes de ter outros
ideais; porém, aqueles que desejam ser karma-yogues devem
abandonar semelhante conceito do dever. Não há dever para
vós nem para mim. Tudo o que derdes ao mundo, dai-o de coração,
mas não como um dever. Nem sequer penseis nisso.
Não vos obrigueis. Além disso, por que havereis de vos obrigar?
Tudo quanto fizerdes a título de obrigação, servirá para
atar-vos. Por que deveis ter deveres? Cedei tudo a Deus. Neste
forno ardente onde o fogo do dever queima tudo, bebei vosso
copo de néctar e sede feliz.
Nós todos cumprimos a Sua vontade, e nada temos que
ver com recompensas nem castigos. Se quiserdes recompensa,
obtereis igualmente castigo; a única maneira de se livrar do
castigo é abandonar a ideia de felicidade, porque as duas se
encontram indissoluvelmente unidas. No verso está a felicidade
e no reverso a infelicidade. De um lado, a vida, e do outro, a
morte. O único modo de transcender a morte é abandonar o
amor pela vida. A vida e a morte são a mesma coisa, observada
de pontos de vista diferentes.
De maneira igual, a ideia de felicidade sem desdita ou
da vida sem morte é muito boa para os escolares, porém o homem
inteligente compreende que se trata de uma simples oposição
de termos e renuncia a ambas. Não busqueis louvores
nem recompensas por vossas ações. Sempre que praticamos
uma boa ação, desejamos que nos agradeçam. No momento em
que entregamos algum dinheiro para uma obra de caridade,
queremos ver nosso nome inscrito nos jornais. O resultado deste
desejo é a desgraça. Os maiores homens do mundo desapa

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receram no anonimato. Os Budas e os Cristos que conhecemos
são heróis de segunda categoria, comparados com os grandes
homens ignorados. Centenas destes heróis anônimos têm vivido
em todos os países trabalhando em silêncio. Em silêncio viveram
e em silêncio morreram, e com o decorrer do tempo
seus pensamentos se manifestaram como Budas ou Cristos, os
únicos que chegam a ser conhecidos por nós.
Os homens de valor não buscam renome nem celebridade.
Abandonam suas ideias ao mundo; não pedem nada para si,
nem estabelecem escolas ou sistemas que adotem o seu nome.
Sua natureza se rebela contra estas coisas. São os verdadeiros
sátvicos, ou harmoniosos, que não provocam agitação yogues,
que habita numa caverna na Índia. Um dos homens mais assombrosos
que já vi perdeu de tal modo a percepção de sua individualidade,
que somente o Divino fala no seu interior. Se
um animal lhe morde um braço, lhe oferece imediatamente o
outro, pois compreende que é a vontade do Senhor. Tudo o que
lhe acontece pertence ao Senhor. Nunca aparece aos homens e
no entanto é um repositório de amor e de ideias amáveis.
Seguem depois os homens rajásicos ou ativos, naturezas
combativas, que tomam as ideias dos perfeitos e as pregam pelo
mundo. A classe mais elevada coleciona silenciosamente as
ideias nobres e verdadeiras; e outros os Budas e Cristos – vão
de lugar em lugar pregando e trabalhando por elas. Na vida de
Gautama Buda se nos diz que Ele é o vigésimo quinto Buda.
Os vinte e quatro Budas anteriores são desconhecidos para a
história, conquanto o Buda que conhecemos deva ter edificado
sua doutrina sobre as bases estabelecidas por seus antecessores.
Os homens superiores são tranquilos, silenciosos e anônimos.
São os homens que conhecem realmente os poderes do
pensamento, sabem que mesmo vivendo numa caverna e só te

81
nham cinco pensamentos em toda a sua vida, esses cinco pensamentos
viverão por toda a eternidade. Tais pensamentos perfurarão
montanhas e cruzarão os oceanos. Entrarão profundamente
no coração e no cérebro dos homens, que lhes darão expressão
prática em suas ações na vida. Esses homens sátvicos
estão demasiado próximos do Senhor para estar ativos e esforçar-
se por fazer o bem, como dizem, sobre a terra. Os obreiros
ativos, por bons que sejam, têm ainda um fundo de ignorância.
Só quando ainda permanecem algumas impurezas em nossa
natureza, é que podemos trabalhar. Em presença de uma Providência
constantemente vigilante, que não deixa de se aperceber
nem da descida de um pardal, como pode o homem atribuir
importância alguma ao seu próprio trabalho? Não seria isto
blasfemar, sabendo que Ele cuida de tudo neste mundo? A nós
só nos cabe prostrarmos reverentemente ante deles, dizendo:
“Seja feita a Tua vontade”.
Os homens superiores não podem trabalhar porque não
têm apego. Aqueles cujas almas já penetraram no Ser, cujos
desejos estão confinados ao Ser, que já chegaram a uma associação
indissolúvel com o Ser, não atuam. Ao agir deste modo,
nunca deveríamos pensar que podemos ajudar nem sequer a
menor partícula do universo. Não, não o podemos. Só nos ajudamos
a nós mesmos. Tal é a atitude correta que deve assumir
aquele que age. Se trabalhamos desta maneira, se temos sempre
presente que nossa atual oportunidade de trabalhar é um
privilégio que nos foi conferido, nunca ficaremos ligados a
coisa alguma.
Milhões de indivíduos como eu se julgam importantes
no mundo, porém morremos todos, e ao fim de cinco minutos
o mundo já se esqueceu de nós. Porém a vida de Deus é infinita.
“Quem pode viver um momento, respirar um momento, se
não for pela vontade deste Uno Todo-poderoso?”. Ele é a Providência
sempre ativa. Todo poder lhe pertence e está dentro

82
de Sua vontade. Por Sua vontade os ventos sopram, o sol brilha,
a terra vive e a morte passeia pelo universo. Ele é o Todo e
está em tudo. Nós só podemos adorá-lo. Renunciai os frutos da
ação, fazei o bem por amor ao bem, e só então chegareis ao
perfeito desapego. Assim se romperão as ligaduras do coração
e realizaremos a liberdade perfeita. Esta liberdade é, em verdade,
a finalidade de Karma-Yoga.

83
Capítulo 8 – O Ideal de
Karma-Yoga
A mais admirável ideia da religião vedanta é a de podermos
alcançar o mesmo fim por diferentes caminhos. Esses
caminhos estão generalizados em quatro: o da ação, o do amor,
o da psicologia e o do conhecimento. Mas deveis lembrar-vos
ao mesmo tempo de que estas divisões não são muito marcadas
nem se excluem umas às outras. Cada uma se mistura com as
demais; porém, de acordo com o tipo que prevalece, damos o
nome a cada divisão. Não quero com isto dizer que não encontreis
um homem que não possua outra faculdade além da de
agir, nem homens que sejam somente devotos fervorosos, nem
outros que não possuam mais do que simples conhecimento.
Estas divisões são feitas de acordo com o tipo ou tendências
que parecem prevalecer em cada indivíduo. Já vimos que finalmente
estas quatro sendas convergem para um ponto só.
Todas as religiões e métodos de ação e adoração nos conduzem
a fim idêntico.
Procurarei indicar-vos qual é este fim. É a liberdade tal
como a compreendo. Tudo quanto percebemos ao nosso redor
está lutando por essa liberdade, desde o átomo ao homem, desde
a insensível partícula de matéria isenta de vida até a existência
mais elevada da terra, a alma humana. O universo inteiro
é, em verdade, o resultado desta luta pela liberdade. Em todas
as combinações cada partícula trata de seguir sua trajetória
própria, porém as demais as mantêm sujeitas. Nossa terra procura
fugir do sol, e a lua da terra. Tudo tende a uma dispersão
infinita.
Tudo quanto vemos no universo tem como base esta luta
pela liberdade; é impulsionado por esta tendência que o santo

84
ora e o ladrão rouba. Quando a linha de ação não é correta, a
chamamos mal, e quando sua manifestação é correta e elevada,
a chamamos bem. Mas o impulso é o mesmo: a luta pela liberdade.
O santo está oprimido pelo conhecimento de seu cativeiro
e precisa livrar-se dele; por isso adora a Deus. O ladrão crê
que não possui certas coisas e trata de desfazer-se desta necessidade,
ver-se livre dela e por isso rouba. A liberdade é o único
objetivo da natureza, seja consciente ou inconsciente; e consciente
ou inconscientemente, todos lutam para este fim.
A liberdade que o santo busca difere muito da que busca
o ladrão. A liberdade amada pelo santo leva-o ao gozo da felicidade
infinita e inefável, enquanto que aquela em que o ladrão
pôs seus amores, forja unicamente novas cadeias para a sua
alma.
Em todas as religiões se encontra esta luta pela liberdade.
É o fundamento de toda moralidade, do altruísmo, o que
significa desvencilhar-se da ideia de que os homens são idênticos
aos seus pequeninos corpos. Quando vemos que um homem
pratica uma boa ação auxiliando os outros, verificamos
que ele não pode estar confinado ao limitado círculo do “eu e
meu”. Não há limite para este renunciar do egoísmo. Todos os
grandes sistemas de moral pregam o absoluto altruísmo.
Suponde que este absoluto altruísmo fosse alcançado
por um homem. Que aconteceria? Já não seria mais o Sr. Fulano
de Tal, pois teria alcançado uma expansão infinita. Aquela
sua pequena personalidade anterior teria desaparecido para
sempre. Ter-se-ia volvido para o infinito, e a conquista desta
expressão infinita é em verdade a meta de todas as religiões e
de todos os ensinamentos filosóficos e morais.
O personalista se assusta ante esta concepção filosófica.
No entanto, em sua pregação se oculta a mesma ideia. Ele não
limita o altruísmo do homem. Suponde que um homem che

85
gasse a ser perfeitamente altruísta sob o sistema personalista,
como faríamos para distingui-lo dos perfeitos de outros sistemas?
Aquele chegou a ser uno com o universo, o que é o fim
de todos nós; porém o personalista não tem o valor de seguir
seu próprio raciocínio até suas últimas conclusões lógicas.
Karma-Yoga é a aquisição, mediante o altruísmo, dessa liberdade
que constitui a meta de toda natureza humana. Cada ação
egoísta retarda nossa chegada à meta, e cada ação altruísta a
acelera; por isto a única definição que se pode dar da moral é
esta: O egoísta é imoral, e o altruísta moral.
No entanto, se entrardes em detalhes, já não nos parecerá
tão simples o assunto. Por exemplo: o ambiente faz com que
os detalhes variem. Uma ação pode ser altruísta em certas circunstâncias,
e egoísta em outras. Portanto, limitamo-nos a dar
uma definição geral, deixando que os detalhes sejam elaborados
em relação com as diferenças de tempo e de lugar. O que
em um país é moral, é imoral em outro. O fim visado pela natureza
é a liberdade, e esta se obtém semente pelo altruísmo;
cada pensamento, palavra ou ação isenta de egoísmo nos aproxima
da meta, e consequentemente, é moral.
Como vedes, esta definição é aceita por todas as religiões
e sistemas de moral. Em certas filosofias, a moral tem sua
origem num Ser Superior: Deus. Se perguntais porque deve um
homem fazer isto em vez daquilo, responder-vos-ão que é o
mandato de Deus. Porém, independentemente da origem, seu
código de moral se baseia no mesmo princípio: não pensar no
eu. Não obstante, pessoas de tão elevado conceito de moral se
atemorizam ante a ideia de terem que abandonar ou renunciar
suas mesquinhas personalidades. Ao homem que se aferra à
sua insignificante personalidade podemos pedir que considere
o caso de uma pessoa perfeitamente altruísta, que não tenha
outro pensamento nem preocupação senão os outros, e inteira
relegação do “a si mesmo”. Este “a si mesmo” lhe é conhecido

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só quando pensa, age ou conversa para si mesmo; se sua consciência
abarca só o universal, onde está o seu “a si mesmo”?
Foi-se para sempre.
Karma-Yoga, portanto, é um sistema de ética e religião
destinado a obter a liberdade mediante as boas ações. O karmayogue
não precisa de nenhuma doutrina. Pode ser ateu, pode
não se interessar pela sua alma nem o inquietar nenhuma especulação
metafísica. Possui sua finalidade, seu modo especial
de alcançar o inegoísmo, e deve alcançá-lo por si mesmo. Sua
vida tem de ser uma constante realização, porque deve resolver
pela ação, sem auxílio de doutrinas nem teorias, o mesmo problema
ao qual o jnani aplica a razão e o bhakti o amor.
Surge agora outra pergunta: podemos fazer bem ao
mundo? No sentido absoluto, não; em sentido relativo, sim.
Não se pode fazer nenhum bem permanente ao mundo; se tal
fosse possível, o mundo não seria mundo. Podemos aplacar a
fome de uma pessoa durante um tempo mais ou menos prolongado,
porém ela voltará a senti-la outra vez. O prazer que podemos
oferecer é momentâneo. Ninguém pode curar definitivamente
esta febre de prazer e de dor.
Pode alguém conceder ao mundo a eterna felicidade?
Para que uma onda se erga à superfície das águas, deve haver
uma depressão equivalente. As coisas boas deste mundo estão
relacionadas com as necessidades e inveja do homem. Não podem
ser aumentadas nem diminuídas. Considerai por um momento
a história da raça humana. Não encontramos as mesmas
alegrias e infelicidades, os mesmos prazeres e dores, as mesmas
diferenças de classe? Não são uns ricos e outros pobres;
estes altos e aqueles baixos; alguns sãos e outros enfermos?
Pois o que acontecia com os egípcios, os gregos e os romanos,
acontece hoje com os americanos. A história se repete indefinidamente;
no entanto, podemos observar que ao lado dessas

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incuráveis diferenças de prazer e dor, sempre houve luta por
aliviá-las.
Cada período da história contou com milhares de homens
e mulheres que se esforçaram por tornar a existência
mais agradável para as futuras gerações. Mas em que proporção
conseguiram? Só podemos mudar a pelota de um lugar para
outro. Deixamos a dor no plano físico e se dirige ao mental.
É como na cena do Inferno de Dante, em que aos miseráveis se
entrega uma bola de ouro para que façam rolar até o alto de
uma montanha. Cada vez que a fazem subir um trecho, a gravitação
a faz voltar. Nossas conversas sobre a idade de ouro não
são mais do que encantadores contos para crianças. As nações
que sonham com a idade de ouro pensam que para o seu povo
lhes virá o melhor. Esta é a assombrosa ideia altruísta, da idade
de ouro.
Não podemos aumentar a felicidade deste mundo; nem
tampouco nos é possível aumentar a dor. A soma de prazer e
dor será sempre a mesma. Este fluxo e refluxo de prazer e dor
é a própria essência do mundo; sustentar o contrário equivaleria
a dizer que pode haver vida sem morte. Algo completamente
absurdo, porque a ideia de vida implica necessariamente a
de morte, e o prazer deve. ter a dor como contraparte.
A lâmpada está ardendo e consumindo-se constantemente,
e esta é a sua vida. Se quereis ter vida, deveis morrer constantemente
por ela. A vida e a morte são uma e a mesma coisa,
contemplada de dois pontos de vista; são a ascensão e descida
da mesma onda; em síntese: uma olha a “ascensão” e se faz
otimista; outro olha a “descida” e se faz pessimista. Quando
uma criança vai à escola e seus pais a cuidam, tudo lhe parece
feliz; sua necessidades são simples, e como resultado, é grande
otimista. Porém, o ancião, com suas múltiplas experiências,
busca mais o repouso. Assim também são as velhas nações,

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que apresentam sinais de decadência e têm menos esperanças
do que as novas. Há um provérbio na Índia que diz: “Mil anos
de cidade e mil anos de bosque”. Esta mudança em bosque, e
vice-versa, ocorre em todas as parte, e torna os povos otimistas
ou pessimistas, segundo o ponto de vista que adotem.
A primeira coisa em que devemos pensar é na igualdade.
Essas ideias do século de ouro têm dado um forte impulso à
ação. Muitas religiões pregam que Deus virá reger este universo
e que então as condições serão iguais para todos. As pessoas
que pregam estas doutrinas são simples fanáticos, e os fanáticos
são, em verdade, os homens mais sinceros. O cristianismo
foi pregado sob sugestões desse fanatismo, e assim atraiu os
gregos e os romanos escravos. Acreditam estes que sob a religião
de um século de ouro, terminaria a escravidão e teriam o
suficiente para comer e beber; e portanto, abraçaram a causa
cristã. Os que originalmente pregaram a ideia, foram simples
fanáticos ignorantes, porém sinceros.
Nos tempos modernos esta aspiração de século de ouro
se encerra na fórmula: liberdade, igualdade, fraternidade. Isto
também é fanatismo. A verdadeira igualdade jamais existiu
nem existirá sobre a terra. Como podemos ser todos iguais?
Esta espécie de igualdade implica a morte total. Qual é a causa
do mundo ser como é? O equilíbrio perdido. No estado primitivo,
chamado caos, existe perfeito equilíbrio. Como surgiram
as forças criadoras do universo? Pela luta, competição e conflito.
Supondo que as partículas da matéria se achassem em
equilíbrio, seria possível a criação? A ciência afirma que não.
Agitai a água e vereis que cada uma de suas partículas voltará
à quietude, precipitando-se umas contra as outras; e do mesmo
modo os fenômenos que constituem o universo (as coisas que
ele encerra) lutam por volver ao perfeito equilíbrio. Produz-se

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uma perturbação, e de novo ocorrem a combinação e a criação.
Ao mesmo tempo, as forças que lutam pela igualdade são tão
necessárias à criação como as que a destroem.
A igualdade absoluta, isto é, o perfeito equilíbrio das
forças em luta em todos os planos, não é possível em nosso
mundo. Antes de alcançar esse estado, o mundo será inadequado
para qualquer espécie de vida. Vemos então que o século de
ouro e a igualdade são impossíveis, e se quiséssemos levá-los à
prática, nos conduziriam à destruição. Que é que constitui a
desigualdade entre os homens? Principalmente a diferença de
cérebros.
Ninguém, a não ser um desequilibrado, diria hoje que
nascemos com a mesma capacidade cerebral. Chegamos ao
mundo com faculdades determinadas, impossíveis de alterar.
Os índios americanos habitavam esta região há milhares de
anos, porém chegaram vossos antepassados e desde então mudou
o aspecto da região. Por que não fizeram os índios melhoramentos
nem construíram cidades, se somos todos iguais?
Com os vossos antepassados apareceu uma classe diferente de
poder cerebral.
A absoluta igualdade é morte. Enquanto durar este mundo,
existirá a diferenciação, e a idade de ouro da igualdade perfeita
chegará só quando chegar a seu termo um ciclo de criação,
Antes, essa igualdade não poderá existir. No entanto, esta
ideia de realizar o século de ouro é um estímulo de grande poder.
Assim como a desigualdade é necessária para a criação,
também o é a luta para limitá-la. Se não houvesse luta para
sermos livres e voltarmos a Deus, não haveria criação. É a diferença
entre essas duas forças que determina os motivos para
atuar, alguns tendentes às limitações e outros à liberdade.
Este mundo, semelhante a duas rodas que giram uma
dentro da outra e em sentido oposto, constitui um mecanismo

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terrível; se nos descuidarmos, pode prender nossa mão e arrastar-
nos. Todos cremos que uma vez cumprido o dever imediato,
descansaremos; porém, mesmo antes de havê-lo terminado,
outro dever nos espera. Todos nós somos arrastados por esta
poderosa e complexa máquina, que é o mundo. Só há dois modos
de evitá-la: um é renunciando todo interesse pela máquina,
deixando-a funcionar só; noutras palavras, abandonando nossos
desejos.
Isto é muito fácil de dizer, porém difícil de fazer. Não
sei se entre vinte milhões de homens haverá um que seja capaz
de fazê-lo. O outro modo consiste em submergirmos no mundo
e aprender o segredo do trabalho. Não fujais da engrenagem do
mundo; ao contrário, permanecei nele e aprendei o segredo do
trabalho. Mediante o trabalho correto, feito em seu interior,
pode-se alcançar a libertação. Atravessando esta maquinaria,
chega-se à saída.
Vimos o que é ação: uma parte dos alicerces da natureza,
a qual não deixa nunca de agir. Aqueles que creem em
Deus o compreenderão melhor, pois sabem que Deus não necessita
de nossa ajuda. Mesmo que este universo não detenha
nunca sua marcha, nossa meta é a liberdade, nosso fim o altruísmo,
e, de acordo com Karma-Yoga, o fim há de ser conquistado
mediante a ação.. Todas as ideias de tornar o mundo feliz
podem ser boas como motivos poderosos para os fanáticos; porém
sabemos que o fanatismo produz tanto o mal como o bem.
O karma-yogue pergunta a si mesmo por que há de haver outro
motivo para agir, além do amor inato pela liberdade. Colocaivos
mais acima dos motivos mundanos. Tendes direito à ação
mas não aos frutos.
“O homem pode exercitar-se para conhecer e praticar esta
verdade”, afirma o karma-yogue. Quando a ideia de fazer o
bem faz parte de sua própria existência, já não busca nenhum

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motivo externo. Façamos o bem só porque é bom fazê-lo;
“aquele que realiza boas ações, ainda que seja só para alcançar
o céu, prende-se a si mesmo”, diz o karma-yogue. Qualquer
ação executada com egoísmo, em vez de libertar, forja novas
cadeias para nossos pés.
De modo que a única solução consiste em renunciar os
frutos da ação, não se ligando a ela. Sabeis que o mundo não
somos nós, nem nós o mundo. Somos o Ser eternamente em
repouso e em paz. Por que, pois, temos que nos ligar a alguma
coisa? É muito bom dizer que deveríamos desligar-nos de tudo,
porém, como consegui-lo? Cada ação boa que praticamos
sem esperar recompensa, em vez de forjar novas cadeias, romperá
uma das já existentes. Cada bom pensamento que enviemos
ao mundo, sem desejar recompensa alguma, será computado
pelo karma e romperá um novo elo de nossa cadeia, tornando-
nos mais puros. No entanto, isto pode parecer algo quixotesco
em vez de prático. Tenho lido muitos argumentos contra
o Bhagavad-Gita, e são muitos os que afirmam que os homens
não podem agir sem motivos. Eles nunca viram obras altruístas
a não ser influenciadas pelo fanatismo, e por isso falam
desta forma.
Como conclusão vos direi algumas palavras sobre um
homem que praticou os ensinos de Karma-Yoga. Este homem
foi Buda, o único que levou estas práticas à sua perfeição máxima.
Todos os profetas do mundo, com esta única exceção,
podem ser divididos em duas classes: uma, os que afirmam ser
encarnações de Deus, e outra, os que dizem ser apenas mensageiros
de Deus. Ambas obtêm seu impulso do exterior, por
muito espiritual que seja a linguagem que utilizam. Buda foi o
único profeta que disse: “Não me preocupo em conhecer vossas
diversas teorias acerca de Deus. De que serve discutir sobre
as sutis doutrinas da alma? Praticai o bem e ele vos conduzirá
à verdadeira liberdade”.

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Sua conduta estava absolutamente desprovida de móveis
pessoais; no entanto, quem o excedeu como trabalhador? Mostrai-
me na história um caráter que se tenha elevado a esta altura.
A raça humana produziu só um caráter de tão elevada filosofia
e de tão vasta compaixão. Este grande filósofo, que pregou
a mais elevada doutrina, tinha, no entanto, a mais profunda
compaixão pelos animais, sem que jamais se atribuísse mérito
algum por isso. Foi o karma-yogue ideal, agindo em todos os
momentos sem motivos pessoais. A história da humanidade o
apresenta como o maior entre, os nascidos, a melhor combinação
de coração e cérebro que já existiu, a alma maior e mais
poderosa que se manifestou.
É o primeiro dos reformadores que o mundo conheceu.
Foi o primeiro que se atreveu a dizer: “Crede, porém não porque
isto seja costume em vosso país; discerni e analisai tudo, e
depois disto, se virdes que fará bem aos outros e a todos, crede,
vivei e praticai; e depois fazei que outros o vivam”. Age melhor
quem não busca dinheiro, nem fama, nem coisa alguma.
Quando um homem realizar isto, será um Buda, e surgirá dele
tal força de ação que transformará o mundo. Um homem assim
representa o mais elevado ideal de Karma-Yoga.
* * *

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