Apagando memórias



Cientistas já sabem como eliminar lembranças nefastas. O desafio é criar uma terapia segura para tratar as vítimas do transtorno do stress pós-traumático.

Revista Scientific American – por R. Douglas Fields*

Muitas pessoas vivem assombradas pela lembrança de experiências dolorosas. Cerca de 50% das vítimas de estupro sofrem de transtorno de stress pós-traumático (TEPT), assim como 17% dos sobreviventes de acidentes de trânsito graves e 14% daqueles que subitamente perderam um membro da família, segundo a Liga de Transtorno de Stress Pós-Traumático dos Estados Unidos. Dominadas pelo medo incontrolável, essas pessoas desenvolvem problemas sociais e psiquiátricos como depressão, abuso de álcool e drogas e até suicídio. Distúrbios digestivos, fadiga e dores crônicas de origem desconhecida também são comuns. O sono não é reparador, já que os estímulos estressantes retomam vívidos na forma de pesadelos recorrentes. Apagar memórias desagradáveis, portanto, seria extremamente terapêutico.

Cresce o interesse por métodos de tratamento do TEPT, sobretudo depois de eventos traumáticos como os ataques ao World Trade Center, a guerra do Golfo e o furacão Katrina. Embora psicoterapia e sedativos ajudem a aliviar sintomas, eles nunca são completamente eficazes. O melhor antídoto seria remover a causa, isto é, as imagens do horror registradas pelas vítimas. A idéia não é muito original, já que esquecemos coisas o tempo todo. Além disso, acidentes que envolvem traumas de cabeça geralmente são seguidos de perda da memória.

Os cientistas começam a vislumbrar esse tipo de terapia do esquecimento à medida que entendem cada vez mais sobre como o cérebro registra e descarta os acontecimentos. E já se perguntam se seria possível apagar lembranças ruins sem prejudicar as boas e as necessárias.

  • Memória Seletiva

O caminho mais curto para a escola passa pelo terreno coberto de mato e sucata que pertence a um senhor chamado Dugan. Assim que você põe os pés no local, o velho Dugan abre a porta da casa e dois pit bulls aparecem arreganhando os dentes. Você corre para salvar a própria vida e escapa por pouco. Dali por diante, você toma o caminho mais longo. Ao retomar ao lugar anos depois, seu coração ainda acelera, mesmo sabendo que Dugan já não está ali há tempos. Anos depois do episódio, você descobre que desenvolveu uma fobia de cachorros para toda a vida.

Às vezes não é preciso ver ou ouvir a mesma coisa duas vezes. A repetição é necessária para aprendermos que seis vezes sete são 42, mas uma única experiência pode gravar para sempre o medo de cachorro e a casa de Dugan no cérebro de uma pessoa. Isso porque, do ponto de vista evolutivo, memória diz respeito ao futuro. Não há nenhuma vantagem, em termos de sobrevivência, em ter um sistema de gravação cerebral que retenha com precisão cada evento e experiência sensorial que se vive. O truque do cérebro é avaliar nossas experiências a cada instante e escolher quais delas devem ser mantidas para referência futura e quais devem ser descartadas.

Certos acontecimentos oferecem vantagens evolutivas cuja evidência é inquestionável – e suas memórias são armazenadas para sempre. Depois do episódio Dugan, você jamais deixará de reconhecer o rosnar de um cão em posição de ataque. Qualquer experiência que provoca medo ou paixão, toda situação que é verdadeiramente nova, as coisas desagradáveis ou deliciosas que você põe na boca, para cada uma dessas experiências, há uma grande probabilidade de registro como um evento importante para o futuro.

Saber como as memórias são codificadas oferece pistas de como poderíamos apagá-las. As lembranças não são mantidas dentro dos neurônios. Uma memória é criada quando uma rede de sinapses é reforçada – temporariamente no caso de uma memória de curto prazo e permanentemente para uma de longo prazo. Com o passar do tempo, a rede de conexões sinápticas pode ser fortalecida, enfraquecida ou interrompida.

Para entender como funcionam essas redes, os neurocientistas cortam finas lâminas do cérebro de ratos e as cultivam em placas de laboratório. Em seguida, aplicam impulsos elétricos nos neurônios, propagando sinais ao longo de várias sinapses. Eletrodos registram o padrão dos estímulos e os apresentam na tela do computador. Em 1973, Tim Bliss e Terje Lomo, da Universidade de Oslo, Noruega, aplicaram uma breve rajada de impulsos com freqüência aproximada de 100 hertz e descobriram qual sinal sináptico se intensificava e assim permanecia durante alguns minutos. Esse fenômeno foi chamado potenciação de longo prazo (LTP, na sigla em inglês). O estímulo maior resulta no fortalecimento da conexão entre dois neurônios – o que podemos considerar um fragmento de memória.

É interessante notar que, se por um lado a sinapse permanece “mais forte” durante várias horas depois da aplicação de série curta de estímulos, por outro, a voltagem no interior da célula retoma lentamente aos níveis originais. E quando três choques consecutivos são aplicados a intervalos de dez minutos, a sinapse torna-se permanentemente fortalecida. Como todos sabemos, a repetição é necessária para transferir os dados de um arquivo temporário para outro permanente – isso fica claro quando tentamos lembrar nomes. Repetir três vezes seguidas o nome de alguém a quem acabamos de ser apresentados não é tão eficaz quanto repeti-lo uma vez a cada dez minutos. Em termos evolutivos, um estímulo que se repete várias vezes a intervalos recorrentes provavelmente é mais importante.

Há, contudo, uma complicação. As moléculas que estabelecem o fluxo de corrente elétrica entre as sinapses são quase sempre proteínas, e todas elas se deterioram e são substituídas em períodos que variam de horas a dias. Para fortalecer uma conexão neural por toda a vida, algum outro processo deve ocorrer para reforçar a estrutura física de uma sinapse ou formar sinapses adicionais entre os neurônios envolvidos.

  • Passando a limpo

A transição de uma memória temporária para permanente é chamada consolidação. Muitos experimentos concluíram que a consolidação leva várias horas, podendo ser ampliada ou bloqueada de vários modos. Como jovem alpinista, eu me maravilhava com os veteranos do Vale de Yosemite, na Califórnia. Eles eram capazes de recontar, nos mínimos detalhes, cada centímetro de uma escalada de vários quilômetros, descrevendo exatamente onde encontrar a seqüência de grampos. Mais tarde, aprendi que eu podia fazer o mesmo. Se os próximos dez segundos de sua vida fossem os últimos, você se lembraria deles – mesmo que seguidos por outros dez segundos igualmente dramáticos, e assim por diante, durante horas ou dias. O estado de atenção intensa, o stress e a novidade estimulam a fase de consolidação da memória.

Os neurocientistas descobriram como a consolidação acontece. Uma descarga de epinefrina (também conhecida como adrenalina) libera um fluxo de hormônios do stress e neurotransmissores que ativa a amígdala, a região cerebral que processa medo e emoções. A amígdala se conecta a muitas outras áreas onde diversos tipos de memórias são armazenados, além de potencializar novos dados que tenham impacto emocional. Portanto, a consolidação pode ser facilitada pelo aumento dos níveis dessas substâncias. Essa idéia é a base do efeito de certas drogas que melhoram a memória, como a ritalina quando usada de forma abusiva (o medicamento é indicado para o distúrbio de déficit de atenção) ou os efeitos leves e temporários da nicotina e da cafeína. Há ensaios clínicos em andamento que tentam melhorar a consolidação da memória de pacientes de Alzheimer com o uso de adesivos de nicotina e drogas mais potentes. O que aconteceria se, ao contrário, fossem usadas drogas para inibir esses circuitos neurais? A persistência das memórias poderia ser atenuada.

Experimentos que mostram exatamente esse feito foram conduzidos em ratos por Volker Korz e Julietta U. Frey, do Instituto Leibniz de Neurobiologia, em Magdeburg, Alemanha. Por meio da implantação de eletrodos no hipocampo, uma estrutura cerebral importante para a memória, os pesquisadores descobriram que as sinapses poderiam ser fortalecidas por mais tempo se os animais fossem submetidos a um desafio que envolvesse stress ou atividades intelectuais (como encontrar a saída de um labirinto). A experiência ativou os hormônios do stress, e a potenciação de longo prazo não diminuiu tão rapidamente como normalmente acontece. Mais tarde, eles conseguiram bloquear a consolidação usando drogas que interferiram nos neurotransmissores e hormônios. Os resultados de Frey e de outros grupos mostram que o aumento permanente na força da sinapse pode ser enfraquecido com drogas que bloqueiam a síntese das proteínas sinápticas – dissolvendo a memória.

  • Lembrar para esquecer

Assim, uma abordagem para tratar o stress pós-traumático (TEPT) consistiria em administrar drogas bloqueadoras imediatamente após o evento traumático, de forma a impedir a consolidação das memórias de curto prazo. Existem drogas que atuam nos receptores dessas proteínas, como o propranolol, indicado em certas condições cardíacas. Esse tratamento, contudo, não ofereceria ajuda às vítimas de TEPT cujas más recordações já tenham se consolidado. Mas há outros métodos promissores, como uma estratégia psicológica chamada extinção, na qual terapeutas pedem aos pacientes que se recordem repetidamente de um evento estressante em condições de segurança e tranqüilidade. A repetição parece informar o cérebro que essa memória não está mais ligada a uma situação perigosa e, desse modo, pode ser atenuada.

Camundongos de laboratório que recebem um choque uma única vez no momento em que soa determinado tom começam a tremer quando o ouvem outras vezes. Entretanto, eles acabam esquecendo a experiência ruim depois que ouvem o tom diversas vezes sem que nenhuma conseqüência nociva ocorra. Em 2002, experimentos feitos por Beat Lutz, hoje na Universidade Johannes Gutenberg, em Mainz, Alemanha, mostraram que camundongos geneticamente modificados para apresentar ausência de receptores de canabinóides (moléculas da família do princípio ativo da maconha) no cérebro não foram capazes de esquecer assim tão rapidamente. Imagina-se que a maconha “endógena” do cérebro acalma os circuitos neurais envolvidos no medo, possibilitando que os animais relaxem mais depressa quando aprendem que não há choque elétrico depois do tom. Se houvesse formas de potencializar os canabinóides apenas na amígdala – centro do medo no cérebro -, talvez fosse possível ajudar os portadores de TEPT a deixar suas recordações ruins para trás mais rapidamente. É importante observar que essa estratégia não funciona simplesmente fumando-se maconha.

A compreensão do sono pode oferecer outro caminho para apagar lembranças nefastas. Um conjunto crescente de evidências sugere que a consolidação da memória continua off-lineenquanto dormimos, em parte porque o sono envolve a secreção periódica de alguns hormônios e neurotransmissores produzidos em situações novas e estressantes. Em 2001, Kenway Louie, hoje na Universidade de Nova York, e Matthew A. Wilson, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, verificaram, no hipocampo de camundongos, que os mesmos padrões de estímulo registrados enquanto eles aprendiam também ocorriam durante o sono REM.

Em 2004, estudos com tomografia por emissão de pósitrons (PET) realizados em humanos por Philippe Peigneux, da Universidade de Liege, Bélgica, mostraram que áreas do hipocampo ativadas enquanto os indivíduos aprendiam a se localizar em uma cidade virtual foram reativadas durante o sono não-REM. Além disso, a maior atividade cerebral durante o sono foi correlacionada a resultados melhores obtidos pelos participantes em testes que avaliaram sua capacidade de encontrar o caminho no dia seguinte. Esse trabalho demonstra que a consolidação da memória requer uma organização das memórias recentes, integrando-as a outras recordações e transportando-as a diferentes regiões do cérebro para armazenamento permanente. Memórias de curto prazo consideradas dispensáveis são descartadas.

  • Genes em ação

De que forma todas essas abordagens poderiam nos ajudar a desenvolver uma estratégia para apagar as memórias? Uma linha comum entre elas pode estar nos genes. Em 2004, Chiara Cirelli e colaboradores, da Universidade de Wisconsin-Madison, descobriram que a atividade de cerca de 100 genes se intensifica durante o sono. Alguns deles são os mesmos normalmente ativados quando memórias de curto prazo são convertidas em de longo prazo. O estudo de Lutz com ratos e canabinóides também confirma diferenças individuais nos níveis de predisposição genética ao medo e ao TEPT.

Desde os anos 60, os cientistas sabem que a ativação de genes está de alguma forma relacionada à elaboração da memória permanente, porque eles ordenam às células que produzam proteínas. Para que uma experiência seja codificada como memória, novas proteínas precisam ser sintetizadas em redes neurais no intervalo de poucos minutos. Em meados dos anos 60, Bemard Agranoff, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, usou choques elétricos leves como punição para treinar peixes-dourados a nadar para um dos lados de um tanque sempre que uma luz se acendia. Se o pesquisador injetasse antes uma droga para bloquear a síntese protéica, o animal aprendia a lição igualmente rápido, mas quando testado três dias depois, comportava-se como se nunca tivesse passado pela situação antes. O animal era capaz de aprender a tarefa novamente e tão depressa quanto os outros peixes, mas sua memória de curto prazo jamais se consolidava em de longo prazo.

Muitos outros cientistas obtiveram resultados semelhantes usando diferentes animais e situações de aprendizado. Experimentos mostram que bloquear a transcrição de DNA em RNAm ou bloquear a tradução para proteína possibilita a fixação da memória de curto prazo, mas impede a retenção de longo prazo. Mas como os genes são ativados para transcrever DNA assim que começa o processo? Os neurocientistas descobriram que quando dois neurônios disparam juntos intensa e repetidamente, íons cálcio entram em seus núcleos, estimulando a transcrição de DNA. Novas proteínas são produzidas a partir do RNAm, as quais pavimentam conexões sinápticas de curto prazo em redes de memória de longo prazo.

  • As histórias de nossas lembranças

A memória é um tema recorrente na literatura. Aparece nos títulos de varios clássicos brasileiros como Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, Memórias póstumas de Brás Cubas e Memorial de Aires, ambos de Machado de Assis, Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos e Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz. Entre obras de autores de outros países estão Memórias do subsolo, do russo Fiador Dostoievski, Memorial do convento, escrito por José Saramago, e o delicado Flush: memórias de um cão, da inglesa Virginia Woolf. Nos romances construídos com base em recordações – seja do autor, seja de personagens fictícios – o encadeamento de lembranças dá o tom da obra, ressalta desenlaces e mobiliza sentimentos.

Para psicanalistas, assim como para muitos escritores, as lembranças são inerentes à história da pessoa. Mais importante que a recordação em si, no entanto, é o efeito que tem sobre os afetos. Segundo a teoria psicanalítica, uma emoção pode até ser desconectada de registro mnêmico (e isso de fato ocorre em patologias como a fobia e a neurose obsessiva), sem que sintomas sejam eliminados. Ou seja: a lembrança desaparece, mas não seus efeitos sobre o corpo ou o psiquismo. Em A interpretação dos sonhos, de 1900, Sigmund Freud fala sobre as lembranças encobridoras na infância, espécie de criações psíquicas que mascaram desejos e fantasias sexuais com os quais a criança não sabe como lidar. Segundo ele, é comum que se duvide da clareza dos sonhos, mas não das recordações. A maioria desconhece, porém, que boa parte delas é uma criação psíquica, fruto de condensações, sobreposições e projeções.

Reconsolidação

Se pudéssemos encontrar um modo de bloquear a síntese de proteínas imediatamente após um evento traumático, a memória não seria consolidada e as visões aterradoras deveriam se dissipar. O tratamento de choque, formalmente conhecido como choque eletroconvulsivo, parece causar esse efeito em animais de laboratório. Entretanto, tal como ocorre com os inibidores da síntese protéica, ele deve ser aplicado no momento exato. O choque não remove memórias bem estabelecidas (com mais de 24 horas) porque elas já estão consolidadas.

Não obstante, um mecanismo semelhante talvez possa apagar experiências já armazenadas na memória de longo prazo. Alguns indícios que corroboram essa hipótese podem ser encontrados em estudo de 1968, publicado na revista Science por James R. Misanin e colegas, da Universidade Rutgers. Eles descobriram que uma memória consolidada poderia ser apagada se um rato recebesse um choque logo após ser forçado a recordar a mesma experiência. O tratamento poderia fazer esquecer o medo de cachorro se você se submetesse a uma aplicação imediatamente depois de recordar a propriedade do velho Dugan. No rato, a evocação da memória parece torná-la vulnerável ao esquecimento. Esse fenômeno foi chamado reconsolidação.

Pesquisas feitas nos anos seguintes estenderam os resultados a outros tipos de memória mantidas em várias partes do cérebro de diferentes animais e em resposta ao uso de um grande número de drogas, que incluem inibidores de genes e da síntese protéica, bem como neurotransmissores e substâncias que os afetam – os neuromoduladores. Estudos recentes conduzidos por Joseph E. LeDoux e colegas da Universidade de Nova York mostraram que a microinjeção de inibidores de síntese protéica na amígdala de camundongos pode bloquear a reconsolidação da memória se aplicada logo após ela ser recordada.

São poucos os neurocientistas que começam a extrapolar os resultados obtidos em animais para seres humanos, os quais talvez possam um dia tomar um medicamento durante um ataque de TEPT para interromper a reconsolidação e, assim, enfraquecer a memória ruim. Em 1994, James L. McGaugh, Larry Cahilil e colaboradores, da Universidade da Califórnia, em lrvine, demonstraram que o propranolol, um bloqueador de receptores betaadrenérrgicos, pode fazer as pessoas esquecer um evento emocionalmente estressante mais depressa sem afetar o registro de uma história agradável. Experimentos de pequena escala com essa droga, feitos em 2002 por Roger K. Pitman, da Escola Médica de Harvard, foram realizados em humanos logo após uma experiência traumática, na esperança de que a redução da resposta ao stress atenuasse a consolidação. Depois de três meses, os pacientes tratados com propranolol estavam menos suscetíveis a desenvolver o transtorno de stress pós-traumático do que as pessoas que não receberam a medicação. O próximo passo será verificar se a mesma droga pode ajudar quem já é portador de TEPT, se eles tomarem o medicamento no momento em que sofrem um ataque.

Apagar recordações durante a fase de consolidação não é ficção, é fato científico, como qualquer um que sofreu amnésia pode atestar. Experimentei um lapso de memória que durou 90 minutos depois de uma queda de bicicleta. Embora eu não tenha perdido a consciência, a atividade anormal do meu cérebro após bater a cabeça na calçada interrompeu a consolidação das memórias de curto prazo. Apagar toda a memória de um certo intervalo de tempo poderia ser problemático, mas é provável que as lembranças emocionais possam ser seletivamente dissolvidas porque são codificadas por mecanismos especiais. E sua terrível e vívida recorrência na forma de TEPT as faz singularmente vulneráveis ao tratamento.

Evidentemente, pode haver efeitos nocivos na erradicação da memória. Algumas pessoas temem que essas técnicas propiciem um novo tipo de controle da mente. A lavagem cerebral muda as convicções de uma pessoa por meio de doutrinação e propaganda intensivas, usando freqüentemente métodos de isolamento, humilhação ou tortura. Contudo, nunca houve antes um método para lavar a memória verdadeiramente. Se os cientistas obtiverem êxito no desenvolvimento de um modo para livrar as vítimas de suas lembranças assustadoras, eles terão forjado uma faca de dois gumes. Há memórias que nós preferiríamos não ter e há aquelas que outros gostariam que perdêssemos. Drogas supressoras da memória poderiam ser usadas por réus para salvá-los da incriminação das testemunhas. Considerando os métodos de lavagem cerebral comuns praticados hoje por certos cultos religiosos, governos tiranos, criminosos e exércitos, o tratamento do futuro para aliviar o sofrimento das vítimas de TEPT também invocaria, infelizmente, aspectos perversos da natureza humana.

Essas possibilidades podem ou não vir a ser uma realidade. Embora a reconsolidação seja um fenômeno bem estabelecido, alguns
cientistas argumentam que as lembranças mais antigas desenvolvem raízes mais profundas e extensas à medida que são conectadas a outras experiências, de modo que sua remoção pode ser mais difícil. Outros acreditam que, uma vez recuperadas, elas devem ser renovadas, para que sejam integradas à experiência subseqüente e, assim, ser transitórias e passíveis de dissolução.

De qualquer modo, pode haver complicações. Se as memórias são a forma física da sinapse, é possível que cada nova memorização possa influenciar sinapses codificadoras de uma lembrança antiga. Apagar uma imagem dolorosa do passado poderia alterar outros dados que o cérebro precisa para o presente. Não sabemos se técnicas para apagar memórias podem causar danos ao cérebro, mas diante da chance de escolhermos os fatos a ser lembrados, estaríamos abrindo a caixa de Pandora?

Para conhecer mais

Emotional and cognitive reinforcement of rat hippocampallong-term potentiation by different learning paradigms. V. Korz e J. U. Frey, em Neuron Glia Biology, vol. 1, págs. 253-262, 2004. Disponível em www.journals.cambridge.org/jid_NGB
Memory consolidation and reconsolidation: what is the role of sleep? R. Stickgold e M. P. Walker, em Trends in Neurosciences, vol. 28, nº 8, págs. 408-415, 2005.

*professor adjunto do programa de neurociência e ciência cognitiva da Universidade de Maryland e coordena a seção de desenvolvimento e plasticidade do sistema nervoso do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano. – Tradução de Irati Antônio

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s