Krishnamurti – Mentalidade Religiosa


[…]
 
Para mim, revolução é sinônimo de religião. Com a palavra “revolução” não me refiro a imediatas reformas econômicas ou sociais, porém a uma revolução na própria consciência. Todas as outras formas de revolução, seja comunista, seja capitalista, seja qual for, são puramente reacionárias. Uma revolução na mente – que significa total destruição do que foi, para que a mente se torne capaz de ver sem deformação e sem ilusão o que é verdadeiro – essa é a ação própria da religião. Penso que a mente real, a verdadeira mente religiosa, existe, pode existir. E ela pode ser descoberta por quem nisso penetrou com profundeza. A mente que deitou abaixo, que destruiu todas as barreiras, todas as mentiras que lhe impôs a sociedade, a religião organizada, o dogma, a crença, e passou além para descobrir o verdadeiro, essa é a verdadeira mente religiosa.
 
Consideremos, pois, em primeiro lugar, a questão da experiência. Nosso intelecto resulta de experiência secular; o intelecto é o depósito da memória. Sem essa memória, sem essa acumulação de experiência e conhecimento, ser-nos-ia completamente impossível funcionar como entes humanos. As experiências, a memória, são obviamente necessárias num certo nível. Mas, por igual me parece óbvio que toda experiência baseada no condicionamento pelo saber, pela memória, é necessariamente limitada. Por conseguinte, a experiência não é fator de libertação.
 
Não sei se já pensastes nisso.
 
Toda experiência é condicionada pelas precedentes. Portanto, não há experiência nova, porque cada experiência traz sempre o colorido do passado. No próprio processo de experimentar existe a. deformação proveniente do passado, sendo o passado: conhecimento, memória, várias experiências acumuladas, não só as individuais, mas também as da raça, da coletividade. Ora, é possível rejeitarmos toda essa experiência?
 
Não sei se já considerastes a questão da rejeição, o que significa rejeitar, uma coisa. […] Para a maioria de nós, só há duas maneiras de rejeitar – por meio do saber ou por meio de reação. Rejeitais a autoridade do sacerdote, da igreja, da palavra escrita, do livro, ou porque estudastes, investigastes, acumulastes outros conhecimentos, ou porque não gostais da coisa e reagis contra ela. Mas a verdadeira rejeição significa rejeitar sem saber o que acontecerá depois, sem esperanças para o futuro. Dizer: “Não sei o que é verdadeiro, mas isto é falso”, isso, decerto, representa a única rejeição verdadeira, porquanto não provém do conhecimento calculista nem de reação. Afinal de contas, se sabeis de antemão o resultado de vossa rejeição, trata-se então de mera troca, mera transação; por conseqüência, isso não é de modo nenhum a verdadeira rejeição.
 
[…]
 
Por certo, para encontrar a realidade, encontrar Deus – ou o nome que preferirdes – a mente deve estar só, livre de influências, porque ela é então uma mente pura; e uma mente pura pode prosseguir. Ao ocorrer a destruição completa de todas as coisas que a mente criou em si mesma, como segurança, como esperança e como resistência contra a esperança – que é o desespero – etc., surge então, seguramente, um estado de destemor no qual a morte não existe. A mente que está só, está vivendo integralmente e nesse viver há um morrer a cada minuto; por conseguinte, para essa mente não existe a morte. Isso é realmente extraordinário para quem penetrou nesse estado; descobris, então, por vós mesmos, que a morte não existe. Existe, tão-só, aquele estado de austeridade pura, da mente que está só.
 
Essa solidão não é isolamento; não é fuga para uma torre de marfim; não é abandono. Tudo isso ficou para trás, foi esquecido, dissipado, destruído. Essa mente, por conseguinte, sabe o que é destruição; e precisamos conhecer a destruição, senão não poderemos achar nada novo. E que medo temos de destruir tudo o que acumulamos!
 
Há um ditado sânscrito: “As idéias são os filhos das mulheres estéreis”. E parece que a maioria de nós gosta de se entreter com idéias. Podeis estar considerando estas nossas palestras como uma troca de idéias, “processo” de aceitar idéias novas e abandonar idéias velhas, ou “processo” de rejeitar idéias novas e conservar as velhas. Não nos estamos ocupando com idéias, absolutamente. Estamos nos ocupando com fatos. E quando estamos interessados nos fatos, não há ajustamento; ou aceitamos o fato, ou o rejeitamos. Podeis dizer: “Não gosto destas idéias, prefiro as velhas, e continuarei a viver no meu próprio padrão” – ou podeis aceitar o fato. Não podeis transigir, não podeis ajustar. Destruição não é ajustamento. Ajustar, dizer: “Devo ser menos ambicioso, não devo ser tão invejoso” – isso não é destruição. E devemos, decerto, perceber a verdade de que a ambição, a inveja, é feia, estúpida, e que é necessário destruir todos esses absurdos. O amor nunca ajusta. Só o desejo, o medo, a esperança, ajustam. Eis por que o amor é uma coisa destrutiva, pois se recusa a adaptar-se, a ajustar-se a qualquer padrão.
 
Começamos, pois, a descobrir que, havendo destruição de toda autoridade que o homem criou para si mesmo, no desejo de se pôr em segurança interiormente, há criação. Destruição é criação.
 
Em seguida, se abandonastes as idéias, e não vos estais ajustando a vosso próprio padrão de existência ou a um novo padrão que, pensais, este orador está criando – se alcançastes esse ponto, descobrireis que o intelecto pode e deve funcionar unicamente em relação às coisas exteriores, corresponder tão-só às exigências exteriores; por conseqüência, o intelecto se torna completamente tranqüilo. Isso significa que a autoridade de suas experiências terminou e, portanto, é incapaz de criar ilusões. E descobrir o que é verdadeiro, isso é essencial, para que termine o poder de criar a ilusão, em qualquer forma que seja. E o poder de criar a ilusão é o poder do desejo, do desejar ser isto e não desejar ser aquilo.
 
O intelecto, pois, deve funcionar neste mundo com raciocínio, com sanidade, com clareza; mas, interiormente, ele deve estar completamente quieto.
 
Dizem os biologistas que o cérebro levou milhões de anos para evolver até o seu estado atual, e levará outros milhões de anos para evolver mais. Mas a mente religiosa não depende do tempo para sua evolução. Eu gostaria que compreendêsseis isto. O que desejo transmitir é que quando o cérebro, o intelecto – que deve funcionar com suas reações à existência externa – se torna quieto interiormente, não existe mais o mecanismo de acumulação de experiência e conhecimento e, por conseguinte, o intelecto está completamente quieto, porém plenamente vivo pode então saltar por sobre milhões de anos.
 
Vemos, pois, que para a mente religiosa o tempo não existe. Só existe o tempo quando um estado de continuidade passa para outro estado de continuidade e de realização. Quando a mente religiosa destruiu as autoridades do passado, as tradições, os valores que lhe foram impostos, é ela então capaz de existir sem o tempo. Está então plenamente desenvolvida. Porque, ao negarmos o tempo, negamos todo o desenvolvimento através do tempo e do espaço. Note, por favor, que isto não é uma idéia; não é uma coisa para com ela nos entretermos. Se passardes por isso, sabeis o que é o amor, achai-vos naquele estado; mas, se não passastes por isso, podeis então apossar-vos destas idéias e entreter-vos com elas.
 
Vedes, pois, que destruição é criação; e na criação não existe o tempo. A criação é aquele estado em que o intelecto, tendo destruído todo o passado, está completamente quieto e, portanto, no estado em “que não existe tempo nem espaço, para crescer, expressar-se, VIr a ser”. E esse estado de criação não é a criação de uns poucos indivíduos prendados – pintores, músicos, escritores, arquitetos. Só a mente religiosa pode encontrar-se num estado de criação. E a mente religiosa não é aquela que pertence a certa igreja, crença, dogma, a essas coisas só podem condicionar a mente. Ir à igreja todas as manhãs e render culto a este ou àquele não vos torna uma pessoa religiosa, embora a sociedade respeitável possa considerar-vos como tal. O que faz a pessoa religiosa é a destruição total do conhecido.
 
Nessa criação há um sentimento de beleza; uma beleza não construída pelo homem; uma beleza que transcende o pensamento e o sentimento. Afinal, o pensamento e o sentimento são puras reações; e a beleza não é reação. Possui a mente religiosa aquela beleza que não é a mera apreciação das montanhas graciosas, da torrente impetuosa, porém um sentimento bem diferente da beleza – e de par com ela está o amor. Não se me afigura possível separar a beleza do amor. Como sabeis, para a maioria de nós o amor é coisa dolorosa, porque é sempre acompanhado do ciúme, do ódio e dos instintos de posse. Mas esse amor de que falamos é um estado em que se acha presente a chama sem fumo.
 
A mente religiosa, pois, conhece essa destruição completa. total. e sabe o que significa achar-se num estado de criação, estado que não se pode comunicar. E nela existe o sentimento da beleza e do amor, que são inseparáveis. O amor não é divisível em amor divino e amor físico. É Amor. E não é necessário dizer que ele se acompanha, naturalmente, de um sentimento de paixão. Não se pode ir muito longe sem paixão – paixão, que é intensidade. Não a intensidade do desejar alterar algo, fazer algo, a intensidade que tem causa, de modo que se remover a causa à intensidade desaparece. Não é um estado de entusiasmo. A beleza só pode existir quando há a paixão, que é austera; e a mente religiosa, encontrando-se nesse estado, tem uma força de qualidade peculiar. Sabeis que, para nós, força é o resultado da vontade, de muitos desejos entrelaçados que formam a corda da vontade. E essa vontade, para a maioria de nós, significa resistência. O processo de resistir a uma coisa ou de buscar um resultado desenvolve a vontade e essa vontade é geralmente chamada força. Mas a força a que nos referimos nada tem em comum com a vontade. É força sem causa. Não pode ser utilizada, mas sem ela nada pode existir.
 
Assim, quando uma pessoa penetrou profundamente no descobrimento de si mesma, existe a mente religiosa; e esta não pertence a um dado indivíduo. Ela é a mente, a mente religiosa, separada de todas as humanas lutas, exigências, ânsias e compulsões individuais, etc. Estivemos apenas descrevendo a totalidade da mente, que poderá parecer dividida pelo emprego de diferentes palavras; mas ela é uma coisa total, na qual tudo se contém. Por conseguinte, essa mente religiosa pode receber aquilo que não é mensurável pelo intelecto. Essa coisa é indenominável; nenhum templo, nenhum sacerdote, nenhuma igreja, nenhum dogma pode conter. Rejeitar tudo isso e viver naquele estado, essa é que é a verdadeira mentalidade religiosa.
 
 
 
PERGUNTA: Pode a mente religiosa ser adquirida pela meditação?
 
KRISHNAMURTI: A primeira coisa que se deve compreender é que ninguém pode adquiri-Ia, ninguém pode obtê-la, e que ela não pode ser produzida pela meditação. Nem virtude, nem sacrifício, nem meditação, nada sobre a Terra pode comprá-la. O senso de alcançar, realizar, adquirir, comprar, deve cessar totalmente, para que ela seja. Não se pode fazer uso da meditação. A coisa de que estive falando é a meditação. Descobrir a cada momento da vida diária o que é verdadeiro e o que é falso, isso é meditação. A meditação não é uma certa coisa para a qual fugimos, uma certa coisa em que se nos dão visões e toda sorte de sensações; isso é auto-hipnose, infantilidade. Mas observar cada momento do dia, ver como o vosso pensamento está funcionando, ver o mecanismo de defesa em ação, ver os temores, ambições, a avidez, a inveja – observar tudo isso, investigá-lo a todas as horas, isso é meditação, ou faz parte dela. Sem se lançar a base adequada, não há meditação, e o lançamento da base adequada consiste em ser livre de ambição, inveja, avidez e todas as coisas que criamos em defesa própria. Não precisais procurar ninguém para dizer-vos o que é a meditação ou para receberdes um método. Posso descobrir com muita simplicidade, pela observação de mim mesmo, quanto sou ou não sou ambicioso. Ninguém mo precisa dizer; eu o sei. Extirpar a raiz, o tronco, o fruto da ambição, vê-Ia e destruí-Ia totalmente – eis o que é absolutamente necessário. Vede, queremos ir muito longe, sem darmos o primeiro passo. E vereis, se derdes o primeiro passo, que ele é também o último passo – não há outro passo.
 
PERGUNTA: É verdade que não podemos servir-nos da razão para descobrir o que é verdadeiro?
 
KRISHNAMURTI: Senhor, que se entende por razão? A razão é pensamento organizado, como a lógica são idéias organizadas, não é exato? E o pensamento, por mais inteligente, por mais vasto, por mais erudito que seja, é limitado. Todo pensamento é limitado. Podeis observá-lo vós mesmos; isso não é novidade. O pensamento nunca pode ser livre. O pensamento é reação, reação da memória; é “processo” mecânico. Ele poderá ser razoável, poderá ser são, poderá ser lógico, mas é limitado. É como os computadores eletrônicos. E o pensamento nunca pode descobrir o que é novo. O intelecto adquiriu, acumulou, através de séculos, experiências, reações, lembranças; e quando essa coisa pensa, está condicionada e, portanto, não pode descobrir o novo. Quando, porém, esse intelecto compreendeu todo o processo da razão, da lógica, do investigar, do pensar – não rejeitou, mas compreendeu – então ele se torna quieto. E, então, esse estado de quietude pode descobrir o que é verdadeiro.
 
Senhor, a razão vos diz que deveis ter líderes. Tendes tido líderes políticos ou religiosos. Eles não vos conduziram a parte alguma, a não ser a mais sofrimento, mais guerras, maior destruição e corrupção.
 
[…]
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