OM – Sidarta (Hermann Hesse)


 

POR muito tempo ainda, a ferida continuou a arder.

Cabia a Sidarta transportar através do rio numerosos viandantes acompanhados de filhos ou filhas e cada vez que os observava, dáva-se conta de que tinha inveja deles, de que dizia de si paxá si: “Tanta gente, tantos milhares de pessoas gozam dessa felicidade, da mais doce de todas, e eu não! Por quê? Até os homens mais maldosos, até os ladrões e cs salteadores, têm filhos.

Amam-nos e são amados por eles. Unicamente eu não recebi o meu quinhão!” Tais eram as reflexões ingênuas, insensatas que nessas horas lhe passavam pela cabeça. A tal ponto assemelhara-se aos homens tolos.

Era de modo diferente do de outrora que a essa altura pensava a respeito das criaturas humanas.

Havia nos seus julgamentos menos intelecto, menos orgulho, mas em compensação, mais calor, mais curiosidade, mais simpatia,

Quando conduzia passageiros ordinários, homens tolos, negociantes, guerreiros, mulherio, esses seres já não se lhe afiguravam estranhos. Ele os compreendia. Compreendia a sua existência jamais orientada por raciocínios e percepções, senão exclusivamente por instintos e desejos. Tomava parte dela. Sentia-se igual a eles. Ainda que tivesse chegado bem perto da perfeição e padecesse as dores da derradeira das suas feridas, tinha a impressão de que aqueles homens tolos eram seus irmãos. A vaidade, a cupidez, o ridículo que os dominavam perdiam para ele a sua comicidade, encontravam explicação, tomavam-se até mesmo dignos de respeito.

O amor cego que uma mãe tributasse ao filho; o orgulho estúpido, obcecado, de que um pai presunçoso se enchesse em face do filhinho único; o desejo desvairado, furioso de possuir jóias, de ser admirada pelos homens, tal como o experimenta uma mocinha garrida — todos esses instintos, todas essas infantilidades, ambições e ânsias, impulsos simples, irracionais, porém invencíveis na sua desmedida força e na sua pujante vitalidade, cessavam de apresentar-se aos olhos de Sidarta como meras criancices. Chegava ele a entender que os seres humanos viviam em função dessa coisa e que justamente elas os capacitavam para proezas incríveis, permitindo-lhes fazerem guerras, empreenderem viagens, suportarem tudo e resistirem a sofrimentos sem fim. Por isso, era possível que ele os amasse e que se lhe descortinasse a vida, o ânimo, o Indestrutível, o Brama, a manifestar-se em todos os atos e em todas as paixões dessas criaturas.

Aquela gente, com sua lealdade cega, com seu vigor e sua tenacidade, mereciam carinho e admiração.

Nada lhes faltava.

O sábio, o filósofo superava-os apenas num único e minúsculo pontinho., numa só coisinha de nada; a saber, a consciência que ele obtivera da unidade de toda a vida. E mesmo assim houve momentos em que o próprio Sidarta duvidara do alto valor de tal sabedoria ou ideia e ventilasse a possibilidade de também ela não passar de uma infantilidade peculiar de homens-pensadores ou de criançolas pensantes. Em todos os demais assuntos, os homens comuns igualavam-se aos sábios e, freqüentemente, lhes eram bastante superiores, assim como os animais, na sua realização persistente, imperturbável, de tudo quanto for necessário, às vezes parecem capazes de ultrapassar os homens.

Lentamente desabrochava e amadurecia no espírito de Sidarta a percepção, o conhecimento daquilo que na verdade significava sabedoria e devia ser a meta das suas buscas prolongadas.

Nada era a não ser uma predisposição da alma, a faculdade, a arte secreta de conceber, a cada instante, em plena vida, a ideia da unidade, de sentir a unidade, de encher dela os pulmões.

Pouco a pouco, essa certeza crescia nele c seu reflexo aparecia no rosto velho e todavia infantil, de Vasudeva, revelando harmonia, ciência da eterna perfeição do cosmo, sorriso, unidade.

Mas a ferida continuava a arder. Com saudade e amargura,

Sidarta recordava o filho. No seu coração, conservava sentimentos carinhosos e ternos. Devorado pela dor, cometia todas as tolices de que um homem amoroso é capaz. E essa chama não se extinguia.

Um dia, quando a ferida o torturava mais do que nunca, transpôs o rio, acossado pela angústia. Desembarcou com a firme intenção de ir à cidade e procurar o filho. As águas fluíam suave e silenciosamente. Era a época da seca. Mas a voz do rio tinha um som estranho: ela se ria! Ria-se abertamente.

O rio dava risada. Zombava inconfundivelmente do velho balseiro. Sidarta estacou. Inclinou-se por cima da superfície, a fim de escutar melhor aquela voz. Na água que avançava devagarzinho, via o seu rosto como num espelho e nessa imagem havia algo que lhe despertava recordações, algo de que sé esquecera e que lhe voltava à memória, quando refletia um pouco: esse rosto parecia-ss com o de outra pessoa que ele, Sidarta, em tempos remotos, conhecera, adorara e também temera.

Parecia-se com o rosto do brâmane, seu pai. E ele evocou aquele dia distante da sua adolescência em que coagira o pai a que o deixasse reunir-se com os ascetas. Reviveu a hora da despedida, quando se fora, para nunca mais voltar. Não padecera o pai as mesmas mágoas que nesse instante atormentavam a ele próprio, devido ao filho? Não morrera o pai, havia muito tempo, em plena solidão, sem jamais o ter revisto? E não aguardava ao próprio Sidarta esse mesmo destino? Tal repetição, tal corrida num círculo vicioso, que significavam elas a não ser uma comédia, uma coisa tão esquisita quanto disparatada?

E o rio prosseguia soltando risadas. Realmente, era assim!

Tudo voltava, todos os sofrimentos que não tivessem encontrado uma solução final. Era preciso suportar sempre as mesmas aflições.

Sidarta, porém reembarcou na balsa. Ao regressar à cabana, recordava o pai, recordava o filho, escarnecido pelo rio, lutando com o próprio eu, à beira do desespero e, apesar díSSO, propenso a soltar gargalhadas, mofando de si e do mundo inteiro, Ai dele! a ferida ainda não se transformara em flor. O coração continuava a rebelar-se contra a sua sina. O seu sofrimento ainda não chegara a irradiar serenidade e triunfo. Contudo, sentia-se esperançoso e, ao alcançar a choupana, tinha o irresistível desejo de abrir-se a Vasudeva, de mostrar-lhe o fundo da sua alma, de dizer tudo, tudo a esse mestre na arte de escutar.

Vasudeva estava sentado na cabana, a trançar uma cesta.

Já não dirigia a balsa. Sua vista começava a ficar fraca e não somente os olhos, como também os braços e as mãos enfraqueciam cada vez mais. Inalterados permaneciam somente a jovialidade e a plácida benevolência de sua fisionomia,

Sidarta tomou assento ao lado do ancião. Em seguida, pôs-se a falar lentamente. Contou coisas que nunca haviam sido mencionadas entre eles. Tratou daquela caminhada que dera à cidade, outrora instigado pela ferida ardente, pela inveja que lhe causava a visão de pais felizes. Confessou saber que esses desejos eram tolos. Relatou as lutas que travara contra eles.

Não omitiu nada. Sentiu-se capaz de dizer tudo, inclusive os fatos mais penosos. Conseguiu confessar quaisquer segredos, patentear o que quer que houvesse, narrar todos os pormenores.

E ele exibiu sua ferida. Revelando também a tentativa de escape que empreendera naquela mesma manhã, descreveu como atravessara as águas, qual criança que fugia do lar, e como o rio zombara da sua intenção de ir à cidade.

Enquanto ele falava sem parar e Vasudeva o escutava com o rosto impassível, Sidarta notava mais fortemente do que nunca o encanto dessa atenção do amigo. Observava que suas dores, suas .angústias fluíam em direção ao outro, que suas mais arcanas esperanças tomavam o mesmo rumo e lhe eram devolvidas pelo companheiro. Descobrir a sua ferida a uma pessoa que soubesse ouvir como só Vasudeva sabia fazê-lo era como se a lavasse no rio, até que cessasse de arder e se unisse com a água. Enquanto que prosseguia falando, revelando mais e mais segredos, abrindo-se sem nenhuma restrição, Sidarta reconhecia com crescente clareza que aquele ente que o escutava, imóvel, já não era Vasudeva, já não era nenhum ser humano, pois que se impregnava da sua confissão como uma árvore absorve a chuva.

Sim, esse vulto imutável era o próprio rio, era Deus mesmo, era a Eternidade. E enquanto Sidarta cessava de pensar em si e na sua ferida, apossava-se dele a certeza da transformação que se passara com Vasudeva. Quanto mais se convencia dela, tanto mais entrava no seu cerne, mais claramente via que tudo era natural, que tudo estava na mais perfeita ordem, que Vasudeva fora assim havia muito, desde sempre e sempre, talvez. Só ele, não se dera conta desse fato. Até podia ser que quase não existisse mais diferença alguma entre ele e o companheiro! Tinha então a sensação de encarar o velho Vasudeva assim como o povo encara as divindades e que esse estado de coisas não duraria muito mais tempo. No seu espírito, começava a despedir-se de Vasudeva. Não obstante, continuava a falar.

Quando Sidarta terminou, Vasudeva lhe lançou um desses seus olhares bondosos, já um tanto infirmes. Não disse nada.

Limitou-se a irradiar em direção a Sidarta carinho e serenidade, compreensão e sabedoria. Agarrando a mão do amigo, conduziu-o até à ribeira. Lá, sentou-se ao seu lado. Sorrindo, contemplou o rio:

— Ouviste como ele se riu — disse. — Mas não ouviste tudo. Prestemos atenção. Logo ouvirás muito mais.

E ambos escutavam o murmúrio das ondas. Suavemente ressoava o canto das inúmeras vozes do rio. Sidarta olhava as águas e na corrente surgiam imagens: aparecia-lhe o pai solitário, a lamentar a perda do filho; aparecia ele mesmo, igualmente solitário, ligado ao filho distante pelas amarras da saudade; aparecia-lhe o filho, também ele solitário, a percorrer avidamente a pista abrasada dos seus desejos juvenis. Cada qual tinha os olhos fixos na sua meta; cada qual andava fanàticamente atrás do seu desígnio; cada qual sofria. O rio cantava com voz pjangente. Cantava saudades. Angustiado, dirigia-se à sua foz, e sua voz soava melancólica.

— Estás ouvindo? — perguntou o olhar mudo de Vasudeva.

Sidarta fez que sim.

— Escuta mais! — soprou-lhe Vasudeva.

Sidarta esforçou-se por aguçar os ouvidos. A imagem do pai, a sua própria imagem e a do filho, todas elas se confundiam.

Também surgiam e diluíam-se em seguida as visões de Kamala, de Govinda, e muitas outras. Entremesclavam-se, tornavam-se rio e como tal fluíam em direção à meta, ávida, ansiosa, tristemente. E a voz do rio ressoava, cheia de saudade, cheia de doloroso pesar, cheia de insaciável desejo. O rio rumava em direção à sua foz. Sídarta percebia a pressa daquela corrente formada por ele mesmo, pelos seus, por todos os homens que já se lhe haviam deparado. Todas essas ondas e águas, carregadas de sofrimentos, precipitavam-se em busca de suas metas, que eram muitas, as cataratas, o lago, o estreito, o mar e, uma a uma, as metas eram alcançadas, mas a cada qual seguia outra; da água formava-se bruma, que subia ao céu, transformava-se em chuva, a cair das alturas, virava fonte, virava regato, virava rio e novamente iniciava a sua jornada, novamente fluía rumo à meta. Mas a voz sôfrega acabava de

mudar. Ainda ressoava, plangente, inquiridora, porém se misturava

com outras vozes, alegres e aflitas, boas e más, risonhas

e entristecidas, centenas de vozes, milhares de vezes.

Sidarta escutava. Naquele momento, era todo ouvidos, entregando-

se por inteiro à própria atenção, receptáculo totalmente

vazio, prestes a encher-se. Sentia que àquela hora atingiria a

derradeira perfeição na arte de escutar. Quantas vezes não ouvira

todos aqueles rumores, a multiplicidade das vozes que vinham

do rio, mas naquele dia lhe pareciam novas. Já não era.

capaz de identificá-las. Não conseguia distinguir as vozes jubilosas

das choronas, as infantis das másculas. Todas elas formavam

uma só, a lamentação da nostalgia, a risada do ceticismo,

o grito da cólera e o estertor da agonia. Tudo era uma e a mesma

coisa, tudo se entretecia, enredava-se, emaranhava-se mil vezes.

E todo aquele conjunto, a soma das vozes, a totalidade das

metas, das ânsias, dos sofrimentos, das delícias, todo o Bem e

todo o Mal, esse conjunto era o mundo. Esse conjunto era o

rio dos destinos, era a música da vida. Mas, quando ele escutava

atentamente o que cantava o rio, com seu coro de mil vozes,

quando se abstinha de destilar dele o sofrimento ou o riso,

quando cessava de ligar a alma a determinada voz e de penetrar

nela com o seu espírito, quando, pelo contrário, ouvia todas

elas, a soma, a unidade, acontecia que a grandiosa cantiga dos

milhares de vozes se resumia numa só palavra, que era Om,

a perfeição.

— Estás ouvindo? — tornou a indagar o olhar de Vasudeva.

Luminosamente resplandecia o sorriso do balseiro, pairando

por cima das inúmeras rugas do semblante idoso, assim como o

Om pairava por cima de todas as vozes do rio. Luminosamente

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resplandecia o seu sorriso, enquanto fitava o amigo e com igual

clareza luzia no rosto de Sidarta o mesmo sorriso. Sua ferida desabrochava como uma flor. Sua mágoa fulgia. Seu eu incorporara-se na unidade.

Foi nessa hora que Sidarta cessou de lutar contra o Destino.

Cessou de sofrer. No seu rosto florescia aquela serenidade

do saber, à qual já não se opunha nenhuma vontade,

que conhece a perfeição, que está de acordo com o rio dos acontecimentos

e o curso da vida; a serenidade que torna suas as

penas e as ditas de todos, entregue à corrente, pertencente à

unidade.

Quando Vasudeva se levantou do seu assento, na ribeira,

quando mirou os olhos de Sidarta e nele descobriu a serenidade

do saber, tocou suavemente no ombro do companheiro, daquela

maneira discreta, delicada, que lhe era peculiar, e disse:

— Esperei, meu caro, que esta hora viesse um dia. Agora

que ela veio, deixa que me vá. Durante algum tempo ansiei

por ela. Por longos anos tenho sido Vasudeva, o balseiro. Agora basta. Adeus, cabana! Adeus, rio! Adeus, Sidarta.

Sidarta curvou-se profundamente diante do amigo que se despedia.

— Eu sabia disso — murmurou. — Tu te dirigirás à selva?

— Dirijo-me à selva. Busco a unidade — respondeu Vasudeva, radiante.

E radiante se foi. Sidarta acompanhou-o com o olhar, e nos seus olhos havia infinita alegria, infinita gravidade, enquanto

observava o andar calmo, a cabeça aureolada, o vulto envolvido

em luz.

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