Ilha da fantasia, realidade de ferro


Lançada em meio a ameaças do governo eleito, série peca por desinformação e superficialidade ao retratar a vida do embarcado, a indústria offshore e o movimento sindical, mas deixa transparecer as contradições da privatização da Petrobrás

Por *Eduardo Henrique | 21/11/2018
Ilha da fantasia, realidade de ferro

No mesmo dia da confirmação do Chicago boy Roberto Castello Branco para a presidência da Petrobrás, acompanhada da declaração de Bolsonaro que a empresa pode ser “privatizada em parte” e enquanto os petroleiros tomavam conhecimento, estarrecidos, que o Exército realizava treinamentos “de garantia da lei e da ordem” na RLAM e na Six, estreava na Globo a série “Ilha de Ferro”.

Ambientada na “PLT-137”, da “Companhia Nacional do Petróleo”, fundeada na Bacia de Santos e cujos protagonistas vivem no Rio de Janeiro, a novela inicia com dramas pessoais e relacionamentos amorosos, para depois enveredar-se por tráfico internacional de heroína, gato em oleodutos, sequestro de navio, invasão de plataforma e até um vírus mortal trazido do oriente médio pelos investidores estrangeiros.

Uma das coisas que incomodam é a retratação pouco fiel do cotidiano de nossas plataformas. Há várias passagens estapafúrdias de total desrespeito às regras de segurança e procedimentos estranhos ao ambiente offshore.

Em alguns momentos, parece um playground com churrasco, champanhe, drogas, piscina, luta de box, futebol e muito sexo. Tem até sexo extraconjugal durante festa de casamento. A gerente e o coordenador se beijam até sob a mira de fuzis e chegam a receber um puxão de orelha pior que o soneto: “isso é uma plataforma, não um cruzeiro romântico”. Em outros, descumprem-se ordens ao bel prazer, jogam-se cadeiras ao alto, chama-se o colega pra resolver conflitos no braço e por aí vai.

Não vemos refletidas o trabalho dos terceirizados, as diferenças das atividades ou condições de trabalho.

A democracia é ampla, o assédio pontual.

Nas top 5 surreais, destaca-se uma passagem durante a greve em que o líder sindical diz pra gerente que ela deverá comparecer ao sindicato para se explicar a receber sua punição (?!).

Quase todos os personagens são leve ou seriamente perturbados. Seria uma opção para sustentar a dramaticidade ou se tenta passar uma caracterização do ambiente profissional e familiar dos petroleiros?

Ao coordenador de produção galã com pinta de playboy marrento cabe reforçar o preconceito do petroleiro “corno”, traído (pelo irmão!) no Carnaval e no Ano Novo,  em função de sua escala de embarque.

O dirigente do Petrosind tem a função de relembrar a campanha “O Petróleo é Nosso” e protestar contra o entreguismo, mas, ao mesmo tempo, deixar a imagem que isto é coisa do passado, ao reforçar o estereótipo do sindicalismo ultrapassado e pelego.

À gerente coube superar o antagonismo machista de seus comandados e afirmar sua liberdade de comportamento. Ainda que por um viés não classista, a denúncia do machismo em vários momentos tem peso importante. O racismo e a lgbtfobia não aparece.

Qual mensagem pretende se passar com o sindicalista sendo pai do ministro e avô da gerente – que o petróleo está no sangue, três gerações de petroleiros? que o sindicalista é amigo do governo e do gestor? que cada um pode pensar do seu jeito, mas todo mundo continua se amando?

Por opção criativa-ideológica ou pelo dever de casa não feito, em um veículo de massas onde não alcançarão posteriores debates ou confrontações com a realidade, a série pode resultar em mais confusão sobre a empresa e a categoria.

Entretanto, podemos identificar também contextualizações bastante interessantes.

Como nesta discussão de bar:

“Petroleiro 1 – [Um brinde] A quem acredita que o petróleo é nosso! Vou ser petroleiro até morrer!
Frequentador – Todo mundo sabe que a empresa em que tu trabalha tá falindo, malandro
Petroleiro 1 – É, mas tá produzindo e muito! Enquanto vc tá aqui jogando sinuca, tem muito cara arriscando a vida pra botar combustível no seu carro.
Petroleiro 2 – Peraí, peraí, ele tá querendo jogar em cima da gente o ódio que ele tem dos corruptos” – e seguem tacos de sinuca quebrados e golpes de jiu jitsu,  pancadaria ao som de No reason to get excited.

Ou em outras cenas como:

. a gerente reclamando da parada de manutenção (“uma hora – 450 mil dólares”) e depois subindo a torre ela mesmo pra fazer a inspeção;

. mandando abrir um poço que poderia causar um acidente astronômico “que vai acabar com o pré-sal”, porque tinha que aumentar a produção para garantir o emprego de 30 colegas;

. o mergulhador terceirizado demitido debaixo d’água quando a gerência de terra comunica o cancelamento do contrato para economizar custos em detrimento da devida manutenção dos equipamentos;

. segurança ambiental x remuneração variável (“se tiver inspeção, perdemos nosso bônus!”)

. e até operação padrão e greve vitoriosa. (“Borracha, o patrão faz terrorismo pra amolecer a gente, mas petroleiro não amolece!”)

“O capital não tem fronteira. O petróleo não é mais nosso”

No 8º episódio, misturando alhos com bugalhos, é anunciada a quebra do monopólio, permitindo às empresas estrangeiras explorarem o pré-sal, sem obrigatoriedade da operação pela estatal. Técnicos estrangeiros chegam ao país para avaliarem as plataformas.

“- Vc acha que a gente não tem concorrentes? – O que não falta é estrangeiro interessado no pré-sal, ainda mais agora que o ministro resolveu mudar as regras. – Eu não mudo nada, quem muda é o Congresso.” – discutem pai e filha.

“Só a gente consegue tirar óleo desta profundidade. E nós vamos ter que ensinar”; “Se vc for mandado embora, o que vai fazer?”

“Minha vida é aqui, terra é uma merda”; “Ela não tá aguentando, todas as mulheres são loucas”; “Se a gente seguir o padrão, não tira uma gota do fundo do mar”; “Os noruegueses vão ser nossos donos”.

O adoecimento do trabalhador revelado em transtornos psicológicos retroalimentados por problemas na família de um embarcado, a pressão pela produtividade, o machismo (denunciado em cenas no ambiente do trabalho e também de violência doméstica) e outros temas presentes aqui e ali poderiam ter mais peso e uma abordagem mais séria, real, profissional, profunda e classista, parâmetros os quais o folhetim não pretende alcançar, por opção política e comercial.

Além, é claro, do tema da entrega de nossas reservas, que está presente mas com pouco tempo, pouca seriedade, quase nenhuma carga emocional – alguns segundos no noticiário, um ministro privatizador simpático versus seu pai burocrata sindical e sua filha gerente vagamente discordante – e uma postura resignada dos trabalhadores.

Organizemo-nos pois para que a arena real da luta de classes nos brinde com uma “2ª Temporada” com final feliz. A vida real não cabe na telinha e, nela, os heróis e heroínas somos nós!

———-

Vale registrar a qualidade técnica e interessantes opções estéticas, além da cuidadosa trilha sonora, como na cena já citada e no “trocadilho” da soldagem submarina ao som de Smoke on the water.

Fora o fato de geral se pegar o tempo todo. É tipo 9 1/2 semanas de amor, só que bezuntados de óleo.

*Eduardo Henrique é diretor da FNP e do Sindipetro-RJ

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