As seis faces da solidão serena: [1] solidão com menos desejo


Por Luiz Fernando Pereira.

Seguindo a visão budista de Pema Chödron sobre a solidão, gostaria de explorar um pouco cada item dos seis que ela apontou como partes constituintes da experiência de solidão serena* — que seria uma espécie de solidão saudável, por assim dizer (termo meu) — e que foram apresentadas no primeiro artigo aqui neste espaço, Virando a solidão de cabeça pra baixo: uma abordagem budista, por Pema Chödron. Relistando, as seis faces são (1) menos desejo, (2) contentamento, (3) evitar atividade desnecessária, (4) disciplina completa, (5) não vagar no mundo do desejo, e (6) não buscar segurança usando pensamentos discursivos. O desenvolvimento da experiência da Solidão Serena (ou abertura pra ela) é um dos trabalhos da terapia, que inclui também principalmente (e prioritariamente) o trabalho sobre a experiência da solidão real atual, como vivenciada por cada um, essencial para o contato mais profundo com o que está acontecendo.

Então, a primeira definição da Solidão Serena é menos desejo. Há seis maneiras de definir esse tipo de experiência de solidão segundo a monja Pema Chödron, discípula do grande mestre Chögyam Trungpa Rinpoche, e abaixo transcrevo a primeira. Preste especial atenção à parte onde ela cita como evoluir para dentro desse novo tipo de experiência de solidão (como quando ela fala da diferença de empenho em termos de segundos).

“Menos desejo é a vontade de estar sozinho sem tentar resolver quando tudo em nós clama por algo para nos alegrar ou mudar nosso humor. Praticar esse tipo de solidão é uma maneira de plantar sementes para que nossa tensão fundamental diminua. Na meditação, por exemplo, toda vez que definimos como “pensar” ao invés de nos pegarmos correndo infinitamente dentro de nossos pensamentos, estamos treinar o estar aqui sem dissociação. Não podemos fazer isso agora porque não viemos fazendo ontem ou anteontem ou semana passado ou ano passado. Depois de um certo tempo praticamente menos desejo de coração e consistentemente, algo muda. Sentimos menos desejo no sentido de estarmos menos fortemente seduzidos por nossas Histórias Muito Importantes. Então mesmo que a solidão fervente esteja lá, e que por 1.6 segundos nós sentemos com nossa tensão quando ontem não conseguíamos sentar nem por 1.0 segundo, essa é a jornada do guerreiro. Esse é o caminho da bravura. Quanto menos descarrilharmos e perdemos as estribeiras, mais desfrutamos da satisfação da solidão serena. Como o mestre Zen Katagiri Roshi dizia frequentemente,  “Podemos estar sozinhos e não sermos jogados no lixo por causa disso”.
— Pema Chödron

Caso não tenha lido, eis o link do primeiro texto desta série sobre a solidão: Virando a solidão de cabeça pra baixo: uma abordagem budista, por Pema Chödron.

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(*) A expressão original em inglês usada por Pema Chödron é “cool loneliness“, que traduzi particularmente aqui por “solidão serena”, pois a palavra “cool” em inglês tem conotações mais amplas e diferentes (frio, fresco, descolado, legal, tranquilo, arrojado, etc) enquanto “serena” se assemelha mais a pacífico e calmo, que no sentido das seis faces dessa experiência parecem ter mais relação. De qualquer maneira, fica esta nota, pois a palavra serena existe em inglês (serene) e Pema usou de fato a palavra “cool”.

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