Capítulo 3 – ENTRANDO PROFUNDAMENTE NO AGORA – O poder do agora – Eckhart Tolle


Não busque o seu eu interior dentro da mente
Sinto que ainda tenho muito a aprender sobre as atividades da minha mente, antes de poder chegar a
algum lugar próximo da consciência ou iluminação espiritual.
Não, não tem. Os problemas da mente não podem ser solucionados no nível da mente. No momento em
que compreendemos que não somos a nossa mente, não existe muito mais a aprender ou compreender. O
máximo que podemos conseguir ao estudar a mente é nos tornarmos bons psicólogos, mas isso não nos levará
para além da mente, do mesmo modo que estudar a loucura não basta para criar a sanidade. Já entendemos a
mecânica básica do estado de inconsciência, ou seja, quando nos identificamos com a mente geramos um falso
eu interior, o ego, que é um substituto do nosso verdadeiro eu interior enraizado no Ser. Passamos a ser “um
ramo cortado da videira”, como Jesus pregou.
As necessidades do ego são intermináveis. Ele se sente vulnerável e ameaçado e, em conseqüência, vive
em um estado de medo e carência. Quando entendemos esse funcionamento anormal da mente, não precisamos
examinar todas as suas numerosas manifestações, nem transformá-lo em um problema pessoal complexo. O ego,
é claro, adora fazer isso. Está sempre buscando algo em que se apegar para sustentar e fortalecer a ilusão que
tem de si mesmo e para juntar aos seus problemas. Essa é a razão pela qual, para muitos de nós, o sentido do eu
interior está intimamente ligado aos nossos problemas. Quando isso acontece, a última coisa que desejamos é
nos livrar deles, porque isso significaria a perda do eu interior. Por isso, pode existir uma grande parte de
investimento inconsciente do ego em mágoa e sofrimento.
Portanto, se reconhecermos que a raiz da inconsciência vem de uma identificação com a mente, o que
naturalmente inclui as emoções, estaremos dando um passo para nos livrar da mente. Ficamos presentes.
Quando estamos presentes, podemos permitir que a mente seja como é, sem nos deixar enredar por ela. A mente
em si é uma ferramenta maravilhosa. O mau funcionamento acontece quando buscamos o nosso eu interior
dentro dela e a confundimos com quem somos. É nesse momento que a mente torna-se egóica e domina toda a
nossa vida.
O fim da ilusão do tempo
É praticamente impossível deixarmos de nos identificar com a mente. Estamos mergulhados nela. Como
se ensina um peixe a voar?
O segredo está em acabar com a ilusão do tempo. O tempo e a mente são inseparáveis. Tire o tempo da
mente e ele pára, a menos que você escolha utilizá-lo.
Estar identificado com a mente é estar preso ao tempo. É a compulsão para vivermos quase
exclusivamente através da memória ou da antecipação. Isso cria uma preocupação infinita com o passado e o
futuro, e uma relutância em respeitar o momento presente e permitir que ele aconteça. Temos essa compulsão
porque o passado nos dá uma identidade e o futuro contém uma promessa de salvação e de realização. Ambos
são ilusões.
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Mas, sem o tempo, qual seria a razão de nossa existência? Não teríamos objetivos a alcançar, nem
mesmo saberíamos quem somos. O tempo é algo precioso e acho que precisamos aprender a utilizá-lo com
sabedoria, em vez de desperdiçá-lo.
O tempo não te~: nada de precioso, porque é uma ilusão. Aquilo que achamos ser precioso não é o tempo,
mas um ponto que está fora dele: o Agora. Isso é realmente precioso. Quanto mais nos concentramos no tempo,
no passado e no futuro, mais perdemos o Agora, a coisa mais importante que existe.
Por que o Agora é a coisa mais importante que existe? Primeiramente, porque é a única coisa. É tudo o
que existe. O eterno presente é o espaço dentro do qual se desenvolve toda a nossa vida, o único fator que
permanece constante. A vida é agora. Nunca houve uma época em que a nossa vida não fosse agora, nem
haverá. Em segundo lugar, o Agora é o único ponto que pode nos conduzir para além das fronteiras limitadas da
mente. É o nosso único ponto de acesso para a área atemporal e amorfa do Ser.
Nada existe fora do Agora
O passado e o futuro não são tão reais quanto o presente? Afinal, o passado determina quem somos e de
que forma agimos no presente. E os nossos objetivos futuros determinam as atitudes que tomamos no presente.
Você ainda não captou a essência do que estou dizendo porque está tentando entender mentalmente. A
mente não pode entender esse assunto. Só você pode. Por favor, preste atenção ao seguinte:
Você alguma vez vivenciou, realizou, pensou ou sentiu alguma coisa fora do Agora? Acha que
conseguirá algum dia? É possível alguma coisa acontecer ou ser fora do Agora? A resposta é óbvia, não é
mesmo?
Nada jamais aconteceu no passado, aconteceu no Agora.
Nada jamais irá acontecer no futuro, acontecerá no Agora.
O que consideramos como passado é um traço da memória, armazenado na mente, de um Agora anterior.
Quando lembramos do passado, reativamos um traço da memória e fazemos isso agora.O futuro é um Agora
imaginado, uma projeção da mente. Quando o futuro acontece, acontece como sendo o Agora. Quando
pensamos sobre o futuro, fazemos isso no Agora. Obviamente o passado e o futuro não têm realidade própria.
Do mesmo modo como a lua não tem luz própria e apenas reflete a luz do sol, o passado e o futuro são apenas
um reflexo pálido da luz, do poder e da realidade do eterno presente. A realidade deles é “emprestada” do
Agora.
A essência dessas afirmações não pode ser compreendida pela mente. No momento em que captamos a
essência, ocorre uma mudança na consciência, que passa a desviar o foco da mente para o Ser, do tempo para a
presença. De repente, tudo parece vivo, irradia energia, emana do Ser.
A chave para a dimensão espiritual
Em situações em que a nossa vida está ameaçada pode ocorrer naturalmente essa mudança na consciência
do tempo para o momento presente. A personalidade que tem um passado e um futuro retrocede e é substituída
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por uma presença consciente intensa, serena, mas, ao mesmo tempo, alerta. Sempre que uma reação se faz
necessária, ela surge desse estado de consciência.
Muitas pessoas, embora não percebam, gostam de se envolver em atividades perigosas, como escaladas
de montanhas, corridas de automóvel, vôos de asa-delta, pela simples razão de que essas atividades as trazem
para o Agora, livre do tempo, dos problemas, dos pensamentos e das obrigações pessoais. Nesses casos, desviar
sua atenção do momento presente, nem que seja por um segundo, pode significar a morte. Infelizmente, essas
pessoas passam a depender de uma atividade em particular para ficarem nesse estado. Mas você não precisa
escalar a face norte do Eiger1. Você pode entrar nesse estado agora.
Desde a antiguidade, mestres espirituais de todas as tradições apontam o Agora como a chave para a
dimensão espiritual. Mas parece que isso permaneceu como um segredo. Com certeza, não é ensinado em
igrejas ou em templos. Se você vai a uma igreja, pode ouvir passagens do Evangelho como “Não vos inquieteis
pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo”,ou “Ninguém que lança mão do arado e olha
para trás é apto para o reino de Deus”. A profundidade e a natureza radical desses ensinamentos não são
reconhecidas. Parece que ninguém percebe que os ensinamentos foram formulados para serem vividos e, dessa
forma, provocarem uma profunda transformação interior.
Toda a essência do zen consiste em caminhar sobre o fio da navalha do Agora, em estar tão
absolutamente presente que nenhum problema, nenhum sofrimento, nada que não seja quem somos em essência,
possa permanecer em nós. No Agora, na ausência do tempo, todos os nossos problemas se dissolvem. O
sofrimento precisa do tempo e não consegue sobreviver no Agora.
O grande mestre zen Rinzai, visando desviar a atenção de seus alunos do tempo, levantava o dedo com
freqüência e perguntava calmamente: “O que está faltando neste exato momento?” Uma pergunta poderosa, que
não requer resposta no plano da mente. É formulada para conduzir uma atenção profunda para o Agora. Outra
questão muito usada na tradição zen é: “Se não é agora, então quando?”
O Agora é também um ponto central no ensinamento do sufismo, o braço místico do islamismo. Os
sufistas têm um ditado que diz: “O sufista é filho do momento presente”. E Rumi, o grande poeta e mestre do
sufismo, ensina: “Passado e futuro ocultam Deus de nossa vista, ponha fogo em ambos”.
Mestre Eckhart, mestre espiritual do século treze, resumiu tudo isto com poucas e belas palavras, ao
afirmar: “O que impede a luz de nos alcançar é o tempo. Não há maior obstáculo para Deus do que o tempo”.
1 Pico dos Alpes Berneses, na Suiça, com 3.970 metros de altitude (Nota do Tradutor).
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Acessando o poder do Agora
Momentos atrás, quando você falou sobre o eterno presente e a irrealidade do passado e do futuro,
peguei-me olhando através da janela para uma determinada árvore. Já a tinha olhado muitas vezes antes, mas
agora foi diferente. Não percebi muita diferença na forma externa, exceto que as cores pareciam mais vivas.
Mas havia uma dimensão adicional que antes eu não tinha notado. É difícil de explicar. Não sei bem, mas
achei ter percebido alguma coisa invisível, como se fosse a essência daquela árvore, ou melhor, um espírito
interior. E, de alguma forma, era como se eu fosse parte dela. Percebo, agora, que nunca tinha visto de fato a
árvore, apenas uma imagem plana e morta. Quando olho para a árvore agora, parte daquela impressão ainda
permanece, mas posso sentir que ela está desaparecendo. A experiência já está parecendo algo do passado.
Será que alguma coisa como essa pode ser considerada mais do que um vislumbre passageiro?
Por um instante, você se libertou do tempo. Ao se concentrar no presente, pôde perceber a árvore sem o
enquadramento da mente. A consciência do Ser tornou-se parte da sua percepção. Suprimir a dimensão do
tempo faz surgir um tipo diferente de conhecimento, que não “mata” o espírito que mora dentro de cada criatura
e de cada coisa. Um conhecimento que não destrói o aspecto sagrado nem o mistério da vida, e que contém um
amor e uma reverência profundos por tudo o que é. Um conhecimento sobre o qual a mente nada sabe.
A mente não pode conhecer a árvore. O que ela conhece são apenas fatos ou informações sobre a árvore.
A minha mente não pode conhecer você, só rótulos, julgamentos, fatos e opiniões sobre você. Só o Ser conhece
diretamente.
Há um lugar para a mente e para o conhecimento da mente. Situa-se na prática do dia-a-dia. Entretanto,
quando a mente domina todos os aspectos da nossa vida, incluindo as relações com outras pessoas e com a
natureza, transforma-se em um parasita monstruoso que, se não reprimido, pode acabar matando todo o tipo de
vida no planeta e, finalmente a si mesmo, ao matar quem o hospeda.
Você teve uma breve visão de como a ausência do tempo pode transformar nossa percepção. Mas não
basta uma experiência, não importa quanto ela seja linda ou profunda. O que é necessário, e o que nos interessa,
é uma mudança definitiva na consciência.
Portanto, rompa com o velho padrão de negação e resistência ao momento presente. Torne uma prática
desviar a atenção do passado e do futuro, afaste-se da dimensão do tempo na vida diária, tanto quanto possível.
Se você achar difícil entrar diretamente no Agora, comece observando como a sua mente tende a fugir do
Agora. Vai notar que geralmente imaginamos o futuro como algo melhor ou pior do que o presente. Imaginar
um futuro melhor nos traz esperança e uma antecipação do prazer. Imaginá-lo pior nos traz ansiedade. Ambos
os casos são ilusões. Ao observarmos a nós mesmos, um maior grau de presença surge automaticamente em
nossas vidas. No momento em que percebemos que não estamos presentes, estamos presentes. Sempre que
formos capazes de observar nossas mentes, deixamos de estar aprisionados. Um outro fator surgiu, algo que não
pertence à mente: a presença observadora.
Esteja presente como alguém que observa a mente e examine seus pensamentos, suas emoções, assim
como suas reações em diferentes circunstâncias. Concentre seu interesse não só nas reações, mas também na
situação ou na pessoa que leva você a reagir. Perceba também com que freqüência a sua atenção está no passado
ou no futuro. Não julgue nem analise o que você observa. Preste atenção ao pensamento, sinta a emoção,
observe a reação. Não veja nada como um problema pessoal. Sentirá então algo muito mais poderoso do que
todas aquelas outras coisas que você observa, uma presença serena e observadora por trás do conteúdo da sua
mente: o observador silencioso.
Uma presença intensa se faz necessária quando certas situações provocam uma reação de grande carga
emocional, como, por exemplo, no momento em que acontece uma ameaça à nossa auto-imagem, um desafio na
vida que nos causa medo, quando as coisas “vão mal” ou quando um complexo emocional do passado vem à
tona. Nessas situações, tendemos a nos tornar “inconscientes”. A reação ou a emoção nos domina, “passamos a
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ser” ela. Passamos a agir como ela. Arranjamos uma justificativa, erramos, agredimos, defendemos… só que não
somos nós e sim uma reação padronizada, a mente em seu modo habitual de sobrevivência.
Identificar-se com a mente dá a ela mais energia, enquanto observar a mente retira a sua energia.
Identificar-se com a mente gera mais tempo, enquanto observar a mente revela a dimensão do infinito. A
energia retirada da mente se transforma em presença. No momento em que conseguimos sentir o que significa
estar presente, fica muito mais fácil escolher simplesmente escapar da dimensão do tempo e entrar mais
profundamente no Agora. Isso não prejudica nossa capacidade de usar o tempo – passado ou futuro – quando
precisamos nos referir a ele em termos práticos. Nem prejudica nossa capacidade de usar a mente. Na verdade,
estar presente aumenta nossa capacidade. Quando você usar a mente de verdade, ela estará mais alerta, mais
focalizada.
Abandonando o tempo psicológico
Aprenda a usar o tempo nos aspectos práticos da sua vida – podemos chamar de “tempo do relógio” –,
mas retorne imediatamente para perceber o momento presente, tão logo esses assuntos práticos tenham sido
resolvidos. Assim, não haverá acúmulo do “tempo psicológico”, que é a identificação com o passado e a
projeção compulsiva e contínua no futuro.
O tempo do relógio não diz respeito apenas a marcar um compromisso ou programar uma viagem. Inclui
aprender com o passado, para não repetir os mesmos erros indefinidamente. Estabelecer objetivos e trabalhar
para alcançá-los. Predizer o futuro através de padrões e leis, que podem ser físicas, matemáticas, etc. Aprender
com o passado e adotar as ações apropriadas com base em nossos prognósticos.
Mas, mesmo aqui, no âmbito da vida prática, onde não podemos agir sem uma referência ao passado ou
ao futuro, o momento presente permanece como um fator essencial, porque qualquer ação do passado é
relevante e se aplica ao agora. E planejar ou trabalhar para atingir um determinado objetivo é feito agora.
O principal foco de atenção das pessoas i1uminadas é sempre o Agora, embora elas tenham uma noção
relativa do tempo. Em outras palavras, continuam a usar o tempo do relógio, mas estão livres do tempo
psicológico.
Esteja alerta quando praticar isso, para que você, sem querer, não transforme o tempo do relógio em
tempo psicológico. Por exemplo, se você cometeu um erro no passado e só agora aprendeu com ele, está
utilizando o tempo do relógio. Por outro lado, se você considerar isso mentalmente e daí resultar uma
autocrítica, um sentimento de remorso ou de culpa, então você está transformando o erro em “meu”. Ele passou
a ser uma parte do seu sentido de eu interior e se transformou em tempo psicológico, que está sempre
relacionado a um falso sentido de identidade. A dificuldade em perdoar envolve, necessariamente, uma pesada
carga de tempo psicológico.
Se estabelecemos um objetivo e trabalhamos para alcançá-lo, estamos empregando o tempo do relógio.
Sabemos bem aonde queremos chegar, mas respeitamos e damos atenção total ao passo que estamos tomando
neste momento. Se insistimos demais nesse objetivo, talvez porque estejamos em busca de felicidade, satisfação
ou de um sentido mais completo do eu interior, deixamos de respeitar o Agora. E ele é reduzido a um mero
degrau para o futuro, sem nenhum valor intrínseco. O tempo do relógio se transforma então em tempo
psicológico. Nossa jornada deixa de ser uma aventura e passa a ser encarada como uma necessidade obsessiva
de chegar, de possuir, de “conseguir”. Aí, não somos mais capazes de ver nem de sentir as flores pelo caminho,
nem de perceber a beleza e o milagre da vida que se revela em tudo ao redor, como acontece quando estamos
presentes no Agora.
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Consigo ver a importância suprema do Agora, mas não posso concordar quando você diz que o tempo é
uma completa ilusão.
Quando afirmo que “o tempo é uma ilusão”, não tenho intenção de fazer nenhuma afirmação filosófica.
Estou apenas chamando a atenção para um fato simples, a1go tão óbvio que você pode achar difícil de entender
e até mesmo considerar sem sentido. Mas perceber isso será como cortar com uma espada todas as camadas de
“problemas” criadas pela mente. Repito que o momento presente é tudo o que temos. Nunca há um tempo em
que a nossa vida não é “este momento”. Não é verdade?
A insanidade do tempo psicológico
Não teremos qualquer dúvida de que o tempo psicológico é uma doença mental se olharmos para as suas
manifestações coletivas. Elas ocorrem, por exemplo, na forma de ideologias como o comunismo, o nacionalsocialismo
ou qualquer nacionalismo, ou de sistemas rígidos de crenças religiosas, que atuam na suposição
implícita de que o bem maior repousa no futuro e que, portanto, o fim justifica os meios. O fim é uma idéia, um
ponto na mente projetado no futuro, quando a salvação, sob a forma de felicidade, satisfação, igualdade,
libertação, etc., será alcançada. Muitas vezes, os meios para atingir o fim são a escravidão, a tortura e o
assassinato de pessoas no presente.
Por exemplo, estima-se que cerca de cinqüenta milhões de pessoas foram assassinadas para promover a
causa do comunismo e levar a um “mundo melhor” na Rússia, na China e em outros países1! Esse é um exemplo
terrível de como uma crença em um paraíso no futuro cria um inferno no presente. Resta alguma dúvida de que
o tempo psicológico é uma doença mental séria e perigosa?
De que forma esse padrão mental opera em sua vida? Você está sempre tentando chegar a algum lugar
além daquele onde você está? A maior parte do que você faz é apenas um meio para alcançar um determinado
fim? A satisfação está sempre em outro lugar ou restrita a breves prazeres como sexo, comida, bebida e drogas,
ou relacionada a uma emoção ou excitação? Você está sempre pensando em vir a ser, adquirir, alcançar ou, em
vez disso, está à caça de novas emoções e prazeres? Você acha que, quanto mais bens adquirir, uma pessoa se
sentirá melhor ou psicologicamente completa? Está à espera de um homem ou de uma mulher que dê um
sentido à sua vida?
No estado normal de consciência, o poder e o infinito potencial criativo do Agora estão completamente
encobertos pelo tempo psicológico. Nossa vida perde a vibração, o frescor, o sentido de encantamento. Os
velhos padrões de pensamento, emoção, comportamento, reação e desejo são encenados repetidas vezes, como
um roteiro dentro da nossa mente que nos dá uma identidade, mas distorce ou encobre a realidade do Agora. A
mente, então, desenvolve uma obsessão pelo futuro, buscando fugir de um presente insatisfatório.
A negatividade e o sofrimento têm raízes no tempo
Mas acreditar que o futuro será melhor do que o presente nem sempre é uma ilusão. O presente pode ser
terrível e as coisas podem melhorar no futuro, e muitas vezes melhoram.
O futuro, geralmente, é uma réplica do passado. É possível haver mudanças superficiais, mas as
transformações reais são raras e dependem da possibilidade de estarmos presentes para dissolver o passado,
acessando o poder do Agora. O que percebemos como futuro é uma parte intrínseca do nosso estado de
consciência do momento. Se a nossa mente carrega um grande fardo do passado, vamos sentir isso. O passado
se perpetua pela fa1ta de presença. O que dá forma ao futuro é a qualidade da nossa percepção do momento
presente, e o futuro, é claro, só pode ser vivenciado como presente.
Podemos ganhar 10 milhões de reais, mas esse tipo de mudança é apenas superficial. Vamos
simplesmente continuar a representar os mesmos padrões condicionados, em ambientes mais luxuosos. Os seres
1 Brzenzinski, Z. The Grand Failure. New York: Charles Scribner’s Sons, 1989, p. 239-40.
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humanos aprenderam a dividir o átomo. Em vez de matar dez ou vinte pessoas com um porrete de madeira, uma
pessoa agora pode matar um milhão delas com um simples apertar de um botão. Será que isso é uma mudança
real?
Se é a qualidade da nossa percepção neste momento que determina o futuro, então o que é que determina
a qualidade da nossa consciência? O nosso grau de presença. Portanto, o único lugar onde pode ocorrer uma
mudança verdadeira e onde o passado pode se dissolver é no Agora.
Toda a negatividade é causada pelo acúmulo de tempo psicológico e pela negação do presente. O
desconforto, a ansiedade, a tensão, o estresse, a preocupação, todas essas formas de medo são causadas por
excesso de futuro e pouca presença. A culpa, o arrependimento, o ressentimento, a injustiça, a tristeza, a
amargura, todas as formas de incapacidade de perdão são causadas por excesso do passado e pouca presença.
Muitos acham difícil acreditar na possibilidade de existir um estado de consciência absolutamente livre de
toda a negatividade. E até o momento, esse é o estado de liberdade para o qual apontam todos os ensinamentos
espirituais. É a promessa da salvação, não em um futuro ilusório, mas bem aqui e agora.
Talvez seja difícil reconhecer que o tempo é a causa do nosso sofrimento ou de nossos problemas.
Acreditamos que eles são causados por situações específicas em nossas vidas, e, de um ponto de vista
convencional, isso é uma verdade. Mas enquanto não lidarmos com a disfunção básica da mente – o apego ao
passado e ao futuro e a negação do presente –, os problemas apenas mudam de figura. Se todos os nossos
problemas, ou causas identificadas de sofrimento ou infelicidade, fossem milagrosamente solucionados no dia
de hoje, sem que nos tornássemos mais presentes e mais conscientes, logo nos veríamos com um outro conjunto
de problemas ou causas de sofrimento semelhantes, como uma sombra que nos seguisse aonde quer que
fôssemos. Em última análise, o único problema é a própria mente limitada pelo tempo.
Não posso acreditar que algum dia venha a alcançar ‘um ponto onde eu esteja completamente livre de
problemas.
Você tem razão. Você nunca poderá alcançar esse ponto porque você está nesse ponto agora.
Não há salvação dentro do tempo. Você não pode se libertar no futuro. A presença é a chave para a
liberdade. Portanto, você só pode ser livre agora.
Descobrindo a vida por baixo da situação de vida
Não vejo como ser livre agora. Estou extremamente infeliz com a minha vida neste momento. Isso é um
fato, e eu estaria me iludindo se tentasse me convencer de que tudo está bem, quando não está. Para mim, o
presente é triste e nada libertador. O que me faz prosseguir é a esperança de um futuro melhor.
Você pensa que a sua atenção está no momento presente quando, na verdade, está totalmente envolvida
pelo tempo. Você não pode estar infeliz e completamente presente no Agora, ao mesmo tempo.
Aquilo a que nos referimos como vida deveria ser chamado, mais precisamente, de “situação de vida”. É
o tempo psicológico, passado e futuro. Certas coisas do passado não seguiram o caminho que queríamos. Ainda
resistimos ao que aconteceu no passado e agora estamos resistindo ao que é. A esperança nos leva a prosseguir,
mas a esperança nos mantém focalizados no futuro, e esse foco contínuo perpetua a negação do Agora e,
portanto, a nossa infelicidade.
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É verdade que a situação atual da minha vida é o resultado de coisas que aconteceram no passado, mas
ainda assim é a minha situação atual e estar preso a ela é o que me faz infeliz.
Esqueça a situação da sua vida por um instante e preste atenção à sua vida.
Qual é a diferença?
A nossa situação de vida existe no tempo.
Nossa vida é agora.
Nossa situação de vida é coisa da mente.
Nossa vida é real.
Encontre o “portão estreito que conduz à vida”. Ele é chamado de Agora. Restrinja a sua vida a este exato
momento. Sua situação de vida pode estar cheia de problemas – a maioria das situações de vida está –, mas
verifique se você tem algum problema neste exato momento. Não amanhã ou dentro de dez minutos, mas já.
Você tem um problema agora?
Quando estamos cheios de problemas, não há espaço para nada novo entrar, nenhum espaço para uma
solução. Portanto, sempre que você puder, crie algum espaço de modo a encontrar a vida sob a sua situação de
vida.
Utilize os seus sentidos plenamente. Esteja onde você está. Olhe em volta. Apenas olhe, não interprete.
Veja as luzes, as formas, as cores, as texturas. Esteja consciente da presença silenciosa de cada objeto. Esteja
consciente do espaço que permite cada coisa existir. Ouça os sons, não os julgue. Ouça o silêncio por trás dos
sons. Toque alguma coisa, qualquer coisa. Sinta e reconheça o Ser dentro dela. Observe o ritmo da sua
respiração. Sinta o ar fluindo para dentro e para fora. Sinta a energia vital dentro do seu corpo. Permita que as
coisas aconteçam, no interior e no exterior. Deixe que todas as coisas “sejam”. Mova-se profundamente para
dentro do Agora.
Você está deixando para trás o agonizante mundo da abstração mental e do tempo. Está se libertando da
mente doentia que suga a sua energia vital, do mesmo modo que, lentamente, ela está envenenando e destruindo
a Terra. Você está acordando do sonho do tempo e entrando no presente.
Todos os problemas são ilusões da mente
É como se um grande peso tivesse sido tirado dos meus ombros. Sinto-me leve… mas os problemas ainda
estão lá me esperando, não estão? Ainda não foram resolvidos. Será que não os estou evitando apenas
temporariamente?
Se você estivesse no paraíso, sua mente não demoraria a encontrar algum problema. Não se trata,
basicamente, de solucionar seus problemas. Trata-se de perceber que não existem problemas. Apenas situações
com que temos de lidar agora ou deixar de lado e aceitar como uma parte do “ser” neste momento, até que se
transformem ou possam ser negociadas. Os problemas são criados pela mente e precisam de tempo para
sobreviver. Eles não conseguem sobreviver na atualidade do agora.
Focalize sua atenção no Agora e verifique quais são os seus problemas neste exato momento.
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Não estou obtendo uma resposta porque é impossível termos problemas quando toda a nossa atenção está
inteira no Agora. Pode ser que haja uma ou outra situação que você precise resolver ou aceitar. Por que
transformar isso em problema? Por que transformar tudo em problema? A vida já não é bastante desafiadora do
jeito que é? Para que precisamos de problemas? A mente, inconscientemente, adora problemas porque eles
podem ser de vários tipos. Isso é normal e doentio. A palavra “problema” significa que estamos lidando
mentalmente com uma situação, sem que exista um propósito real ou uma possibilidade de agir no momento, e
também que estamos inconscientemente fazendo dele uma parte do nosso sentido de eu interior. Ficamos tão
sobrecarregados pela nossa situação de vida que perdemos o sentido da vida, ou do Ser. Ou então vamos
carregando na mente o peso insano de uma centena de coisas que iremos fazer ou poderemos ter de fazer no
futuro, em vez de focalizarmos a atenção sobre uma coisa que podemos fazer agora.
Quando criamos um problema, criamos sofrimento. Por isso, é preciso tomar uma decisão simples: não
importa o que aconteça, não vou criar mais sofrimento nem problemas para mim. É uma escolha simples, mas
radical. Ninguém faz uma escolha dessas a menos que esteja verdadeiramente sufocado pelo sofrimento. E não
se consegue levar esse tipo de decisão adiante a não ser acessando o poder do Agora. Se não criar mais
sofrimento para si mesmo, você não criará também para os outros. Deixará, assim, de contaminar nosso lindo
planeta, seu próprio espaço interior e a psique humana coletiva com a negatividade da criação de problemas.
Se você alguma vez esteve numa situação de emergência, de vida ou morte, saberá que isso não foi um
problema. A mente não teve tempo para se distrair e transformar a situação em problema. Numa emergência de
verdade, a mente pára. Ficamos absolutamente presentes no Agora, e algo infinitamente mais poderoso passa a
dominar. Essa é a razão pela qual existem inúmeros relatos de pessoas comuns que, de uma hora para outra,
tornaram-se capazes de façanhas incrivelmente corajosas. Numa situação de emergência, ou você sobrevive ou
morre. Em qualquer dos casos, não é um problema.
Algumas pessoas ficam furiosas quando me ouvem dizer que os problemas são ilusões. É que estou
ameaçando afastar delas a imagem que têm de si próprias. Elas investiram muito tempo num falso sentido de eu
interior. Durante muitos anos, definiram inconscientemente suas identidades de acordo com os problemas que
tiveram. Quem seriam sem eles?
Uma grande porção do que as pessoas dizem, pensam ou fazem é, na verdade, motivada pelo medo, que
está sempre ligado com o foco no futuro e com o estar fora de contato com o Agora. Se não existirem problemas
no Agora, não existirá o medo.
Caso apareça uma situação com a qual você precise lidar agora, a sua ação vai ser clara e objetiva, se
conseguir perceber o momento presente. Tem muito mais chances de dar certo. Não será uma reação vinda do
condicionamento da sua mente no passado, mas sim uma resposta intuitiva à situação. Em situações em que a
mente teria reagido, você vai achar mais eficaz não fazer nada. Fique só centrado no Agora.
Um salto quântico na evolução da consciência
Tive breves lampejos desse estado de liberdade da mente e do tempo que você descreveu, mas o passado
e o futuro são tão fortes que não consigo mantê-los afastados por muito tempo.
O modelo da consciência condicionada pelo tempo está profundamente enraizado na psique humana. Mas
o que estamos fazendo aqui é parte de uma profunda mudança que está se formando na consciência coletiva do
planeta e ainda mais: o despertar da consciência dissociada do sonho da matéria, da forma e da separação. O fim
do tempo. Estamos rompendo com padrões mentais que dominaram a vida humana por eras. Padrões mentais
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que criaram um sofrimento inimaginável, em larga escala. Não estou empregando a palavra demônio. É mais
útil chamar de inconsciência ou insanidade.
Essa ruptura com o antigo modelo de consciência, ou melhor, inconsciência, é algo que temos de fazer
ou vai acontecer de qualquer maneira? Em outras palavras, essa mudança é inevitável?
É uma questão de perspectiva. O fazer e o acontecer são, na verdade, um processo único. Como somos
únicos e formamos um todo com a consciência, não podemos separar os dois. Mas não há uma garantia absoluta
de que os seres humanos vão conseguir. O processo não é inevitável nem automático. Nossa cooperação é uma
parte essencial do processo. Independentemente de como você o veja, trata-se de um importante salto na
evolução da consciência, assim como a nossa única chance de sobreviver como raça.
A alegria do ser
Para demonstrar como você se deixou dominar pelo tempo psicológico, experimente usar o critério de se
perguntar se existe alegria, naturalidade e leveza no que você está fazendo. Se não existir, é porque o tempo está
encobrindo o momento presente e a vida está sendo percebida como um encargo ou uma luta.
A ausência de alegria, naturalidade ou leveza no que estamos fazendo não significa, necessariamente, que
precisemos mudar o que estamos fazendo. Talvez baste mudarmos o como. “Como” é sempre mais importante
do que “o que”. Verifique se você pode dar muito mais atenção ao fazer do que ao resultado desejado através do
fazer. Dê a sua inteira atenção para o que quer que o momento apresente. Isso implica que você aceitou
totalmente o que é, porque não se pode dar atenção completa a alguma coisa e, ao mesmo tempo, resistir a ela.
Ao respeitarmos o momento presente, toda a luta e a infelicidade se dissolvem e a vida começa a fluir
com alegria e naturalidade. Ao agirmos com a consciência do momento presente, tudo o que fizermos virá com
um sentido de qualidade, cuidado e amor, mesmo a mais simples ação.
Portanto, não se preocupe com o resultado da sua ação, basta dar atenção à ação em si. O resultado
surgirá espontaneamente. Essa é uma valiosa prática espiritual. No Bhagavad Gita, um dos mais antigos e mais
belos ensinamentos espirituais que existem, o desapego ao resultado da ação é chamado Karma Yoga. É descrito
como o caminho da “ação santificada”.
Ao fim dessa luta compulsiva contra o Agora, a alegria do Ser passa a fluir em tudo o que fazemos. No
momento em que a nossa atenção se volta para o Agora, percebemos uma presença, uma serenidade, uma paz.
Não dependemos mais do futuro para obtermos plenitude e satisfação, não o olhamos mais como salvação.
Conseqüentemente, não estamos mais presos aos resultados. Nem o fracasso nem o sucesso têm o poder de
alterar o estado interior do Ser. Você acabou de encontrar a vida sob a situação de vida.
Na ausência do tempo psicológico, o nosso sentido do eu interior provém do Ser, não do nosso passado
pessoal. Assim, desaparece a necessidade psicológica de nos tornarmos uma outra pessoa diferente de quem já
somos. No mundo, levando em conta a situação de vida, podemos nos tornar ricos, conhecidos, bem-sucedidos,
livres disso ou daquilo, mas, na dimensão mais profunda do Ser, estamos completos e inteiros agora.
Nesse estado de plenitude, ainda teríamos capacidade ou vontade de alcançar os objetivos externos?
Claro que sim, mas sem as expectativas ilusórias de que uma coisa ou alguém no futuro irá nos salvar ou
nos fazer felizes. No que diz respeito à situação de vida, podem existir coisas a ser alcançadas ou adquiridas.
Vivemos no mundo da forma, dos lucros e perdas. Mas, em um nível mais profundo, já estamos completos, e
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quando percebemos isso, tudo o que fizermos será impulsionado por uma energia alegre e jovial. Estando livre
do tempo psicológico, não perseguimos mais os objetivos com uma determinação implacável, movida pelo
medo, pela raiva, pelo descontentamento ou pela necessidade de nos tornarmos alguém. Nem permanecemos
imóveis com medo de falhar. Quando o nosso sentido profundo do eu interior é derivado do Ser, quando nos
livramos do “tornar-se” como uma necessidade psicológica, nem a nossa felicidade nem o nosso sentido do eu
interior dependem do resultado e, assim, nos libertamos do medo. Não buscamos permanência onde ela não
pode ser encontrada, ou seja, no mundo da forma, dos lucros e perdas, do nascimento e da morte. Nem
esperamos que situações, condições, lugares ou pessoas nos tragam felicidade, só para depois nos causarem
sofrimento, quando nossas expectativas não forem correspondidas.
Tudo inspira respeito, mas nada importa. As formas nascem e morrem, ainda que estejamos conscientes
de uma eternidade subjacente às formas. Sabemos que “nada de verdade pode ser ameaçado”1.
Quando este é o seu estado de Ser, como é possível não alcançar o sucesso? Você já o alcançou.
1 A Course in Miracles. Foundation For Inner Peace. 1992.

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