Sidarta – Herman Hesse


  • PRIMEIRA PARTE
    O Filho do Brâmane
    Com os Samanas
  • GOTAMA
  • O DESPERTAR

SEGUNDA PARTE

KAMALA

ENTRE OS HOMENS TOLOS

À BEIRA DO RIO

O BALSEIRO

O FILHO DO BRÂMANE
À SOMBRA da casa, ao sol da ribeira, perto dos barcos, na
penumbra do salgueiral, ao pé da figueira, criou-se Sidarta, belo
filho de brâmane, jovem falcão, junto com Govinda, seu amigo,
filho de brâmane. O sol tostava-lhes as claras espáduas, à beira
do rio, durante o banho, por ocasião das abluções sagradas e dos sacrifícios rituais. A sombra insinuava-se-lhe nos olhos
negros, quando ele estava no mangueíral, entretendo-se com jogos
infantis, ouvindo o canto da mãe, presenciando os sacrifícios rituais, escutando os ensinamentos do pai, o erudito, ou
assistindo aos colóquios dos sábios. Havia muito que Sidarta
participava dos colóquios dos sábios. Junto com Govinda, já
realizava torneios de eloqüência; junto cora Govinda, já se exercitava
na arte de contemplar e nos serviços de meditação. Já sabia
pronunciar silenciosamente o Om,1 a palavra das palavras; sabia
dize-lo, silenciosamente de si para si, ao aspirar o ar e pro-
1 Om: “o presente, o passado e o futuro”. É, segundo o upaníchade
de Manduquia, o mundo inteiro, expressado por uma única sílaba, e
ainda tudo quanto pode existir fora dos mencionados três tempos. Pronunciado
de diferentes maneiras, simboliza coisas as mais diversas, tais
como as horas üo dia, os Vedas, os três deuses Brama, Vixna e Siva, etc.
(N. do T.)
5

feri-lo, silenciosamente, para fora, ao expelir o ar, com a alma
concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência
lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a
presença do Átman,2 indestrutível, uno com o Universo.
O coração do pai vibrava de alegria pelo filho dócil, ávido
de saber. Pressentia nele um sábio, um sacerdote, um príncipe
entre os brâmanes.
O peito da mãe enchia-se de delícia, sempre que o olhava,
observando-lhe o modo de caminhar, de sentar-se, de erguer-se,
o modo de Sidarta, o belo, o forte, que lá passeava com suas
pernas delgadas e a saudava com perfeito recato.
Nas almas das jovens filhas de brâmanes nascia o amor,
cada vez que Sidarta andava pelas ruas da cidade, com a testa
luzente, os olhos de um rei, a cintura esbelta.
Mais do que todos os outros, porém, adorava-o Govinda, seu
amigo, filho de brâmane. Amava o olhar de Sidarta, a voz *
meiga, a postura, a primorosa correção dos gestos; amava tudo
quanto Sidarta fazia ou dizia; e, antes de mais nada, amava-lhe o
espírito, 05 pensamentos sublimes, fervorosos, o ardor da
vontade, a alta vocação. Govinda tinha certeza de que o amigo
jamais se tornaria um brâmane comum. “Esse aí nunca será nem
indolente oficial de templo, nem ganancioso mercador de fórmulas
mágicas, nem orador vaidoso e vazio, nem tampouco sacerdote
perverso, bifronte. Mas, ainda menos, chegará a ser ovelha
bonachona, estúpida, em meio ao rebanho de outras iguais.
Nunca!” E o próprio Govinda, por sua vez, não tinha a menor intenção de ser um brâmane qualquer, tal como existe aos
milhares. Queria seguir os passos de seu adorado e maravilhoso
Sidarta e se este um dia se transformasse num deus, entrando no
círculo dos que resplandecem ao longe, então o acompanharia
Govinda, como seu amigo, seu sequaz, seu servo, seu lanceiro, sua
sombra.
Assim todos amavam Sidarta. A todos causava ele alegrias.
Para todos, era fonte de prazer.
Mas a si mesmo, Sidarta não se dava alegria. Para si, não
era nenhuma fonte de prazer. Enquanto passeava pelas sendas
rosadas do figueiredo, enquanto se mantinha sentado na penumbra
azulada do bosque da contemplação, enquanto abluía ò corpo
2 Átman: literalmente fôlego. Em sentido figurado: a força vital, a
personalidade, o eu, a alma, o princípio da vida. (N. do T.)
£

no cotidiano banho expiatório, ou fazia sacrifícios rituais no
mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos de primorosa
correção, despertando amor em toda gente, deliciando
a todos, não sentia, ainda assim, nenhuma satisfação em sua
própria alma. Visões acometiam-no e também pensamentos irrequietos,
brotados das águas do rio, a falsearem nos astros da
noite, a fundirem-se sob os raios do sol. Devaneios assomavam-
lhe aos olhos. O desassossêgo do coração invadia-o, vindo
da fumaça dos sacrifícios, do som assoprado dos versos do Rigveda,
s dos ensinamentos dos brâmanes anciãos.
Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento.
Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da
mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e
a cada momento a força de alegrá-lo, de tranqüilizá-lo, de
nutri-lo, de bastar-]he. Começava a vislumbrar que seu venerando
pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já
lhe haviam comunicado a maior e a melhor parte dos seus conhecimentos:
começava a perceber que eles tinham derramado a
plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele
trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o
espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração
não se sentia saciado. As abluções, por proveitosas que fossem,
eram apenas água; não tiravam dele o pecado; não curavam a
a sede do espírito; não aliviavam a angústia do coração. Excelentes
eram os sacrifícios e as invocações dos deuses — mas que
lhe adiantava tudo isso? Propiciariam os sacrifícios a felicidade?
E quanto aos deuses: foi realmente Prajapati quem criou o
mundo? E não o Átman? Ele, o único, o indivisível? Não eram os
deuses figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis,
dependentes do tempo? Seria, portanto, bom e acertado, oferecer
sacrifícios aos deuses? Era isso realmente uma atividade sensata,
sublime? Quem merecia imolações e reverência, senão Ele, o
único, o Átman? E onde se podia encontrar o Atman, onde
morava Ele, onde pulsava o Seu eterno coração, onde, a não ser
no próprio eu, naquele âmago indestrutível que cada um trazia
em si? Mas, em que lugar^ em que lugar achava-se esse eu, esse
âmago, esse último fim? Não era nem carne nem osso, nem pensamento
nem consciência, segundo afirmavam os mais sábios.
3 Rig-veda: coleção de hinos, o primeiro dos quatro livros sagrados
hindus. (N. do T.)

Onde, onde existia então? Para chegar até ele, até ao eu, até a
mim, ao Ãtman — haveria qualquer outro caminho que valesse
a pena procurai? AÍ dele! ninguém lhe indicava tal caminho,
ninguém o conhecia, nem o pai, nem os mestres e os sábios,
nem os sagrados cânticos do ritual dos sacrifícios! Tudo sabiam
eles, os brâmanes com seus livros santificados; tudo sabiam; com
tudo se preocupavam, com tudo e mais ainda, desde a criação
do mundo e a origem da fala, dos alimentos, da aspiração e da
exaiação até às categorias dos sentidos e às façanhas dos deuses!
Sabiam inúmeras coisas, mas que valor tinha toda essa sabedoria
para quem ignorasse aquiio que era uno e único, o mais importante,
ao lado do qual coisa alguma tinha importância?
Era bem- verdade que numerosos versos dos livros sagrados,
sobretudo dos upanichades do Sama-Veda* referiam-se a esse
quê derradeiro, mais íntimo. Que versos maravilhosos! “Tua
alma é o mundo inteiro” — rezava um deles e estava escrito
que o homem durante o sono, o sono profundo, entrava no
próprio âmago e habitava o Âtman. Sabedoria milagrosa residia
nesses poemas. Todos os conhecimentos dos mais sábios encontravam-
se ali reunidos, puros qual mel colhido pelas abelhas.
Não, absolutamente não convinha desprezar a imensa quantidade
de saber que lá estava armazenada e conservada por inúmeras
gerações de brâmanes eruditos.. . Mas, onde se achariam os
brâmanes, onde os sacerdotes, os sábios ou os ascetas que
lograssem não somente conhecer senão também viver essa profunda
sabedoria? Onde estaria o homem perito que fosse capaz
de realizar aquele passe de mágica que transportasse a familiarídade
com o Átman desde o sono para o estado de vigília, para
a vida de todos os momentos e a demonstrasse por atos e palavras?
Sidarta tinha contato com grande número de venerandos
brâmanes e, em primeiro lugar, com seu pai, homem puro,
letrado, sumamente digno de reverência. Admirável, sim, era o
pai, no seu comportamento calmo, distinto. Pura era sua vida;
ponderada, sua maneira de falar; idéias delicadas e nobres
residiam atrás da sua testa. Quem poderia, porém, afirmar que
esse homem, que tanta coisa sabia, levava uma existência feliz?
Não seria também ele um pesquisador acossado pela sede? Não
* Sama-Veda: o terceiro dos hinos sagrados hindus. Os upanichades,
tratados filosóficos em prosa e verso, constituem-lhe o comentário. (N. do
T.)

se sentia impelido a beber, insaciável, uma e outra vez nas fontes
sagradas, a fim de abrevar-se em sacrifícios, livros, colóquios
com outros brâmanes? Por que era preciso que tal ser incensurável
se lavasse diariamente de seus pecados, empenhando-se
dia a dia naquela incessante purificação? Não mora nele o
Âtman? Não lhe brotava do fundo do coração o manancial dos
mananciais? Esse manancial, cumpria encontrá-lo dentro do
próprio eu, para apossar-se dele! Todo o resto era apenas busca,
desvio, equívoco.
Tais eram os pensamentos de Sidarta, a sua sede, o seu
sofrimento.
Freqüentemente recitava de si para si os versetos de um
upanichade de Xandogia: “Deveras, o nome do BranuP é
satiam* e quem tiver conhecimento disso entrará todos os dias
verdadeiramente no mundo celeste.” Amiúde, esse mundo
celeste descortinava-se-lhe bem próximo, mas jamais ele conseguiu
alcançá-lo, jamais saciou inteiramente a sede. E entre todus
os eruditos que conhecia, entre os pensadores mais sábios cujos
ensinamentos lhe eram ministrados, não havia nenhum que tivesse
chegado até lá, pondo o pé no mundo celeste e matando
a sede perene.
— Govinda! — disse Sidarta ao amigo — Govinda, meu
caro, vem comigo até à figueira. À sua sombra, entreguemo-nos
à meditação.
Encaminharam-se para a árvore. Assentaram-se, Sidarta
num lugar, e Govinda, noutro, a vinte passos de distância.
Enquanto tomava assento e se dispunha a pronunciar o Omt
Sidarta, num murmúrio, repetia os versos:
Om é arco; a alma é a seta;
Brama é o alvo da seta; Cumpre
feri-lo constantemente.”
Decorrido o tempo habitual do exercício de meditação,
levantou-se Govinda. Anoitecera. Convinha fazer a ablução
noturna. E ele chamou Sidarta pelo nome. Mas este não res-
5 Brdma: substantivo neutro que significava primitivamente fórmula
mágica. Mais tarde assumiu o sentido da força imanente à cantiga re
ligiosa, para, finalmente, nos upanichades, referir-se à alma universal,
à força et erna, infinita, qu e cria e cons erva o mundo. (N. do T.) 6 Saíiam: verdade. (N. do T.)

—. Hei de conservar-me assim, aguardando.
— Ficarás cansado, Sidarta.
— Ficarei cansado.
— Adormecerás, Sidarta.
— Não adormecerei.
— Morrerás, Sidarta.
— Morrerei.
— E preferes morrer a obedecer teu pai?
— Sidarta sempre obedeceu seu pai.
— Então desistirás do teu propósito?
— Sidarta fará o que lhe ordenar seu pai.
O primeiro clarão da madrugada invadia a salinha. O bràmane
notou que os joelhos de Sidarta tremiam levemente. Mas
no seu rosto não se deparava nenhum tremor. Os olhos fitavam
um ponto .muito distante. Foi quando o pai se deu conta de que
Sidarta já não se achava junto dele, nem no torrão natal, pois
que acabava de separar-se de ambos.
O pai colocou a mão no ombro, do filho.
— Hás de embrenhar-te no mato — disse — para que
possas ser um samana. Se encontrares a felicidade no mato,
volta e ensina-ma. Se encontrares desilusões, procura-me nova
mente e juntos sacrificaremos aos deuses. Agora vai-te. Abraça
tua mãe e dize-lhe aonde te encaminhas. Para mim, está na
hora de ir ao rio, a fim de fazer a primeira ablução.
Tirou a mão do ombro do filho e saiu. Sidarta cambaleou,
quando tentava pôr-se em movimento. Mesmo assim, dominou
os seus membros. Depois de inclinar-se diante do pai, foi ter
com a mãe, para cumprir com a ordem paterna.
Quando abandonava a cidade ainda silenciosa, à luz da
incipiente madrugada, caminhando devagar, com as pernas enrijecidas,
avistou nas proximidades da última cabana um vulto
que ali estava acocorado. Era Govinda. Ergueu-se e foi com
Sidarta, o peregrino.
— Vieste mesmo — disse Sidarta, sorrindo.
— Vim — confirmou Govinda.

COM OS SAMANAS
NOITE do mesmo dia alcançaram eles os
ascetas, aqueles mesmos esqueléticos s&manas e
pediram-lhes licença para acompanhá-los. Prometeram obedecer-lhes
e foram aceitos. Sidarta deu as suas roupas a um brâmane
indigente que se encontrava à beira da estrada. Apenas ficou
com a tanga e a manta parda. Daí por diante, limitava-se a
fazer uma única refeição por dia e deixava de comer alimentos
cozidos. Jejuou durante quinze dias; durante vinte e oito dias, A
carne sumia-lhe das pernas e das faces. Fervorosos devaneios
bruxuleavam em seus olhos encovados. Nos dedos ressequidos
cresciam unhas compridas. Do queixo pendia a barba seca, hirsuta.
Seu olhar tornava-se glacial, sempre que deparava com mulheres.
Desde-nhosamente crispava-se-lhe a boca, cada vez que, ao
atravessar uma cidade, topasse com pessoas bem vestidas. Via
muito bem como os mercados faziam negócios, como os
potentados iam à caça, os enlutadòs choravam seus mortos, as
meretrizes se ofereciam, os médicos cuidavam de seus pacientes,
os sacerdotes fixavam o dia apropriado para a semeadura, os
namorados enlaçavam-se, as mães amamentavam os
filhinhos… Mas nada disso era digno de ser olhado. Tudo era
mentira; tudo, fedor; tudo recendia a falsidade, tudo criava a
ilusão de significado,
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i A

felicidade, beleza e, todavia, não passava de putrefação oculta.
Amargo era o sabor do mundo. A vida era um tormento.
Um único objetivo surgia diante de Sidarta; o objetivo de
tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos,
vazio de alegria e de pesar. Exterminar-se distanciando-se de si
mesmo; cessar de ser um eu; encontrar sossego, após ter evar
cuado o coração; abrir-se ao milagre, com o pensamento desindividualizado
— eis o que era o seu propósito. Quando todo e
qualquer eu estivesse dominado e morto, quando, dentro do coração,
se calassem todos os anseios e instintos, inevitavelmente
despertaria no seu ser a quinta-essência, o último elemento,
aquilo que já não fosse o eu, o grande mistério.
Em completo silêncio, Sidarta mantinha-se de pé, abrasado
peto sol do meio-dia, torturado pela dor, consumido pela sede.
Mantinha-se de pé, até já não sentir nem dor nem sede. Em
completo silêncio, mantinha-se de pé, na época das chuvas, com
a água a gotejar-lhe dos cabelos, por sobre as espáduas gélidas,
os quadris e as coxas enregeladas. De pé continuava o penitente,
até que os ombros e as pernas deixassem de sentir frio, até
que se calassem, sossegados. Em completo silêncio, quedava-se
acocorado nas brenhas do espinhal. Da pele ardente pingava o
sangue; das chagas, o pus. Hirto, imóvel, permanecia Sidarta,
até que o sangue cessasse de correr e nada mais picasse ou
ardesse.
Sidarta conservava-se sentado, em posição ereta. Aprendia
a economizar o fôlego, a necessitar cada vez menos fôlego, a
abster-se totalmente dele. Aprendia, partindo da respiração
a acalmar as pulsações do coração, a diminuí-las até sobrarem
somente poucas, quase nenhuma.
Orientado pelo mais idoso dos samanas, Sidarta exercitava-
se na desindividualizacão e na meditação, segundo as novas
regras da irmandade. Uma garça voava por cima do bambual
e Sidarta acolhia-a na sua alma. Adejava por sobre as selvas e as
serras, devorava peixes, sofria fome de garça, proferia grasnidos
der garça, morria a morte das garças. O cadáver de um chacal
jazia na areia da ribeira e a alma de Sidarta infiltrou-se nele,
fez-se chacal morto, jazeu na ribeira, intumescida, fedorenta,
putrefata. Dilaceravam-na as hienas, escorchavam-na os abutres.
E ela transformou-se em pó que esvoaçou pelos campos. Em
seguida, a alma de Sidarta regressava. Morrera, decompusera-se,
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transformara-se em pó, experimentara a triste embriaguez do
circuito e Sidarta, acossado de nova sede, tornava a espreitar,
qual caçador, uma lacuna que lhe permitisse esquivar-se do
circuito, para descobrir o lugar onde se encontrasse o fim das
causas e começasse a eternidade isenta de pesares. Mortificava
os sentidos: aniquilava as recordações: distanciandc^se do seu
eu, introduzia-se em milhares de formas estranhas; convertia-se
em bichos, carniças, pedras, tocos, águas e ao acordar, sempre
se reencontrava. Que brilhasse o sol ou a lua, Sidarta tornava
a seu eu, a flutuar no circuito, a padecer sede, a dominar a
sede, a sentir nova sede.
Os samanas ensinavam muita coisa a Sidarta e ele aprendia
numerosos métodos de separar-se do eu. Trilhava a senda da
desindividualização, através da dor, através do tormento voluntário
e do triunfo sobre o sofrimento, sobre a fome, a sede, o cansaço.
Desindividualizava-se, mediante a meditação, tirando
do seu espírito toda e qualquer representação, até deixá-lo
vazio. Aprendia a percorrer esse e outros caminhos, saindo
inúmeras vezes do próprio eu e conservando-se no não eu, horas
e dias a fio. Mas, por mais que os caminhos o afastassem do
eu, ao fim sempre o reconduziam até ele. Se bem que, Sidarta,
milhares de vezes escapasse a si mesmo, para demorar-se no
nada, nos animais, nas pedras, era inevitável o retorno, era
impossível evitar a hora do reencontro, à luz do sol ou ao luar,
na penumbra ou sob a chuva; sempre vinha a hora em que ele
era novamente Sidarta, eu e sentia mais uma vez a tortura do
circuito imposto a ele.
A seu lado vivia Govinda, sua sombra. Trilhava as mesmas
sendas. Afadigava-se da mesma forma. Só raras vezes falavam
eles sobre outros assuntos que não aqueles que o serviço e os
exercícios requeriam. De quando em quando, ambos passavam
pelas aldeias, a mendigarem alimentos para si e para os seus
mestres.
— Que tal, Govinda? — disse Sidarta durante uma dessas
jornadas. — Achas que fizemos progressos? Realizamos algum
propósito?
Respondeu Govinda:
— Aprendemos e continuamos a aprender. Tu, Sidarta,
chegarás a ser um grande satnana. Em pouco tempo conseguiste
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executar todos os exercícios. Freqüentemente os velhos samanas
tributaram-te admiração. Um dia serás um santo, ó Sidarta.
Replicou Sidarta:
— A mim, meu amigo, .-as coisas não se apresentam assim.
Olha, Govinda: aquelas lições que, até ao dia de hoje, aprendi
dos samanas, eu poderia tê-las assimilado mais depressa e com
menos esforço. Aquilo, meu caro, posso aprendê-lo em qual
quer tasca do bairro de meretrizes, entre carroceiros e jogadores
de dados.
— Sidarta está brincando comigo — tomou Govinda. —
Como poderias obter daqueles miseráveis a arte da meditação,
a suspensão do fôlego, a insensibilidade à fome e à dor?
Mas Sidarta disse em voz baixa, como se falasse de si
para si:
— O que é a meditação? O que, o abandono do corpo?
Que significa o jejum? E a suspensão do fôlego? São modos de
fugirmos de nós mesmos. São momentos durante os quais o
homem escapa à tortura de seu eu. Fazem-nos esquecer, passa
geiramente, o sofrimento e a insensatez da vida. A mesma fuga,
o mesmíssimo esquecimento, o boiadeiro encontra-os na estalagem,
quando bebe algumas tigelas de vinho de arroz ou de leite
de coco fermentado. Então cessa de sentir o seu eu, cessa de
padecer dores, anestesia-se por algum tempo. Ao adormecer,
junto à tigela de vinho de arroz, consegue o mesmo efeito que
provocam Sidarta e Govinda, cada vez que, depois de prolongados
exercícios, se distanciam de seus corpos, a fim de entrarem no
não eu. Realmente, é assim, Govinda!
— Ainda que fales assim, meu amigo, — retrucou
Govinda — sabes muito bem que Sidarta não é nenhum boia
deiro e que os samanas não são ébrios. É verdade que um
beberrão obtém o esquecimento. Certamente se lhe oferecem
breves instantes de fuga e de sossego, mas sempre regressará
do mundo da ilusão e tudo se lhe deparará como antes. Ele
não se torna mais sisudo, não colhe conhecimentos, não sobe
nenhum degrau.
E Sidarta replicou, sorrindo;
— Isso não sei julgar. Nunca fui beberrão. Mas uma coisa
sei, ó Govinda: nos meus exercícios e nas minhas meditações,
eu, Sidarta, encontro apenas fugidias fases de esquecimento.
E que, apesar disso, continuo tão distante da sabedoria, da
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salvação, quanto fica um feto no ventre da mãe, disso tenho plena
certeza.
Em outra ocasião, quando Sidarta, acompanhado de
Govinda, saía do mato, a fim de mendigarem na aldeia alguma
comida para si e para os mestres, começou a abrir-se novamente,
dizendo:
— Que achas, Govinda? Estamos no caminho certo? Pensas
que nos aproximamos do conhecimento? Chegamos mais perto
da graça? Ou, quem sabe, movimentamo-nos num círculo fe
chado, justamente nós que queríamos escapar ao circuito?
A isso respondeu Govinda:
— Olha, Sidarta, aprendemos muito, mas muita coisa ainda
resta-nos aprender. Não nos movimentamos num círculo fe
chado, senão subimos sempre. O círculo é uma espiral. Já
galgamos numerosos degraus.
Tornou Sidarta:
— Que pensas, quantos anos tem o nosso venerando
mestre, o mais idoso dos somemos?
E Govinda: — O mais velho deve contar uns sessenta
anos.
— Sessenta anos — retorquiu Sidarta — e não alcançou
o Nirvana? Ele completará setenta anos e oitenta, e tu e eu,
talvez cheguemos à mesma idade. Faremos exercícios, jejuarcmos,
havemos de meditar. Mas nunca alcançaremos o Nirvana,
nem ele, nem nós. Acharemos consolo, encontraremos esque
cimento, aprenderemos técnicas mediante as quais nos possamos
iludir. O essencial, porém, o caminho dos caminhos, jamais
se nos descortina.
•— O Sidarta — exclamou Govinda — não pronuncies essas
palavras assustadoras! Como então seria possível que entre tantos
homens sábios, entre tantos brâmanes, entre tantos samanas
austeros e veneráveis, entre tantos e tantos pesquisadores esforçados
e puros, não houvesse nenhum que fosse capaz de encontrar
o caminho dos caminhos?
Mas Sidarta respondeu numa voz que refletia, ao mesmo
tempo, pesar e escárnio, voz baixa, um pouco triste e todavia,
irônica:
7 Nirvana: extinção da individualidade, emancipação final.
17

— Em breve, ó Govinda, o teu amigo há de afastar-se
da senda dos samanas, pela qual andou, lado a lado contigo,
durante muito tempo. Sinto sede, Govinda e no curso da longa
caminhada que fiz junto com os samanas, a minha sede não
diminuiu em absoluto. Sempre almejei o conhecimento; sempre
abriguei em mim grande número de perguntas. Consultei cs
brâmanes, ano por ano, e consultei os sagrados vedas, ano por
ano, e consultei os piedosos samanas, ano por ano. Talvez, ó
Govinda, fosse igualmente oportuno, sensato e proveitoso inter
rogar uma ave ou um chimpanzé. Gastei muito tempo e ainda
não cheguei ao fim, para apenas aprender isto: que não se pode
aprender nada! Acho eu que a tal coisa que chamamos “apren
der” de fato não existe. Existe, sim, meu amigo, uma única
sabedoria, que se acha em toda a parte. É o Átman, que está
em mim e em ti e em qualquer criatura. E por isso começo 2
crer que o pior inimigo dessa sabedoria é a sede de saber,
é a aprendizagem,
Nesse momento, Govinda estacou no meio do caminho.
Levantando as mãos ao céu, implorou:
— ó Sidarta, não desencorajes teu amigo, falando assim!
Realmente, tuas palavras despertam em meu coração gravíssimos
temores. Imagina apenas: onde ficaria a santidade das orações,
que seria feito da respeitabilidade da classe dos brâmanes e da
virtude dos samanas, se aquilo fosse verdade e não pudéssemos
aprender nada? Dize-^ne, ó Sidarta: qual seria então o destino
de todas as coisas sagradas, valiosas, dignas de reverência que
existem nesta terra?
E num murmúrio, Govinda recitou um verseto de um upanichade:
“Quem, ao meditar, com o espírito purificado, se confundir
com o Átman, propiciará ao seu coração indizível bem-aventurança.”
Sidarta, porém, permaneceu calado. Refletiu acerca das
palavras pronunciadas por Govinda e, no seu pensamento, acompanhou-
as até ao seu derradeiro significado.
“Sim, — pensou, enquanto se detinha também, sabisbaixo
— que nos restaria de tudo quanto se nos afigurava sagrado?
O que ficará? O que resistirá à prova?”
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E sacudiu a cabeça.
Certa feita, quando os dois jovens já haviam passado três
anos em companhia dos samanas, sempre participando dos exercícios
recomendados por estes, alcançou-os por estranhos caminhos
e desvios uma nova, um boato, um mito, a afirmar que
acabava de surgir uma pessoa de nome Gotama, o Sublime, o
Buda, aquele que dominara em si mesmo o sofrimento do mundo
e fizera parar a roda das ressurreições. Dizia-se que ele percorria
o país, a ensinar, rodeado de discípulos, desprovido de
recursos, sem pátria, sem mulher, trajando o manto amarelo dos
ascetas, mas mostrando uma fisionomia plácida, como um bemaventurado.
Brâmanes e príncipes, inclinando-se diante dele,
tornavam-se seus discípulos.
Esse mito ou boato ou lenda ecoava em toda a parte,
exalando aqui e ali o seu insinuante aroma. Nas cidades, os
bíâmanés comentavam-no e na selva, os samanas. Sempre e
sempre, o nome de Gotama, o Buda, chegava aos ouvidos dos
jovens, por bem ou por mal, encomiado ou envilecido.
Dava-se então o que ocorreria quando, num país atacado
pela peste, se espalhasse a notícia de que, em algum lugar, existia
um homem, um sábio, um perito, cuja palavra e cujo sopro ba&-
tassem para curar todas as pessoas acometidas pelo mal. Se tal
nova se propagasse pela região e todos falassem dela, sempre
haveria quem acreditasse nela e quem manifestasse dúvidas.
Muitos, porém, pôr-se-iam a caminho, a fim de irem ao encontro
do sábio, do salvador. Da mesma forma, corria de boca em
boca aquela lenda; a perfumada lenda de Gotama, o Buda, o
sábio da estirpe dos Saquias. Coubera a ele — segundo afirmavam
os crentes — o dom do conhecimento supremo e de
recordar-se das suas existências anteriores. Tendo alcançado o
Nirvana, nunca mais voltaria ao circuito; jamais tornaria a mergulhar
na turva torrente das configurações. A seu respeito,
divulgavam-se numerosos fatos maravilhosos, formidáveis. O
Buda fizera milagres, vencera o Diabo, conversara com os deuses.
Seus céticos inimigos, porém, diziam que o tal Gotama era
apenas um sedutor vaidoso; que passava os seus dias numa vida
ociosa, desprezando os sacrifícios; que não possuía a menor
erudição e não tinha noção de exercícios e mortificações.
Doce era o som da lenda do Buda; mágica, a fragrância
dos boatos. Ora, o mundo estava doente. Tornara-se difícil
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suportar a vida. . . E, todavia, imaginem! lá manava uma
fonte de consolo. Era como se ressoasse o brado de um arauto,
chamado reconfortante, clemente, prenhe de generosas processas.
Onde quer que se divulgasse a fama do Buda, em todos
os recantos das terras da índia, os jovens aguçavam o ouvido,
cheios de saudade e de confiança. Entre os filhos de brámanes,
nas cidades e nas aldeias, era bem-vindo qualquer peregrino
cai forasteiro que lhes trouxesse notícias de Gotama, o Sublime,
o Saquia-Muni.
A nova, penetrando na própria selva, alcançou também os
$amana$. Sidarta e Govinda ouviram-na, aos poucos, em gotas,
gotas pejadas de esperanças e de dúvidas. Só raras vezes falavam
a seu respeito, já que o decano dos samanas não gostava da lenda,
porque fora informado de que o pretenso Buda outrora vivera
oo mato, como ermitão, porém, retornara à boa vida e aos prazeres
mundanos. Por essa razão, o velho satnana formara uma
opinião desfavorável àquele Gotama.
— ó Sidarta, — disse Govinda certa feita ao amigo —
hoje estive na aldeia e um brâmane convidou-me para entrar
tja sua casa. Ali se encontrava o filho de um brâmane de
Magada, o qual viu o Buda com os próprios olhos e assistiu
às suas aulas. Realmente, nesse momento, a respiração me doeu
no peito. Fiquei pensando: quem me dera que eu, que Sidarta
e eu, pudéssemos viver até àquela hora em que nos fosse per
mitido ouvir da boca desse Ser Perfeito a sua doutrina! Que
achas, meu amigo? Que tal, se nós também nos encaminhásse
mos ali, a fim de recebermos os ensinamentos do Buda em
pessoa?
Respondeu Sidarta:
— Eu sempre pensei, ó Govinda, que tu nunca te afastarias
dos samanas. Sempre acreditei que fosse o propósito de Govinda
chegar aos sessenta e aos setenta anos, praticando sem cessar
os métodos e os exercícios que fazem honra ao samana. Mas,
vejam só! eu não conhecia Govinda. Pouca coisa sabia do seu
coração. Pois então, meu caro, tens realmente a intenção de
trilhar uma senda nova e de encaminhar-te ao lugar onde o Buda
proclama a sua doutrina?
Replicou Govinda:
— Estás zombando de mim. Não faz mal, Sidarta. Mas,
olha: não despertaram também em ti a vontade e o desejo de
20

conhecer essa doutrina? E não me disseste certa vez que não
acompanharia» por mais tempo os caminhos dos &amanas?
Nesse momento riu-se Sidarta, à sua maneira, e quando
falou em seguida, havia no som de sua voz um quê de mágoa
e uma pitada de ironia:
— Muito bem, Govínda — disse. — Falaste bem, e certas
são as tuas recordações. Oxalá te lembres também de outra
frase que me ouviste proferir; a saber que me tornei desconfiado
com relação a ensinamentos e aprendizagens, que me cansei
deles e que minha fé em palavras pronunciadas por professores
diminuiu muito. Mas, apesar disso, meu querido, vamo-nos!
Estou disposto a enfronhar-me naquela doutrina, ainda que, no
fundo do coração, esteja convencido de que já saboreamos os
seus melhores frutos.
Retorquiu Govinda:
— Minha alma alegra-se em face do teu intuito. Explicame,
porém, uma coisa; acho impossível aquilo que afirmaste.
Como poderia a doutrina do Buda nos proporcionar os seus
melhores frutos antes que a conhecêssemos?
E Sidarta:
— Gozemos desses frutos e aguardemos o resto. O primeiro
fruto cujo sumo devemos ao Buda consiste no fato de ele ter-nos
aliciado para longe dos samanas. Resta saber se ele tem ainda
outras coisas, coisas melhores, a oferecer-nos, mas isso, meu
amigo, podemos aguardar com toda a calma.
Nesse mesmo dia, Sidarta comunicou ao decano dos samanas
a decisão que tomara, no sentido de separar-se dele. Falou
ao ancião com a cortesia e a modéstia que convém aos jovens e
aos discípulos. Mas o samana enfureceu-se, ao saber que os dois
rapazes desejavam abandoná-lo. Começou a gritar, usando
nomes feios.
Govinda, todo assustado, ficou perplexo. Sidarta, porém,
aproximou a boca da orelha do amigo e sussurrou-lhe:
— Agora mostrarei ao velho que aprendi dele algumas coisinhas.
Colocando-se perto do samana, com a alma concentrada,
apanhou nos seus olhos o olhar do ancião. Dominou-o, fez com
que ele se calasse e perdesse a vontade própria. A seguir ordenou-
lhe que, sem protesto, executasse o que lhe fosse imposto.
O velho silenciou. Os olhos imobilizaram-se. Sua vontade
21

tornou-se inerte. Os braços pendiam frouxos. Impotente, sucumbia
ao feitiço de Sidarta. E os pensamentos do jovem apoderavam-
se do samana que teve de fazer o que dele exigia. Curvando-
se várias vezes, o decano esboçou gestos de bênção e, em
voz embargada, proferiu votos de boa viagem. Os dois amigos,
por sua vez, retribuíram as mesuras, agradecendo e afastaram-se
cem uma saudação.
— Ó Sidarta, — disse Govinda durante a caminhada —
aprendeste dos samanas mais do que &u sabia. É difícil, muito
difícil mesmo, enfeitiçar um somaria idoso. Falando sério, se
tivéssemos permanecido ali, rapidamente terias aprendido a
caminhar sobre as águas.
— Ora, não me tenta caminhar sobre as águas — respon
deu Sidarta. — Que os velhos somemos se divirtam com truques
dessa espécie!

GOTAMA
A CIDADE de Savati, até as crianças
conheciam o nome do augusto Buda e todas as
famílias apressavam-se em encher as tigelas de esmola dos
discípulos de Gotama, cada vez que estes as imploravam, sem
pronunciarem palavra alguma. Nas proximidades da cidade estava
o sítio preferido do Buda: o bosque de Jetavana, que
Anatapindica, abastado admirador do Majestoso, dera de
presente a ele e seus adeptos.
Sem exceção, as descrições e as respostas que os dois jovens
ascetas haviam obtido, enquanto andavam à busca de Gotama,
tinham-lhes indicado essa mesma região. Logo que chegaram
à primeira casa de Savati e pararam diante da porta
em posição súplice, alguém lhes ofereceu comida. Aceitaram os
alimentos e Sidarta perguntou à mulher que os atendia:
— ó bondosa moça, nós ansiámos de saber onde se en
contra o venerabilíssimo Buda. Somos samanos e saímos da
selva, a fim de vermos o Inigualável e ouvirmos de sua boca
a doutrina.
— Deveras, ó samanas da selva, — tornou a mulher —
repousais no lugar certo. Pois, o Augusto reside em Jetavana,
no jardim de Anatapindica. Convém, ó peregrinos, passardes a
23
N,

noite ali, uma vez que naquele recinto não falta espaço para
o sem-número de pessoas que afluem para ouvirem de sua boca
a doutrina,
Com isso alegrou-se Govinda.
— Até que enfim! — exclamou jubilosamente. — Chega
mos ao nosso destino. Terminou a viagem. Mas, dize-nos, ó mãe
dos peregrinos: conheces o Buda? Já o viste com teus próprios
olhos?
E a mulher:
— Muitas vezes vi o Augusto. Em numerosas ocasiões ob
servei-o quando passava pelas ruas, sem falar, com seu manto
amarelo, ou apresentava, silenciosamente, a tigela de esmola às
portas das casas, ou ainda quando se afastava com a tigela cheia.
Encantado. Govinda escutou-a. Já se dispunha a fazer
outras perguntas, para ouvir mais. Sidarta, porém, insistiu em
que prosseguissem na caminhada. Agradeceram e partiram. Não
havia necessidade de pedirem informações, quanto à direção,
porquanto não era pequeno o número de peregrinos e de monges
do séquito de Gotama que se encaminhavam a Jetavana. E, à
noite, quando alcançaram o lugar, não cessou nunca o movimento
de chegadas, gritos, vozerios, de pessoas que procuravam
e achavam pouso. Os dois somo nas, habituados à vida na selva,
encontraram facilmente um abrigo, onde pudessem descansar até
à madrugada.
Ao nascer do sol, notaram, com espanto, a multidão de
fíéis e curiosos que pernoitara a seu redor. Por todas as veredas
do bosque sagrado perambulavam monges de trajes amarelos;
estavam sentados sob as árvores, absorvidos na meditação; aqui
e ali travavam diálogos sobre assuntos religiosos. Os hortos
obumbrados pareciam uma cidade cheia de habitantes que ali
fervilhavam, qual enxame de abelhas. A maioria dos monges punha-
se a caminho com as tigelas de esmolas, a fim de obterem,
na cidade, comida para a refeição do meio-dia, a única que
costumavam fazer. Também o próprio Buda, o Iluminado, tinha
o hábito de esmolar na parte da manha.
Sidarta deparou com ele e imediatamente o reconheceu,
como se um deus lho tivesse indicado. Observou como ele andava
calmamente, um homem simples, de batina amarela, com
a tigela de esmoleiro na mão.
24

— Olha aí! — segredou Sidarta ao ouvido de Govinda.
— Es.se é o Buda.
Atentamente, Govinda examinou o monge trajado de amarelo
e que em nada parecia distinguir-se de centenas de outros
monges. E logo percebeu também Govinda: é ele! E seguindo-o,
ambos contemplavam o Buda.
Este palmilhava a estrada, recatadamente, entregue a seus
pensamentos. Seu semblante impassível não mostrava nem alegria
nem tristeza. Era como se, no seu íntimo, sorrisse silenciosamente.
Com um sorriso imperceptível, tranqüilo, comedido,
feito criança sadia, avançava o Buda, vestindo os mesmos trajes
e colocando os pés de modo igual ao de todos os seus monges,
conforme a rigorosos preceitos. Mas seu rosto, seus passos, seu
olhar sereno, abaixado, sua mão que pendia imóvel e os próprios
dedos dessa mão — tudo isso proclamava paz, proclamava
perfeição, sem buscar, sem imitar nada; tudo era respiração suave,
em imperecível sossego, em imorredoura luz, em nunca perturbada
paz.
Assim caminhava Gotama, rumo à cidade, para pedir esmolas
e os dois samanGS identificavam-no unicamente pela perfeição
da serenidade, pela calma da aparência, que não deixava
perceber nem ambição, nem vontade, nem arremedo, nem. esforço,
senão apenas luz e paz.
— Hoje hemos de ouvir a doutrina da própria boca do
Buda — disse Govinda.
Sidarta permaneceu calado. Sentia pouca curiosidade pela
doutrina. Não acreditava que ela pudesse ensinar-lhe algo de
novo, uma vez que, tanto ele como Govinda, haviam obtido
freqüentes informações acerca do teor dos ensinamentos de Gotama,
ainda que se tratasse de relatos de segunda ou terceira
mão. Contudo fitava atentamente a cabeça do Buda, os ombros,
os pés, a mão que pendia serenamente. Parecia-lhe que as falanges
de cada dedo dessa mão eram doutrina, falavam, respiravam,
exalavam aroma, derramavam o brilho da verdade. Esse homem,
esse Buda, era sincero até no gesto do último dos seus dedos.
Era santo. Jamais Sidarta venerara tão fervorosamente nenhum
ser humano. Jamais tributara tamanho amor a homem algum.
Ambos seguiram o Sublime até à cidade. Voltaram em silêncio,
porquanto tencionavam abster-se de alimentos durante
esse dia. Viram como Gotama regressava. Observaram como
25

fazia a sua refeição, rodeado pelos discípulos. O que comia
não teria bastado nem sequer a um passarinho. E eles acompanharam-
no com os olhos, quando se recolhia à sombra do
mangueiral.
À tardezmha, porém, logo que o calor amainara e os habitantes
do acampamento se reuniram, reanimados, escutaram ambos
os ensinamentos do Buda. Ouviram a voz dele e também
esta era perfeita, manifestava tranqüilidade total, irradiava paz.
Gotama ministrava a doutrina do sofrimento, da origem do sofrimento,
do caminho à abolição do sofrimento. Calmamente, lücjdamente,
fluía a exposição plácida. A vida era sofrimento; o
mundo estava cheio de mágoas; mas encontrara-se a salvação
capaz de livrar-nos das tristezas: achá-la-ia quem acompanhasse
o caminho do Buda. Com voz suave e, todavia, firme, falava o
Augusto. Ensinava os quatro axiomas fundamentais, ensinava
a óctupla estrada. Pacientemente, percorria a vereda habitual da
doutrina, dos paradigmas, das repetições. Clara e branda, a voz
pairava por cima dos ouvintes, como uma luz, como um firmamento
estrelado.
,Já anoitecera, quando o Buda cessou de falar, Em seguida,
alguns peregrinos aproximaram-se dele e lhe pediram que os acoihesse
na sua comunidade, para que a doutrina os abrigasse,
E Gotama admitiu-os, dizendo:
— Bem ouvistes a doutrina. Bem foi ela explicada. Vinde
então, para viverdes em santidade e acabardes com todo o
sofrimento.
Eis que Govinda, por tímido que fosse, igualmente avançou,
anunciando:
— Também eu procuro agasalho na proximidade do Au
gusto e da sua doutrina. — Solicitou a sua admissão ao círculo
dos discípulos e foi aceito.
Logo depois, o Buda recolheu-se ao repouso noturno. Nesse
instante, Govinda dirigiu-se a Sidarta, falando com ardor:
— Olha, Sidarta, não me cabe certsurar-te. Mas tu e eu
escutamos a voz do Augusto. Ambos assistimos à exposição
da doutrina. Govinda assimilou-a e procurou agasalho nela. E tu,
meu prezado amigo, não queres trilhar também a senda da sal
vação? Por que hesitas? Que aguardas ainda?
Era como se Sidarta despertasse de um sono profundo,
ao ouvir as palavras de Govinda. Por muito tempo olhou o
26

rosto do companheiro. A seguir, disse ern voz baixa, sem nenhuma
ironia:
— Govinda, meu caro, acabas de dar o passo e de escolher
o caminho. Sempre fôste meu amigo, ó Govinda, sempre andaste
um passo atrás de mim. Freqüentemente pensei: será que Go
vinda nunca dará um passo sozinho, sem mim, pela iniciativa
da sua própria alma? Pois é, e agora te tornaste homem e tu
mesmo detenninaste o teu destino. Oxalá consigas chegar ao
fim da tua jornada, meu querido! Que encontres a salvação!
Govinda, que por enquanto não compreendia inteiramente
o significado dessas palavras, repetiu a sua pergunta com certa
impaciência:
— Decide-te, finalmente, meu caro, faze-me o favor! Dizeme,
uma vez, que não pode haver outra solução, que também tu,
meu sábio amigo, desejas procurar agasalho na proximidade do
bublime Buda!
Deitando a mão no ombro de Govinda, respondeu Sidarta:
— Ó Govinda, não percebeste a bênção que pronunciei.
Repito-a; oxalá que possas chegar ao fim da tua jornada! Que
encontres a salvação!
Nesse momento, Govinda deu-se conta de que o compai.
heiro o abandonava. Rebentou em pranto.
— Sidarta! — exclamou em voz lamentosa
Mas este prosseguiu jovialmente:
— Não esqueças, Govinda, que daqui por diante fazes
parte dos samonas do Buda. Renunciaste á pátria e aos pais; rsmmciaste
à estirpe e às posses; renunciaste à tua própria vontade;
renuüciaste à amizade. Assim o requer a doutrina. Assim o de
seja o Augusto. Tu mesmo o quiseste assim. Amanhã, ó Go
vinda, hei de separar-me de ti.
Por muitas horas, ainda, os amigos passearam pelo bosque.
Por muitas horas, permaneceram deitados, sem conciliarem
o sono. Uma e outra vez, Govinda insistiu com o companheiro
para que este lhe dissesse por que se recusava a acolher
a doutrina de Gotama e que defeitos encontrava nela. Mas
Sidarta sempre se negava às ‘súplicas do amigo, dizendo:
— Sossega, Govinda! A doutrina do Augusto é excelente.
Como poderia eu encontrar nela um defeito sequer?
Ao primeiro clarão da madrugada, um dos mais velhos de
entre os monges adeptos do Buda atravessou o jardim, a fira
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de convocar todos aqueles que desejassem procurar agasalho na
doutrina. Queria vestir os neófitos com os trajes amarelos e ensinar-
lhes os conhecimentos básicos, bem como as obrigações
das pessoas do primeiro grau. Eis senão quando Govinda, como
que desarraigado, abraçou, mais uma vez o companheiro. Em
seguida, entrou no séquito dos noviços.
Sidarta, porém, vagueou pelo bosque, entregue aos seus
pensamentos.
Foi nesse momento que Gotama, o Augusto, cruzou-lhe
o caminho. O jovem saudou-o reverentemente e quando notou o
olhar bondoso, sereno, do Buda, encheu-se de coragem. Pediu
ao Venerável que lhe desse licença para falar. Com um aceno
silencioso, o Augusto anuiu.
E Sidarta começou:
— Ontem, ó Majestoso, coube-me em sorte ouvir a tua
maravilhosa doutrina. Junto com meu amigo, vim de longe, a
tim de conhecê-la. E agora meu amigo aderiu aos teus discí
pulos, abrigando-se na tua proximidade. Eu, porém, hei de rei
niciar a minha peregrinação.
— À vontade — tornou o Venerável, cortêsmente.
— Minha palavras são excessivamente audaciosas — con
tinuou Sidarta — mas não quero separar-me do Augusto, sem
ter-lhe comunicado, com toda a franqueza, os meus pensamen
tos. Consentiria o Venerável em prestar-me atenção por mais
um instante?
Silencioso, o Buda deu anuência.
— Há uma coisa, ó Venerabilíssimo, — prosseguiu Sidaría
— que despertou em mim especial admiração, logo que conheci
a tua doutrina. Nessa doutrina, tudo fica completamente claro.
Tudo é demonstrado. Tu mostras o mundo sob a forma de uma
corrente perfeita, jamais e nenhures interrompida, corrente eter
na, constituída de causas e efeitos. Nunca, em parte alguma, isso
se percebeu com tamanha nitidez, nem tampouco foi exposto
tão irrefutavelmente. Realmente, os corações de todos os brâmanes
deverão vibrar de alegria, quando seus olhos enxergarem
o cosmo através de tua doutrina, esse cosmo que forma um
conjunto inteiriço, sem lacunas, límpido como cristal, não depen
dente nem do acaso nem dos deuses. Se o mundo é bom ou
mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa
pergunta pode permanecer sem resposta. Pede ser que aquilo
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tenha pouca importância. Mas a unidade do mundo, o nexo
existente entre todos os acontecimentos, o fato de todas as coisas,
tanto as grandes como as pequenas, estarem incluídas no mesmo
decorrer, na mesma lei das causas, do devir e do morrer — tudo
isso, ó Augusto, ressalta luminosamente na tua excelsa doutrina.
Mas, nessa mesma doutrina, há um único lugar em que tal
unidade e lógica das coisas estejam interrompidas. Por uma
minúscula lacuna penetra na unidade desse mundo um elemento
estranho, novo, que antes não existiu, que não pode ser mostrado
nem comprovado. Refiro-me à tua tese acerca da possibilidade
de superarmos o mundo e alcançarmos a redenção. Ora, essa
pequeníssima lacuna, essa brechazinha, basta para destruir e
liquidar toda a unidade e eternidade da lei cósmica. Perdoa-me
a audácia de ter feito esta objeção.
Silencioso, impassível, escutara Gotama. A seguir falou o
Homem Perfeito, na sua voz delicada e clara:
— Ouviste a doutrina, ó filho de brãmane e honra-te teres
meditado profundamente a seu respeito. Enconíraste nela uma
lacuna, uma falha. Continua a refletir sobre ela. Permite-me,
porém, ó moço ávido de saber, que te advirta do emaranhamento
das opiniões e da disputa acerca das palavras. Pouco valor têm
as opiniões, sejam elas lindas ou feias, sensatas ou estúpidas.
Qualquer um pode agarrar-se a elas ou também refutá-las. Mas
a doutrina que ouviste da minha boca não é nenhuma opinião
e não tem o propósito de explicar o mundo a pessoas ávidas
de saber. Seu desígnio é a redenção do sofrimento. O que
Gotama ensina é ela e nada mais.
— Não tenhas rancor contra ,ním, ó Augusto — disse o
jovem. — Não me dirigi a ti para discutir contigo, para provocar
uma disputa em torno de palavras. Deveras tens razão: pouco
valor têm as opiniões. Mas, com tua licença, direi mais uma
coisa: não duvidei de ti nenhum instante. Não duvidei em ab
soluto de que és o Buda, de que alcançaste o objetivo supremo
a cuja busca se encaminharam tantos milhares de brâmanes e
filhos de brâmanes. Obíiveste a redenção da morte! Ela te cou
be em virtude do teu próprio empenho, pelo método que é teu,
pelo pensamento, pela meditação, pelo conhecimento, pela ilu
minação. Não a conseguisíe através da doutrina! E — eis o
meu raciocínio, ó Augusto — ninguém chega à redenção me
diante a doutrina! A pessoa .alguma, ó Venerável, poderás
29

comunicar e revelar por meio de palavras ou ensinamentos o qus
se deu contigo na hora da tua iluminação! Ela contém muita
coisa, a doutrina do esclarecido Buda. A numerosas pessoas
indica o caminho para uma vida honesta, afastada do Mal.
Mas há uma única coisa que não se acha nessa doutrina, por
mais clara e veneranda que ela seja. Não nos é dado saber o
segredo daquela experiência que teve o próprio Augusto, só êU
entre centenas de milhares de homens. São esses os pensamentos
e as percepções que me vieram» quando ouvi a doutrina. Por
isso, hei de prosseguir na minha peregrinação, não para ir à
procura de outra doutrina melhor, já que sei muito bem que não
há nenhuma, senão para separar-me de quaisquer doutrinas e
mestres, a fim de que possa alcançar sozinho o meu destino
ou então morrer. Contudo me lembrarei freqüentemente deste
dia, ó Sublime, e desta hora, na qual um santo se deparou aos
meus olhos.
Serenamente, o Buda fitava o chão. Plàcidamente, com
perfeita impassibilidade, luzia o rosto mescrutável.
—• Oxalá — disse lentamente o Venerável — que teus
pensamentos não sejam erros! Que te seja permitido alcançar o
teu destino! Mas, dize-me: viste a multidão de meus samaws,
o sem-número de meus irmãos, que se agasalharam na minha
doutrina? E achas, ó samana forasteiro, achas realmente que seria
melhor para todos eles que abandonassem a doutrina e regressassem
à vida do mundo e dos prazeres?
— Longe de mim pensar semelhante coisa — exclamou
Sidarta. — Que eles continuem fiéis à tua doutrina e realizem
os seus propósitos! Não me cumpre julgar a vida de outrem.
Devo opinar, escolher, rejeitar unicamente no que se refere a
mim mesmo. Nós, os samanas, procuramos a redenção do eu,
ó Augusto. Ora, se eu fosse um dos teus discípulos, ó Venerável,
poderia acontecer-me — assim receio — que meu eu só aparentemente,
falazmente obtivesse sossego e redenção, mas na realidade
continuasse a viver e a crescer, uma vez que eu teria
então a tua doutrina, teria o fato de ser teu adepto, teria meu
amor a ti, teria a comunidade dos monges e faria de tudo isso o
meu eu.
Esboçando um meio-sorriso, Gotama contemplava o forasteiro
com inabalável clareza e bondade. A seguir, despedindo-o
com um gesto quase imperceptível, disse o Augusto:
30

— És inteligente, ó samana. Sabes falar inteligentemente,
mas, meu amigo, acautela-te contra o excesso de inteligência!
O Buda afastou-se 2 seu olhar, seu meio-sorriso gravaram-se
para sempre na memória de Sidarta.
“Nunca vi homem algum que me olhasse e sorrisse assim,
que tivesse esse modo de andar e sentar-se — pensou o jovem.
— Quem me dera olhar, sorrir, caminhar, manter-me sentado
à sua maneira, com esse quê de liberdade, de dignidade, de
discrição, de ingenuidade, de franqueza e de mistério! Realmen
te, assim só pode olhar e caminhar quem tiver penetrado no
âmago de sua personalidade. Pois então, também eu me empe
nharei em penetrar no âmago de minha alma.”
“Vi um homem — continuou Sidarta nos seus pensamentos
— um único homem, diante do qual tivesse de baixar os olhos
Não tenciono baixar os olhos diante de mais ninguém, ninguém!
Já não me tentará doutrina alguma, uma vez que a dele não
me seduziu.”
“O Buda privou-me de muita coisa — ponderou Sidarta.
—, Tirou-me algo e ainda mais me deu de presente. Privou-me
do amigo, do homem que acreditava em mim e agora crê nele,
da pessoa que era minha sombra e passou a ser a sombra de
Gotama. E, no entanto, ele me deu Sidarta, deu-me a mim mesmo.

O DESPERTAR
NQUANTO Sídarta saía do bosque, onde
permanecia o Buda, o Perfeito, onde também
permanecia Govinda, sentia que deixara atrás, nesse recinto, toda
a sua vida anterior, a qual daí por diante se separaria dele. Essa
sensação que tomava conta do seu espírito preocupou-o durante a
vagarosa caminhada. Sidarta refletia profundamente. Mergulhava
até o fundo dessa emoção, assim como se mergulha na água, para
alcançar-se o ponto onde repousam as causas. Pois lhe parecia
que o verdadeiro pensar consistia no reconhecimento das causas
e que, desse modo, o sentir se convertia em saber, o qual, ao
invés de dissipar-se, criaria forma concreta e irradiaria o seu
teor.
Enquanto lentamente avançava pelo caminho, Sidarta
refletia. Verificou que já não era adolescente, senão homem
maduro. Constatou que uma coisa se distanciara dele, assim
como a pele gasta se despega da serpente e que ele cessara de
sentir aquele desejo que o acompanhara através de toda a sua
juventude, fazendo parte da sua personalidade: o desejo de
ter mestres e de receber ensinamentos. Sidarta acabava de abandonar
o último mestre que surgira no curso da sua jornada;
abandonara também a ele, o mestre supremo, o mais sábio de
E

todos, o Santíssimo, o Buda. Fizera-se necessário distanciar-se
dele. Já não fora possível aceitar os preceitos de Gotama.
Caminhando cada vez mais devagar, absorvido pelos pensamentos,
Sidarta perguntou-se a si mesmo: “Mas que desejaste
aprender dos teus mestres e extrair dos seus preceitos? Que será
aquilo que eles, que tanto te ensinaram, não conseguiram propiciar-
te?” E ele encontrou a resposta: “Era meu desejo conhecer
o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e para
superá-lo. Porém não pude superá-lo. Apenas logrei iludi-lo.
Consegui, sim, fugir dele e furtar-me às suas vistas. Realmente,
nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse
mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado
e isolado de todos os demais, de ser Sidarta! E de coisa alguma
sei menos do que sei quanto a mim, Sidarta!”
Como que agarrado a esse raciocínio, o moço interrompeu
a lenta caminhada e de um pensamento nasceu outro, diferente:
“O fato de eu não saber nada a meu próprio respeito, o fato
de Sidarta ter permanecido para mim um ser estranho, desconhecido,
tem sua explicação numa única causa: tive medo de mim;
fugi de mim mesmo! Procurei o Átman, procurei o Brama,
sempre disposto a fraturar e a pelar o meu eu, a fim de encontrar
no seu âmago ignoto, o núcleo de todas as cascas, o Áímcm, a
vida, o elemento divino, o Ultimo. Mas, enquanto fazia isso,
perdi-me a mim mesmo.”
Abrindo os olhos, Sidarta olhou ao seu redor, com o rosto
iluminado por um sorriso, Perpassava-lhe pelo corpo, até aos
dedos dos pés, a profunda sensação de ter acordado de um sonho
prolongado. Em seguida, reiniciando a sua marcha, estugou
o passo, como quem sabe o que lhe convém realizar.
“Ah, não!” — pensou, aliviado, respirando a plenos pulmões
— “daqui em diante não admitirei nunca mais que Sidarta me
escape! Nunca mais o meu pensar e a minha vida terão por ponto
de partida o Átrrtan e o sofrimento do mundo! Cessarei de
matar-me e de fraturar-me, com o intuito de achar um mistério
atrás dos destroços. Não me deixarei orientar nem pelo Yoga-
Veda, nem pelo Atarva-Veda, nem por ascetas, nem por doutrina
alguma. Aprenderei por mim mesmo; serei meu próprio aluno;
procurarei conhecer-me a mim e desvendar aquele segredo que
é Sidarta!”

Olhou o mundo a seu redor, como se o enxergasse pela
primeira vez. Belo, era o mundo! Era variado, era surpreendente
e enigmático! Lá, o azul; acolá, o amarelo! O céu a flutuar
e o rio a correr, o mato a eriçar-se e a serra também! Tudo
lindo, tudo misterioso e mágico! E no centro de tudo isso achava-
se ele, Sidsrta, a caminho de si próprio. Todas essas coisas,
esses azuis, amarelos, rios, matos, penetravam nele pela primeira
vez, através dos seus olhos. Já não eram feitiço do Mam?
Deixavam de ser o véu da Maia.° Não havia mais aquela multiplicidade
absurda, casual, do mundo dos fenômenos, desprezados
pelos profundos pensadores brâmanes, que rejeitam a multiplicidade
e esforçam-se por achar a unidade. O azul era azul,
o rio era rio e, posto que, nesse azul e nesse rio abrangidos
por Sídarta existisse, escondida, a idéia da unidade, o Divino,
era, contudo, peculiar do Divino, ser amarelo aí e azul lá, céu ali
e mato acolá, e também ser Sidarta, aqui, neste lugar. O sentido
e a essência não se encontravam em algum lugar atrás das
coisas, senão em seu interior, no íntimo de todas elas.
“Andei deveras surdo e insensível!” — disse de si para si,
enquanto avançava rapidamente pela estrada. — “Quem se
puser a decifrar um manuscrito, cujo significado lhe interessar,
tampouco menosprezará os sinais e as letras, qualificando-os de
ilusão, de casualidade, de invólucro vil, senão os lera, estudálos-
á amá-los-á, letra por letra. Eu porém, que- almejava ler
o livro do mundo e o livro da minha própria essência, desprezei
os sinais e as letras, em prol de um significado que lhes atribuía
de antemão. Chamei de ilusão o mundo dos fenômenos. Considerei
meus olhos e minha língua apenas aparentes, casuais,
desprovidos de valor. Ora, isso passou. Despertei. Despertei
de fato, Nasci somente hoje.”
No curso desses pensamentos, Sidarta estacou mais uma
vez, de repente, como se uma cobra lhe cruzasse o caminho.
Pois, subitamente, outra coisa ainda se decantava no seu
espírito; ele, que realmente se parecia com uma pessoa que
8 Mara: literalmente: morte, destruição. Em sentido figurado: o de
mônio, o tentador. (N, do T.) 9 Maia: na terminologia brámsne, é matéria imperecível, preexistente
a todas as coisas, e da qual se servem os deuses para criar as formas
aparentes, irreais, falazes. Assim se torna sinônimo de ilusão, magia,
feitiço. (N. do T.)
34

acabava de acordar ou de renascer, deveria iniciar nesse instante
uma vida totalmente nova. Ao abandonar, na manhã desse
mesmo dia, o bosque de Jetavana, o jardim daquele ser sublime,
já estivera a ponto de despertar, de encontrar o caminho que o
levasse a seu próprio eu. Fora então a sua intenção e se lhe
afigurara perfeitamente natural regressar ao torrão natal, para
junto do pai, depois de tantos anos de ascetismo. A essa altura,
porém, nesse momento em que se detinha, como se se deparasse
com uma serpente, impôs-se-lhe a percepção: “Já não sou aquele
que tenho sído. Cessei de ser sacerdote, de ser brâmane. Que
farei então lá em casa, ao lado de meu pai? Estudar? Sacrificar?
Entregar-me à meditação? Tudo isso pertence ao passado, deixou
de ladear meu caminho.”
Sidarta parou. Quedou-se imóvel. Notando a que ponto iria
a sua solidão, sentiu, por um instante, pela duração de um respiro,
que o coração se lhe gelava no peito, estremecendo de frio,
como um bichinho, um pássaro, uma lebre. Durante muitos
anos’andara sem lar e, no entanto, não o percebera. Nesse
momento, porém, dava-se conta da falta. Sempre, ainda que
se distanciasse de tudo, nas mais longínquas meditações, prosseguira
sendo o filho de seu pai, fora brâmane, aristocrata,
intelectual. Daí por diante, seria apenas Sidarta, o homem que
acabava de acordar e nada mais. -Com toda a sua fôfça,
aspirou o ar. Por um momento, tremeu de frio e de horror.
Ninguém estaria tão solitário quanto ele. Não havia nenhum
nobre que não fizesse parte dos nobres; nenhum artesão que
não pertencesse à classe dos artesãos, encontrando agasalho entre
seus semelhantes, vivendo a vida deles e falando a mesma
língua; nenhum brâmane que não se incluísse no grupo dos seus
pares e convivesse com eles; nenhum asceta que não pudesse
buscar abrigo entre os samanas, Nem sequer o mais isolado
de todos os ermitões da selva era um homem só, não levava
uma existência solitária, porquanto também ele pertencia a uma
classe que lhe propiciava um lar. Govinda tornara-se monge
e milhares de monges eram seus irmãos, vestiam os mesmos
trajes, tinham a mesma fé, falavam a mesma língua. E ele,
Sidarta? Qual seria o seu lugar? Participaria ele da existência
de outrem? Haveria pessoas que falassem a mesma língua que
ele?
35

Dês&e minuto, durante o qual o mundo que o cercava
dissolvia-se em nada, durante o qual Sidarta estava só corno um
astro no firmamento, desse minuto transido de frio e de temores,
emergiu Sidarta, mais eu do que nunca, mais firme, mais concentrado,
Sentiu nitidamente: aquilo fora o derradeiro tremor
do despertar, o último espasmo do parto. E logo tomou a caminhar,
em marcha rápida, impaciente, afastando-se da sua terra,
do lar paterno, de tudo quanto jazia atrás dele.

KAMALA
CADA PASSO da sua jornada, Sidarta
aprendia coisas que antes desconhecera. O mundo
parecia-lhe diferente. Seu coração batia como que enfeitiçado. E
ele mirava o sol, sempre que este se levantava acima das
montanhas cobertas de florestas ou se punha atrás da longínqua
praia orlada de palmeiras. Contemplava a ordem dos astros no
fírmamento noturno e o crescente da lua, a singrar, feito barco,
pelo espaço azul. Olhava árvores, estrelas, animais, nuvens,
arcos-íris, rochedos, ervas, flores, arroios e rios. Percebia o
orvalho da madrugada, a cintilar nos galhos dos arbustos, e
também o gxis esmaecido de serras distantes. Cantavam os
pássaros, zumbiam as abelhas. Nos arrozais ressoava o argentino
zunir da aragem. Tudo aquilo, esse sem-número de formas e
cores, existira sempre. Em todos os tempos houvera o
murmúrio de regatos e o zumbir de abelhas, mas outrora esses
fenômenos tinham-se afigurado a Sidarta como um véu falaz,
passageiro, estendido diante de seus olhos e que apenas
merecesse desconfiança; um véu cujo destino fosse ser
penetrado e destruído pelo pensamento, já que nada dísso ei a
essencial e a realidade se encontrava além dos objetos visíveis.
Agora, porém, seu olhar libertado atinha-se a este lado das
coisas, acolhendo e identificando o que se lhe
41
A

deparava. Procurava radicar-se neste mundo. Já não ia em
busca do essencial. Já não visava o além. Como era belo o
mundo, para quem o olhasse assim, ingenuamente, simplesmente,
sem nada procurar nele! Como eram lindos os astros e a lua,
os arroios e as ribeiras, as florestas e os penedos, a cabra e o
besouro dourado, a flor e a borboleta! Era prazeroso e ameno
passear assim pelo mundo, cândidamente, como quem acabasse
de despertar e se abrisse a tudo quanto o rodeasse, sem o menor
receio. Diferente era o sol que ardia por cima da sua cabeça;
diferente, a frescura da sombra do mato; diferente, o sabor da
água de regato e cisterna; diferente, o aroma de abóboras e
bananas. Breves se tornavam os dias; fugazes as noites. Cada
hora voava, impelida qual veleiro no mar, e sob as velas achavase
o casco cheio de tesouros, de delícias. Sidarta espreitou o
povo dos macacos, enquanto percorriam a alta abóbada formada
pela ramagem da selva; observou-os, como pulavam de galho
em galho; escutou os gritos ávidos, ferozes. Viu um carneiro a
correr atrás de uma ovelha,1 para cobri-la. Ao entardecer, no
juncal da lagoa, espiou um lúcio que ia à caça, acossado pela fome,
e o cardume de peixinhos apavorados, a saltar das águas, nervosos
e brilhantes. A violência da perseguição provocou turbilhões
passageiros que exalavam um perfume impregnado de paixão e
vigor.
Tudo isso existira em todos os tempos, e todavia escapara
a Sidarta. Ele não estivera presente. Nes.se instante, porém,
estava presente, fazia parte dos acontecimentos. Pelos seus olhos
passavam luzes e sombras. Os astros e a lua entravam no seu
coração.
Durante a caminhada, Sidarta rememorou tudo o que lhe
ocorrera no jardim de Jetavana: a doutrina que ali ouvira, o
divino Buda, a despedida de Govinda, o diálogo travado com
o Augusto. Chamou à memória as frases que ele mesmo dirigira
ao Sublime, palavra por palavra e com espanto verificou que
naquela hora proferira coisas que então, no fundo, nem sequer
sabia. Dissera a Gotama que o tesouro e o mistério do Buda
não consisteir na doutrina, senão num quê indizível, não suscetível
de ser ensinado e cuja experiência coubera ao Augusto
na hora de sua iluminação. Ora, o desígnio da sua própria jornada
seria precisamente ter essa mesma experiência. Ele recémcomeçara
a viver. Agora carecia’sondar o seu íntimo. Na ver-
42

dade percebera, havia muito, que seu eu e o Átman eram uma e a
mesma coisa e tinham a sua essência eterna em comum com
o Brama. Mas nunca lograra achar esse eu, portanto se empenhara
em enredá-lo nas malhas do pensamento. Posto que o
corpo e o jogo dos sentidos certamente não fossem o eu, não
convinha tampouco identificar com ele o pensamento, a inteligência,
a sabedoria assimilada ou, finalmente, a técnica de tirar
conclusões e de tecer, à base de raciocínios feitos, pensamentos
novos. Não! também essa esfera do espírito pertencia ainda a
este mundo. Quem matasse o eu casual dos sentidos e, em compensação,
alimentasse o eu igualmente casual do pensar e da
erudição não alcançaria nenhum objetivo. Uns e outros, os pensamentos
tanto como os sentidos, eram coisas bonitas. O derradeiro
significado jazia, porém, atrás de ambos. Era preciso
ouvir os dois, brincar com eles, sem desprezá-los nem superestimálos.
Cumpria depreender de tudo quanto diziam a voz secreta do
nosso íntimo. Sidarta estava decidido a aspirar somente
àquilo que a voz mandasse perseguir. Não se ateria a coisa alguma
a não ser àquela que a voz lhe recomendasse. Por que
se sentara Gotama em determinado momento, na hora das
horas, ao pé daquele baobá, onde lhe viesse a iluminação? Por
ter ouvido uma voz, a ressoar dentro do seu próprio coração,
e que lhe ordenava repousar na sombra dessas árvores. E ele,
sem dar preferência às mortificações, aos sacrifícios, aos banhos,
às orações, sem pensar em comer, beber, dormir, sonhar, obedecera
à ordem. Tal obediência prestada, não a prescrições vindas
de fora, senão unicamente à voz íntima, tal prontidão irrestrita,
era boa, era necessária e o mais não tinha importância alguma.
À noite, enquanto dormia na choupana de palha de um
balseiro, junto à ribeira, Sidaría teve uma visão: aparecia-lhe
Govinda, vestindo os trajes amarelos dos ascetas. Seu rosto parecia
abatido e em voz triste disse ele: “Por que me abandonaste?”
E Sidarta abraçou o amigo. Mas, enquanto o enlaçava nos braços
e o estreitava ao peito, já não era Govinda a quem cingia,
senão uma mulher, de cujo vestido saía um seio opulento. Sidarta
encostou a boca nesse seio e bebeu. O sabor do leite era
doce e forte. Sabia a macho e fêmea, a sol e mato, a animal
e flor, a todas as frutas, a todos os prazeres. Embriagava e
provocava tonturas.

Quanto Sidarta acordou, cintilavam as águas do rio, lançando
um clarão lívído pela porta da choupana. Da selva ressoava,
profundo e distinto, o grave chamado de uma coruja.
Logo que raiou o dia, Sidarta pediu a seu anfitrião que
o conduzisse ao outro lado, Na jangada de bambu, o balseiro
transportou-o através do vasto rio, cuja água resplandecia rosada
à luz da aurora.
— Que lindo rio! — disse Sidarta ao companheiro.
— Pois é — respondeu o balseiro. — Ê muito lindo. Pre
firo esse rio a todo o resto do mundo. — Muitas vezes escutei
o seu murmúrio, muitas vezes observei o seu olhar e nunca
deixei de aprender dele. Um rio pode ensinar-nos tanta coisa.
— Agradeço-te, ó meu benfeitor — disse Sidarta, ao desem
barcar. — Não te posso dar nenhum presente, para retribuir a
tua hospitalidade. Não tenho com que te pagar, meu caro.
Sou um homem ser lar. Sou filho de brâmane e samana.
— Eu sabia disso — replicou o balseiro — e não esperei
da tua parte nenhuma recompensa, nenhum presente. Em outra
ocasião me darás algum mimo.
— Achas mesmo? — perguntou Sidarta jovialmente.
— Tenho certeza. Também isso aprendi do rio: tudo
volta. Tu também voltarás, ó samana. Passa bem! Que tua
amizade seja meu salário. Lembra-te de mim, quando oíereceres
um sacrifício aos deuses.
Separaram-se com um sorriso. Risonho, Sidarta aprazía-se
com a gentileza e a amabilidade do balseiro. “Ele se parece com
Govinda — pensou, sorrindo. — Tais pessoas ficam gratas,
apesar de poderem, elas mesmas, reivindicar gratidão. Todas
elas são submissas, querem ser amigas, gostam de obedecer,
não gostam de pensar muito. Esses homens são verdadeiras
crianças.”
Por volta do meio-dia, passou por uma aldeia. Diante das
cabanas de barro, a garotada revolvia-se na poeira da rua, brincando
com sementes de abóbora e conchas. Os meninos gritavam
e lutavam uns com os outros, mas todos fugiam, assustados, do
samana desconhecido, Na outra extremidade da aldeia, a estrada
“atravessava um arroio. À sua beira, uma rapariga, de joelhos,
lavava roupa. Levantou a cabeça, quando Sidarta a saudou e
examinou-o, sorrindo, de baíxo para cima, de modo que reluzia
o branco de seus olhos. O jovem proferiu uma frase de bênção, à

maneira dos peregrinos. Em seguida perguntou-lhe se a cidade
grande ficava ainda longe. Ela levantou-se. Aproximou-se de
Sidarta. Os lábios úmidos brilhavam formosos, no rosto da moça.
Os dois trocaram então gracejos. Ela indagou se Sidarta já
almoçara. Quis saber se era verdade que os samanas passavam
a noite sozinhos no mato e não unham o direito de gozar a
companhia de mulheres. Enquanto isso, colocou o pé esquerdo
sobre o pé direito de Sidarta e esboçou o gesto que fazem as
mulheres, quando excitam os homens àquele jogo de amor que
os manuais didáticos denominam: “Trepar na árvore”. Sidaría
sentiu que seu sangue escaldava c, recordando-se do sonho que
tivera, inclinou-se levemente em direção da mulher, para apertar
a boca no bico pardo do seio. Erguendo o rosto, viu que a mulher
sorria, cheia de desejo. Nos olhos semicerrados liam-se a imploração
e a cupidez.
Também Sidarta experimentava o mesmo desejo. Sentia a
vibração da fonte do sexo. Mas, como jamais se acercara de
mulher alguma, hesitou por um instante, com as mãos já dispostas
a agarrá-la. E nesse momento ouvia, estremecendo, a voz da
sua alma e a voz dizia: “Não!” De súbito, o semblante risonho
da rapariga perdeu todo o seu encanto. O que se lhe deparava
era apenas o olhar úmido de uma fêmea no cio. Gentilmente,
Sidarta acariciou-lhe a face. Em seguida, afastando-se a passo
lépido da mulher desapontada, sumiu no bambual.
No mesmo dia, antes do entardecer, alcançou uma cidade
grande. Alegrou-se com isso, uma vez que tinha saudade de
criaturas humanas. Por longos anos, vivera na floresta e a choupana
de palha do balseiro, onde ele passara a noite anterior,
era, desde muito tempo, o único teto a abrigá-lo.
Diante das portas da cidade, nas proximidades de um belo
bosque cercado, um1 grupinho de servos e aias, carregados de
cestas, ia de encontro ao caminhante. Dentro de uma liteira
conduzida por quatro homens e coberta de um baldaquim de
muitas cores, uma senhora, a patroa, estava sentada num coxim
vermelho. Sidarta estacou junto à entrada do arvoredo, a fim de
contemplar o cortejo. Observou os criados, as raparigas, as cestas.
Olhou a liíeira e dentro dela, enxergou a dama. Sob uma alta
torre de cabelos negros, avistou um semblante muíto claro,
bem delicado, bastante inteligente, com a boca rosada, como
um figo recém-cortado. Cuidadosamente pintadas, arqueavam-se
45

as sobrancelhas. A mirada dos olhos escuros revelava siso e
vigilância. Alvo e comprido, o pescoço saía do corpete verde
e jajde. As mãos brancas, graciosas, delgadas, repousavam,
imóveis e largos braceletes de ouro adornavam os pulsos.
Sidarta admirou-se de tanta beleza e seu coração deliciou-se.
Curvou-se profundamente, quando a liteira chegou perto dele. Ao
erguer-se, fitou o rosto luzente, simpático. Por um instante, lia
nos olhos inteligentes, por cima dos quais se abobadavam as altas
sobrancelhas. Inalava a aura de um perfume desconhecido.
Sorridente, a formosa mulher saudou-o com uma inclinação
apenas perceptível da cabeça. Logo depois, desapareceu no
bosque, seguida pela criadagem.
“Ora — pensou Sidarta — desta forma entro na cidade
sob um signo auspicioso.” Teve vontade de penetrar no arvoredo
sem perda de tempo, mas, refletindo, lembrou-se de que os
servos e as aias o haviam examinado com menosprezo e desconfiança,
ao cruzarem com ele, junto à porta do bosque.
“Por enquanto sou samana — disse de si para si. — Não
cessei ainda de ser um asceta e um mendigo. Não posso ficar
assim. Deste jeito, não é possível entrar num parque.”
E riu-se gostosamente.
À primeira pessoa que encontrou na estrada perguntou a
quem pertencia o bosque e como se chamava a mulher. Soube
então que se encontrava no parque de Kamala, célebre cortesã,
que além dessa propriedade ainda possuía uma casa na cidade.
Sem demora, Sidarta entrou nessa cidade. Daí por diante,
teria um objetivo.
Sem perdê-lo de vista, deixou-se tragar pela multidão.
Depois de boiar na corrente das vielas, parava nas praças. Descansava
na escadaria, à beira do rio. De íardezinha, travou
amizade com um oficial de barbearia, ao qual vira trabalhar à
sombra de um portão e que reencontrou a orar num templo de
Visnu. Contou-lhe a história de Visnu e Laksmi. Pernoitou
perto dos barcos ancorados no rio e ria manhã seguinte, bem
cedo, antes de chegarerr os primeiros fregueses, pediu ao rapaz
para barbeá-lo, cortar-lhe o cabelo, arranjar-lhe o penteado e
uniá-lo com óleos finíssimos. Feito isso, foi banhar-se no rio.
Ao entardecer, quando a formosa Kamala na sua liteira
acercava-se do bosque, Sidarta achava-se junto à entrada. Inclinou-
se e recebeu a saudação da cortesã. Fazendo um sinal ao
46

servo que encerrava o cortejo, solicitou dele que informasse a
patroa de que um jovem brâmane desejava falar com ela. Depois
de alguns minutos, o criado voltou e lhe deu um sinal para que o
acompanhasse. Sem falar, conduziu-o a um pavilhão, onde
Kamala jazia num sofá. Deixou-o a sós com ela.
__ Não és aquele moço que esteve ontem na entrada do
bosque e me cumprimentou? — perguntou Kamala.
_ Pois é. Já te vi e te cumprimentei ontem.
_ Mas, não tinhas ontem uma barba e cabelos compridos,
cobertos de poeira?
— Observaste-me muito bem. Enxergaste tudo. Viste
Sidarta, o füho de brâmane, que abandonou o seu lar, para ser
um samana e viveu três anos a vida dos ascetas. Agora, porém,
abandonei essa senda. Cheguei a esta cidade e, a primeira pessoa
que encontrei, ainda antes do portão, fôste tu. Para dizer-te isso,
vim tem contigo, ó Kamala! Tu és a primeira mulher à qual Si
darta dirige a palavra sem baixar os olhos. Nunca mais baixarei
os olhos, quanto topar com uma formosa’ mulher.
Sorrindo, Kamala brincava com o leque de penas de pavão.
— E Sidarta veio visitar-me, unicamente para dizer-me
isso? — indagou.
— Para dizer-te isso, sim, e para expressar a sua gratidão
por seres tão linda. E se minha ousadia não te desaprouver, ó
Kamala, gostaria de pedir-te que sejas minha amiga e mestra.
Pois nada sei ainda da arte que tu exerces tão magistralmente.
Kamala deu uma gargalhada.
— Olha, meu amigo, nunca me ocorreu que um samana
pudesse sair do mato, a fim de estudar comigo! Pela primeira
vez me procura um samana de cabelos compridos, com uma
tanga velha, esfarrapada! Muitos jovens vêm ter comigo e entre
eles há também filhos de brâmanes. Mas todos andam bem ves
tidos, calçando sapatos elegantes. Têm cabelos perfumados e
dinheiro nos bolsos. Ê assim, meu amigo santana, que devem
ser os jovens que me visitem.
— Já começo a aprender de ti — respondeu Sidarta.
— Ontem também aprendi alguma coisa. Já me desfiz da
barba, penteei o cabelo, perfumei a cabeça. O que ainda me
falta, ó magnífica senhora, é pouca coisa apenas: roupas finas,
sapatos distintos, dinheiro nos bolsos. Olha, Sidarta enfrentou
tarefas muito mais difíceis do que bagatelas dessa espécie e

realizou-as. Como não conseguiria então o que se propôs ontem:
ser teu amigo e aprender de ti as delícias do amor! Tu terás era
mim um aluno dócil, ó Kamala. Assimilei ensinamentos mais
complicados do que aqueles que tu terás de ministrar-me. Pois
então, Sidarta não te basta assim como é, com os cabelos besuntados
de óleo, mas sem roupas, sem sapatos, sem dinheiro?
Com uma risada, replicou Kamala:
—• Não, meu caro, ele não me basta. Deve ter roupas, mas
roupas bonitas, e sapatos, mas dos melhores, muito dinheiro
nos bolsos e presentes para Kamala. Compreendeste, ó samana
do mato? Gravaste tudo na memória?
—• Gravei tudo, perfeitamente — exclamou Sidarta. —
Como me esqueceria de algo que viesse de uma boca igual à tua?
Tua boca parece um figo recém-cortado, ó Kamala. Também
a minha é rubra e fresca. Hás de notar que ela combinará bem
com a tua. Mas dize-me, ó bela Kamala, não tens nenhum medo
do samana saído do mato, e que veio aprender de ti o amor?
—• Por que sentiria eu medo de um samana, de um palerma
do mato, que só conviveu com os chacais e não tem a menor
idéia do que é uma mulher?
—• Olha, ele é forte, esse samana, e nada o assusta. Ele
poderia tomar-te pela força, ó formosa moça. Poderia raptar-te.
Poderia fazer-te mal.
— Não, ó samana, assim não me aíemorizas. Por acaso
existiu jamais um samana ou um brâmane receoso de que alguém
pudesse aproximar-se dele, para agarrá-lo e roubar-lhe a erudição,
a piedade, a profundeza do espírito? Nunca! Essas qualidades
lhe pertencem exclusivamente e ele distribui delas só aquilo
que quiser dar e a quem lhe aprouver. O mesmo, exatamente
o mesmo, acontece com Kamala e com os prazeres do
amor. Bela e rubra é a boca de Kamala, mas procura apenas
beijá-la contra a sua vontade e não obterás nenhuma gota da
doçura desses lábios que tanta doçura sabem propiciar! Uma
vez que és dócil, ó samanü, aprende também isto: o amor podese
mendigar, comprar, receber de presente, mas nunca roubar
pela força. O caminho que imaginaste está errado. Realmente,
seria uma lástima, se um moço tão bonito como tu lançasse
mão de meios tão absurdos.
Sidarta inclinou-se com um sorriso.

— Seria de fato uma lástima, ó Kamala, Tens razão.
Uma verdadeira lástima! Não, não devo perder nenhuma gota da
doçura da tua boca, assim como tu não perderás nenhuma da
minha! Está combinado: Sidarta voltará quando tiver o que
ainda lhe falta, as roupas, os sapatos, o dinheiro. Mas, dize-me,
ó graciosa Kamala; não queres dar-me um pequeno conselho?
— Um conselho? Por que não? Quem não gostaria de
orientar um pobre e ignorante samana que vem diretamente dos
chacais do mato?
— Aconselha-me então, minha querida Kamala: aonde
devo dirigir-me para encontrar aquelas três coisas o mais depressa
possível?
— Ora, meu amigo, há muita gente que gostaria de saber a
resposta a essa pergunta. Terás de utilizar teus conhecimentos
e conseguir que paguem o teu trabalho, oferecendo-te dinheiro,
roupas e sapatos. É só assim que os pobres chegam a enriquecer.
Que é que sabes fazer?
—• Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.
— Nada mais?
— Nada mais. Mas, como? Sei ainda fazer poesia. Não
me darias um beijo por um poema?
— Darei, sim, se teu poema me agradar. Quero ouvi-lo.
Após ter refletido um instante, Sidarta recitou os seguintes
versos:
“Na sombra do seu bosque entrou a beta Kamala,
Ate entrada do arvoredo achava-se o pardo samana.
Quando avistou a jlor de lótus,
Profundamente se inclinou.
Sorrindo, agradeceu Kamala,
E o jovem disse de si para si:
Faz bem quem imolar tudo aos deuses,
Mas melhor ainda quem sacrificar
à bela Kamala.”
A moça aplaudiu com tanta força que os braceletes de ouro
tiniam.
—i Teus versos são lindos, ó pardo samana. Realmente,
acho que não perco nada, se te der um beijo em troca.
Atraiu-o para junto de si e Sidarta inclinou o rosto sobre
o de Kamala. Pousou a boca sobre os lábios dela, que pareciam
49

um figo recém-cortado. Era demorado o beijo de Kamala e
com imenso espanto sentiu Sidarta que ela o ensinava. Percebeu
a perícia da mulher. Observou que o dominava, ora afastando-o,
ora convidando-o. Notou que a esse primeiro beijo sucedia toda
uma seqüência de beijos bem calculados e estudados, cada quai
diferente do anterior e dos que ainda o aguardavam. Respirando
profundamente, Sidarta permaneceu imóvel, pasmado, como uma
criança, em face da extensão da arte que se lhe descortinava,
e de tudo quanto lhe restava aprender.-
— São muito lindos, os teus versos — exclamou Kamala
— e se eu fosse rica, receberias de mim umas moedas de ouro.
Mas será difícil para ti ganhar com versos tanto dinheiro quanto
necessitarás. Pois, precisarás de bastante dinheiro, se quiseres
tornar-te o amigo de Kamala,
— Corno saber beijar bem, ó Kamala! — balbuciou Si
darta.
—. Sim, sei dar beijos e por isso não me faltam vestidos,
sapatos, pulseiras e todas as outras coisas bonitas. Mas que será
de ti? Não sabes fazer nada, a não ser pensar, jejuar e fazer
versos?
— Sei também as orações dos sacrifícios — respondeu
Sidarta — mas não quero voltar a cantá-las. Também conheço
fórmulas mágicas, mas não quero pronunciá-las novamente.
Li as escrituras…
— Pára! — ínterrompeu-o Kamala. — Então sabes ler e
escrever?
— Claro que sei, e não sou o único a sabê-lo.
— Mas a maioria das pessoas não sabe. Nem eu sei. Está
ótimo que aprendesíe a ler e escrever, está ótimo! E também
poderás servir-te das fórmulas mágicas.
Nesse momento, uma das aias, que entrara a toda pressa,
soprou algumas palavras ao ouvido da patroa.
— Vem uma visita — disse Kamala. — Vai-te embora,
Sidarta, e que ninguém te veja aqui! Compreendeste? Amanhã
tornarei a receber-te.
A seguir ordenou à criada que desse um manto branco ao
piedoso brâmane. Antes que se desse conta do que lhe
acontecia, o jovem sentiu-se arrastado pela rapariga que, por
um caminho secreto, conduziu-o a uma casa de jardineiro. Brindou-
o com um manto, levou-o ao arvoredo e pediu-lhe insis-
50

tentemente que se apressasse a sair do recinto, sem que ninguém
o avistasse.
Satisfeito, Sidarta obedeceu. Como aprendera na floresta,
atravessou silenciosamente o bosque e passou por cima da cerca
viva. Todo feliz, regressou à cidade, com o manto enrolado sob
o braço. Num albergue freqüentado por viajantes, colocou-se
nas proximidades da porta. Com um gesto mudo, rogou que lhe
dessem alguma comida e, sem falar, aceitou um pedaço de bolo
de arroz. “Pode ser que amanhã eu não precise mais pedir
comida a ninguém!” — pensou.
Subitamente, um sentimento de orgulho apoderou-se dele-
Depois de ter cessado de ser samana, já não lhe convinha mendigar.
Atirando o bolo de arroz a um cão, absteve-se de alimentos.
“Como é simples a vida que se leva neste mundo!” — ponderou
Sidaría. — “Não existe nenhuma dificuldade. Quando
eu era samana, tudo era complicado e penoso, Ao fim, já não
havia nenhuma esperança. Agora tudo se torna fácil, tão fácil
quanto são as aulas de beijos que me ministra Kamala. Preciso
unicamente de dinheiro e de roupas. É um objetivo próximo,
insignificante, que não me tirará o sono.”
Fazia muito que localizara a casa que Kamala habitava na
cidade. No dia seguinte, lá apareceu.
— Tudo vai bem! — exclamou ela, ao vê-lo. — Kamasvami
te aguarda. É o comerciante mais rico da cidade. Se lhe
agradares, serás contratado por ele. Usa a tua inteligência, ó
pardo samana. Consegui que outras pessoas lhe falassem de ti.
Mostra-te gentil para com ele. Kamasvami é muito poderoso.
Mas não sejas demasiado modesto! Não quero que ele te em
pregue como servo. Deveras ser seu igual, de outro modo não
ficarei satisfeita contigo. Kamasvami começa a envelhecer e
torna-se preguiçoso. Se ele gostar de ti, certamente te entregará
muitos assuntos.
Sidarta agradeceu-lhe, radiante, e Kamala, quando soube
que o moço nada comera, nem naquele dia, nem na véspera, deu
ordem para que lhe trouxessem pão e frutas, que ela mesma lhe
serviu.
— Tiveste sorte — disse na hora da despedida. — Uma
porta após outra abre-se diante de ti. Como se explica isso?
Dispões, por acaso, de algum feitiço?
51

E Sidarta:
— Ontem te contei que sei pensar, esperar, jejuar e tu
achaste que isso não valia nada. Mas, na realidade vale muito,
ó Kamala, como verás em breve. Então perceberás que os estúpidos
samanas da selva aprendem muita coisa bonita que vós,
os outros, ignorais. Anteontem, eu era um mendigo hirsuto.
Ontem já beijei Kamala e daqui a pouco serei um comerciante
e terei dinheiro e todas as demais coisas às quais ligas tamanha
importância.
— Pois é — concordou ela. — Mas que farias sem mim?
Que seria de ti, se Kamala não te ajudasse?
—> Minha querida Kamala — replicou Sidarta, empertigando-
se. — Quando entrei no teu bosque, dei o primeiro passo.
Era o meu propósito aprender o amor pelos ensinamentos da
mais formosa de todas as mulheres. A partir do momento em
que me propus a isso, sabia também que realizaria as minhas
intenções. Tinha certeza de que tu me ajudarias. Sabia-o, desde
que me olhaste pela primeira vez, na entrada do teu parque.
—• E se eu não quisesse fazê-lo?
— Já o fizeste. Olha, Kamala: uma pedra que atirares na
água, dirige-se ao fundo pelo caminho mais rápido. O mesmo
sucede, cada vez que Sidarta tem um objetivo, um propósito.
Sidarta não faz nada. Apenas espera, pensa e jejua. Mas passn
através das coisas deste mundo como a pedra passa pela ágt ,
sem mexer-se, sentindo-se atraído, deixando-se cair. Sua met.
puxa-o para si, uma vez que ele não admite no seu espírito
nada que se possa opor a ela. Eis o que Sidarta aprendeu dos
samanas. É aquilo que os tolos chamam de feitiço e que na
opinião deles é obra dos demônios. Nada é obra dos demônios,
já que não há demônios. Cada um pode ser feiticeiro. Todas as
pessoas são capazes de alcançar os seus objetivos, desde que
saibam pensar, esperar, jejuar.
Kamala escutou atentamente. Adorava a voz de Sidarta e
também a expressão de seus olhos.
— Talvez seja mesmo assim como afirmas — disse ela em
voz baixa. — Mas também pode ser que Sidarta seja apenas
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um bonitão, cujo olhar agrade às mulheres, e que, por isso, a
sorte o bafeje.
Sidarta despediu-se com um beijo. — Oue assim seja, minha
mestra! Tomara que meu olhar nunca cesse de agradar-te, paia
que minha sorte sempre venha de ti!

ENTRE OS HOMENS TOLOS
encaminhou-se ao comerciante Kamasvami. Indicaram-
lhe uma casa luxuosa. Alguns criados conduziram-no
por corredores decorados com tapetes preciosos até a uma sala
onde ele devia aguardar a chegada do amo.
Entrou Kamasvami, homem ágil, desembaraçado, de cabelos
grisalhos. Seu olhar revelava siso e prudência e a boca, sensualidade.
O dono da casa e o visitante cumprimentaram-se amàvelmente.
— Fiquei sabendo — começou o comerciante — que és
um brâmane erudito, mas procuras um emprego no comércio.
Explica-me, pois, ó brâmane; estás na miséria, de modo que
a necessidade te obriga a empregar-te?
— Absolutamente — respondeu Sidarta. — Não estou na
miséria, e nunca padeci miséria. É preciso que saibas que fiz
parte dos samanas e convivi com eles durante muito tempo.
— Ora, se viveste a vida dos samanas, como dizes que não
estás na miséria? Desde quando não andam os samanas des
providos de tudo?
— Não tenho nada que me pertença — replicou Sidarta
— se fôr a isso que te referes. Estou desprovido de tudo, como
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não? Mas vivo assim por minha livre vontade e por isso não
careço de nada.
— Mas de que tencionas viver, uma vez que não possuis
nada?
— Nunca me preocupei com esse problema, meu caro se
nhor. Por mais de três anos vivi sem ter bens materiais e nunca
me perguntei como me sustentaria no futuro.
— De maneira que viveste do que outros possuíam.
— Provavelmente foi assim. Também o comerciante vive
do que possuem os outros.
— Muito bem. Mas não recebe os bens dos outros de
graça, uma vez que lhes dá em troca a sua mercadoria.
— De fato parece que seja assim. Todos recebem e dão
alguma coisa. Assim é a vida.
—• Permite-me, porém, uma objeção: tu que não possuis
nada, que é que tencionas dar?
— Cada um dá o que tem. O guerreiro dá a sua força;
o comerciante, a sua mercadoria; o mestre, a sua doutrina; o
pescador, os seus peixes.
— Ótimo. E qual será o bem que tu poderás oferecer?
Que aprendeste? Que sabes fazer?
— Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.
— Só isso?
— Acho que é só isso.
— E que valor têm esses conhecimentos? O jejum, por
exemplo. Para que serve o jejum?
— Para muita coisa, meu caro senhor. Para quem não tiver
nada que comer, o jejum será a coisa mais inteligente que se
possa fazer. Se, por exemplo, Sidarta não houvesse aprendido a
suportar o jejum, estaria obrigado a aceitar hoje mesmo um ser
viço qualquer, seja na tua casa, seja em outro lugar, já que a
fome o forçaria a fazê-lo. Assim, porém, Sidarta pode aguardar
os acontecimentos com toda calma. Não sabe o que é impa
ciência. Para ele não existem situações embaraçosas. Sidarta
pode agüentar por muito tempo o assédio da fome e ainda rir-se
dela. É para isso, meu caro senhor, que serve o jejum.
— Tens razão, ó samana. Espera um instante,
Kamasvami saiu e voltou com um rolo na mão. Esten
dendo-o ao visitante, perguntou:
— Sabes ler isto?
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Sidarta olhou o rolo, no qual se achava registrado um contrato
de compra e venda. Começou a ler o conteúdo em voz
alia.
•— Ótimo — disse Kamasvami. — E agora tem a gentileza
de escrever qualquer coisa nesta folha.
Entregou-lhe uma folha de papel e um lápis. Sidarta escreveu
e devolveu-lhe a folha.
— Kamasvami leu: — Escrever é bom. Pensar é melhor.
A inteligência é boa, A paciência é melhor.
•— Sat>es escrever magnificamente — elogiou-o o comerciante.
— Há ainda muita coisa de que teremos de tratar. Por
hoje rogo-te que sejas meu hóspede e te alojes nesta casa.
Agradecendo, Sidarta aceitou o convite. Daí por diante,
morava no lar do comerciante. Trouxeram-lhe roupas e sapatos.
Todos os dias, um criado preparava-lhe o banho. Duas vezes
por día serviam-lhe copiosos repastos, mas Sidarta limitava-se
a- uma refeição diária. Não comia carne nem tampouco tomava
vinho. Kamasvami enfronhava-o nos seus negócios. Mostravalhe
as mercadorias e os armazéns. Explicava-lhe os cálculos.
Sidarta chegava a conhecer inúmeras coisas novas. Ouvia muito,
falava pouco e, recordando-se do conselho de Kamala, jamais
se subordinava ao comerciante. Obrigava-o a tratá-lo como seu
igual e mesmo como uma pessoa superior. Kamasvami dedicava-
se aos negócios com esmero e, às vezes, com verdadeira
paixão. Sidarta, porém, considerava tudo aquilo um mero jogo,
cujas regras desejava aprender inteiramente, mas cujo decorrer
o deixava perfeitamente frio.
Ainda não se passara muito tempo, desde que tomara residência
na casa de Kamasvami, quando já começava a tomar
parte no comércio de seu anfitrião. Mas todos os dias à hora
marcada por ela, ia tem com a formosa Kamala, trajando belas
roupas e sapatos elegantes. Em seguida, também lhe trazia
presentes. Muitas coisas lhe revelava a boca rubra, perita, da
mulher. Muitas coisas lhe mostrava a mão delicada, ágil, de
Kamala. A Sidarta que, em matéria de amor, era ainda um menino
e tendia para lançar-se cegamente, com apetite insaciável, no
gozo, como que num abismo, ensinava ela, desde os princípios,
o fato de que não se pode receber prazer sem dar prazer; que
cada gesto, cada carícia, cada aspecto, cada parte do corpo
esconde em si um segredo, cuja descoberta causará delícia a
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quem a fizer. Dela aprendia Sidarta que os amantes não devem
separar-se após a festa do amor, sem que um parceiro sinta
admiração do outro; sem que ambos sejam vencedores tanto
como vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa
surgir a sensação de enfado ou de vazio e ainda menos a
impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente.
Maravilhosas eram as horas que ele passava em companhia dessa
linda e experiente artista, tornando-se sucessivamente seu discípulo,
seu amante, seu amigo. Era ali, nos braços de Kamala,
que residiam nessa fase da sua vida o valor e o significado da
sua existência e não no escritório de Kamasvami.
O comerciante encarregou-o da redação de cartas e contratos
de grande importância. Habituou-se a aconselhar-se com
Sidarta sobre quaisquer assuntos ponderosos. Depois de pouco
tempo verificou que Sidarta quase nada entendia de arroz, de lã,
de navegação, de comércio, mas tinha a mão feliz e superava
a ele, Kamasvami, no que se referia à calma, à equanimidade, à
arte de escutar e de penetrar na alma .alheia. “Esse brâmane
— disse certa feita a um amigo — não é e nunca será um
genuíno comerciante. Seu espírito jamais se apaixona pelos
negócios. No entanto tem aquele quê misterioso, peculiar das
pessoas das quais o êxito se aproxima espontaneamente, trate-se
de uma boa estrela nascida com elas, ou de certo poder mágico,
ou ainda de algo que os samanas lhe tenham ensinado. Ele
sempre me dá a impressão de brincar com os negócios. Nunca
se entrega inteiramente ao comércio, nunca se deixa dominar
por ele, nunca receia reveses, nunca se preocupa com alguma
perda.”
E o amigo deu-lhe o seguinte conselho:
“Concede-lhe um terço do lucro de todos os negócios que
ele empreender para ti, mas deixa claro que ele terá de arcar
na mesma proporção com eventuais prejuízos. Assim se intensificará
o seu interesse.”
Kamasvami obedeceu à sugestão. Mas Sidarta não ligava
a menor importância a tudo aquilo. Quando lhe cabia algum
lucro, aceitava-o com displicência e cada vez que houvesse contratempo,
dava uma risada, dizendo: “Vejam só, desta vez nos
saímos mal!”
Parecia de fato que os negócios o deixavam completamente
indiferente. Certa vez, encaminhou-se a uma aldeia, a fim de
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adquirir ali grande quantidade de arroz. Quando chegou ao
destino da viagem, soube que o arroz já fora vendido a um
concorrente. Mesmo assim, permaneceu “vários dias naquela
aldeia. Convidou os camponeses a comerem e bebêrem. Presenteou
a criançada com moedas de cobre. Participou dos festejos
de um casamento e, finalmente regressou, satisfeitíssimo.
E quando Kamasvami o repreendeu pela demora do retorno c
pelo desperdício de tempo e dinheiro, respondeu Sidarta:
— Pára de ralhar comigo, meu caro! Nunca ninguém conseguiu
coisa alguma por meio de resmungos. Se houve prejuízo,
deixa que eu arque com ele. Fico muito contente com o resultado
desta viagem. Conheci muita gente. Um brâmane tornou-se meu
emigo. Criancinhas cavalgaram nos meus joelhos. Camponeses
mostraram-me os seus campos. Ninguém me tomou por um
negociante.
—Tudo isso é muito bonito — exclamou Kamasvami,
agastado. —- Mas, na realidade, és um negociante, acho eu’
Ou fizeste essa viagem unicamente para divertir-te?
—.. Claro! —- disse Sidarta, soltando uma gargalhada. —
Claro que viajei para divertir-me, por que outra razão o teria
feito? Cheguei a conhecer pessoas e regiões. Obtive gentilezas e
confiança. Encontrei amizade. Olha, meu amigo, se eu fôsss
Kamasvami, teria regressado imediatamente, a toda a pressa,
cheio de raiva, ao constatar que a compra não sairia. Nesse
caso, o resultado da viagem seria de fato uma perda de tempo
e dinheiro. Mas assim, tive alguns dias amenos. Aprendi alguma
coisa. A]egrei-me e não prejudiquei nem a mim nem a outras
pessoas por nervosismo ou precipitação. E se eu mais uma vez,
voltar àquele lugar, talvez para comprar outra colheita ou para
fazer o que quer que seja, serei recebido amistosa e jovialmente
por homens simpáticos. Então me elogiarei a mim mesmo
por não ter dado naquela ocasião nenhum sinal de mau humor
ou de pressa desnecessária. Sossega, pois, meu amigo, e não estragues
a tua saúde pela bílis! Logo que verifícares que êsso
Sidarta te causa prejuízo, bastará uma única palavra para que
ele se vá embora. Até esse dia, porém, continuemos a conviver
satisfeitos um com o outro.
Igualmente inúteis eram quaisquer tentativas que fazia o
comerciante no sentido de convencer Sidarta de que, afinal de
contas, o pão que lhe serviam era dele, Kamasvami. Sidarta
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achava, no entanto, que comia o seu próprio pão, ou melhor:
que ambos comiam o pão de outrem, o pão comum a todos.
Nunca o moço prestava a menor atenção às preocupações de
Kamasvami, e Kamasvami as tinha em grande quantidade.
Sempre que um negócio em andamento estivesse ameaçado de
malogro, quer se houvesse extraviado uma remessa de mercadorias,
quer um devedor não pudesse pagar, esforçava-se o comerciante
em vão por persuadir o seu colaborador da necessidade
de proferir palavras pesarosas ou iradas e da utilidade de
andar com o rosto carrancudo ou de perder o sono. Certa feita,
quando Kamasvami se gabava de que Sidarta aprendera dele tudo
quanto sabia, este lhe respondeu:
—- Não brinques comigos! O que aprendi de ti foram o
preço de uma cesta de peixes e os juros que se pode pedir
por um espréstimo. Assim é a tua sabedoria. Mas, o modo
de pensar prezado amigo Kamasvami, isso não aprendi de ti.
Melhor seria que tu o aprendesses de mim.
Era bem verdade que seu coração permanecia distante do
comércio. Os negócios serviam para propiciar-lhe dinheiro para
Kamala, e o lucro que provinha deles dava-lhe muito mais do
que apenas o necessário. De resto, a simpatia e a curiosidade
de Sidarta pertenciam às criaturas humanas, cujos trabalhos,
ofícios, cuidados, diversões e tolices outrora não lhe haviam
interessado em absoluto. Ainda que não encontrasse nenhuma
dificuldade em conversar ou conviver com qualquer um e em
aprender alguma coisa de todos, percebia com crescente nitidez
que existia algo que o separava dos demais homens: seu passado
de samana. Ao observar aquela existência infantil ou animalesca
que levavam os seres humanos, ao mesmo tempo adorava e desprezava
tal estilo de vida. Via como labutavam, sofriam, envelheciam
por causa de assuntos que não lhe pareciam valer tamanho
esforço e como se empenhavam em obter dinheiro,
prazeres minúsculos, honrarias insignificantes. Ouvia como se
censuravam e se insultavam mutuamente, como choravam suas
dores que fariam rir a um samana, e notava o quanto lhes custavam
certas privações que um samana nem sequer sentiria.
Mantinha-se acessível a tudo o que lhe comunicavam esses
homens. Acolhia amàvelmente ao mercador que lhe quisesse
vender linho; ao moço endividado que lhe solicitasse um empréstimo;
ao mendigo que lhe roubasse uma hora, contando a história
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da sua pobreza que, freqüentemente, era muitíssimo menor do
que a de qualquer somana, O abastado comerciante estrangeiro
recebia da sua parte o mesmo tratamento que o servo que o
barbeasse ou o vendedor de rua, do qual comprasse bananas,
sempre permitindo que o homem ganhasse algumas moedinhas
no peso. Quando Kamasvami o procurava, para lamentar-se de
suas preocupações ou para censurar-lhe algum negócio mal sucedido,
Sidarta, entre curioso c bem-humorado, prestava-lhe ‘
atenção. Escutava com espanto o que o outro lhe dizia. Empenhava-
se em compreendê-lo. Dava-lhe razão até ao ponto que
lhe parecia conveniente e, em seguida, virava-lhe as costas, a
fim de atender outra pessoa qualquer que desejasse falar com
ele. Muita gente vinha ter com Sidarta, alguns para fazer
negócios, outros para lográ-lo, outros para espiá-lo, outros para
despertar a sua compaixão e ainda outros para serem orientados
por ele. E Sidarta dava conselhos, compadecia-se, oferecia
presentes, admitia pequenas trapaças. Tanto esse jogo como a
paixão com que os homens se lhe abandonavam preocupavam o
espírito de Sidarta com a mesma intensidade que ele outrora
devotara aos deuses e ao
De quando em quando, ressoava no âmago do seu peito
uma vozinha suave, como que agonizante, a exortá-lo bem baixinho
e a queixar-se quase imperceptjvelmente. Nessas horas,
Sidarta, por uns poucos instantes, dava-se conta de que levava
uma existência estranha, de que se limitava a fazer coisas que
não passavam de um brinquedo. Notava então que tudo isso lhe
causava um certo prazer e amiúde o alegrava, mas que a verdadeira
vida decorria longe dêje, sem tocá-lo. Assim como um
malabarista brinca com suas bolas, assim brincava ele com seus
negócios e com os homens que o rodeavam. Contemplava-os,
divertia-se à sua custa, sem que o seu coração e a fonte da sua
alma participassem dessas atividades. Essa fonte jorrava em
outra parte, muito distante da sua pessoa; jorrava e prosseguia
jorrando, invisível, sem nada ter que ver com a vida de Sidarta.
E momentos houve em que ele se assustou de tais pensamentos,
desejando que lhe fosse dado, também a ele, participar apaixonadamente,
de todo o coração, daquelas ocupações cotidianas,
infantis. Almejava viver realmente, gozar realmente, agir realmente,
ao invés de restringir-se ao papel de um mero espectador.
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Mas, volta e meia ia visitar a formosa Kamala. Estudava
a arte de amar. Exercitava-se no culto das delícias, no qual,
mais do que em nenhum outro, os atos de dar e de tomar fundem-
se nunx só. Conversava com a moça, aprendia dela, aconselhava-
a e recebia, por sua vez, conselhos. Ela o compreendia
melhor do que Govinda jamais o compreendera, uma vez que
tinha maior afinidade com ele.
Certa feita, disse-lhe Sidarta.
— Tu és como eu. ÉS diferente dos outros seres humanos.
És Kamala, e nada mais. No teu íntimo há calma e asilo, e a
qualquer instante podes retirar-te dali, para estares a sós contigo
mesma, assim como eu também o sei fazer. Poucos homens
têm essa faculdade e, todavia, não há nenhum que não possa
gozar dela.
— Nem todos são inteligentes — replicou Kamala.
—- Não — continuou Sidarta — essa não é a razão.
Kamasvami é tão inteligente quanto eu e, todavia, não encontra
nenhum refúgio no seu íntimo, ao passo que outras pessoas o
conseguem, embora não tenham mais siso do que uma criancinha.
Olha, Kamala, a maioria das criaturas humanas é como
folha arrancada, a flutuar e revolver-se no ar, até ir ao
chão. Outras, porém, parecem-se com os astros que andam
rmma órbita fixa, sem que nenhum vento possa alcançá-los, e
têm em si próprios sua lei e sua rota. Entre todos os eruditos
e samanas, com os quais travei contato, um único era assim,
um homem perfeito, que jamais poderei esquecer. É aquêie
Gotama, o Sublime, o criador da doutrina que conheces. Dia a
dia, milhares de discípulos ouvem essa doutrina; hora por hora,
obedecem aos seus preceitos. Mas, todos eles são folhas arrancadas,
uma vez que não possuem em si a doutrina e a lei.
Kamala olhou-o com um sorriso:
— Novamente andas falando dele — disse. — Voltaste a ter idéias de samana.
Sidarta calou-se e ambos deram-se ao jogo do amor, a um dos trinta ou quarenta jogos diferentes que Kamala conhecia.
Seu corpo era flexível, como o do jaguar ou como o arco de um caçador. Quem aprendesse dela o amor saberia grande
número de prazeres e de mistérios. Por muito tempo, Kamala brincava com Sidarta, atraindo-o, afastando-o de si, cingindo-o com os braços, regozijando-se da sua maestria, até que ele descansasse
a seu lado, vencido e exausto.
Inclinando-se sobre ele, a hetera espreitou-lhe demoradamente
a fisionomia e os olhos fatigados.
— Tu és o melhor amante — disse então, pensativa —
que já tive em toda a minha vida. És mais forte, mais desem
baraçado, mais dócil do que qualquer outro. Muito bem assimilaste
a minha arte, ó Sidarta. Um dia, quando eu for mais
velha, gostaria de ter um filho teu. E, todavia, meu caro, és
ainda um óamana. Apesar de tudo não me amas. Não amas
a ninguém. Não é?
— Pode ser que seja assim — respondeu Sidarta, lassamente.
— Sou igual a ti. Tampouco sabes amar. De outra
forma, nunca serias capaz de fazer do amor uma arte. Possi
velmente, criaturas como nós não poderão jamais amar. Os
outros homens, por tolos que sejam, têm essa faculdade. Nisso
reside o seu segredo.

SANSARA
POR muito tempo, Sidarta ia vivendo a vida do mundo c
dos prazeres, sem todavia pertencer a ela. Seus sentidos, quase
extintos no fervor dos anos passados em companhia dos samanai
haviam voltado a agitar-se. Sidarta saboreava a riqueza tanto
como a volúpia e o poder. No fundo do coração, porém, continuava,
mesmo assim, sendo um samana, como claramente percebera
a inteligente Kamala. O que norteava a sua existência era
ainda a arte de pensar, de esperar, de jejuar. Os homens do
mundo, aqueles tolos, permaneciam estranhos a ele, assim como
o próprio Sidarta sempre se sentia um estranho em seu meio.
Escoavam-se os anos. Agasalhado no conforto dessa vida,
Sidarta mal e mal notava a sua fuga. Era rico. Havia muito
que possuía casa própria. Dispunha de criados. Adquirira um
jardim fora da cidade, à beira do rio. ,X>s homens gostavam
dele. Procuravam-no sempre que careciam de dinheiro ou de
conselhos. Mas ninguém, a não ser Kamala, tinha intimidade
com ele.
Aquela vigília sublime, nítida, que em outros tempos lhe
coubera em sorte, nos dias que se seguiam ao sermão de Gotama
e a separação de Govinda; aquela tensão de expectativa; aquele
isolamento altivo, longe de doutrinas e de mestres; aquele estado
63

de desembaraçada presteza de ouvir a voz divina, cada vez que
ela ressoava no âmago do próprio coração — tudo isso transformara-
se aos poucos em meras recordações, mostrando-se efêmero.
Distante, quase inaudível, ficara o murmúrio da sagrada
fonte que outrora jorrava bem perto dele, brotada da sua alma.
Era bem verdade que muita coisa que ele aprendera dos gamaria*,
que lhe haviam ensinado Gotama e o brâmane, seu pai, mantivera-
se viva em seu espírito por muito tempo ainda. A sobriedade,
o gosto de pensar, as horas de meditação, o conhecimento secreto
da própria personalidade, do eterno eu, qus não é nem corpo
nem consciência, tinham-se conservado nele, mas um após outro
desses bens haviam ficado soterrados, cobertos de poeira. Assim
como um torno de oleiro, uma vez posto em movimento, prossegue
girando, longamente, até que, aos poucos canse e se imobilize,
assim continuavam a girar na alma de Sidarta as rodas do ascetismo,
do pensar, do discernimento. Ainda andavam em giro,
mas seu movimento tornara-se mais lento, hesitante, acercando-se
do estado de imobilidade. Devagar, semelhante à umidade a
penetrar o tronco moribundo de uma árvore, espalhando-se
constantemente e fazendo com que ela apodreça, o mundo e a
preguiça tinham tomado conta do coração de Sidarta. Em lento
avanço, enchiam-lhe o espírito, que ficava lerdo, fatigado e
violento. Seus sentidos, em compensação, vinham a ser muito
ativos, sabidos, experientes,
Sidarta aprendera a fazer comércio, a dominar os homens,
a divertir-se com a mulher; aprendera a usar roupas elegantes, a
dar ordens à criadagem, a banhar-se em águas perfumadas;
aprendera a comer pratos finos, preparados com esmero,
inclusive peixes, carne e aves, doces e especiarias, e a beber
vinho, o qual produz inércia e esquecimento; aprendera a
jogar dados e xadrez, a contemplar bailarinas, a andar de Jiteira,
a dormir num leito macio. Mas, sempre e sempre prosseguia
sentindo-se diferente dos outros e superior a todos. Nunca
cessara de observá-los um tanto ironicamente, com certo desdém
sarcástico, precisamente aquele desdém com que os samanas
costumam encarar os homens do mundo. Cada vez que Kamasvami
estivesse adoentado, ou se enfurecesse, melindrado, ou ainda
se preocupasse com seus problemas comerciais, Sidarta olhava-o
com uma expressão zombeteira. Apenas íenta, imperceptívelínente,
no curso das monções e das estações de safra, seu escárnio
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tornara-se mais lasso, e menos intenso, o seu sentimento de superioridade.
Lentamente também, em meio a seus tesourts sempre
crescentes, o próprio Sidarta assimilara algo das atitudes peculiares
dos homens tolos, da sua ingenuidade e de seus receios. E,
todavia, tinha inveja deles, tanto maior quanto mais se lhes
assemelhava. Invejava-lhes aquela única coisa que lhe faltava
e que eles possuíam, a saber — a importância que logravam
ligar à sua vida, a violência das suas alegrias e dos seus temores,
a angustiada e, todavia, doce felicidade dos seus eternos namoricos.
Essa gente apaixonava-se ininterruptamente por si mesma,
por mulheres, por filhos, por honradas ou por dinheiro, por
projetos ou por esperanças. Ele, porém, era incapaz de aprender
isso, precisamente aquilo, aquela alegria infantil, aquela tolice
ingênua. O que os homens lhe ensinavam era justamente o
comportamento antipático, que ele mais abominava. Com freqüência
cada vez maior, ocorria-lhe, após uma noite passada
em sociedade, não se levantar de manhã por sentir-se abatido e
fatigado. Às vezes, chegava a irritar-se e impacientar-se, quando
Kamasvami o entediava com as suas preocupações. Em outras
ocasiões ria-se exageradamente ao perder no jogo de dados.
Sua fisionomia continuava mais inteligente e espirituosa do
que a dos outros mas, raramente, estava risonha. Uma a uma,
assumia aquelas expressões que geralmente se encontram nos
rostos de ricaços, os sinais do descontentamento, da morbidez,
da indolência, do desânimo, da ausência de amor. Pouco a
pouco, apossava-se dele o mal que acontece às almas dos ricos.
Como um véu, qual névoa fininha, a fadiga envolvia Sidarta,
lentamente, tornando-se mais densa dia a dia, mais turva de mês
em mês, mais pesada de ano em ano. Assim como um belo
vestido se desgasta com o tempo, e com o tempo desbotam as
suas belas cores, assim como nele se criam rugas, e os debruns
se tornam puídos, e a fazenda em alguns lugares começa a
desfiar, assim envelhecera também aquela vida diferente que
Sidarta iniciara, depois de separar-se de Govinda. Enquanto os
anos se escoavam, perdera seu brilho e seu colorido. Rugas
e manchas apareciam nela e, no seu fundo, ainda ocultos, porém
de quando em quando exibindo o semblante feio, repousavam
o nojo e a desilusão. Sidarta não notou nada disso. Apenas
percebeu que silenciara aquela voz clara, firme,’ que outrora
65

ressoava .em seu coração e o norteara continuamente no apogeu
da sua existência.
O mundo apanhara-o nas suas malhas, o prazer, a cobiça,
a inércia e, finalmente, também aquele vício que sempre se lhe
afigurara o mais estúpido de todos: a avareza. Também a
posse, os bens materiais, a riqueza haviam-se apoderado dele,
cessando de representar para ele um brinquedo, uma bagatela
e transformando-se em grilhões e cargas. A essa derradeira dependência,
à mais vil de todas, chegara Sidarta por um caminho
curioso e pérfido: pelo jogo de dados. Desde aqueles dias em
que, no fundo do coração, desistira de ser somaria, dedicava-se
ele com sempre crescente fervor e paixão a esse jogo por
dinheiro ou objetos preciosos. Antigamente tomara parte nele
com bom humor, indolentemente, considerando-o um hábito
peculiar aos tolos. Como jogador, era temido. Poucas pessoas
arriscavam-se a enfrentá-lo, devido às apostas muito altas e
ousadas que ele costumava fazer. O que o impelia a jogar era
a tristeza da sua alma. Perder dinheiro, dissipá-lo, causava-lhe
certa alegria mesclada de raiva. De nenhum outro modo podia-se
manifestar mais clara e cinicamente o desdém que Sidarta sentia
pela riqueza, ídolo dos comerciantes. Por isso, jogava por somas
elevadas, inexorável, odiando-se a si mesmo, fazendo moda do
seu ardor. Ganhava ou desperdiçava milhares de moedas, perdia
jóias, perdia uma casa de campo, tornava a ganhar, a perder.
Aquele medo, o receio terrível, angustiante, que o acossava,
enquanto lançava os dados, preocupado com, o enorme valor da
parada, aquele pavor irresistível — Sidarta adorava-o, procurava
renová-lo uma e outra vez, intensificá-lo mais e mais, levá-lo ao
auge, porquanto era unicamente essa sensação que ainda lhe
proporcionava algo parecido com a felicidade, um quê de inebriamento,
uma fagulha de elevação em meio à sua vida saturada,
preguiçosa, insípida. E após uma perda vultosa, invariavelmente
intentava obter novos tesouros. Entregava-se ao comércio com
redobrado afã. Com severidade sempre maior, obrigava os
devedores a resgatarem as suas dívidas, uma vez que desejava
prosseguir jogando, esbanjando, manifestando o seu menosprezo
à riqueza. Chegava a irritar-se quando a má sorte o perseguia.
Mostrava-se impaciente com pagadores morosos. Já não tinha
a antiga generosidade para com os mendigos. Abandonara o
prazer que antes sentia ao dar ou emprestar dinheiro a quem
66

o implorasse. O mesmo Sidarta que jogava fora dez mil moedas
numa só parada e ainda se ria do prejuízo, tornava-se mais e mais
duro, mais e mais mesquinho nos negócios. De noite, acontecia-
lhe sonhar com o dinheiro! E cada vez que o abominável
feitiço se desfazia, cada vez que, ao examinar o seu rosto no
espelho da alcova, o encontrava envelhecido e desfigurado, cada
vez que o acossavam o asco e a vergonha, voltava ele a fugir,
a refugiar-se novamente na jogatina, a entregar-se outra vez ao
aturdimento da volúpia, do vinho, e saindo dele, a obedecer
de novo aos instintos que o mandavam ganhar fortunas e acumular
tesouros. Na insensatez desse círculo vicioso, afadigava-se,
desgastava-se, estragava a sua saúde.
Certa noite, um sonho serviu-lhe de admoestação. Acabava
de passar a tarde em companhia de Kamala, no lindo parque da
mulher. Haviam conversado, sentados ao pé de uma árvore, e
Kamala proferira algumas frases pensativas. Atrás das suas palavras
escondia-se a mágoa e a lassidão. Pedira a Sidarta que
lhe falasse de Gotama. Não se cansara de ouvir o que o companheiro
lhe contava a seu respeito, descrevendo a pureza do
olhar do Buda, a calma e a beleza de sua boca, a bondade do
seu sorriso, o sossego do seu andar. Por muito tempo, insistira
com Sidarta para que lhe narrasse particularidades acerca1 do
Augusto. Com um suspiro, dissera Kamala:
— Um belo dia, talvez daqui a pouco, também eu aderirei
a esse Buda. Darei o meu parque de presente a ele e tomarei
refúgio na doutrina de Gotama.
Em seguida, porém, provocara o desejo de Sidarta. Atraírao
a si no jogo amoroso, com fervor e ao mesmo tempo com
aflição, mesclando mordidas e lágrimas, como se quisesse tirar
dos prazeres fúteis, efêmeros, a última gota de doçura. Jamais
Sidarta percebera com tamanha clareza a afinidade que existe
entre a volúpia e a morte. Depois, quedara-se ao lado de
Kamala, e sob os olhos da am^da, nas comissuras da sua boca,
deparar a- se-lhe, nítida como nunca antes, aquela escritura fatídica,
de linhas fininhas, de ru^as ligeiras, uma escritura a evocar
a idéia de outono e ds velhice. E, de fato, o próprio Sidaría,
apenas entrado na casa dcs quarenta, também já notara alguns
fios brancos em meio à cabeleira negra. O formoso rosto de
Kamala revelava cansaço, aquela fadiga que acomete a quem
tenha dado uma longa caminhada, sem destino promissor; revê-
67

lava cansaço, o começo do declínio, a angústia secreta, ainda não
professada, talvez nem sequer consciente, o medo da velhice,
o medo do outono, o medo da morte inevitável. Entre suspiros,
Sidarta despedira-se da amiga, com a alma cheia de desgosto
c de ocultos temores.
Mas, a seguir, passara a noite em casa, tomando vinho e
contemplando bailarinas. Perante os comensais, fingira aquela
superioridade que já cessara de existir. Bebêra muito. Bastante
tarde, depois da meia-jioite, recolhera-se a seu leito, exausto e
todavia excitado, a ponto de chorar e de desesperar. Por longas
horas procurara em vão conciliar o sono, com o coração a
transbordar de mágoas que lhe pareciam insuportáveis, de náusea
que o transia como o gosto fastidioso, repugnante, do vinho,
como a música insôssa, adocicada, como o sorriso demasiado
meigo das dançarinas, como a fragância excessivamente forte
dos seus seios e penteados. Mas, muito mais do que todo o
resto causavam-lhe asco a sua própria.pessoa, os cabelos perfumados,
o bafo de vinho que sua boca exalava, a flacidez e o
mal-estar da sua pele. Assim como um homem empanturrado
de comida e bebida prefere os espasmos do vômito aliviador,
assim desejava Sidarta, nessa noite de insônia, lançar para fora
de si, num imenso jato de enjôo, aquele prazeres, aqueles
hábitos, aquela vida absurda e livrar-se de si mesmo. Não
conseguira adormecer senão de madrugada, quando na rua, em
frente da sua casa na cidade, já começavam as primeiras atividades.
Foi nesse instante que teve um sonho.
Numa gaiola de ouro, Kamala guardava um passarinho
canoro, muito raro. A visão do bichinho apareceu diante de’
Sidarta. O pássaro, que normalmente cantava nas primeiras
horas do dia, parecia mudo. Como esse fato lhe chamasse a
atenção, ele aproximou-se da gaiola e viu que o passarinho
jazia no chão, morto, enrijecido. Retirou-o; por um momento
segurou-o na mão e, em seguida, atirou-o na calçada da rua.
Mas logo se assustou terrivelmente. O coração doía-lhe como
se ele houvesse jogado fora não só o cadáver da ave, como
também tudo quanto fosse bom e tivesse valor.
Despertou bruscamente. Sentia-se invadido de profunda
tristeza. Atormentava-o a impressão de ter levado uma existência
vil, miserável, insensata. O que lhe sobrava não tinha nem
68

vida, nem encanto. Não valia e pena guardá-lo. Via-se isolado,
desprovido de tudo, qual náufrago atirado a uma praia erma.
Cismando sombriamente, encaminhou-se a um dos jardins
que lhe pertenciam. Fechou a porta a chave. Sentou-se à sombra
de uma mangueira. Era-lhe como se a morte tivesse tomado
conta do seu coração. Com pavor na alma, sentado, imóvel,
percebia que algo morria nele, definhando, acercando-se do fim.
Aos poucos, conseguia concentrar os seus pensamentos. Espiritualmente,
tornou a percorrer todo o caminho da sua existência,
desde os primeiros dias de que se lembrava. Já se sentira, por
acaso, realmente feliz? Invadira-o, alguma vez, a sensação de
verdadeira delícia? Ah, sim! isso se dera diversas vezes. Na sua
meninice, saboreara tal dita, sempre que os brâmanes lhe tributavam
elogios, ou quando ele, garoto mais precoce do que os
seus coetâneos, se distinguia na recitação dos poemas sagrados,
nos debates travados com os eruditos e no serviço dos sacrifícios.
Nessas ocasiões, tivera certeza, no fundo da sua alma, de que
à sua frente estendia-se o caminho da sua vocação e os deuses
aguardavam a sua chegada. E mais tarde, na adolescência,
quando a meta cada vez mais fugaz, cada vez mais elevada,
de todas as suas meditações o afastara do grupo de seus competidores
e o colocara numa categoria superior, naqueles dias em
que se atormentava no empenho de descobrir o significado do
Brama, quando cada conhecimento obtido apenas provocava
nele nova sede, sentira, por sedento, por dolorido que andasse,
sempre esse mesmo impulso: “Avante! Avante! Tu és eleito!”
Essa voz íntima, ele ouvira-a no momento em que abandonara
o lar paterno e escolhera a vida de samana e, novamente, ao
separar-se dos samanas, a fim de dirigir-se ao Homem Sublime,
e ainda quando dele se apartara, para tomar rumos incertos.
Quanto tempo não decorrera, sem que a voz secreta ressoasse
em seu íntimo, sem que ele galgasse altura alguma? Como se
tornara plano e desinteressante o caminho que trilhava, fazia
muitos anos, sem perseguir nenhum objetivo grandioso, sem sede
nem exaltação, saturado e, todavia, insaciável! Durante todos
esses anos, inconscientemente se esforçara, ansiara por ser uma
criatura igual às demais, igual àqueles tolos e, apesar disso, levara
uma vida muito mais triste, muito mais pobre do que eles, que
tinham propósitos e preocupações diferentes. Todo aquele mundo
dos Kamasvamis afigurava-se-lhe como um mero brin-
69

quedo, num bailado que se contemple, uma comédia. Sòment?
Kamala lhe fora cara, só ela possuía valor — mas isso também
não mudara? Tinha ele ainda necessidade dela? Ou ela dele?
Não se dedicavam ambos a um jogo sem fim? Era esse um
desígnio para o qual se precisasse viver? Não, nunca! Esse jogo
chamava-se Sansara,10 um brinquedo para criança, agradável
talvez para quem o usas&e uma vez, duas, dez vezes. Mas, para
que recomeçá-lo sempre e sempre?
Nesse instante, Sidarta deu-se conta de que o jogo terminara,
de que jamais poderia voltar a fazer parte dele. Um calafrio
perpassou em seu corpo. Sentiu que algo acabava de morrer
na sua alma.
Durante todo esse día permaneceu sentado ao pé da mangueira,
recordando-se do pai, recordando-se de Govinda, de
Gotama. Fora realmente necessário que ele os abandonasse a
todos, para converter-se num Kamasvami? Ainda se mantinha
sentado, quando caiu a noite. Enquanto levantava os olhos e
deparava com as estrelas, pensou: “Aqui estou, ao pé da minha
mangueira, no meu jardim.” E esboçou um leve sorriso, ao
ponderar se era necessário, importante e certo, e não apenas
um briquedo tolo possuir uma mangueira e um jardim?
Resolutamente, pôs fim àquele estado d^ coisas. Também
aquilo cessara de viver no seu coração. Ergueu-se do chão.
Despediu-se da árvore, despediu-se do parque. Já que nesse dia
se abstivera de todos os alimentos, sentia-se acossado por uma
fome violenta. Vieram-lhe à memória a casa na cidade, a alcova,
o leito, a mesa posta. Com um sorriso fatigado, sacudiu-se, para
desembaraçar-se de tudo aquilo.
Nessa mesma noite, Sidarta abandonou o seu jardim. Saiu
da cidade e nunca mais voltou. Kamasvami, que acreditava que
o sócio tivesse sido raptado por salteadores, mandou fazer prolongadas
investigações. Kamala, porém, não empreendeu nenhuma
busca. Ao ser informada do desaparecimento de Sidarta, nem
sequer se admirou. Não soubera ela sempre que isso um dia
aconteceria? Não era ele um samana, um homem sem raízes,
um peregrino? E fora -na última tarde que passaram juntos qus
1° Sansara: as vicissitudes do mundo, da vida e da morte da existência
humana; a instabilidade e a efemeridade das coisas; a agitação do mundo;
a vaidade e a inquietude da vida humana. (N. do T.)
70

à dor que lhe causava a perda, regozijava-se por tê-lo apertado
ao peito, com tanto ardor, naquela hora derradeira, para que
Sidarta mais uma vez a possuísse e penetrasse inteiramente.
Qundo lhe comunicaram que ele sumira, acercou-se da
janela, onde mantinha preso numa gaiola de ouro um pássaro
raro. Abriu a portinha, retirou a ave e permitiu-lhe que escapasse.
Por muito tempo, acompanhou com os olhos o passarinho
que esvoaçava. A partir desse dia, nunca mais recebeu
visitas. Mantinha cerrada a sua casa. Depois de algumas semanas,
porém, verificou que estava grávida, em conseqüência do
ultimo contato com Sidarta.

À BEIRA DO RIO
caminhava pela íloresta, já muito longe da cidade.
Tinha certeza de uma única coisa: que nunca mais poderia
voltar atras, que essa vida que levara por longos anos, pertencia
ao passado, definitivamente, que a saboreara, chupando até a
última gota, até enjoar. O pássaro canoro com o qual sonhara
estava morto. Morto estava o pássaro que cantara no âmago
da sua alma. Por todos os lados, enredara-se no Sanfara.
Impregnara-se completamente de nojo e de morte, assim como
uma esponja absorve a água, até ficar cheia. Sentía-se abarrotado
de desânimo, de mal-estar, de agonia. Em todo o vasto
mundo já não existia nada que o pudesse atrair, que fosse capaz
de causar-lhe alegria e de trazer-lhe conforto.
O que ele almejava mais do que tudo era não saber nada
que lhe dissesse respeito, era encontrar sossego, estar morto.
Oxalá que um raio se abatesse sobre ele, matando-o! Quem lhe
dera que um tigre o devorasse! Ah, se houvesse um vinho, um
veneno que conseguisse atordoá-lo! Existia, por acaso, alguma
sordidez com que ele se não houvesse poluído, alguma tolice,
algum pecado que se tivesse omitido de cometer, algum vazio da
alma jamais experimentado por seu espírito? Seria possível ainda
continuar a viver, aspirar o ar uma e outra vez, expeli-lo nova-
72

mente, sentir fome, comer, dormir, deitar-se ao lado de uma
mulher? Não se haviam esgotado as variantes do circuito? Ainda
não estaria alcançando o fim de tudo isso?
Sidarta chegou ao grande rio, que passa pela selva, o mesmo
rio que um balseiro o ajudara a transpor, quando o então
jovem vinha da cidade habitada por Gotama. Ali se deteve.
Indeciso, permanecia de pé, à beira d’água. Estava debilitado
pela fome e pelo cansaço. Para que prosseguir na caminhada?
Em que direção? Com que destino? Não, já não o aguardava
nenhum destino. Nada mais havia a não ser o profundo e doloroso
desejo de livrar-se daquele pesadelo confuso, vomitar esse
vinho nojento, acabar com tal vida miserável, ignominiosa.
Por cima da ribeira inclinava-se uma árvore, um coqueiro.
Sidarta encostou o ombro na madeira. Agarrando-se ao tronco,
cravou os olhos nas verdes águas que corriam lá em baixo,
sempre e sempre. Almejava de todo coração desprender-se,
afogar-se naquele rio, em cuja superfície se espelhava um vazio
tremendo, qual reflexo do pavoroso vazio de sua própria alma.
Sim, ele, Sidarta, estava no fim. Não se lhe descortinava outra
solução que não a de extinguir-se a si mesmo, de quebrar o
malogrado molde da sua existência, de jogar os cacos fora, bem
longe, aos pés dos deuses que zombavam dele. Sentia que esse
era o momento do grande vômito pelo qual ansiara: a morte,
a dilapidação da forma odiada! Que os peixes devorassem o
corpo de Sidarta, desse cão, desse louco, que engolissem esse
cadáver depravado, podre, essa alma langorosa, violentada!
Quem lhe dera ser comido por peixes e crocodilos, ser dilacerado
pelos demônios!
Com o rosto crispado, fitava as águas. Contemplou a sua
fisionomia no espelho e cuspiu nela. Terrivelmente fatigado,
soltou a árvore. Empertigou-se um pouco, a fim de lançar-se
numa queda vertical que o levasse ao ocaso definitivo. Com
os olhos cerrados, deixou-se cair, rumo à morte.
Nesse momento, um som começou a vibrar nele, vindo de
longínquas regiões da sua alma, de épocas passadas da sua existência
gasta. Era uma única palavra, uma só sílaba que ele
pronunciou inconscientemente, em voz insegura. Era a velhíssima
palavra inicial e final de todas as orações do bramanismo, o
sagrado Om, que significa o Perfeito ou a Perfeição. E logo
73

que ouviu o Om a ressoar no seu íntimo, seu espírito, bruscamente
acordado do sono, percebeu a estupidez do ato que ele ia
cometer.
Estremeceu. Então chegara àquele extremo; perdera-se a tai
ponto; andara tão alucinado, tão néscio que chegara a almejar
a morte, permitindo que aquela ânsia, aquele desejo próprio de
uma criança crescesse nele. Quisera encontrar sossego, ao exterminar
o próprio corpo. O que todos os tormentos daqueles
últimos tempos, todas as desilusões, todo o desespero não haviam
conseguido fazer, produzia-se naquele instante, quando o Om
penetrava na sua consciência; em meio a sua miséria’ e a seus
equívocos, reconheceu-se a si mesmo.
— Om! — disse de si para si.
E, ao mesmo tempo, voltava-lhe o conhecimento do Brama,
da indestrutibilidade da vida, das coisas divinas de que se es7
quecera.
Mas tudo isso durou apenas um instante, era como um
raio. Estendeu-se ao pé do coqueiro, prostrado pelo cansaço.
Murmurando a palavra Om, deitou a cabeça na raiz da árvore
e entregou-se a um sono profundo.
Dormiu calmamente, sem sonhar. Havia muito que não
repousava assim. Ao despertar, depois de várias horas, parecialhe
que dez anos tinham decorrido. Ouvia o suave marulhar das
águas. Não sabia onde estava e quem o levara até aquele lugar.
Abrindo os olhos, viu, pasmado, às árvores e o céu por cima da
sua cabeça. Lembrou-se então da ribeira onde se achava e de
como chegara até ela. Contudo, careceu de algum tempo para
dar-se conta disso. Era-lhe como se o passado estivesse
envolvido num véu, infinitamente distante, infinitamente remoto,
totalmente desprovido de importância. Apenas tinha certeza de
ter abandonado a sua existência precedente, a qual, no primeiro
momento de recuperação dos sentidos, se lhe afigurava como uma
encarnação longínqua, uma jornada anterior do seu eu atual;
recordava-se também da sua intenção de jogar fora a vida, num
acesso de asco e desgosto e, finalmente, lembrava-se de que
recuperara a consciência de si mesmo à beira de um rio, sob um
coqueiro, para em seguida, pegar no sono, com a sagrada palavra
do Om nos lábios. Ao acordar, nesse instante, olhava o mundo
como um recém-nascido. Em voz baixa proferiu novamente o
Om, assim como fizera ao adormecer e tinha então a impressão
74

de que todo aquele sono prolongado não passava de uma longa
e ininterrupta seqüência de Oms pronunciados por ele, de uma
penetração no Om, de uma fusão completa com o Perfeito, o
Inominado.
Que sono maravilhoso! Jamais sono algum o refrescara
tanto. Nunca se sentira tão novo, tão rejuvenescido. Ou, quem
sabe, talvez tivesse morrido, perecendo, para ressuscitar logo
depois sob um aspecto diferente? Mas não! ele se reconhecia a
si mesmo; reconhecia as mãos, os pés, o lugar onde se encontrava;
reconhecia a esse eu no seu peito, a esse Sídarta, homem
teimoso, esquisitão. E, todavia, era um Sidarta modificado,
renovado, surpreendentemente refeito, singularmente acordado,
alegre, curioso.
Soerguerdo-se, viu à sua frente um vulto sentado. Era um
estranho, um monge de trajes amarelos, com a cabeça raspada,
na posição de quem medita. Sidarta olhou o homem, que não
tinha cabelo nem barba, e não necessitou de muito tempo para
verificar que o monge era Govinda, seu amigo de infância, o
mesmo Govinda que procurara agasalho na proximidade do augusto
Buda. Também Govinda envelhecera, mas seu rosto tinha
ainda os mesmos traços, que revelavam zelo, lealdade, busca,
angústia. Mas, quando Govinda, sentindo-se observado, abriu
os olhos, notou Sidarta que o amigo não o identificara. Govinda
parecia satisfeito em vê-lo acordado. Evidentemente estívera ali
sentado, fazia muito tempo, a aguardar que o desconhecido despertasse.
— Dormi — disse Sidarta. — Como chegaste a este lugar?
— Dormiste, sim — respondeu Govinda — É perigoso
dormir nesta região, onde há cobras em abundância e as feras
da selva passam pelos caminhos. Eu, meu senhor, sou um
discípulo do sublime Gotama, o Buda, o Saquia-Muni. Ao fazer
uma peregrinação, ao longo desta estrada, descobri-te e percebi
que estavas dormindo num lugar onde não convém descansar.
Por isso, procurei acordar-te, e como percebesse que teu sono
era bem profundo, separei-me dos companheiros, para ficar a
teu lado. Mas, parece-me que eu mesmo adormeci, em vez de
velar por ti. Desincumbi-me muito mal da minha missão. A
fadiga tomou conta de mim. Mas agora, que despertaste, per
mite que me afaste, para que possa alcançar meus irmãos.
75

— Agradeço-te, ó samana, o teres vigiado o meu sono —
disse Sidarta. — Vós, os discípulos do Augusto, sois muito
gentis. Pois então, podes ir-te, se assim o quiseres.
— Vou-me embora, meu senhor. Que tua saúde continue
boa.
— Obrigado, samana.
Com um sinal de despedida, Govinda acrescentou:
— Adeus.
— Adeus, Govinda — disse Sidarta.
O monge estacou.
— Permite-me a pergunta, meu senhor: de onde conheces
meu nome?
Sidarta sorriu.
— Conheço-te, ò Govinda, de quando mora vás na cabana
de teu pai e de quando freqüentavas a escola dos brâmanes ç
participavas dos sacrifícios, e de quando nos reunimos com os
samanas, e daquela hora, no bosque Jetavana, em que procuraste
agasalho na proximidade do Sublime.
— Então és Sidarta! — exclamou Govinda. — Agora te
reconheço e não compreendo por que não o fiz logo. Sé bemvindo,
Sidarta. Folgo muito em reencontrar-te.
—• Também eu gosto de estar novamente contigo. Vigiaste
o meu sono. Mais uma vez te agradeço, se bem que não
necessitasse de nenhum vigia. Aonde vais, meu amigo?
— Não tenho rumo certo. Nós, os monges, vagueamos
sempre pela região, a não ser na estação das chuvas. Vamos
de um lugar a outro, vivendo segundo o ritual, propagando a
doutrina, pedindo esmolas e prosseguindo na nossa jornada.
Sempre e sempre. E tu, Sidarta, onde vais?
Respondeu Sidarta:
—- Comigo acontece a mesma coisa, meu amigo. Ando
sem rumo. Apenas vou caminhando. Seu um peregrino.
— Afirmas que és um peregrino — tornou Govínda —
e acredito nas tuas palavras. Mas, Sidarta, não leves a mal o
que te digo; não tens a aparência de um peregrino. Usas as
roupas dos ricos; calças sapatos que convém a um cavalheiro
distinto; e teu cabelo que cheira a água perfumada não se parece
com o de um samana peregrino.
— Perfeitamente, meu caro, observaste tudo muito bem.
Teus olhos são deveras perspicazes. No entanto, não asseverei
76

ser um samana. Disse apenas que sou um peregrino. E assim
é de fato: encontro-me numa peregrinação.
_ Então és um peregrino — replicou Govinda. — Mas
pouca gente faz romarias com trajes, sapatos e penteados dessa
qualidade. Eu, que há muitos anos vivo peregrinando, nunca
vi um peregrino igual a ti.
— Disso não duvido, amigo Govinda, Mas, justamente
hoje topaste com um peregrino diferente, que veste roupas e
calças de outra espécie. Não te esqueças, meu querido: o mundo
das configurações altera-se a cada instante. Perecíveis, suma
mente perecíveis são os nossos trajes e os penteados dos nossos
cabelos, assim como também os próprios cabelos e corpos. Eu
uso as roupas de um homem rico. nisso tens razão. Uso-as,
porque fui rico e ando penteado como os pândegos mundanais,
uma vez que fiz parte deles.
— E agora, ó Sidarta, que és agora?
—• Não sei. Ignoro-o da mesma forma que tu. Apenas
vou caminhando. Tenho sido um ricaço mas cessei de sê-lo.
Não faço nenhuma idéia do que serei amanhã.
— Perdeste a tua fortuna?
— Perdia-a, ou talvez ela tenha perdido a mim. Minha
fortuna sumiu. A roda das configurações gira depressa, amigo
Govinda. Onde ficou o brâmanc Sidarta? Onde o samana
Sidarta? E onde está o ricaço Sidarta? As coisas efêmeras mudam
rapidamente, meu caro Govinda. Bem o sabes.
Por muito tempo, Govinda fitou o amigo de infância. Seu
olhar expressava dúvida. Em seguida, saudou-o, como se saúda
um cavalheiro distinto, e foi-se embora.
Sempre sorrindo, Sidarta scguiu-o com os olhos. Ainda o
amava, a esse homem leal, sempre preocupado. De resto, como
poderia ter deixado de amar o que quer que fosse, pessoas ou
objetos, nesse momento exato, nessa hora magnífica, após o
sono milagroso, quando se sentia inteiramente penetrado do Oni?
Justamente nisso consistia o .feitiço que tomara conta dele, através
da palavra sagrada e fazia com que ele sentisse amor a tudo
e se enchesse de ternura para com todas as coisas que se lhe
deparassem. E tinha a impressão de que a grave doença de
que sofrerá até poucas horas antes manifestara-se precisamente
na incapacidade de amar nada e ninguém.
77

Ainda sorridente, Sidarta prosseguiu acompanhando com
o olhar o monge que se afastava. O sono fortalecera-o consideravelmente.
Mas, nesse momento, a fome torturava-o muito.
Fazia dois dias que não comia e os tempos em que estava
acostumado a abster-se de alimentos pertenciam a um passado
remoto. Melancòlicamente, e todavia com uma risada jovial,
recordou-se daquela época distante. Veio-lhe à memória que
perante Kamala gabara-se de saber realizar três coisas, de dominar
três artes, nobres, insuperáveis; jejuar, esperar, pensar.
Isso representava tudo que então possuía. Servira-lhe de esteio
sólido. Dera-lhe força e poder. Nos anos duros, laboriosos, de
sua juventude, Sidarta assimilara essas três artes, só elas. Mas
depois as perdera. A essa altura nenhuma delas pertencia-lhe:
nem a arte de jejuar, nem a de esperar, nem a de pensar. Ele as
trocara pelo que havia de mais vil e de mais efêmero no mundo,
pelo prazer dos sentidos, pela vida amena, pelos bens materiais!
Realmente, o que lhe acontecera era curioso. Ao fim de tudo
isso, assim lhe parecia, tornara-se de fato nm tolo como os outros
homens.
Refletiu sobre a sua situação, O ato de pensar causava-lhe
dificuldade. No fundo, nem sequer gostava de fazê-lo. Mas,
com algum esforço, conseguiu-o,
“Pois então — pensou — já que todas aquelas coisas passageiras
me escorregaram por entre as mãos, acho-me novamente
sob o sol, sozinho, como nos meus dias de infância. Nada possuo,
nada sei fazer, nada posso realizar, nada aprendi. Não é mesmo
estranho? Agora, que já não sou nenhum jovem, que meus cabelos
já ficaram bem grisalhos, que minhas forças diminuem, volto à
estaca zero, lá onde estive em criança!” Mais uma vez esboçou
um sorriso. Sim, seu destino era deveras singular. Ele ia abaixo
e novamente se encontrava nesta terra totalmente vazio, bobo,
desamparado. Mesmo assim, sentia-se incapaz de afligir-se por
isso. Antes pelo contrário, tinha vontade de dar uma gargalhada,
de rir-se de si, de zombar desse mundo esquisito, estúpido,
“Tu vais mesmo abaixo!” — disse de si para si, soltando
uma risada e, ao pronunciar essas palavras, fixou a vista no rio.
Via que também o rio ia abaixo, sempre abaixo, sem que todavia
cessasse de murmurar a sua alegre cantiga. Isso lhe agradava.
Olhou o rio, com um sorriso, como a um amigo. Eram
essas realmente as mesmas águas nas quais quisera afogar-se,
78

cutrora, fazia cem anos, ou acontecera aquilo apenas num
sonho?
“A vida que levei foi deveras curiosa”— pensou — “e
conduziu-me por caminhos estranhamente tortuosos. Quando
menino só tive que lidar com deuses e sacrifícios. Quando adolescente,
preocupei-me exclusivamente com o ascetismo, com
a filosofia, com a meditação, indo em busca do Brama e reverenciando
o que há de eterno no Átman. Quando moço, porém,
acompanhei os penitentes; morei na selva; suportei o frio e o
calor; aprendi a agüentar a fome; mortifíquei o meu corpo.
A seguir ocorreu-me o maravilhoso encontro com a doutrina do
orande Buda e através dela cheguei ao conhecimento; senti que
a percepção da unidade do Universo circulava em mim como o
meu próprio sangue. Mas coube-me abandonar também o Buda
e sua sublime sabedoria. Fui ter com Kamala e graças a ela
enfronhei-me nas delícias do amor; com Kamasvami estudei o
comércio; acumulei dinheiro, esbanjei dinheiro; habituei-me a
adorar o meu estômago e a adular os meus sentidos. Era preciso
que eu vivesse assim por longos anos, sacrificando o meu espírito,
esquecendo a arte de pensar, olvidando a unidade. Não
parece de fato que, lentamente, trilhando estradas sinuosas,
transformei-me de um homem numa criança e de um filósofo
num tolo? E, todavia, acho que esses desvios me fizeram um
grande bem. O pássaro que antigamente cantava no meu peito
não morreu ainda. Mas que jornada extraordinária! Careci
passar por tamanha insensatez, por tantos vícios e erros, por
um sem-número de desgostos, desilusões, tristezas, só para voltar
a ser criança e para começar de novo. E, apesar de tudo isso,
fiz bem, agindo dessa forma. Meu coração está de acordo e
meus olhos enxergam aquilo com prazer. Coube-me em sorte
o pior desespero. Foi necessário que me degradasse até ao mais
estúpido de todos os propósitos e pensasse no suicídio, para que
me acontecesse a graça, para que eu ouvisse novamente o Om,
para que me iossc dado dormir com calma e acordar refeito.
Tive de pecar, para que pudesse tornar a viver. Aonde me levará
agora o meu destino? Meu caminho parece louco; faz curvas;
talvez me conduza num. círculo fechado. Seja como for, vou
segui-lo!”
Sentiu-se tomado de um bem-estar indizível.
79

“Donde, ó meu coração — perguntou a si mesmo — veío-te
tamanha alegria? Só daquele sono benéfico, prolongado, que
tanto me refrescou? Ou da palavra Om que pronunciei? Ou do
fato de eu ter logrado escapar, transformar essa fuga em realidade
definitiva, voltar à liberdade, viver como uma criança sob o
vasto céu? Ah, como me faz bem essa fuga, essa liberdade
reconquistada! Como é belo e puro o ar que aqui se respira!
Naquela casa de onde me evadí, tudo cheirava a pomada, especiarias,
vinho, abundância, preguiça! Como não odiei esse mundo
dos ricaços, dos comilões, dos jogadores! Quanto não detestei
a mim mesmo, por ter permanecido durante anos ali, naquele
ambiente pavoroso! Assim me prejudiquei, privei-me, intoxiqueime,
maltratei-me, tornei-me velho e maldoso. Não, ao contrário
do que outrora gostava de imaginar, nunca mais terei a veleidade
de ser um sábio! Mas uma coisa me saiu bem. Até me causa
prazer. Estou contente que esse ódio com que me persegui
chegou ao seu fim, da mesma forma que aquela vida insensata,
enfadonha, que ievei! Felicito-te, ó Sidarta, por teres novamente
uma boa idéia, após tantos e tantos anos de tolice, por teres
realizado uma ação proveitosa. Ouviste o canto do pássaro no
fundo do teu coração e obedeceste a ele!”
Assim se elogiava a si próprio. Sentia-se satisfeito consigo
mesmo. Com manifesta curiosidade, escutava os resmungos do
seu estômago acossado pelo fome. Percebia nitidamente que,
no decorrer dos meses e dos dias que acabavam de passar, esvaziara
até à última gota a taça da tristeza e do desgosto, para,
em seguida, vomitar o conteúdo amargo, numa convulsão de
desespero e morte. Estava bem assim. Ter-lhe-ia sido possível
permanecer por muito tempo ainda ao lado de Kamasvami,
ganhando e desperdiçando dinheiro, cevando o ventre e permitindo
que sua alma morresse de sede. Talvez tivesse ele continuado
a habitar aquele inferno suave, confortável, se não lhe
houvesse acontecido aquele momento de extrema desesperança,
de completo desânimo, aquele momento derradeiro, quando, à
beira das águas íorrentosas, estívera disposto a suicidar-se,
O fato de ele ter experimentado tal sensação de profundo desalento,
de asco total sem sucumbir a ela, o fato de terem sobrevivido
em seu íntimo o pássaro, a voz, a fonte jucunda, esse fato
alegrava-o, tornava-o .risonho, fazia com que seu rosto, sob a
cabeleira grisalha, irradiasse júbilo.
80

“Que bom — assim pensou — provar tudo quanto se necessita
conhecer! Em criança, já aprendi que a riqueza e os
prazeres mundanais não nos trazem nenhum proveito. Há muito
tempo sabia disso, mas somente agora cheguei a assimilar essa
sabedoria. Hoje me compenetrei dela. Possuo-a não só na memória,
senão nos olhos, no coração, no estômago. Ê uma bênção
ter-se essa certeza.”
Durante horas a fio, meditava acerca da transformação que
nele se produzira. Com atenção, escutava a voz alegre do pássaro
que cantava na sua alma. Mas como? Aquele bichinho não
estava morto? E a dor que ele, Sidarta, sentira pelo seu desaparecimento?
Ora, o que morrera no seu íntimo era outra coisa,
algo que havia muito desejava ser exterminado. Não era precisamente
aquilo que ele quisera extinguir no ardor dos seus anos
de penitência? Não era a sua própria personalidade, o seu eu
mesquinho, angustiado, orgulhoso, com o qual travara uma luta
de longos anos, que uma e outra vez triunfara sobre ele, que
sempre ressuscitara, por mais que ele o abatesse, que lhe vedara
.a felicidade e lhe incutira o medo? O que encontrara a morte,
até que enfim, nessa selva, na ribeira desse belo rio, não seria
justamente esse eu? E não o reconduzirá essa mesma morte ao
estado de criança, inspirando-lhe plena fé, livrando-o de qualquer
temor, enchendo-o de júbilo?
Nesse instante, Sidarta começava a vislumbrar o motivo
por que não conseguira vencer àquele eu, nem como brâmane,
nem como penitente. O que o impedira fora o excesso
de erudição, de versículos sagrados, de rituais, de sacrifícios, de
ascetismo, de atividades e de ambições. Sempre se pavoneara
com altivez; sempre quisera ser o mais inteligente, o mais zeloso;
sempre se empenhara em tomar a dianteira; sempre se exibira
nos papéis de sábio, de intelectual, de sacerdote, de filósofo.
Nesse sacerdócio, nessa altivez, nessa erudição infiltrava-se o seu
eu; ali se arraigara, crescera, enquanto ele, Sidarta, cria tê-lo
aniquilado por meio de jejuns e mcrtificações. A essa altura,
porém, redescobriu-o e também percebeu que a voz secreta tivera
razão, e que nenhum mestre jamais teria sido capaz de salvá-lo
Por isso, fora inevitável que ele se encaminhasse ao mundo,
para perder-se na busca de prazeres, de poder, de mulheres, de
dinheiro, e que se tornasse, sucessivamente, comerciante, jogador
de dados, beberrão e avarento, até que o sacerdote e o samana
81

que nele houvera estivessem mortos. Por isso coubera-lhe em
sorte suportar todos aqueles anos sórdidos, suportar o nojo, o
vazio, o absurdo de uma existência fastidiosa, inútil, até ao fim,
até à amargura do desespero, até que o patusco Sidarta e o
sovina Sidarta pudessem morrer por sua vez. E eles estavam
mortos, realmente! Um Sidarta renovado despertava do sono
Também ele envelheceria, também ele teria de falecer um dia.
Sidarta era efêmero, como efêmeras seriam quaisquer configurações.
Nesse dia, porém, o novo Sidarta seníia-se jovem, era
criança outra vez, estava cheio de alegria.
Eis os pensamentos que lhe vinham ao espírito. Sorrindo,
prestava atenção às. queixas do estômago. Com sincera gratidão,
ouvia os zumbidos de uma abelha, Satisfeito, contemplava a
torrente do rio. Nunca água alguma lhe agradara tanto como
aquela. Em nenhum outro momento se lhe haviam comunicado
de modo tão claro e lindo a voz e o símbolo do curso das águas.
Parecia-lhe que o rio lhe revelava algum segredo especial, alguma
coisa ignota, que ainda o aguardasse. ‘Nesse rio, quisera afogar-se.
Nesse rio, submergia o velho, o exausto, o desesperado Sidarta.
Mas o novo Sidarta, tomado de profundo amor a essas águas
que lá corriam, resolvia não se separar de]as por muito tempo.

O BALSEIRO
EI de permanecer junto a êsst rio! —
pensou Sidarta — É o mesmo que atravessei
quando ia ter com os homens tolos. Naquela ocasião um
balseiro simpático me transportou. Vou procurá-lo. Da sua
cabana partia então o caminho que me conduziu a uma vida
nova, a qual, por sua vez, já ficou velha e morreu. Que também
desta vez o meu caminho, minha existência atual, renovada,
comecem ali!”
Carinhosamente, olhou a torrente das águas, o verde transparente,
as linhas cristalinas de seu desenho misterioso. Notou
que do fundo subiam pérolas luminosas, que na superfície flutuavam
silenciosas bolhas de ar, que o espelho refletia o azul
do céu. Com milhares de olhos fitava-o o rio, olhos verdes,
brancos, diáfanos, cerúleos. Corno ele adorava aquelas águas!
Estava encantado por elas. Sentia-se grato. Notava que no seu
coração a voz tornava a falar. Despertada do sono, dizia-lhe:
“Ama as águas! Não te afastes delas! Aprende o que te ensinam!”
Ah, sim! ele queria aprender delas, queria escutar a sua mensagem.
Quem entendesse a água e seus arcanos — assim lhe
parecia — compreenderia muita outra coisa ainda, muitos mistérios,
todos os mistérios.
83
“H

Nesse dia, porém, deparou-se-lhe apenas um único dentre
os arcanos do rio, e este lhe abalou a alma. Viu que a água
corria, corria, corria sempre e todavia estava lá, ininterruptamente,
era sempre, a cada instante, a mesma e todavia se renovava
sem cessar. Como explicar isso? Quem lhe dera desvendar
esse mistério! Sidarta não o compreenderia, não encontrava a
resposta. Somente sentia que, no seu íntimo, vibravam intuições
vagas, reminiscências distantes, divinas.
Pôs-se de pé. Os espasmos que a fome provocava nas suas
entranhas tinham-se tornado insuportáveis. Num estado de enlevo,
prosseguiu na sua caminhada, subindo a senda que acompanhava
a ribeira. Enquanto ia em direção contrária à corrente
do rio, escutava os murmúrios das águas c os resmungos do seu
ventre faminto.
Quando chegou ao trapiche, encontrou a embarcação à
sua espera. Nela se achava o mesmo balseiro que outrora transportara
o jovem samana através do rio. Sidarta reconheceu-o,
embora o homem também tivesse envelhecido consideravelmente.
— Queres levar-me ao outro lado? — perguntou.
O balseiro admirado de ver uma pessoa tão distinta andar
sozinha e a pé, recebeu-o na embarcação e em seguida iniciou
a travessia.
— É linda a vida que escolheste — disse o passageiro.
— Deve causar-te prazer viver sempre nas proximidades dessa
água e navegá-la todos os dias.
O remador balançava-se, sorrindo:
— Dá prazer, realmente — respondeu. — É assim como
dizes. Mas não são todas as vidas, todas as profissões igualmente
lindas?
— Pode ser que sejam. Mas eu te invejo a tua.
— Ora, depois de pouco tempo te cansadas dela. Ela não
serve para gente bem vestida.
Sidarta deu uma risada.
— Esta já é a segunda vez, no dia de hoje, que alguém
repara nas minhas roupas e por causa delas me olha com descon
fiança. Que tal, ó balseiro, não queres aceitá-las, de presente
uma vez que elas se me tornaram odiosas? Convém que saibas
que não tenho dinheiro para pagar-te a passagem.
— Estás brincando, meu prezado senhor — disse o bal
seiro, rindo-se gostosamente.
84

— Não brinco, meu amigo. Olhe, em outra ocasião já me
transportaste na tua balsa através desse rio e também o fizeste
de graça- Faze-o mais uma vez hoje e recebe minhas roupas
como recompensa!
— E tu continuadas a viagem sem roupas, meu mestre?
— Ora, eu até gostaria de nunca prosseguir na minha
jornada. Para mim seria melhor que tu, ó balseiro, me desses
uma tanga velha e me guardasses aqui, a teu lado, como teu
ajudante, ou melhor: teu aprendiz. Pois, preciso ainda aprender
como se maneja a embarcação.
Por muito tempo, o balseiro contemplou o estranho, procurando
recordar-se.
— Agora te reconheço — disse finalmente. — Dormiste
certa vez na minha cabana, faz muito tempo, talvez mais de
viníe anos. Transpuseste o rio comigo, e despedimos-nos um
do outro como bons amigos. Não eras um samana? Já não me
lembro do teu nome,
— Chamo-me Sidarta. Era samana, quando me viste a
última vez.
— Pois então, sé bem-vindo, ó Sidarta. Chamo-me Vasudeva.
Espero que sejas meu hóspede também hoje. Dormirás
na minha choupana e, em seguida, hás de contar-me de onde
vens e por que te desgostaste das tuas belas roupas.
Metade da travessia estava feita. Vasudeva remava com
redobrado vigor, a fim de vencer a força da corrente. Trabalhava
com toda a calma, mexendo os braços musculosos e mantendo
o olhar fixo na extremidade da embarcação. Sidarta, sentado
nas tábuas, observava-o. Vinha-lhe à memória que naquele
cutro dia, o último da sua fase de samana, também se seníim
tomado de viva simpatia por aquele homem. Com sincera gratidão,
aceitou o convite de Vasudeva. Quando atracaram, ajudou-
o a amarrar a balsa nas estacas. A seguir, o balseiro pedin-
Ihe que entrasse na cabana, onde lhe ofereceu pão e água.
Sidarta comeu com apetite e serviu-se com evidente prazer daS
mangas que Vasudeva lhe trazia.
Depois da refeição, ao pôr-do-sol, sentaram-se num tronco
cie árvore, à beira do rio. Sidarta contou ao balseiro onde se
criara e falou-lhe da sua vida, tal como se lhe deparara nesse
mesmo dia, na hora do pior desespero. A narração prolongou-se
até altas horas da noite.

Vasudeva escutou-o com muita atenção. Tudo quanto se
lhe dizia encontrava um eco na sua alma, a origem e a infância,
as aprendizagens, as buscas, as alegrias, as tristezas. Entre as
boas qualidades do balseiro, uma das maiores era saber escutar
como mais ninguém. Sem que o outro quebrasse o seu silêncio,
notava Sidarta que Vasudeva acolhia todas as suas palavras
no seu íntimo, sempre se conservando atento, imóvel, receptivo,
sem perder nenhuma frase, sem nunca Ímpacientar-se. O balseiro
limitava-se a ouvir o que lhe comunicava o seu interlocutor. Não
lhe tributava elogios nem censuras, E Sidarta sentia a benção
que representa o ensejo de confessar-se a um ouvinte daquele
quilate e de poder abrigar num coração acolhedor a própria vida,
com todas as ambições e todos os sofrimentos.
Mas, pelo fim da narrativa de Sidarta, quando este descrevia
a árvore na ribeira, a queda profunda e o efeito do sagrado
Om, quando contava como, ao acordar do sono, sentira aquele
caloroso apego ao rio, o balseiro ouviu-o com dupla atenção,
conservando os olhos fechados e abandonando-se inteiramente
às palavras de seu hóspede.
E, quando Sidarta se calou, houve um longo silêncio. Finalmente
disse Vasudeva:
— As coisas passaram-se exatamente como eu pensava.
O rio falou contigo. É teu amigo também. Dirige-se também
a ti. Que bom que seja assim, que bom! Fica comigo, Sidarta,
meu companheiro! Em outros tempos tive uma mulher. Seu leito
achava-se ao lado do meu. Mas, faz longos anos que ela faleceu.
Há muito que vivo sozinho. Daqui em diante, tu viverás aqui
comigo. Há espaço e comida para nós dois.
—• Eu te agradeço — respondeu Sidarta. — Eu te agradeço
e aceito o teu convite. E também te fico grato, ó Vasudeva,
por teres escutado tão bem o que te contei. São muito raros os
homens que saibam escutar, e ainda não encontrei nenhum que
dominasse essa arte com tamanha perfeição. Também nesse
ponto serei teu aprendiz.
— Hás de aprender isso — replicou Vasudeva — porem
não de mim. Quem me ensinou a escutar foi o rio e ele será
o teu mestre também. O rio sabe tudo e tudo podemos aprender
dele. Olha, há mais uma coisa que a água já te mostrou: que é
bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas. O rico e nobre
Sidarta converte-se num remador; o erudito brâmane Sidarta
86

torna-se balseiro. Também isso te sugeriu o rio. O resto, ele
to ensinará ainda.
— Que é o resto, Vasudeva?
O balseiro levantou-se:
— Já é muito tarde — respondeu. — Vamos dormir.
Não te posso dizer o que é o resto, meu amigo. Um dia, hás
de aprendê-lo, ou talvez já o saibas. Olha, eu não sou nenhum
erudito. Não sei falar. Nem sequer sei pensar. Apenas sei
escutar e ser piedoso. Outra coisa não aprendi. Se me fosse
dado explicá-lo e ensiná-lo, talvez me tivesse tornado um sábio,
mas assim não passo de um balseiro, ao qual cabe transportar
as pessoas através do rio. Muita gente fez a travessia comigo,
milhares de homens, provavelmente, para todos eles o rio repre
sentava apenas um estorvo, a atrasar a sua viagem. Andavam
atrás de dinheiro ou de negócios, encaminhavam-se a casamentos,
faziam peregrinações. O rio opunha-se, a eles e o balseiro tinha
a incumbência de ajudá-los a vencer c mais depressa possível o
obstáculo. Mas houve alguns entre esses milhares, uns poucos,
quatro ou cinco talvez, para os quais o rio cessou de ser um
estorvo. Escutaram a sua voz, prestaram atenção ao que ele dizia,
e o rio tornou-se-lhes sagrado, assim como chegou a ser para
mim. E agora vamos recolher-nos, ó Sidarta.
Sidarta permaneceu na casa do balseiro. Aprendeu a manejar
a balsa e, quando faltava serviço, trabalhava no arrozal, ao
lado de Vasudeva, ou juntava lenha, ou colhia as frutas das
bananeiras. Aprendia como fabricar um remo, como consertar
uma embarcação, como fazer um balaio e alegrava-se com
todos esses conhecimentos novos. Rapidamente se escoavam
dias e meses. Mas muito mais do que Vasudeva pudesse ensinarlhe
ensinava-lhe o rio. Sem cessar, Sidarta aprendia dele. Antes
de mais nada, aperfeiçoava-se na arte de escutar, de prestar
atenção, com o coração quieto, com a alma receptiva, aberta,
sem paixão, sem desejo, sem preconceito, sem opinião.
Convivia com Vasudeva em estreita amizade. Às vezes,
ambos trocavam palavras, poucas palavras ponderadas com bastante
antecedência. Vasudeva não gostava de falar muito e
somente em raras ocasiões deixa-se induzir a uma conversa.
87

— Díze-me se o rio também te comunicou o misterioso
fato de que o tempo não existe? — perguntou-]he Sidarta certa
feita.
O rosto de Vasudeva iluminou-se num vasto sorriso.
— Sim, Sidarta — respondeu. — Acho que te referes ao
fato de que o rio se encontra ao mesmo tempo em toda a parte,
na fonte tanto como na foz, nas cataratas e na balsa, nos estrei
tos, no mar e na serra, em toda a parte, ao mesmo tempo;
de que para ele há apenas o presente, mas nenhuma sombra de
passado nem de futuro. Não é isso que queres dizer?
— Isso mesmo — tornou Sidarta, — E quando me veio
essa percepção, contemplei a minha vida, e ela também era
um rio, O menino Sidarta não estava separado do homem Sidarta
e do ancião Sidarta, a não ser por sombras, porém, nunca por
realidades. Nem tampouco eram passado os nascimentos ante
riores de Sidarta, como não fazia parte do porvir a sua morte,
com o retorno ao Bramc, Nada foi, nada será; tudo é, tudo tem
existência e presente.
Sidarta falava com entusiasmo, sentindo profunda felicidade
em face dessa iluminação, Ah, sim! Todo o sofrimento
pertencia ao tempo, da mesma forma que todos os receios e
tormentos com que as pessoas se afligiam a si próprias. Todas
e quaisquer dificuldades, tudo quanto houvesse de hostil no
mundo, sumir-se-ia, cairia derrotado, logo que o homem triunfasse
sobre o tempo, logrando arredá-Io pelo pensamento. Sidarta
falava, como que enlevado. Vasudeva, radiante, sorria para ele
confirmando, às vezes, as palavras do companheiro com um sinal
de cabeça, porém, conservando-se em silêncio. Apenas acariciava
com a mão o ombro de Sidarta. Em seguida, voltou ao seu
trabalho.
Em outra oportunidade, durante a época das chuvas, quando
o rio estava chsio e rugia terrivelmente, disse Sidarta;
— O rio tem muitas vozes, um sem-número de vozes; não
é, meu amigo? Não te parece que ele tem a voz de um rei e a de
um guerreiro, a voz de um touro e a de uma ave noturna, a voz
de uma parturiente e a de homem que suspira, e inúmeras outras
ainda?
— Tens razão — respondeu o balseiro. — Na sua voz
concentram-se as vozes de todas as criaturas.
88

— E tu — continuou Sidarta — sabes identificar a palavra
que ele dirige a ti, sempre que consegues ouvir simultaneamente
todas as dezenas de milhares de suas vozes?
A fisionomia de Vasudeva irradiava satisfação. Inclinandose
para o amigo, sussurrou-lhe no ouvido o sagrado Om. Era
exatamente isso o que Sidarta ouvira também.
Dia a dia, o seu sorriso assemelhava-se mais ao do balseiro,
chegando, quase, a irradiar a mesma luminosidade, a resplandecer
de quase igual ventura, a luzir, tal e qual o do companheiro,
através de milhares de ruguinhas; era o sorriso de uma
criança e de um ancião também. Muitos viajores, ao avistarem
os dois balseiros tomavam-nos por irmãos. Freqüentemente,
Sidarta e Vasudeva permaneciam sentados no tronco da árvore,
junto à ribeira. Calados, escutavam o que lhes segredava a
água, a qual, para eles, não era apenas água, senão a voz da
vida, a voz do que é, a voz do eterno Devir. E, de quando
em quando, sucedia que um e outro, prestando atenção aos murmúrios
do rio, pensavam na mesma coisa, num colóquio mantido
dois dias antes, com um dos seus passageiros, cuja aparência ou
cujo destino, por algum mctivo os preocupasse, na morte ou na
infância, como também ocorria, sempre que o rio lhes confiava
uma boa nova, entre olhavam-se ambos, com pensamentos
idênticos, contentes de terem recebido a mesma resposta à mesma
pergunta.
Da embarcação dos dois balseiros, partia algum fluido que
certos viajantes notavam. Ocasiões havia em que um passageiro,
após ter examinado o semblante de um dos remadores,
começava a narrar os acontecimentos da sua vida, falando de
suas tristezas ou confessando más ações. Ocasiões havia em
que uma pessoa lhes pedia licença para ficar em sua companhia
durante uma tarde, a fim de estudar o que o rio murmurava.
Em outras ocasiões ainda, aparecia gente curiosa que ouvira
falar de dois sábios, ou bruxos, ou santos, que viviam numa
choupana, nas proximidades da balsa. Os indiscretos faziam
numerosas perguntas, sem receberem respostas, e não encontravam
nem bruxos nem sábios, senão apenas dois vethotes
bonachões, que pareciam mudos e um tanto esquisitos ou abobados.
E os indiscretos, rindo-se, comentavam entre si com
que leviandade e credulidade o povo espalhava boatos dessa
espécie.
89

Decorriam os anos, sem que ninguém os contasse. Cer o
dia, porém, chegaram alguns monges peregrinos, adeptos do
Buda e que desejavam atravessar o rio. Deles souberam os
balseiros que o grupo ia ter, a toda pressa, com seu grande
mestre, já que se espalhara a notícia de que o Augusto, acometido
de doença fatal, corria perigo de morrer em breve a sua
derradeira morte, para, em seguida, encontrar a redenção. Pouco
depois, vinha outro grupo de monges, e ainda outro. Tanto os
peregrinos como os demais viageiros e andarilhos só falavam
de Gotama e da sua morte iminente. E assim como as pessoas
acorrem de todos os lados, quais formigas, quando se trata de
uma guerra ou da coroação de um rei. assim se encaminhava
toda essa multidão, como que atraída màgicamente, ao lugar
onde o grande Buda aguardava a sua hora final, àquele lugar
onde se produziria o tremendo acontecimento da glorificação
do mais perfeito de todos os seres.
Nesses dias, SJdarta amiudadamente recordava o sábio moribundo,
o grande mestre cuja voz exortara os povos e despertara
centenas de milhares de homens, essa voz que ele mesmo ouvira
em outra hora. Evocava o sagrado rosto que então lhe fora
dado contemplar reverentemente. Devotava ao Venerável pensamentos
amistosos. Com um sorriso, trazia à memória as palavras
que ele, quando moço, dirigira ao Sublime. Parecia-lhe
que se tratara de palavras arrogantes, presunçosas, que nesse
momento apenas o faziam sorrir. Havia muito que percebera
que nada o separava de Gotama, cuja doutrina, contudo, não lhe
fora possível aceitar. Não, o verdadeiro buscador, aquele que
realmente se empenhasse em achar algo, jamais poderia submeter-
se a nenhuma doutrina. Mas, quem tivesse encontrado
alguma solução, seria capaz de aprovar toda e qualquer doutrina,
todos os caminhos e objetivos, já que nada mais o distanciaria
dos milhares de outros homens que viviam na Eternidade
e impregnavam-se do Divino.
Certo dia, em meio a muitos outros peregrinos que rumavam
em direção ao Buda agonizante, vinha também Kamala, que
em tempos passados fora a mais bela de todas as cortesãs.
Havia muito que renunciara àquele tipo de vída. Dera o seu
parque de presente aos monges de Gotama e procurara agasalho
na doutrina do Augusto. Fazia parte das amigas e benfeitoras
dos peregrinos. Ao receber a notícia da morte iminente do Buda,
90

vestira roupas simples c puscra-sc a caminho, acompanhada do
menino Sidarta, seu filho. Junto com cie, chegara .ao rio.
A criança, cansada pela marcha, queria voltar parr- casa. Pedia
comida. Insistia em que repousassem. Teimava c choramingava.
Kamala via-se forçada a parar freqüentemente. O garoto estava
acostumado a impor-lhe a sua vontade. Era preciso que ela lhe
preparasse refeições, que o consolasse ou falhasse com ele. O
pequeno não compreendia por que a mãe o obrigara a empreender
essa peregrinação laboriosa, melancólica, rumo a um Sugar
desconhecido, para terem com um homem estranho., que era
um santo e do qual se dizia que estava a ponto de morrer. Que
então morresse de uma vez! Isso não tinha nenhuma importância
para o menino.
Os romeiros já se encontravam nas proximidades da balsa
de Vasudeva, quando a criança mais uma vez conseguiu que a
mãe interrompesse a jornada para descansarem. A própria
Kamala também sentia-se fatigada. Enquanto o filhinho mastigava
uma banana, a mulher acocorou-se no chão e fechando
os olhos, repousou um pouquinho. Mas, de repente soltou uin
grito doloroso. O garoto, que a olhou, assustado, notou que seu
rosto estava pálido de terror. De sob o vestido de Kamala escapava
uma cobrinha preta, que acabava de mordê-la.
Imediatamente, ambos correram pela estrada, a fim de procurarem
quem lhes acudisse. Acercaram-se da balsa, em cujas
proximidades Kamala caiu ao solo, incapaz de prosseguir na
caminhada. O menino pôs-se a chorar miseramcnte. Entre gritos,
abraçava e beijava a mãe, que também pedia socorro a altos
brados. Finalmente, o clamor chegou aos ouvidos de Vasudeva,
que se achava perto do ancoradouro. Ele acorreu depressa.
Levantando a mulher, carregou-a até à balsa. O menino acompanhou-
os e, pouco depois, todos alcançaram a choupana, onde
Sidarta, junto ao braseiro, estava ocupado em acender o lume.
Ao erguer o rosto, deparou logo com o menino, que despertou
nele reminiscências esquisitas, como que fazenda voltar um
passado remoto. Em seguida, avistou Kamala. Reconheceu-a
logo, ainda que ela tivesse desmaiado nos braços do balseiro.
Nesse instante percebeu que o garoto cuja fisionomia evocara
nele apenas recordações intensas, era ^eu próprio filho e o
coração começou a agitar-se no seu peito.
91

Lavaram a ferida, mas esta já se tornara preta. O ventre
de Kamala esta inchado. Deram-lhe uma poção, que fez
com que recuperasse os sentidos. Achava-se deitada na cama
de Sidarta, na cabana, e ele permanecia a seu lado, inclinando-se
para a mulher que em outros tempos fora o seu grande amor.
Kamala tinha a impressão de que tudo aquilo era um sonho.
Sorrindo, fitava o rosto do amigo e apenas lentamente dava-se
conta da sua situação. Ao lembrar-se da mordida da cobra,
chamou ansiosamente o menino.
—• Ele está contigo. Não te preocupes — acalmou-a
Sidarta.
Kamala contemplou-o. Começou a falar, cora a língua
pesada pelo veneno:
— Envelheceste, meu caro — disse. — Ficaste grisalho.
Mas te pareces com o jovem samans, que certa vez entrou no
meu jardim, sem roupas, com cs pés cobertos de poeira
Hoje és muito mais semelhante a ê\s do que eras naquele dia
em que abandonaste a mim e a Kamasvami. A semelhança está
nos olhos, ó Sidaría. Ai de mim! Eu também envelheci. Fiquei
velha. Dize-me se conseguiste reconhecer-me!
Sidarta sorriu:
— Reconheci-te logo, minha querida Kamala.
Ela aponte u para o menino.
—• Reconhecestc a ele também? É teu filho.
Sua vista turvou-se. Ela fechou os olhos. O menino
chorava. Sidarta sentou-o no colo. Deixou que ele continuasse
com as suas lamentações. Acariciou-lhe os cabelos e, enquanto
mirava o rostinho infantil, veio-lhe à memória uma prece
brâmane que ele mesmo aprendera outrora, em tempos de
criança. Cantarolando devagarzínho, pôs-se a recitá-la. As
palavras emergiam como que vindas do-passado e da infância.
Pelo efeito da cantiga monótona, o garoto sossegou. Apenas
dava, de vez em quando, um soluço. Finalmente adormeceu.
SÍda.rta deitou-o na cama de Vasudeva. O balseiro estava perto
do braseiro, a cozinhar o arroz. Sídarta lançou-lhe um olhar,
que o outro devolveu com um suave sorriso.
— Ela vai morrer — disse Sidarta baixinho.
Vasudeva fez que sim. O clarão do fogo iluminava-lhe
a fisionomia bondosa.
92

Mais uma vez Kamala voltou ao estado de consciência.
Seu rosto crispava-se de tanta dor. Os olhos de Sidarta liam
o sofrimento nas comissuras da boca c nas faces lívidas. Liam-no
silenciosamente, participando dos tormcntos. Kamala percebia-o,
e seus olhos procuravam os do homem.
Fitando-o, disse então:
—. Agora noto que também os teus olhos mudaram. Ficaram
totalmente diferentes. E, contudo, reconheço que ainda
és Sidarta. Por quê? Tu és e não és Sidarta.
£Ie conservou-se calado. Calmamente, seus olhos miravam
os de Kamala.
— Alcançaste a tua meta? — perguntou ela. — Encontraste
a paz?
Ele lhe sorriu, pousando a mão na mão da amiga.
— Encontraste, sim. Vejo-o — disse ela. — Eu também
a acharei.
— Já a achaste — murmurou Sidarta.
Kamala cravou os olhos no seu rosto. Lembrou-se de que
tencionara ir em romaria até onde estivesse Gotama, a fim de
ver o rosto de um ser perfeito, de imbuir-se na sua paz. Em vez
do Buda, descobrira Sidarta, e nesse momento verificou que
estava bem feito, e se tivesse chegado a ver aquele outro, não seria
melhor. Queria dize-lo ao amigo, mas a língua já não obedecia
à sua vontade. Olhou-o em silêncio e Sidarta observou que a
vida nos olhos da amiga se apagava aos poucos. Quando o
derradeiro espasmo os rcanimara por um instante, para, em
seguida, extingui-los definitivamente, quando as últimas convulsões
haviam cessado de sacudir-lhe os membros, o dedo de
Sidarta fechou as pálpebras de Kamala.
Por muito tempo quedou-se sentado junto ao leito, contemplando
o rosto da defunta. Por muito tempo mirou-lhe a boca,
essa boca envelhecida, fatigada, com os lábios encolhidos. Lembrou-
se de que, na primavera da sua vida, comparara-a a um
figo recém-cortado. Por muito tempo permaneceu ali, a decifrar
o que lhe revelava o semblante lívido, com as rugas traçadas pelo
esgotamento. Imbuía-se daquela visão. Imaginava-se a si próprio,
a jazer assim, igualmente exangu^, igualmente extinto, e
ao mesmo tempo lhe voltavam à memória os dois rostos, o seu
e o dela, ambos jovens, de lábios rubros, de olhos ardorosos.
Inteiramente o penetrava a sensação do presente e da simulta

neidade, a sensação da eternidade. Nessa hora, Sidarta percebeu
claramente, com maior nitidez do que nunca, que toda a vida
é indestrutível e cada instante, eterno.
Quando se levantou, encontrou o arroz que Vasudeva preparara
para ê[e. Mas Sidarta não comeu nada. No estábulo,
onde guardavam a cabr:., os dois anciãos estenderam galha c
Vasudeva recolheu-se. Sidarta, porém, saiu. Passou a noite em
fre.ite da choupana, a escutar os murmúrios do rio, envolto pelo
passado, e iodas as frases da sua vida rodeavam-no, desfilavam
conjuntamente diante dele. Apenas se erguia, de vez em quando,
a fim de aproximar-se da porta da cabana, para ver se o menino
continuava dormindo.
De madrugada, ainda antes do nascer do sol, Vasudeva saiu
do estábulo. Acercou-se do companheiro.
— Não pregasíe olho — disse.
•— Não, Vasudeva. Fiquei aqui, a escutar a voz do
rio. Ele me contou muita coisa. Incutiu-me uma idéia saudável,
a idéia’ da unidade.
—- Ocorreu-te uma desgraça, mas vejo, ó Sidarta, que
nenhuma tristeza entrou no teu coração.
— Não, meu caro, por que deveria eu estar triste? Eu que
já andava rico e feliz, agora me tornei mais rico, mais feliz
ainda. Meu filho me foi dado de presente.
—. Teu filho seja bem-vindo, da minha parte também. Mas,
Sidaría, temos que trabalhar. Vamos! Há muito que fazer.
Kamala morreu no mesmo leito, onde outrora morreu minha
mulher, e na mesma colina onde incinerei o seu corpo, construiremos
a fogueira para Kamala.
Enquanto o garoto prosseguia dormindo, ambos empilharam
as achas da fogueira.

O FILHO
TÍMIDO, com lágrimas nos olhos, o menino assistia aos
funerais da mãe. Sombrio, arísco, ouvia as palavras de Sidaría,
quando este o tratava de filho e lhe dava as boas-vindas na
choupana de Vasudeva. Com o rosto pálido, o pequeno passava
dias inteiros junto à sepultura da defunta. Recusava-se a comer.
Franzia o cenho. Mantinha o coração inacessível. Obstinava-se,
revoltado contra o Destino.
Sidarta não insistia com ele. Respeitava-lhe o luto e deixava-
o fazer o que queria. Compreendia muito bem que o garoto
não o conhecia e por isso não podia amá-lo como a um pai.
Pouco a pouco, porém dava-se conta de que aquele rapazinho
de onze anos era uma criança mimada, apegada à mãe, criada-na
opulência, acostumada a comer pratos finos, a dormir numa
cama fofa e mandar nos serviçais. Via que uma pessoa entristecida,
habituada ao luxo, simplesmente não podia conformar-se
de um dia para o outro com a pobreza e com um ambiente
estranho. Não lhe impunha os seus desejos. Freqüentemente
fazia o trabalho que cabia ao filho e sempre lhe oferecia os
melhores bocados. Esperava conquistá-lo lentamente, pela
paciência e pela gentileza.
95

Qualificara-se a si mesmo de rico e feliz, quando o menino
começara a morar em seu lar. Mas o tempo passava e o menino
continuava sombrio e renitente, mostrando-se sempre teimoso e
altivo, Não queria absolutamente trabalhar. Não demonstrava
o menor respeito aos dois anciãos. Pilhava o pomar de Vasudeva.
Eis que Sídarta começou a compreender que o filho não
lhe trouxera ventura e paz, senão mágoas e preocupações. E,
todavia, o amava. Preferia mágoas e carinhosas preocupações à
felicidade e às alegrias que gozara antes da chegada do garoto.
Desde que o jovem Sidarta convivia com eles na cabana,
os velhos haviam distribuído entre si as fainas cotidianas.
Vasudeva tornara a tomar conta da balsa, sozinho, ao passo que
Sidarta se dedicava ao trabalho nos campos e às lides domésticas,
a fim de ficar perto do filho.
Durante muito tempo, meses a fio, Sidarta prosseguiu esperando
que o menino o compreendesse, que aceitasse o seu
amor, que talvez o retribuísse. Meses a fio, Vasudeva nutria
a mesma esperança. Aguardava em silêncio, observando o pai e o
filho. Certa feita, quando o menino Sídarta mais uma vez magoara
o pai com sua obstinação e seus caprichos, chegando a
quebrar propositadamente duas tigelas de arroz, Vasudeva aproveitou
a noite para falar com o amigo em separado.
— Não me leves a mal — disse — que eu trate dessas
coisas. Faço-o como teu amigo. Vejo como te atormentas.
Noto que andas tristonho. Meu caro, teu filho te preocupa, e a
mim, me preocupa também. Aquele passarinho está acostumado
a viver outra vida, num ninho diferente. Não abandonou a
riqueza e a cidade por tédio e nojo, como tu o fizeste. Teve
de largar tudo isso a contragosto. Olha, meu amigo, já consultei o
rio. Consultei-o muitas vezes. Mas o rio limita-se a rir, rir de
mim, de mim e de ti também, dá gargalhadas em face da nossa
tolice. A água corre para a água. A juventude procura a juven
tude. Teu filho não se encontra no lugar que lhe convém. Seria
bom se tu também consultasses o rio. Faze o que ele te sugerir.
Emocionado, Sidarta examinou o rosto do amigo, esse rosto
em cujas inúmeras rugas se escondia inalterável serenidade.
— Mas, serei capaz de separar-me dele? — respondeu em
voz baixa. — Concede-me mais um pouco de tempo, meu caro!
Estás vendo como luto, como me esforço por conquistar
96

o coração do menino, pelo carinho, pela paciência, pela doçura,
É assim que quero aliciá-lo. Tomara que o rio um dia dirija a
sua palavra também a ele. Esse menino tem a mesma vocação
que nós.
O sorriso de Vasudeva tornou-se ainda mais caloroso.
— Ah, sim! Também ele tem vocação. Também ele é parte
da vida eterna. Mas que sabemos nós, tu e eu, do destino que o
aguarda, do caminho que lhe caberá trilhar, das ações que ele
deverá realizar e dos sofrimentos que o acometerão? Os des
gostos que lhe estão reservados não serão pequenos, uma vez
que o coração desse rapaz é duro e altivo. Pessoas da sua espécie
têm de padecer muitas amarguras, já que erram freqüentemente,
cometem graves pecados e carregam muita culpa na sua cons
ciência. Dize-me uma coisa, meu amigo: não dás nenhuma edu
cação a teu filho? Não lhe impões a tua vontade? Não o
surras nunca? Não o castigas?
—. Não, Vasudeva, não faço nada disso.
— Pois é! Não o obrigas a nada; não bates nele; não lhe
dás nenhuma ordem, porque sabes que a meiguice é mais forte
do que a dureza e a água mais forte do que o rochedo. Muito
bem! Aprovo a tua conduta. Mas não te enganas a ti mesmo,
quando pensas que não exerces coação alguma sobre ele e não
lhe infliges nenhum castigo? Não o agrilhoas pelo teu carinho?
Não o humilhas todos os dias e ainda Ihs amarguras a vida,
graças à tua bondade e paciência? Não obrigas esse menino
soberbo, mimado, a viver numa cabana junto com dois velhos
comedores de bananas, para os quais o arroz já representa um
quitute e cujo coração gasto, sereno, pulsa em outro ritmo que o
dele? Não resulta tudo isso em constrangimento e punição?
Consternado, Sidarta baixou os olhos.
Em seguida murmurou:
— Que achas que devo fazer?
E Vasudeva tornou:
— Leva-o à cidade. Deixa-o na casa que pertencia à mãe.
Ali haverá ainda alguns criados aos quais poderás entregá-lo.
E^ se não houver mais ninguém, procura um professor para ele,
não por causa do ensino, mas para que a criança possa conviver
com outros garotos, e com as meninas, num ambiente que lhe
convier. Nunca pensaste nesta solução?
97

— Espiaste o fundo do meu coração — respondeu Sidarta
melancòlicamente. — Muitas vezes pensei nisso. Mas olha!
Como posso abandonar ao mundo esse menino, em cuja alma
não há nenhuma ternura? Não se tornará ele um presunçoso?
Não se perderá em prazeres e ambições de poder? Não repetirá
todos os erros do pai? Não se extraviará irremediavelmente no
Sansara?
O rosto do balseiro iluminou-se num sorriso radiante. Acariciou
delicadamente o braço de Sidarta e disse:
— Consulta o rio a esse respeito, meu amigo! Não estás
ouvindo como ele se ri? Achas realmente que cometesíe as tuas
tolices, a fim de poupá-las a teu filho? Julgas-te capaz de pro
teger o pequeno contra o Sansara? De que modo? Por meio de
ensinamentos, de preces, de admoestações? Ora, meu querido,
esqueceste por completo uma história que me contaste aqui
mesmo, em outra ocasião; a edificante história de um filho de
brâmane que se chamava Sidarta? Quem resguardou esse Sidarta
do Sansara, do pecado, da avareza, da insensatez? A piedade do
pai, as exortações dos mestres, a própria erudição, as pesquisas
que ele fazia — nada disso conseguiu servír-lhe de esteio. Que
pai, que mestre poderia evitar que Sidarta vivesse a sua vida
sujando-se com ela, caindo em culpa e bebendo sozinho a poção
amarga, antes de descobrir o seu caminho pelas suas próprias
forças? Pensas, meu caro, que alguém possa escapar à busca
desse caminho? Talvez teu filhinho, porque o amas e desejas
isentá-lo de mágoas, dores e desilusões? Mas, mesmo que morras
por ele dez vezes, não lograrás alterar nenhuma parcela do des
tino que o aguarda!
Nunca na vida, Vasudeva falara tanto. Sidarta agradeceulhe
calorosamente, Acahrunhado, entrou na cabana. Por muito
tempo, não conciliou o sono. Vasudeva não lhe dissera nada que
ele mesmo não soubesse, que não lhe tivesse preocupado o espírito
uma e outra vez. Mas o que esse saber lhe aconselhava era
inexeqüível. Mais forte do que o saber era o amor ao menino,
era a ternura paterna, o medo de largar o filho. Jamais lhe
ocorrera perder-se a tal ponto por alguma coisa, dedicar tamanho
amor a criatura alguma, entregar-se tão cegamente, tão dolorosa,
tão inutilmente e, apesar disso, com tanta alegria!
Sidarta era incapaz de seguir o conselho do amigo. Não
podia separar-se do filho. Permitia que este lhe desse ordens.
98

Suportava-lhe o desdém. Permanecia calado, a esperar. Diariamente
reiniciava a silenciosa luta da gentileza, a guerra surda
da paciência. Também Vasudeva conservava-se mudo, limitando-
se a observá-los com bondade, prudência e tolerância. Em
matéria de paciência, os dois anciãos eram mestres.
Certa feita, quando a fisionomia do rapaz lhe recordava
mais do que nunca a de Kamala, Sidarta lembrou-se subitamente
de uma frase que ela lhe dissera, havia muito tempo,
nos dias da sua mocidade: “Tu não sabes amar” — afirmara ela,
e Sidarta lhe dera razão. Então se comparara a si com um astro
e qualificara os homens tolos de folhas mortas. E, todavia,
sentira que aquela frase continha uni quê de censura. Realmente,
nunca lhe fora possível abandonar-se, entregar-se por inteiro a
outra criatura, a ponto de esquecer-se de si mesmo e de cometer
bobagens por amor de outrem. Nunca, nunca pudera agir dessa
forma e como lhe parecia naquele instante, era essa a grande
diferença que o apartava dos homens tolos. Mas, desde que
surgira o filho, também ele, Sidarta, transformara-se num homem
tolo, que sofria por causa de outra pessoa, que se agarrava a
um ente querido, que andava perdido de amor, que, devido a essa
afeição, se convertera num imbecil. A essa altura, acometia-o,
embora tardiamente, pela primeira vez na vida, aquela paixão,
a mais forte, a mais estranha de todas, fazendo-o sofrer, sofrer
miseramente e, mesmo assim, deixando-o sumamente feliz, dandolhe
a impressão de estar renovado e enriquecido.
Certamente, percebia Sidarta, esse amor, esse abandono
cego ao filho, não passava de uma paixão, que havia nela algo
muito humano, que era Sansara, fonte turva, água sombria. Mas,
ao mesmo tempo sabia muito bem que aquilo tinha valor, era
necessário, emanava do seu próprio ser. Cabia-lhe expiar também
essa delícia, saborear também esses tormentos, cometer também
essas tolices.
O filho, por sua vez, permitia que o pai se comportasse
estüpidamente. Tolerava que o velho se empenhasse em conquistá-
lo. Humilhava-o diariamente pelos seus caprichos. Aquele
pai não tinha nada que o encantasse e ainda menos que lhe
inspirasse temor. Era um homem bondoso, o tal pai, um bonachào
meigo e brando. Podia ser que fosse um homem muito
piedoso, talvez um santo. Mas nenhuma dessas qualidades era
suscetível de atrair um menino. Enfadonho, sim, parecia-lhe
99

aquele pai, que o mantinha preso àquela mísera cabana. Sidarta
entediava-o, e o fato de ele retribuir a traquinice pelo sorriso,
o insulto pela gentileza, a maldade pelo carinho era precisamente
o que se afigurava ao menino corno o cúmulo da odiosa aslúcia
peculiar de um ancião hipócrita. O filho teria preferido míl
vezes ser ameaçado ou maltratado pelo pai.
O dia chegou em que se evidenciou a antipatia. Em furiosa
explosão, o jovem Sidarta revoltou-se abertamente contra o
velho. Este acabava de dar-lhe uma ordem. Mandara-o ajuntar
gravetos. Mas o garoto não saiu da cabana. Recalcitrante e
irado, conservava-se onde estava, batendo o pé, cerrando os
punhos e terminando por lançar na cara do pai um verdadeiro
jato de abominação e desprezo.
— Vai buscar teus gravetos sozinho! — gritou escumando
de raiva. — Não sou teu escravo. Sei muito bem que tu, com
a tua piedade e indulgência, apenas tencionas castigar-me e
amesquinhar-me. Queres que me torne igual a ti, tão devoto,
tão meigo e também tão sábio. Mas escuta: só para magoar-te,
quero antes ser assassino e salteador de esírada! Melhor ir ao
Inferno do que ser como tu! Detesto-te. Tu não és meu pai,
mesmo que tenhas dormido dez vezes com minha mãe!
Transbordando de cólera e desgosto, investiu contra o pai
com centenas de palavras confusas e maldosas. Em seguida,
afastou-se, correndo e somente voltou de tardezinha.
Na manhã seguinte, porém, desapareceu. Junto com ele
sumiu uma cestinha trançada ás víme colorido, na qual os balseiros
costumavam guardar as moedas de prata ou cobre, que
haviam recebido dos passageiros. Logo depois, os velhos verificaram
a falta da embarcação. Sidarta viu que ela se encontrava
nas proximidades da outra ribeira. O menino fugira.
— Preciso ir atrás dele — disse Sidarta, que desde a cena
do dia anterior tremia de emoção e tristeza. — Não é possível
que uma criança assim ande sozinha pela selva. O menino há
de perecer ali. Construamos uma jangada, ó Vasudeva, para
atravessarmos o rio.
— Pois não, vamos construir uma jangada — respondeu
Vasudeva. — Assim recuperaremos a balsa que o garoto surripiou.
Mas, quanto a ele mesmo, meu amigo, melhor seria que o
deixasses escapulir. £le já não é criança. Sabe defender-se.
Procura o caminho que o conduza à cidade e faz muito bem; não
100

te esqueças disso! Apenas faz o que te omitíste fazer. Cuida de ti
mesmo. Segue a tua própria rota. Ah, Sidarta, vejo como
sofres. E, todavia padeces dores que merecem ser metidas a
ridículo. Tu mesmo te rirás delas daqui a pouco.
Sidarta permaneceu calado. Já tinha nas mãos o machado
e se punha a armar uma jangada de bambu. Vasudeva ajudou-o a
atar os troncos com cordas de junco. Em seguida, passaram-se
ao outro lado. A corrente levou-os para longe. Quando alcançaram
a ribeira, tiveram de sirgar a jangada rio acima.
— Por que trouxeste o machado? — perguntou Sidarta.
Respondeu Vasudeva:
—- Pode ser que o remo de nossa balsa se tenha extraviado,
Mas Sidarta não ignorava o que pensava o amigo. Vasudeva
queria dar a entender que o menino talvez tivesse quebrado ou
jogado fora o remo, a fim de vingar-se ou de impedir que o
seguisse. E, realmente, na balsa não se encontrava remo
algum. Vasudeva apontou para ela, olhando o companheiro com
um leve sorriso, como se quisesse dizer: “Não estás compreendendo
que teu filho te pede que não o sigas?” No entanto, não
enunciou tal pensamento por palavras expressas. Em vez disso,
começou a fabricar outro remo. Sidarta porém, despediu-se
dele, a fim de ir à procura do filho. Vasudeva não se opôs
tampouco a essa tentativa.
Depois de ter errado por muito tempo pela selva, Sidarta
percebeu que suas buscas eram improfícuas. Ou — assim raciocinava
— o menino já chegou à cidade, ou, se ainda estivesse a
caminho, esconder-se-ia do seu perseguidor. Ao refletir mais
maduramente, deu-se conta de que, no fundo, não se preocupava
pelo filho, uma vez que no âmago do seu coração tinha certeza
de que este nem pereceria nem tampouco corria perigo na
floresta. Mesmo assim, caminhava sem cessar e já não o fazia
na intenção de salvar o garoto, senão exclusivamente para, quiçá,
revê-lo pela última vez. Assim avançou passo por passo até às
portas da cidade.
Quando se achava na larga avenida de entrada, estacou,
junto à grade do belo parque que antes pertencera a Kamala.
Era o mesmo lugar onde, outrora, a vira pela primeira vez, naquela
suntuosa liteira. No seu espírito ressuscitava o passado.
Voltou-lhe a visão de si mesmo, do jovem samana hirsuto, desnudo,
com a cabeleira coberta de poeira. Por muito tempo,
101

quedou-se contemplando o jardim, através do portão aberto e
observando os monges, de batinas amarelas, a passearem à sombra
das be]as árvores.
Horas a fio, ficava assim, a meditar, a evocar imagens, a
escutar a história da sua vida. Horas a fio, conservava-se imóvel
espiando os religiosos. Em lugar deles, a imaginação fazia surgir
à sua mente o jovem Sidarta e a jovem Kamala, a perambularem
sob as árvores altas. Nitidamente lhe vinha à memória aquela
hora em que Kamala o acolhera na sua casa, em que ele recebera
o primeiro beijo. Recordava-se claramente da altivez e do desdém
com que então considerara a sua posição de brâmane e da
ambição soberba com que iniciara a sua existência mundana.
Visionava a Kamasvami e à criadagem; rememorava os festins,
os jogos de dados, os músicos; revia o passarinho de Kamala na
gaiola; tornava a viver todas aquelas experiências, impregnandose
de Sansara, voltando a ser velho e cansado, provando mais uma
vez a amargura do asco, sentindo de novo o desejo de extinguirse
a si mesmo e, finalmente’ reencontrando a cura graças ao
sagrado Om.
Depois de ter-se demorado longamente nas proximidades
do portão do parque, percebia a tolice da ânsia que o arrastara
até aquele lugar. Compreendia que não podia ser útil ao filho
e não devia apegar-se a ele. No fundo do coração doía-lhe o
amor ao fugitivo, feito ferida. Mas, ao mesmo tempo notava
que essa ferida lhe fora aplicada, não para que ele a alargasse,
senão para que a transformasse numa flor a abrir-se magnifícamente.
Entristecia-o a circunstância de que a essa hora a carola
ainda não tivesse desabrochado em todo. o seu esplendor, No
lugar da almejada meta que o atraíra até àquele sítio, em busca
do filho, encontrava-se apenas o vazio. Melancòlicamente, acocorou-
se no chão. Sentia que, no seu coração, algo estava morrendo.
Divisava o vácuo. Já não enxergava nem alegria nem
objetivo. Mantinha-se absorto na meditação, entregue à espera.
Era isso, essa única coisa que aprendera do rio: a faculdade
de aguardar, de ter paciência, de escutar. E assim prosseguia
escutando, agachado, na poeira da estrada. Espreitava o ritmo
do seu coração, como pulsava, tristonho, fatigado. Ansiava
por uma voz. Durante longas horas, conservara-se assirrt, à
espera de algo que lhe fosse dado ouvir. Já não tinha visões-
102

Mergulhava no vazio. Abandonava-se à queda, sem vislumbrar
nenhum caminho. E, sempre que sentia a ardência da ferida,
proferia silenciosamente o Om, irnbuía-se do Om. Os monges
no jardim observavam-no, e quando ficara assim por muito
tempo, quando o pó se acumulara na cabeleira grisalha, vinha
um deles e depositava a seus pés duas bananas, Mas o ancião
nem sequer o olhou.
Desse torpor despertou-o uma mão, a tocar-lhe o ombro.
Reconhecendo imediatamente aquele contato delicado, tímido,
voltou a si e levantou-se para saudar a Vasudeva que lhe seguira
os passos. E ao contemplar o rosto do amigo, as ruguinhas como
que repletas de puro sorriso, os olhos joviais, também se pôs
a sorrir. Nesse instante reparou nas bananas que jaziam à sua
frente. Apanhou-as e deu uma ao balseiro, enquanto comia a
outra. Em seguida, sem falar, voltou à floresta, em companhia
de Vasudeva. Encaminharam-se à balsa. Nenhum dos dois
mencionava o que se passara naquele dia. Não pronunciavam o
nome do menino, Não aludiam à sua fuga. Não mexiam na
ferida. Na cabana, Sidarta recolheu-se ao leito, e quando Vasudeva,
alguns instantes depois, aproximou-se dele, a fim de oferecer
lhe uma tigela de leite de coco, já o encontrou dormindo.

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