SANSARA – Sidarta – Hermann Hesse


 

Samsara

É a perpétua repetição do nascimento e morte, desde o passado até o presente e o futuro, através dos seis ilusórios reinosInferno, dos Fantasmas Famintos, dos AnimaisAsura ou Demônios BelicososSer humano, dos Deuses e da Bem-Aventurança. A menos que se adquira a perfeita sabedoria ou seja iluminado, não se poderá escapar desta roda da transmigração, ou Roda da Samsara. Aqueles que estão livres desta roda de transmigração são considerados lamas, iluminados (ou budas, em sânscrito).

POR muito tempo, Sidarta ia vivendo a vida do mundo dos prazeres, sem todavia pertencer a ela. Seus sentidos, quase extintos no fervor dos anos passados em companhia dos samanas haviam voltado a agitar-se. Sidarta saboreava a riqueza tanto como a volúpia e o poder. No fundo do coração, porém, continuava, mesmo assim, sendo um samana, como claramente percebera a inteligente Kamala. O que norteava a sua existência era ainda a arte de pensar, de esperar, de jejuar. Os homens do mundo, aqueles tolos, permaneciam estranhos a ele, assim como o próprio Sidarta sempre se sentia um estranho em seu meio.

Escoavam-se os anos. Agasalhado no conforto dessa vida, Sidarta mal e mal notava a sua fuga. Era rico. Havia muito que possuía casa própria. Dispunha de criados. Adquirira um jardim fora da cidade, à beira do rio. ,X>s homens gostavam dele. Procuravam-no sempre que careciam de dinheiro ou de conselhos. Mas ninguém, a não ser Kamala, tinha intimidade com ele.

Aquela vigília sublime, nítida, que em outros tempos lhe coubera em sorte, nos dias que se seguiam ao sermão de Gotama e a separação de Govinda; aquela tensão de expectativa; aquele isolamento altivo, longe de doutrinas e de mestres; aquele estado de desembaraçada presteza de ouvir a voz divina, cada vez que ela ressoava no âmago do próprio coração — tudo isso transformara-se aos poucos em meras recordações, mostrando-se efêmero.

Distante, quase inaudível, ficara o murmúrio da sagrada fonte que outrora jorrava bem perto dele, brotada da sua alma.

Era bem verdade que muita coisa que ele aprendera dos gamaria*, que lhe haviam ensinado Gotama e o brâmane, seu pai, mantivera-se viva em seu espírito por muito tempo ainda. A sobriedade, o gosto de pensar, as horas de meditação, o conhecimento secreto da própria personalidade, do eterno eu, que não é nem corpo nem consciência, tinham-se conservado nele, mas um após outro desses bens haviam ficado soterrados, cobertos de poeira. Assim como um torno de oleiro, uma vez posto em movimento, prossegue girando, longamente, até que, aos poucos canse e se imobilize, assim continuavam a girar na alma de Sidarta as rodas do ascetismo, do pensar, do discernimento. Ainda andavam em giro, mas seu movimento tornara-se mais lento, hesitante, acercando-se do estado de imobilidade. Devagar, semelhante à umidade a penetrar o tronco moribundo de uma árvore, espalhando-se

constantemente e fazendo com que ela apodreça, o mundo e a preguiça tinham tomado conta do coração de Sidarta. Em lento

avanço, enchiam-lhe o espírito, que ficava lerdo, fatigado e violento. Seus sentidos, em compensação, vinham a ser muito

ativos, sabidos, experientes,

Sidarta aprendera a fazer comércio, a dominar os homens, a divertir-se com a mulher; aprendera a usar roupas elegantes, a dar ordens à criadagem, a banhar-se em águas perfumadas;

aprendera a comer pratos finos, preparados com esmero, inclusive peixes, carne e aves, doces e especiarias, e a beber

vinho, o qual produz inércia e esquecimento; aprendera a jogar dados e xadrez, a contemplar bailarinas, a andar de Jiteira,

a dormir num leito macio. Mas, sempre e sempre prosseguia sentindo-se diferente dos outros e superior a todos. Nunca

cessara de observá-los um tanto ironicamente, com certo desdém sarcástico, precisamente aquele desdém com que os samanas costumam encarar os homens do mundo. Cada vez que Kamasvami estivesse adoentado, ou se enfurecesse, melindrado, ou ainda se preocupasse com seus problemas comerciais, Sidarta olhava-o

com uma expressão zombeteira. Apenas íenta, imperceptívelínente, no curso das monções e das estações de safra, seu escárnio tornara-se mais lasso, e menos intenso, o seu sentimento de superioridade.

Lentamente também, em meio a seus tesourts sempre crescentes, o próprio Sidarta assimilara algo das atitudes peculiares dos homens tolos, da sua ingenuidade e de seus receios. E, todavia, tinha inveja deles, tanto maior quanto mais se lhes assemelhava. Invejava-lhes aquela única coisa que lhe faltava e que eles possuíam, a saber — a importância que logravam ligar à sua vida, a violência das suas alegrias e dos seus temores, a angustiada e, todavia, doce felicidade dos seus eternos namoricos.

Essa gente apaixonava-se ininterruptamente por si mesma, por mulheres, por filhos, por honradas ou por dinheiro, por

projetos ou por esperanças. Ele, porém, era incapaz de aprender isso, precisamente aquilo, aquela alegria infantil, aquela tolice ingênua. O que os homens lhe ensinavam era justamente o

comportamento antipático, que ele mais abominava. Com freqüência

cada vez maior, ocorria-lhe, após uma noite passada em sociedade, não se levantar de manhã por sentir-se abatido e

fatigado. Às vezes, chegava a irritar-se e impacientar-se, quando Kamasvami o entediava com as suas preocupações. Em outras

ocasiões ria-se exageradamente ao perder no jogo de dados.

Sua fisionomia continuava mais inteligente e espirituosa do que a dos outros mas, raramente, estava risonha. Uma a uma,

assumia aquelas expressões que geralmente se encontram nos rostos de ricaços, os sinais do descontentamento, da morbidez, da indolência, do desânimo, da ausência de amor. Pouco a pouco, apossava-se dele o mal que acontece às almas dos ricos.

Como um véu, qual névoa fininha, a fadiga envolvia Sidarta, lentamente, tornando-se mais densa dia a dia, mais turva de mês em mês, mais pesada de ano em ano. Assim como um belo vestido se desgasta com o tempo, e com o tempo desbotam as suas belas cores, assim como nele se criam rugas, e os debruns se tornam puídos, e a fazenda em alguns lugares começa a desfiar, assim envelhecera também aquela vida diferente que Sidarta iniciara, depois de separar-se de Govinda. Enquanto os anos se escoavam, perdera seu brilho e seu colorido. Rugas

e manchas apareciam nela e, no seu fundo, ainda ocultos, porém

de quando em quando exibindo o semblante feio, repousavam o nojo e a desilusão. Sidarta não notou nada disso. Apenas percebeu que silenciara aquela voz clara, firme,’ que outrora ressoava .em seu coração e o norteara continuamente no apogeu da sua existência.

O mundo apanhara-o nas suas malhas, o prazer, a cobiça,

a inércia e, finalmente, também aquele vício que sempre se lhe afigurara o mais estúpido de todos: a avareza. Também a

posse, os bens materiais, a riqueza haviam-se apoderado dele, cessando de representar para ele um brinquedo, uma bagatela e transformando-se em grilhões e cargas. A essa derradeira dependência,

à mais vil de todas, chegara Sidarta por um caminho curioso e pérfido: pelo jogo de dados. Desde aqueles dias em

que, no fundo do coração, desistira de ser somaria, dedicava-se

ele com sempre crescente fervor e paixão a esse jogo por dinheiro ou objetos preciosos. Antigamente tomara parte nele

com bom humor, indolentemente, considerando-o um hábito

peculiar aos tolos. Como jogador, era temido. Poucas pessoas arriscavam-se a enfrentá-lo, devido às apostas muito altas e

ousadas que ele costumava fazer. O que o impelia a jogar era a tristeza da sua alma. Perder dinheiro, dissipá-lo, causava-lhe certa alegria mesclada de raiva. De nenhum outro modo podia-se

manifestar mais clara e cinicamente o desdém que Sidarta sentia pela riqueza, ídolo dos comerciantes. Por isso, jogava por somas elevadas, inexorável, odiando-se a si mesmo, fazendo moda do

seu ardor. Ganhava ou desperdiçava milhares de moedas, perdia

jóias, perdia uma casa de campo, tornava a ganhar, a perder.

Aquele medo, o receio terrível, angustiante, que o acossava,

enquanto lançava os dados, preocupado com, o enorme valor da

parada, aquele pavor irresistível — Sidarta adorava-o, procurava

renová-lo uma e outra vez, intensificá-lo mais e mais, levá-lo ao

auge, porquanto era unicamente essa sensação que ainda lhe

proporcionava algo parecido com a felicidade, um quê de inebriamento, uma fagulha de elevação em meio à sua vida saturada,

preguiçosa, insípida. E após uma perda vultosa, invariavelmente intentava obter novos tesouros. Entregava-se ao comércio com

redobrado afã. Com severidade sempre maior, obrigava os

devedores a resgatarem as suas dívidas, uma vez que desejava prosseguir jogando, esbanjando, manifestando o seu menosprezo

à riqueza. Chegava a irritar-se quando a má sorte o perseguia.

Mostrava-se impaciente com pagadores morosos. Já não tinha a antiga generosidade para com os mendigos. Abandonara o prazer que antes sentia ao dar ou emprestar dinheiro a quem o implorasse. O mesmo Sidarta que jogava fora dez mil moedas

numa só parada e ainda se ria do prejuízo, tornava-se mais e mais

duro, mais e mais mesquinho nos negócios. De noite, acontecia-

lhe sonhar com o dinheiro! E cada vez que o abominável

feitiço se desfazia, cada vez que, ao examinar o seu rosto no espelho da alcova, o encontrava envelhecido e desfigurado, cada

vez que o acossavam o asco e a vergonha, voltava ele a fugir,

a refugiar-se novamente na jogatina, a entregar-se outra vez ao

aturdimento da volúpia, do vinho, e saindo dele, a obedecer

de novo aos instintos que o mandavam ganhar fortunas e acumular

tesouros. Na insensatez desse círculo vicioso, afadigava-se, desgastava-se, estragava a sua saúde.

Certa noite, um sonho serviu-lhe de admoestação. Acabava de passar a tarde em companhia de Kamala, no lindo parque da mulher. Haviam conversado, sentados ao pé de uma árvore, e Kamala proferira algumas frases pensativas. Atrás das suas palavras escondia-se a mágoa e a lassidão. Pedira a Sidarta que lhe falasse de Gotama. Não se cansara de ouvir o que o companheiro lhe contava a seu respeito, descrevendo a pureza do olhar do Buda, a calma e a beleza de sua boca, a bondade do seu sorriso, o sossego do seu andar. Por muito tempo, insistira com Sidarta para que lhe narrasse particularidades acerca1 do Augusto. Com um suspiro, dissera Kamala:

— Um belo dia, talvez daqui a pouco, também eu aderirei a esse Buda. Darei o meu parque de presente a ele e tomarei

refúgio na doutrina de Gotama.

Em seguida, porém, provocara o desejo de Sidarta. Atraíra-o a si no jogo amoroso, com fervor e ao mesmo tempo com

aflição, mesclando mordidas e lágrimas, como se quisesse tirar dos prazeres fúteis, efêmeros, a última gota de doçura. Jamais Sidarta percebera com tamanha clareza a afinidade que existe entre a volúpia e a morte. Depois, quedara-se ao lado de Kamala, e sob os olhos da am^da, nas comissuras da sua boca,

deparar a- se-lhe, nítida como nunca antes, aquela escritura fatídica, de linhas fininhas, de ru^as ligeiras, uma escritura a evocar

a idéia de outono e ds velhice. E, de fato, o próprio Sidaría, apenas entrado na casa dcs quarenta, também já notara alguns fios brancos em meio à cabeleira negra. O formoso rosto de Kamala revelava cansaço, aquela fadiga que acomete a quem tenha dado uma longa caminhada, sem destino promissor; revê-

lava cansaço, o começo do declínio, a angústia secreta, ainda não professada, talvez nem sequer consciente, o medo da velhice, o medo do outono, o medo da morte inevitável. Entre suspiros, Sidarta despedira-se da amiga, com a alma cheia de desgosto c de ocultos temores.

Mas, a seguir, passara a noite em casa, tomando vinho e contemplando bailarinas. Perante os comensais, fingira aquela

superioridade que já cessara de existir. Bebêra muito. Bastante tarde, depois da meia-jioite, recolhera-se a seu leito, exausto e todavia excitado, a ponto de chorar e de desesperar. Por longas

horas procurara em vão conciliar o sono, com o coração a transbordar de mágoas que lhe pareciam insuportáveis, de náusea que o transia como o gosto fastidioso, repugnante, do vinho, como a música insôssa, adocicada, como o sorriso demasiado meigo das dançarinas, como a fragância excessivamente forte dos seus seios e penteados. Mas, muito mais do que todo o resto causavam-lhe asco a sua própria.pessoa, os cabelos perfumados,

o bafo de vinho que sua boca exalava, a flacidez e o mal-estar da sua pele. Assim como um homem empanturrado

de comida e bebida prefere os espasmos do vômito aliviador,

assim desejava Sidarta, nessa noite de insônia, lançar para fora

de si, num imenso jato de enjôo, aquele prazeres, aqueles hábitos, aquela vida absurda e livrar-se de si mesmo. Não

conseguira adormecer senão de madrugada, quando na rua, em frente da sua casa na cidade, já começavam as primeiras atividades.

Foi nesse instante que teve um sonho.

Numa gaiola de ouro, Kamala guardava um passarinho canoro, muito raro. A visão do bichinho apareceu diante de’

Sidarta. O pássaro, que normalmente cantava nas primeiras horas do dia, parecia mudo. Como esse fato lhe chamasse a

atenção, ele aproximou-se da gaiola e viu que o passarinho jazia no chão, morto, enrijecido. Retirou-o; por um momento

segurou-o na mão e, em seguida, atirou-o na calçada da rua.

Mas logo se assustou terrivelmente. O coração doía-lhe como se ele houvesse jogado fora não só o cadáver da ave, como

também tudo quanto fosse bom e tivesse valor.

Despertou bruscamente. Sentia-se invadido de profunda tristeza. Atormentava-o a impressão de ter levado uma existência vil, miserável, insensata. O que lhe sobrava não tinha nem vida, nem encanto. Não valia e pena guardá-lo. Via-se isolado,

desprovido de tudo, qual náufrago atirado a uma praia erma.

Cismando sombriamente, encaminhou-se a um dos jardins

que lhe pertenciam. Fechou a porta a chave. Sentou-se à sombra de uma mangueira. Era-lhe como se a morte tivesse tomado

conta do seu coração. Com pavor na alma, sentado, imóvel,

percebia que algo morria nele, definhando, acercando-se do fim.

Aos poucos, conseguia concentrar os seus pensamentos. Espiritualmente,

tornou a percorrer todo o caminho da sua existência,

desde os primeiros dias de que se lembrava. Já se sentira, por

acaso, realmente feliz? Invadira-o, alguma vez, a sensação de

verdadeira delícia? Ah, sim! isso se dera diversas vezes. Na sua

meninice, saboreara tal dita, sempre que os brâmanes lhe tributavam

elogios, ou quando ele, garoto mais precoce do que os

seus coetâneos, se distinguia na recitação dos poemas sagrados,

nos debates travados com os eruditos e no serviço dos sacrifícios.

Nessas ocasiões, tivera certeza, no fundo da sua alma, de que à sua frente estendia-se o caminho da sua vocação e os deuses

aguardavam a sua chegada. E mais tarde, na adolescência,

quando a meta cada vez mais fugaz, cada vez mais elevada,

de todas as suas meditações o afastara do grupo de seus competidores

e o colocara numa categoria superior, naqueles dias em

que se atormentava no empenho de descobrir o significado do

Brama, quando cada conhecimento obtido apenas provocava

nele nova sede, sentira, por sedento, por dolorido que andasse,

sempre esse mesmo impulso: “Avante! Avante! Tu és eleito!”

Essa voz íntima, ele ouvira-a no momento em que abandonara o lar paterno e escolhera a vida de samana e, novamente, ao

separar-se dos samanas, a fim de dirigir-se ao Homem Sublime,

e ainda quando dele se apartara, para tomar rumos incertos.

Quanto tempo não decorrera, sem que a voz secreta ressoasse

em seu íntimo, sem que ele galgasse altura alguma? Como se

tornara plano e desinteressante o caminho que trilhava, fazia

muitos anos, sem perseguir nenhum objetivo grandioso, sem sede

nem exaltação, saturado e, todavia, insaciável! Durante todos

esses anos, inconscientemente se esforçara, ansiara por ser uma

criatura igual às demais, igual àqueles tolos e, apesar disso, levara

uma vida muito mais triste, muito mais pobre do que eles, que

tinham propósitos e preocupações diferentes. Todo aquele mundo

dos Kamasvamis afigurava-se-lhe como um mero brin-

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quedo, num bailado que se contemple, uma comédia. Sòment?

Kamala lhe fora cara, só ela possuía valor — mas isso também

não mudara? Tinha ele ainda necessidade dela? Ou ela dele?

Não se dedicavam ambos a um jogo sem fim? Era esse um

desígnio para o qual se precisasse viver? Não, nunca! Esse jogo

chamava-se Sansara,10 um brinquedo para criança, agradável

talvez para quem o usas&e uma vez, duas, dez vezes. Mas, para

que recomeçá-lo sempre e sempre?

Nesse instante, Sidarta deu-se conta de que o jogo terminara, de que jamais poderia voltar a fazer parte dele. Um calafrio perpassou em seu corpo. Sentiu que algo acabava de morrer na sua alma. Durante todo esse día permaneceu sentado ao pé da mangueira, recordando-se do pai, recordando-se de Govinda, de

Gotama. Fora realmente necessário que ele os abandonasse a

todos, para converter-se num Kamasvami? Ainda se mantinha sentado, quando caiu a noite. Enquanto levantava os olhos e

deparava com as estrelas, pensou: “Aqui estou, ao pé da minha

mangueira, no meu jardim.” E esboçou um leve sorriso, ao

ponderar se era necessário, importante e certo, e não apenas

um briquedo tolo possuir uma mangueira e um jardim?

Resolutamente, pôs fim àquele estado d^ coisas. Também

aquilo cessara de viver no seu coração. Ergueu-se do chão.

Despediu-se da árvore, despediu-se do parque. Já que nesse dia

se abstivera de todos os alimentos, sentia-se acossado por uma

fome violenta. Vieram-lhe à memória a casa na cidade, a alcova,

o leito, a mesa posta. Com um sorriso fatigado, sacudiu-se, para desembaraçar-se de tudo aquilo.

Nessa mesma noite, Sidarta abandonou o seu jardim. Saiu da cidade e nunca mais voltou. Kamasvami, que acreditava que

o sócio tivesse sido raptado por salteadores, mandou fazer prolongadas

investigações. Kamala, porém, não empreendeu nenhuma busca. Ao ser informada do desaparecimento de Sidarta, nem

sequer se admirou. Não soubera ela sempre que isso um dia

aconteceria? Não era ele um samana, um homem sem raízes,

um peregrino? E fora -na última tarde que passaram juntos qus

1° Sansara: as vicissitudes do mundo, da vida e da morte da existência

humana; a instabilidade e a efemeridade das coisas; a agitação do mundo;

a vaidade e a inquietude da vida humana. (N. do T.)

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à dor que lhe causava a perda, regozijava-se por tê-lo apertado ao peito, com tanto ardor, naquela hora derradeira, para que

Sidarta mais uma vez a possuísse e penetrasse inteiramente.

Qundo lhe comunicaram que ele sumira, acercou-se da janela, onde mantinha preso numa gaiola de ouro um pássaro

raro. Abriu a portinha, retirou a ave e permitiu-lhe que escapasse.

Por muito tempo, acompanhou com os olhos o passarinho que esvoaçava. A partir desse dia, nunca mais recebeu

visitas. Mantinha cerrada a sua casa. Depois de algumas semanas,

porém, verificou que estava grávida, em conseqüência do ultimo contato com Sidarta.

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