O Corpo Possui Mente Própria – A cura quântica – Deepak Chopra


 

Quando afirmei que ninguém pode declarar que conhece a cura
do câncer de seio, estava dizendo apenas meia verdade. Se uma
paciente conseguisse promover o processo de cura de dentro para fora,
essa seria a cura do câncer. Casos de cura semelhantes ao de Chitra
surgem quando internamente se opera uma mudança radical,
afastando-se o medo e a dúvida junto com a doença. Mas o local exato
dessa mudança leva a profundos mistérios. Ele desafia a sabedoria
médica a responder até a pergunta básica: a mudança ocorreu na
mente de Chitra, em seu corpo, ou em ambos? Para descobrir isso, a
medicina ocidental começou recentemente a se afastar das drogas e da
cirurgia, que são o apoio principal da clínica médica, em direção ao
campo mais amorfo e geralmente desconcertante, conhecido como
“terapia do corpo e da mente”. Esse movimento foi quase forçado,
porque a velha confiança apenas no corpo físico começou a se
desagregar.
A medicina do corpo e da mente deixa muitos médicos
extremamente intranqüilos. Consideram-na mais um conceito do que
um campo verdadeiro. Se puder escolher entre a nova idéia e a química
familiar, um médico dará preferência à segunda: penicilina, digitálicos,
aspirina e Valium não exigem nenhum conceito novo do paciente (ou do
médico) para fazer efeito. O problema surge quando a química não atua.

Levantamentos recentes, na Inglaterra e nos Estados Unidos,
demonstraram que aproximadamente 80 por cento dos pacientes
sentem que sua queixa principal, a razão que os levou ao médico, não
fora satisfatoriamente atendida ao deixarem o consultório. Estudos
clássicos, datados do fim da Segunda Guerra Mundial, mostraram que
os pacientes saíam do hospital da Faculdade de Medicina de Yale mais
doentes do que no dia em que haviam chegado ali. (Esses estudos
correspondem a outros, semelhantes, que demonstraram que os
pacientes com queixas de doenças mentais sentiam-se melhor enquanto
estavam na lista de espera para uma consulta com o psiquiatra do que
depois, quando eram realmente atendidos por ele. Portanto, este não é o
caso da simples troca de um médico que trata do corpo por um que
trata da mente.)
Diante disso, uma cura miraculosa simplesmente reforça a
necessidade de reexame dos conceitos básicos da medicina. O raciocínio
lógico da medicina atual pode impressionar ou, pelo menos, bastar,
quando receitamos penicilina para curar uma infecção; mas a natureza
dessa lógica é capaz de inspirar medo. Muitos médicos ficaram
maravilhados ao testemunhar curas como a de Chitra, sem nenhuma
pista para explicá-las; o termo comum para elas é recuperação
espontânea, rótulo conveniente mas pouco esclarecedor, além do fato de
o paciente ter sarado por si. As recuperações espontâneas são muito
raras: uma pesquisa, em 1985, calculou que ocorrem na média de uma
em 20 mil casos diagnosticados de câncer; alguns especialistas
acreditam que são ainda mais raras (menos de dez em 1 milhão), mas
ninguém sabe ao certo.
Recentemente, passei várias horas da noite conversando com um
oncologista, ou especialista em câncer, do Oriente Médio, que trata de
milhares de pacientes por ano. Perguntei-lhe se conhecia algum caso de
recuperação espontânea.
— Sinto-me pouco à vontade com esse termo — ele respondeu,
dando de ombros. — Tenho visto tumores regredirem completamente. É
muito raro, mas acontece.

Às vezes, tais recuperações ocorriam apenas por si mesmas? Ele
admitiu que isso acontecia ocasionalmente. Pensou por um momento e
declarou que, pelo que se sabe, certos tipos de melanoma (um câncer de
pele extremamente letal, que mata com muita rapidez) desaparecem por
si mesmos. Mas não sabia explicar como isso acontecia.
— Não paro para pensar nesses raros incidentes — disse ele. — O
tratamento do câncer é uma questão de estatística, obedecemos a
números. Uma enorme maioria de pacientes reage a certas linhas de
tratamentos e não há tempo para pensar na minoria infinitesimal que
sara por alguma razão desconhecida. Além disso, sabemos por
experiência que muitas dessas recuperações são apenas temporárias.
Ele achava que as recuperações completas ocorriam numa
proporção de menos de um caso por milhão? Respondeu-me que não
eram tão raras assim.
Não desejaria, então, como cientista, descobrir o mecanismo que
existe por trás delas, mesmo que ocorresse apenas um caso em 1
milhão ou em 10 milhões? Ele novamente deu de ombros.
— É claro que deve haver um mecanismo por trás delas —
admitiu. — Mas não estabeleci minha clínica para cuidar disso. Deixeme
dar-lhe um exemplo: oito anos atrás, um homem me procurou
queixando-se de uma tosse que doía no peito. Fizemos algumas
radiografias e descobrimos que tinha um grande tumor entre os
pulmões. Ele foi internado no hospital, tiramos material para a biópsia
e o diagnóstico do patologista foi de um carcinoma extremamente
mortal, de crescimento rápido e muito maligno. Avisei meu paciente —
prosseguiu ele — de que o submeteríamos imediatamente a uma
cirurgia para aliviar a pressão criada por seu tumor e depois o
trataríamos com radiações e quimioterapia. Ele ficou profundamente
aborrecido com a idéia do tratamento e recusou. Oito anos depois, um
homem veio me procurar com um nódulo linfático muito inchado no
pescoço. Tirei uma amostra para a biópsia, que revelou tratar-se de um
carcinoma do mesmo tipo encontrado no pulmão de meu antigo cliente.
Foi quando percebi que se tratava do mesmo homem. Examinamos seu

peito com raios X — o médico continuou a relatar — e não havia o
menor traço de câncer no pulmão. Normalmente, 99,99 por cento dos
pacientes sem tratamento teriam morrido num prazo de seis meses;
cerca de 90 por cento não teriam sobrevivido cinco anos, mesmo com o
máximo de terapia. Perguntei-lhe como tratara o câncer anterior e ele
me disse que não tinha feito nada, apenas decidira que não ia se deixar
morrer de câncer. E talvez ele recuse novamente o tratamento para esse
segundo câncer.
Por definição, a medicina científica lida com resultados
previsíveis. Ainda assim, sempre que surge um caso de recuperação
espontânea, seu comportamento é totalmente imprevisível. Esses casos
podem ocorrer sem a presença de uma terapia, ou podem ser
acompanhados pelo tratamento convencional do câncer. Dentre as
muitas alternativas referentes ao câncer que hoje existem nos Estados
Unidos, cada qual com mérito próprio, nenhuma provou recuperações
espontâneas melhor que o tratamento padrão de radiação e
quimioterapia nem que seu efeito seja pior. Tampouco parece
influenciar o estágio que a doença já atingiu. Tanto os pequenos
tumores como os grandes e extremamente malignos podem desaparecer
virtualmente, da noite para o dia. Como são casos muito raros e que
ocorrem ao sabor da sorte, as recuperações espontâneas vêm nos
ensinando muito pouco sobre a causa do câncer e o modo como
acontece uma cura “impossível”.
Parece razoável supor que o corpo está Constantemente em luta
contra o câncer e que vence a imensa maioria das batalhas. Muitos
tipos de câncer podem ser induzidos em tubos de ensaio ou em animais
de laboratório, com o uso de substâncias tóxicas (carcinógenas), dietas
ricas em gordura, radiações, estresse excessivo e vários tipos de vírus,
entre outras coisas. Como vivemos submetidos a todas essas condições
em grau elevado, elas devem causar dano a nosso organismo. Sabe-se
que o DNA (ácido desoxirribonucléico) se deteriora em tais condições,
mas ele é capaz de se recompor ou distinguir a matéria perigosa,
livrando-se dela.

Isso significa que tumores ainda no estágio inicial podem ser
percebidos e frequentemente combatidos pelo organismo. Se
ampliarmos a escala desse processo, teremos o “milagre” de uma
recuperação espontânea. Na realidade, não se trata de um milagre, de
modo nenhum, mas de um processo natural que ainda precisa ser
explicado, do mesmo modo que a cura da pneumonia pela penicilina
seria considerada miraculosa, se não pudéssemos explicá-la por meio
da teoria do germe da doença. O fato é que o mecanismo oculto nessas
curas milagrosas não é místico nem fortuito, portanto merece ser
investigado.
Na prática comum, depois do milagre o médico volta à rotina de
sempre, que inclui os conceitos habituais. Mas até esses, que compõem
o material de trabalho da faculdade de medicina, foram deformados.
Para dar apenas um exemplo: desde que passou a ser considerada um
campo de pesquisa científica racional, a medicina tem aceitado a
degeneração das funções cerebrais nos idosos como uma ocorrência
natural. Essa deterioração foi toda documentada com “tristes”
descobertas: quando envelhecemos, nosso cérebro se atrofia, fica mais
leve e perde milhões de neurônios a cada ano. Temos o máximo
suprimento de neurônios aos 2 anos e, aos 30, o número deles começa
a diminuir. A perda de cada célula cerebral é permanente, já que os
neurônios não se regeneram. Baseado nesse fato tão conhecido, o
declínio da capacidade cerebral parecia cientificamente aceitável; triste,
porém inevitável; o envelhecimento leva obrigatoriamente à falta de
memória, à diminuição da capacidade de raciocínio, ao enfraquecimento
da inteligência e sintomas correlates.
No entanto, essas suposições consagradas pelo tempo agora
provaram-se errôneas. Pesquisas meticulosas com idosos saudáveis,
comparadas às que a medicina realizava habitualmente com pessoas
idosas doentes e hospitalizadas, revelaram que 80 por cento dos
americanos sãos e sem distúrbios psicológicos (como solidão, depressão
ou falta de estímulo externo) não sofrem significativa perda de memória
ao envelhecer. Pode diminuir a capacidade de reter novas informações,

o que explica o fato de pessoas idosas esquecerem números de telefone,
nomes e perambularem pela casa à procura de objetos. Mas a
capacidade de recordar antigos acontecimentos, a chamada memória
distante, na realidade até melhora. (Uma autoridade em envelhecimento
costuma citar Cícero: “Nunca vi um velho que esquecesse onde seu
dinheiro estava escondido”.)
Nos testes de pessoas com 70 anos de idade, comparados aos de
jovens de 20, os velhos conseguiram melhores resultados nessa área da
memória. Depois de terem treinado diariamente, por alguns minutos, o
que chamamos de memória recente, os idosos quase alcançaram os
jovens, que estavam no auge de sua capacidade mental.
Talvez a “plenitude da vida” deva ser prolongada. O segredo, como
quase todo o resto do declínio “natural” da velhice, depende dos hábitos
mentais, e não do conjunto de circuitos do sistema nervoso. Enquanto
uma pessoa se mantiver mentalmente ativa, continuará com a mesma
inteligência da juventude e da idade madura. Todo mundo continua
perdendo mais de 1 bilhão de neurônios durante a existência, numa
média de 18 milhões por ano, mas essa perda é compensada por outra
estrutura: os filamentos cerebrais semelhantes a ramos, chamados
dendrites, que ligam as células nervosas umas às outras.
Toda célula nervosa costuma apresentar um formato bastante
individual, mas possui um núcleo típico, bulboso, de onde se irradiam
braços finos como um polvo. Esses braços, ou axônios, lembram
árvores, e os primeiros anatomistas os batizaram de dendrites, que em
grego significa “árvore”. Seu número varia desde menos de uma dúzia a
mil por célula, servindo de pontos de contato para que um neurônio
envie sinais a seus vizinhos. Com o crescimento de novas dendrites, um
neurônio pode abrir mais canais de comunicações em todas as direções,
como um painel telefônico distribuindo novas linhas.
Não sabemos como um pensamento é realmente formado entre as
células cerebrais ou como se inter-relaciona esse vastíssimo número de
ligações com milhões de dendrites se unindo em certos pontos
principais do corpo, como o plexo solar, sem falar dos bilhões e bilhões

do próprio cérebro. Contudo, experiências demonstraram que novas
dendrites podem se formar durante a vida toda, até a idade avançada. A
opinião geral é de que esse novo crescimento nos proporciona a
estrutura física para que a função cerebral não diminua. A senilidade
não é fisicamente normal em um cérebro saudável. Uma rica
multiplicação de dendrites pode até ser a causa oculta da sabedoria
crescente na velhice, uma época em que a vida é cada vez mais
encarada em sua totalidade ou, em outras palavras, fica mais
interligada, assim como as células nervosas se interligam através das
novas dendrites.
Esse exemplo demonstra como a medicina pode estar
radicalmente errada ao insistir em que a matéria seja superior à mente.
Pode ser verdade que uma célula nervosa crie pensamentos, mas é
igualmente verdadeiro que o pensamento cria células nervosas. No caso
das novas dendrites, é o hábito de pensar, de recordar e manter a
atividade mental que cria o novo tecido. Mas essa não é uma descoberta
isolada. Curiosamente, logo que o conceito de uma “nova velhice”
pareceu razoável aos olhos dos médicos, muitas formas de degeneração
começaram a ser encaradas de outro modo.
Por exemplo: enquanto você praticar exercícios, a musculatura de
seu corpo não enfraquecerá e sua força não diminuirá durante a vida,
apesar de haver um lento declínio de energia. Você pode treinar para
uma maratona aos 65 anos, contanto que esteja em boa forma física e
treine sensatamente. Do mesmo modo, seu coração muda com a idade e
torna-se menos elástico, bombeando menos sangue por batida, mas as
doenças coronárias e o endurecimento das artérias, até poucas décadas
atrás considerados normais na velhice, agora também podem ser
evitados, dependendo da alimentação e do estilo de vida. Outro mal da
velhice, os derrames cerebrais, diminuíram em 40 por cento durante a
última década, graças ao melhor controle da hipertensão e à diminuição
de gordura na dieta alimentar. Grande parte dos males senis
“inevitáveis” foi explicada pela deficiência de vitaminas, por uma dieta
alimentar pobre e pela desidratação. O resultado global dessas

descobertas levou a drástica mudança no enfoque da velhice; um
resultado menos evidente, porém, é o de que todo o organismo, em
qualquer fase da vida, precisa ser repensado.
O que acontece agora em todos os ramos da medicina é que o
corpo saudável vem demonstrando maior poder de recuperação e
versatilidade do que se suspeitava. Enquanto a faculdade de medicina
ensina que o micróbio A causa a doença B e é tratada pela droga C, a
natureza parece achar que essa é apenas uma opção entre muitas. O
enfoque mental no tratamento do câncer, por exemplo, seria
ridicularizado há uma década. Mas as pessoas parecem capazes de
participar de seu tratamento de câncer e até controlar o curso da
doença, usando os pensamentos. Em 1971, o dr. O. Carl Simonton,
radiologista da Universidade do Texas, conheceu um homem de 61 anos
que sofria de câncer na garganta. A doença já progredira muito e ele
mal conseguia engolir, chegando a pesar 42 quilos.
O prognóstico de seu caso não só era extremamente ruim — os
médicos lhe davam apenas 5 por cento de chance de sobrevivência de
cinco anos após o tratamento — como, por outro lado, o paciente estava
tão debilitado que provavelmente não corresponderia às radiações — a
terapia normal em seu caso. Levado pelo desespero e, além disso,
curioso em tentar um enfoque psicológico, o dr. Simonton sugeriu a seu
paciente que ampliasse a ação das radiações por meio da prática de
visualização. Ele foi ensinado a visualizar seu câncer o mais
vividamente possível. Depois, pediram-lhe que visualizasse seu sistema
imunológico sob qualquer imagem que desejasse, “vendo” as células
brancas do sangue atacarem com sucesso as células cancerosas e as
expulsarem do corpo, deixando restar apenas as saudáveis.
O homem disse que visualizou suas células imunológicas como se
fossem uma névoa de partículas brancas cobrindo o tumor, assim como
a neve cobre uma rocha escura. O dr. Simonton aconselhou-o a ir para
casa e repetir essa visualização várias vezes por dia. O homem

concordou, e logo seu tumor pareceu regredir. Em poucas semanas,
estava visivelmente menor, e a resposta do paciente às radiações, quase
livre de efeitos colaterais; depois de dois meses o tumor havia
desaparecido.
Naturalmente, o dr. Simonton ficou surpreso e confuso, embora
exultante, por ter a abordagem psicológica se revelado tão poderosa.
Como um pensamento consegue derrotar uma célula cancerosa? Na
verdade, esse mecanismo era totalmente desconhecido, já que a
complexidade desnorteante dos sistemas imunológico e nervoso,
evidentemente envolvidos no caso, continuava um mistério. O paciente,
por sua vez, aceitou a cura sem grande surpresa. Contou ao dr.
Simonton que sofria de artrite nas pernas e que não conseguia pescar
no rio, como gostava. Tendo se livrado do câncer, porque não poderia
acabar com a artrite por meio de visualizações? Poucas semanas depois,
foi exatamente o que aconteceu. O homem ficou livre do câncer e da
artrite, durante os seis anos em que continuou sob controle.
Esse caso, agora famoso, passou a representar um marco da
medicina mente-corpo, mas infelizmente essa não é a história toda. A
terapia de visualização do dr. Simonton (que passou a abranger um
programa maior mente-corpo) ainda não inspira confiança na cura do
câncer. Uma de minhas pacientes foi bem-sucedida e, ao que parece,
curou um câncer no seio, mas empregou a técnica por conta própria,
sem assistência médica constante. Levantamentos estatísticos a longo
prazo, no entanto, levam-nos a questionar se esses resultados
esporádicos são superiores aos do tratamento convencional.
Atualmente, a terapia convencional apresenta grande vantagem. Se, por
exemplo, uma mulher com câncer no seio o descobrir enquanto for bem
pequeno e localizado, a chance de se curar ultrapassa os 90 por cento
(uma “cura” significa a sobrevivência de três anos, no mínimo, sem a
volta da doença). Em comparação, os casos de recuperações
espontâneas, numa estimativa mais generosa, seriam bem inferiores a
um décimo de 1 por cento. Até que terapia mental e outras alternativas
ultrapassem as radiações e a quimioterapia, não serão os tratamentos

preferidos. Mesmo que os pacientes desejem tais enfoques, a maioria
dos médicos ainda os teme e não confia neles.
Ainda que o paciente do dr. Simonton seja um caso raro, basta
para abalar nossa concepção de como o organismo cura a si próprio,
porque nele a natureza descobre uma forma de combater a morte nunca
antes tentada por nenhum médico. E nesse caso há também a sombria
possibilidade de que os médicos, com suas tentativas habituais, estejam
reprimindo a natureza em vez de ajudá-la.
Médicos curiosos e ousados recorreram às experiências com
inovações nas terapias mente-corpo durante a última década, usando
desde biofeedback e hipnose até visualizações e mudança de
comportamento. Os resultados de todo esse grupo foram duvidosos e
difíceis de se interpretar. Durante três anos, o psicólogo Michael Lerner
empreendeu extensa pesquisa em quarenta clínicas que ofereciam
enfoques alternativos para o tratamento do câncer, com métodos que
variavam desde o emprego de ervas e da macrobiótica até a visualização
de imagens mentais positivas. Ele descobriu que esses “centros
complementares de combate ao câncer” eram geralmente mais
procurados por pacientes de melhor nível cultural e mais prósperos, e
que os médicos que os dirigiam também eram sérios e bemintencionados,
mas nada que se aproximasse da cura do câncer havia
sido descoberto nos lugares que visitou.
Ao entrevistar os pacientes, uma razoável porcentagem (40 por
cento) pensava ter obtido ao menos uma melhora temporária na
qualidade de vida. Outros 40 por cento declararam ter experimentado
uma melhora real em suas condições, variando desde poucos dias a
vários anos. Aproximadamente 10 por cento dividiram-se entre os
extremos do espectro, um grupo declarando que não conseguira nada
com o tratamento, e outro, que havia se recuperado parcial ou
totalmente da doença. Em geral, os registros de enfoques alternativos
demonstram que eles dão certo conforto e alívio aos pacientes, mas os
dados sobre recuperação são desapontadores, não diferindo muito dos
da terapia comum.

Existem, porém, problemas mais sérios do que resultados
inconsistentes: o campo do tratamento mente-corpo continua
enfrentando a incapacidade de provar, rigorosamente, seu princípio
básico: a mente influencia o corpo e pode levar à saúde ou à doença.
Parece evidente por si mesmo que pessoas doentes e saudáveis vivem
em diferentes estados mentais, mas a conexão causal continua
indefinida. Em 1985, na Universidade da Pensilvânia (EUA), uma
importante pesquisa sobre câncer no seio não conseguiu encontrar a
relação entre a atitude mental das pacientes e sua chance de
sobrevivência além de dois anos. No artigo que acompanhava a
pesquisa, publicado no famoso New England Journal of Medicine, todo o
conceito de que as emoções afetam o câncer foi combatido. Declarava:
“Nossa idéia de que a doença é um reflexo direto do estado mental é, em
grande parte, crendice popular”.
O jornal recebeu um dilúvio de cartas, em particular de médicos
que discordavam violentamente da conclusão do artigo. Sem dúvida, se
não é razoável não considerar as atitudes mentais como fator de
enfermidade, é menos razoável ainda considerar tal pensamento como
“crendice popular”. Qualquer médico que exerça a profissão sabe que a
vontade do paciente em se curar é parte vital do tratamento. Mesmo
integrando a medicina “severa”, a maioria dos médicos aceita a idéia de
que a atitude, a crença e as emoções são atuantes. Hipócrates declarou,
na aurora da medicina ocidental, que “um paciente mortalmente doente
poderia se recobrar pela fé na deusa de seu médico”. Inúmeras
pesquisas modernas confirmam isso, demonstrando que as pessoas que
confiam em seu médico e se entregam a seus cuidados têm maior
possibilidade de se curar do que aquelas que encaram o tratamento
com desconfiança, medo e antagonismo.
Após o artigo, os ânimos se agitaram e surgiram grupos cerrando
fileiras por lealdade, mas o assunto ficou ainda mais confuso. Três
pesquisas independentes, realizadas em meados de 1980, sobre dados
de sobrevivência após câncer no seio, chegaram a resultados totalmente
diferentes. Em uma delas, as mulheres que demonstraram atitudes

fortemente positivas viviam mais que as de atitudes negativas, não
importando o quanto o câncer estivesse avançado. Aparentemente, as
emoções positivas ajudavam a cura de estágios adiantados da doença,
com metástase do câncer, enquanto pacientes com emoções negativas
morriam por pequenos tumores diagnosticados logo no início.
Mas uma segunda pesquisa concluiu que qualquer atitude
drástica exteriorizada, em vez de reprimida, ajudava na sobrevivência
em relação a essa doença mortal. Enquanto a primeira pesquisa
baseava-se no bom senso, na idéia de que a positividade é melhor que a
negatividade, a segunda fazia o mesmo sob outro ângulo, com a idéia de
que vale a pena lutar e não desistir. Foi divulgada a chamada
personalidade do câncer, que reprime as emoções e, de alguma
maneira, transforma essa repressão em células malignas. O oposto
seria o tipo “o forte sobreviverá”, podendo essa força ser positiva ou
negativa.
Tudo isto obedece a certa lógica, exceto a pesquisa publicada no
New England Journal of Medicine, que, apoiada por outras, não
encontrou correlação entre nenhum padrão emocional e a sobrevivência
ao câncer de seio após dois anos. Mesmo ao ganhar popularidade e se
transformar em uma das inovações mais bem recebidas desde a vacina
Salk, o conceito de tratamento mente-corpo continuava abalado. Agora
um novo sistema tornou-se familiar: o público é informado de alguma
brilhante vitória, enquanto os resultados clínicos desapontadores que
se seguem são conhecidos apenas em círculos médicos restritos.
Um exemplo clássico foi a divisão dos pacientes de ataques do
coração, dos quais mais de três quartos são homens de meia-idade, em
personalidades tipo A — de alto risco — e tipo B — de baixo risco. A
personalidade tipo A seria o motorista exaltado, o trabalhador
compulsivo, Constantemente perseguindo metas e enchendo o
organismo de hormônios de estresse — oposta à do tipo B, mais
tranqüila, tolerante e equilibrada. O tipo A sofria do “mal de viver com
pressa”, portanto parecia lógico que seu coração acabasse se rebelando
e surgisse uma doença coronariana.

Infelizmente, pesquisas controladas indicaram que essa divisão
amplamente aceita não é tão certa. Na realidade, as pessoas possuem
parte da personalidade do tipo A e parte da do tipo B, além de variar
muito a tolerância ao estresse, chegando alguns grupos a declarar que
se sentem melhor sob tensão. Finalmente, uma pesquisa realizada em
1988 revelou que, se um homem sofre realmente um ataque do coração,
o tipo A sobrevive mais que o tipo B. Seu impulso de vencer é
aparentemente um benefício quando chega o enfarte.
As complexidades da relação entre mente e corpo não podem ser
resolvidas com simplicidade. Se alguém perguntar por que uma mente
positiva não pode estar facilmente relacionada à boa saúde, o que
parece um dos fatos mais evidentes da vida, a resposta dependerá, em
primeiro lugar, do que ela entende por “mente”. Essa não é uma
questão filosófica, mas de ordem prática. Diante de um paciente com
câncer, seu estado mental é julgado pelo modo como se sente no dia do
diagnóstico, muito antes ou muito depois? O dr. Lawrence LeShan,
autor de estudos pioneiros desde os anos 50, relacionando as emoções
ao câncer, voltava à infância de seus pacientes para descobrir a
semente sombria que envenenava sua vida psicológica, e criou a teoria
de que ela permanecia adormecida durante anos no subconsciente,
antes de provocar a doença.
Em minha própria clínica, conheci um paciente com câncer no
pulmão, que vivia confortavelmente com uma lesão do tamanho de uma
moeda naquele órgão, havia mais de cinco anos. Ele nem suspeitava de
que a lesão fosse cancerosa e, como já estava com mais de 60 anos de
idade, ela crescia lentamente. No entanto, logo que lhe contei que a
lesão se coadunava com o diagnóstico de câncer no pulmão, ele ficou
extremamente agitado. Em um mês, começou a tossir com sangue, e em
três meses estava morto. Se seu estado mental contribuiu para esse
triste final, aparentemente agiu bem rápido. Esse paciente podia viver
com seu tumor, mas não com o diagnóstico.
A questão seguinte é ainda mais relevante: na personalidade geral
do paciente, o médico está interessado na “mente”, e isso significa seu

subconsciente, suas atitudes, suas crenças mais profundas, ou alguma
coisa ainda não plenamente compreendida e definida pela psicologia?
Pode ser que o aspecto da mente relacionado ao adoecer ou sarar nem
seja especificamente humano.
Numa pesquisa sobre doenças cardíacas realizada na
Universidade de Ohio (EUA), na década de 70, coelhos foram
alimentados com uma dieta muito tóxica e com alto índice de colesterol,
para o bloqueio das artérias, procurando duplicar-se o efeito que esses
alimentos exercem sobre as artérias humanas. Em todos os grupos de
coelhos começaram a surgir os resultados esperados, menos em um,
que estranhamente apresentava 60 por cento a menos de sintomas.
Nada na psicologia dos coelhos podia explicar sua alta tolerância à
dieta, até se descobrir, por acaso, que o estudante encarregado de
alimentar aquele grupo gostava de coelhos e os agradava. Ele carregava
cada animalzinho durante alguns minutos, antes de lhe dar a comida;
por incrível que seja, isso bastou para que os bichos tolerassem a dieta
tóxica. Experiências repetidas, em que um grupo de coelhos recebia
tratamento neutro e outro recebia amor, demonstraram os mesmos
resultados. Vemos mais uma vez que o mecanismo que causa tal
imunidade é completamente desconhecido. É espantoso pensar que a
evolução dotou a mente do coelho de uma reação de imunidade que
pode ser desencadeada pelo carinho humano.
Existe até uma possibilidade, como argumentariam muitos
médicos, de que a mente seja uma ficção científica. Quando achamos
que ela está doente, o que realmente tem a doença é o cérebro.
Seguindo-se essa lógica, as desordens mentais clássicas como
depressão, esquizofrenia e psicoses são, na realidade, desordens
cerebrais. Mas tal lógica apresenta evidentes impropriedades, pois seria
como afirmar que as colisões acontecem por culpa dos carros. Mas,
como o cérebro é um órgão físico, podendo ser pesado e dissecado,
inspira maior segurança à medicina do que a mente, impossível de ser
definida após tantos séculos de introspecção e análise. Os médicos
ficam muito felizes por não terem de opinar a esse respeito como

filósofos.
A capacidade dos modernos psicotrópicos — as drogas
influenciadoras da mente que aliviam os principais sintomas de
doenças mentais como depressão, manias, ansiedade e alucinações — é
muito maior do que a de qualquer tratamento existente no passado. A
psiquiatria química provavelmente estará alinhada ao lado de sua
oponente, a medicina mente-corpo, formando a revolução médica de
nosso tempo. Ela tem apresentado sérios resultados clínicos para
confirmar isso, inclusive com numerosas indicações de que os
desequilíbrios químicos no cérebro estão diretamente ligados a doenças
mentais.
Nada poderia parecer mais intocável do que a loucura plena de
um esquizofrênico crônico, sofrendo de alucinações visuais e vozes
interiores, com pensamentos distorcidos e completa desorientação física
e mental. Talvez baste perguntar em que dia estamos para provocar
confusão e terror no esquizofrênico. No entanto, a diferença estrutural
entre esse estado mental e a sanidade pode ser rapidamente
determinada por uma substância química chamada dopamina,
secretada pelo cérebro. Essa relação com a dopamina, conhecida há
duas décadas, comprovou que os esquizofrênicos produzem em excesso
essa substância química de importante desempenho no processo das
emoções e percepções; portanto, uma alucinação seria a percepção do
mundo exterior que ficou desordenada na codificação química do
cérebro.
Essa hipótese foi simplificada em 1984, quando um psiquiatra da
Universidade de Iowa (EUA), dr. Rafiq Waziri, reviu o que se sabia sobre
a química cerebral dos esquizofrênicos, descobrindo a deficiência numa
molécula ainda menor, a serina, um aminoácido comum, encontrado na
maioria dos alimentos protéicos. Ela vem sendo considerada um dos
elos de origem na formação da dopamina. Incapazes de metabolizar
corretamente a serina, os cérebros dos esquizofrênicos superproduzem
a dopamina para compensar tal deficiência. Esse processo exato ainda é
desconhecido. Poderia a esquizofrenia total, considerada a mais

estranha e complexa das desordens mentais, depender do modo como
são digeridos os alimentos?
Descobertas anteriores no Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (EUA) demonstraram que a química básica do cérebro é
tão variável que pode ser modificada por uma simples refeição.
O dr. Waziri reforçou sua teoria cuidando de um grupo de
esquizofrênicos e alimentando-os com um suprimento dietético de
glicina, um produto químico supostamente produzido como parte do
mecanismo da dopamina. Ele pensou que o excesso de glicina talvez
pudesse secundar o efeito da serina, reequilibrando a dopamina. Alguns
esquizofrênicos do grupo reagiram de forma dramática e puderam
interromper a medicação sem nenhum episódio psicótico. Pela primeira
vez, em anos, ficaram com os pensamentos livres da doença e das
drogas potentes usadas no tratamento.
Um enfoque das doenças mentais sob o prisma da alimentação
seria bem mais benigno do que o das terapias atuais. A possibilidade de
serem descobertas novas ligações alimentares também é tentadora.
Entre os livros mais vendidos de culinária, um foi pioneiro ao
apresentar listas de “alimentos felizes” e “alimentos tristes”, em apoio à
teoria de que os aminoácidos neles contidos chegam diretamente ao
cérebro e se transformam em substâncias químicas que produzem
estados de ânimo positivos ou negativos. O leite, o frango, bananas e
verduras estão entre os alimentos “felizes”, porque estimulam a
dopamina e outras duas substâncias “positivas” do cérebro. Em
contrapartida, alimentos doces e gordurosos são “tristes”, porque
estimulam a acetilcolina, uma substância química “negativa”. Os
críticos declaram, justificadamente, que a química do cérebro não é tão
simples assim — os níveis elevados de dopamina de um esquizofrênico
podem ser considerados positivos? Tampouco é provável que a
mudança na ingestão de aminoácidos leve diretamente a uma desejada
química cerebral, do mesmo modo que a quantidade de colesterol na
alimentação não corresponde diretamente à quantidade que existe no
sangue.

Se a sanidade pode ser conservada por meio dos alimentos,
capazes de promover até a melhora no estado de espírito, os princípios
básicos da medicina mente-corpo ficam ainda mais confusos. Você pode
confiar na mente para curar artrite e, ao mesmo tempo, alegar que
comer chocolate o deixa deprimido? Isso significaria uma contradição: a
mente domina a matéria, exceto quando a matéria domina a mente. No
clima atual de descobertas ambíguas, as duas posições opostas —
tratamento do corpo através da mente e da mente através do corpo —
ficam igualmente no ar.
O resultado é que nenhum esclarecimento adequado surgiu de
toda essa confusão; o mundo subjetivo da mente continua sendo uma
energia traiçoeira, caprichosa em sua capacidade de curar ou gerar a
doença. Muitos médicos de tendência materialista ficariam ansiosos por
concluir que a química deve ser a resposta a todos os nossos mistérios
mentais e físicos.
Não acho que seja assim. Em minha especialidade, a
endocrinologia, foram descobertas algumas das primeiras substâncias
químicas que afetam a mente: os hormônios endócrinos. Encontro todos
os dias pacientes com sintomas que podem ser explicados como defeitos
de equilíbrio hormonal — a idéia distorcida da reação de um diabético
por baixa do teor de açúcar no sangue, as mudanças de temperamento
durante o ciclo menstrual e até uma depressão característica, que é o
primeiro aviso de certos tipos de câncer (um tumor no pâncreas, por
exemplo, pode ser pequeno demais para ser detectado, mas espalhará
cortisol e outros “hormônios estressantes” na corrente sanguínea,
deprimindo o paciente).
Apesar disso, vejo muitas falhas no argumento de que apenas
precisamos de um conhecimento mais profundo da química do
organismo. O corpo possui muitas substâncias químicas (literalmente,
milhares delas) produzidas em padrões espantosamente complexos, que
surgem e acabam rapidamente, quase sempre em frações de segundo. O
que controla esse fluxo constante? Não podemos desvincular a mente
da união mente-corpo. Afirmar que o corpo se cura usando apenas

substâncias químicas é como declarar que um carro troca de marchas
usando apenas a transmissão. Evidentemente, o motorista é necessário,
porque sabe o que está fazendo. Embora durante vários séculos a
medicina tenha conservado a idéia de que o corpo funciona por si, como
uma máquina automotivada, ele também deve precisar de um
motorista. De outro modo, a química de nosso corpo seria uma
confusão de moléculas flutuantes, em vez do maquinário incrivelmente
ordenado e preciso que é, sem dúvida.
Numa época mais ingênua, achavam que o motorista era um
homenzinho a que chamavam homúnculo e que vivia sentado no
coração, mudando todas as marchas necessárias para dirigir o corpo. O
homúnculo desapareceu na Renascença, quando pela primeira vez os
anatomistas começaram a dissecar cadáveres para verificar o que
tinham por dentro. O homúnculo não foi encontrado no coração (onde
também não acharam a alma), mas isso fez surgir uma evidente
distância entre a mente e o corpo. Desde então, muitos cientistas
procuraram preencher esse vazio com o cérebro, declarando que a
função cerebral é controlar todas as outras funções do organismo. Mas
essa resposta leva a uma nova questão, já que o cérebro é apenas outra
máquina: ainda é necessário que se encontre ali o motorista. Posso
argumentar que está ali, mas se transformou em um ser bem mais
abstrato que o homúnculo ou até que o próprio cérebro. Ele é feito da
energia inteligente que nos motiva a viver, agir e pensar.
Isso pode ser provado? O próximo passo será nos aprofundarmos
na inteligência interior do corpo, procurando descobrir o que a motiva.
O campo da medicina mente-corpo não tem disposições nem regras
inflexíveis, o que é muito bom. Durante décadas a medicina tem
entendido que muitas doenças possuem um componente
psicossomático, mas lidar com esse aspecto tem sido como tentar
represar o vento. Deve existir algum “corpo pensante” dentro de nós,
respondendo aos comandos da mente, mas onde pode estar e de que é
feito?

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