Síndrome de Asperger (SA) ou Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN): qual o diagnóstico correto?


Relógio X Prato

Por Audrey Bueno

Graduada em Psicologia e tradutora de artigos nas áreas de neurociências, psicologia e psiquiatria

É comum haver considerável confusão entre as duas condições, pois há diversos traços comportamentais similares, ou seja, são transtornos com algumas sobreposições de sintomas, o que, num primeiro olhar, pode fazer com que uma pessoa seja diagnosticada com a síndrome de Asperger (SA) enquanto, na verdade, sua real condição é o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), ou vice-versa. A saber, a SA é um transtorno de base neurobiológica, enquanto o TPN é considerado um transtorno de personalidade, ou seja, muito mais moldado por ocorrências na história de vida e escolhas conscientes do indivíduo do que o autismo, que é inato e independe de escolhas conscientes de seu portador.

Mark Hutten, um terapeuta americano especializado em educação e aconselhamento de indivíduos afetados por desordens do espectro autista e autor do site My Aspergers Child, diz o seguinte:

“A síndrome de Asperger (SA) e Autismo de Alto Funcionamento (AAF) são geralmente confundidos com o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN). O motivo para essa confusão é compreensível uma vez que alguns dos sintomas encontrados em pessoas com SA e AAF também são encontrados em indivíduos com TPN. […] Apesar das similaridades, a diferença entre a Síndrome de Asperger/Autismo de Alto Funcionamento (SA/AAF) e o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) é ampla.” (Hutten, 2016 – O artigo original em inglês pode ser acessado aqui.)

É importante conhecer a diferença entre ambas as condições dado que o transtorno narcisista costuma ter implicações bastante diversas do autismo, tanto para quem tem o transtorno quanto para as pessoas ao redor, servindo como um alerta de diferentes formas. O transtorno narcisista pode ser mais grave do que o senso comum supõe, não somente pelo alto potencial de causar danos significativos à vida de seu portador e às das pessoas de seu convívio, como também pelo fato de que a extremidade severa do seu espectro pode associar-se à psicopatia. Quando o autismo foi descoberto, há algumas décadas, chegou a receber nomes como ‘esquizofrenia infantil’ e ‘psicopatia infantil’, mas tais nomenclaturas foram sendo removidas à medida que uma observação mais acurada e avanços no campo da psiquiatria demonstraram tratarem-se de transtornos essencialmente diferentes.

Embora atualmente um médico bem treinado tenha clara consciência da diferença entre ambos os quadros, há, ainda, muito equívoco, não somente por parte da própria área de saúde mental, ainda bastante heterogênea na profundidade de conhecimentos e condução dos atendimentos, como também por parte da população, dada o fato de que termos como ‘narcisismo’ e ‘psicopatia’ se tornaram populares, apesar de pouco compreendidos.

As principais características que envolvem um diagnóstico de autismo são: comportamento repetitivo, assuntos de interesse restritos e obsessivos, dificuldades na socialização e na linguagem, déficits na teoria da mente (falta de empatia cognitiva), problemas de regulação emocional e hipersensibilidades sensoriais.

As principais características que envolvem um diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista são: sentimento de grandiosidade (nem sempre explícito), busca excessiva por admiração, necessidade de depreciar o outro, falta de compaixão/descaso pelos sentimentos alheios (falta de empatia afetiva), fixação em fantasias acerca de poder/sucesso/inteligência/aparência física, manipulação e exploração dos recursos alheios para ganho pessoal, sentimentos de inveja e competitividade excessiva.

Tanto na síndrome de Asperger (SA) quanto no Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), a prevalência é maior em homens. Porém, enquanto a SA ocorre em cerca de 1% da população, a estimativa é de que o TPN ocorra em cerca de 2 a 6% da população. Alguns pesquisadores chegam a considerar uma prevalência para o TPN entre 2 e 15%, sendo tal janela de cálculo extensa devido à variação das formas de apresentação do transtorno e à amplitude do espectro em que o TPN se insere, bem como ao fato de que uma parte considerável da população costuma apresentar traços do transtorno sem que se configure o quadro completo, podendo confundir as estatísticas. Tais questões associadas ao reduzido número de pesquisas desenvolvidas até a presente data e ao fato de que grande parte dos portadores de TPN não costuma procurar ajuda médica (diferentemente dos autistas, que são levados a um profissional de saúde mental com mais frequência e, na maioria das vezes, ainda na infância) acabam por dificultar o estabelecimento de uma prevalência mais exata.

O DSM (Manual Estatístico de Doenças Mentais) define o “Transtorno de Personalidade Narcisista” como pertencente ao Cluster B, onde também se insere o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA), evidenciando a conexão entre ambos os quadros. Os termos ‘sociopatia’ e ‘psicopatia’ não são usados como nomenclaturas oficiais de diagnósticos, de modo que o indivíduo que apresente estes tipos de funcionamento receba o diagnóstico de TPA, embora haja alguns pesquisadores que não considerem o TPA o mesmo que psicopatia. De qualquer modo, as similaridades são massivamente maiores que eventuais dissimilaridades. Alguns especialistas acreditam que o Transtorno de Personalidade Narcisista pertença à extremidade leve do espectro do Transtorno de Personalidade Antissocial, uma vez que tenham praticamente os mesmos sintomas, sendo seu principal fator diferencial em relação à impulsividade que acarreta no descumprimento das leis e regras sociais: o perfil narcisista, mesmo discordando, tende a obedecê-las, enquanto o perfil antissocial costuma transgredi-las mais facilmente, podendo envolver-se em atividades ilícitas com maior frequência. Uma revisão de literatura sobre doenças mentais em detentos mostrou que 47% dos homens e 21% das mulheres tinham o Transtorno de Personalidade Antissocial. (Patrick & Christopher, 2005).

A palavra “cluster” significa “grupo, ramo, agrupamento”. A psiquiatria classifica os transtornos de personalidade em clusters (A, B e C). O autismo não se insere em nenhum desses clusters, por não se tratar de um transtorno de personalidade, e sim de um transtorno neurobiológico.

Um transtorno de base neurobiológica provém de formação deficiente em determinadas áreas do cérebro responsáveis por determinadas funções. É sabido que uma das áreas do cérebro comumente prejudicadas no autismo é a região do lobo frontal, que não é capaz de desenvolver todas as suas funções de maneira típica, ou seja, seu funcionamento é, portanto, neurodiverso. Para ler mais sobre os déficits no lobo frontal no autismo, acesse o post “Autismo e Prejuízo no Lobo Frontal” clicando aqui.

Um transtorno de personalidade, por outro lado, tem causas diferentes, estando primariamente associado a traumas e dificuldades diversas que tenham interferido na adequada formação do Self (unidade de personalidade e identidade) do indivíduo nos anos iniciais de vida. Pesquisas sugerem a possibilidade da influência de fatores genéticos que possam gerar maior fragilidade psíquica em determinados indivíduos, tornando-os mais propensos a determinados comportamentos e mais suscetíveis às adversidades ambientais, embora tais estudos ainda sejam insuficientes. No entanto, é comum a presença de traços similares em membros da família e exames de imagens do mapeamento cerebral de psicopatas demonstraram menor acionamento nas áreas do cérebro responsáveis pelo processamento das emoções e capacidade de empatia, em comparação a pessoas sem este transtorno, o que sugere a presença de algum fator constitucional para além do psicoafetivo. Se considerarmos a correlação do Transtorno de Personalidade Narcisista com o espectro da psicopatia (Transtorno de Personalidade Antissocial), pode-se supor que tais influências genéticas também estejam presentes, ainda que em menor proporção.

A saber, nem todo psicopata expressará suas tendências através de ‘assassinatos em série’, como muitos acreditam. Estima-se que não mais que 20% dos psicopatas engajem em atividade criminosa. No entanto, a capacidade de causar profundos danos psicológicos e emocionais aos outros é praticamente certa, dada a natureza do transtorno e o fato de que convivem em sociedade.

O Dr. James Fallon, neurocientista da Universidade da Califórnia, diz a seguinte frase para ilustrar a interdependência entre a influência genética que torna o indivíduo propenso a determinados comportamentos e a ação negativa do ambiente (traumas, maus tratos e afins) que possa desencadeá-los: “O gene carrega a arma e o ambiente puxa o gatilho.” Embora a frase não explicite o fator consciência em relação às atitudes de portadores de transtornos de personalidade, a analogia é bastante válida, afinal, famílias e ambientes disfuncionais aumentam significativamente as chances do “gatilho” ser puxado.

A seguinte descrição dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento e funcionamento do Transtorno de Personalidade Narcisista, feita por especialistas, conforme artigo publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, nos esclarece um pouco mais sobre a natureza desse transtorno:

“O Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) pode ser caracterizado por uma identidade superficialmente unificada, criada como tentativa de escapar da angústia da fragmentação interna. Contudo, esta estrutura do Self não proporciona uma experiência integrada de si e dos outros que a formação de identidade normal proporciona. Em vez disso,o senso de Self no TPN baseia-se na atribuição do indivíduo para si de todas as características e estados de afeto que sejam bons ou desejáveis, enquanto relega aos outros tudo o que for desvalorizado. Esta estrutura patológica do Self, referida como “self grandioso”, protege o indivíduo da angústia da fragmentação interna, mas às custas de um autoconceito superficial e frágil baseado na necessidade de ser excepcional e associado a dificuldades em estabelecer relações mútuas com as outras pessoas. Sempre que o indivíduo experiencia algo que possa ser um bloco construtor do self – um interesse, uma ideia – elementos agressivos e críticos na mente do sujeito atacam tais elementos através da autorreflexão de não ser bom o bastante, interferindo na capacidade do indivíduo de absorver qualquer coisa de valor. Assim, o self grandioso provê algum grau de estabilidade, mas às custas de estagnação e vazio interior. É como se o indivíduo desenvolvesse uma narrativa que absorve tudo o que é bom, mas que não corresponde à complexidade emocional humana ou à realidade da vida.” (Do artigo: “Narcissistic Personality Disorder: Challenge of Understanding and Diagnosis” (Transtorno de Personalidade Narcisista: Desafios de Compreensão e Diagnóstico), por Frank Yeomans, Ph.D., professor de psiquiatria e diretor do Institute of the Weill Medical College of Cornell University, e Eve Caligor, M.D., professora clínica de psiquiatria na Columbia University de Medicina.)

Compreendendo Melhor os Equívocos entre Ambas as Condições

Como indivíduos com a Síndrome de Asperger (SA) costumam ter dificuldade de compreensão da perspectiva do outro (déficits na Teoria da Mente) e tendem a fechar-se em seus assuntos de interesse, isso os faz parecer egoístas e indiferentes às outras pessoas, o que, num olhar mais superficial, se assemelha ao descaso em relação ao outro presente no narcisismo e com o conceito popular que a maioria das pessoas adota: que narcisismo seja apenas um termo de uso corrente para descrever alguém egoísta e presunçoso (que se ache superior aos demais).

No Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), é comum que o indivíduo passe muito tempo preocupado com poder, sucesso e aparência física. Os acometidos costumam ter egos frágeis e a necessidade de desprezar os outros na tentativa de validarem sua necessidade de superioridade. Costumam ter baixo nível de empatia afetiva e pouco ou nenhum remorso em causarem danos a outras pessoas em benefício próprio. Estes não são traços comumente observados em portadores da Síndrome de Asperger.

Há dois subtipos principais no Transtorno de Personalidade Narcisista, que são o “aberto” (do inglês, “overt”) e o “encoberto” (do inglês, “covert”). O primeiro subtipo (overt) é muito mais fácil de ser identificado, inclusive por se parecer mais com a ideia popular do que um ‘narcisista’ seja, por apresentar comportamento notoriamente exibicionista, demonstrando ego inflado, excessiva autoconfiança, traquejo social, ações intimidadoras, agressivas e claramente despreocupadas em passar por cima dos sentimentos das outras pessoas. No segundo subtipo (covert), também chamado de “vulnerável”, o perfil de personalidade é bastante introvertido, pouco hábil socialmente, e seus ideais de grandeza costumam estar disfarçados por uma aparente humildade, dada a preocupação com a forma como será visto pelos demais, à medida em que secretamente deprecia os outros e se percebe como superior, apresentando maior propensão a sentimentos de menos valia, ilusões paranoides que envolvem a ideia de estar sendo perseguido, depreciado ou diminuído, baixíssima tolerância à frustração e à menor possibilidade de crítica (real ou imaginária), hipersensibilidade e ansiedade.

Este segundo subtipo, o narcisista encoberto ou vulnerável (covert), é o que mais costuma ser confundido com pessoas no espectro do autismo, especialmente no tocante à tendência ao isolamento e menor habilidade social e à baixa tolerância à frustração acompanhada de quadro ansioso.

O TPN, assim como a maior parte das doenças mentais, costuma estar acompanhado por outras comorbidades, algumas delas podendo gerar sensibilidades que também lembram o autismo, o que amplia a confusão. É comum haver, por exemplo, transtornos alimentares, que podem ser confundidos com as sensibilidades sensoriais ao paladar que são frequentes em pessoas autistas. Como a ansiedade costuma ser elevada e sentimentos paranoides tendem a estar presentes, o indivíduo com TPN, muitas vezes, apresenta dificuldade de regulação emocional e cerca de 50% desenvolve depressão. Transtornos de ansiedade e depressão também são comorbidades comuns no autismo. Os altos níveis de ansiedade frequentemente presentes em portadores do Transtorno de Personalidade Narcisista costumam acarretar considerável nível de exigência para certos detalhes de sua rotina diária, que pode tornar-se rígida em certos aspectos, não sendo incomum a presença de traços do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), ou mesmo sua manifestação completa como comorbidade, assemelhando-se, mais uma vez, a quadros de autismo de alto funcionamento, que também apresentam comportamento ritualístico.

Elsa Ronningstam, PhD, que é professora associada da Harvard Medical School em Boston e psicóloga clínica no McLean Hospital, em Massachusetts – USA, diz:

“O Transtorno de Personalidade Narcisista ocorre geralmente em comorbidade com outros transtornos psiquiátricos para os quais o tratamento costuma ser buscado […] especialmente o abuso de substâncias, transtorno bipolar, transtornos alimentares ou transtorno depressivo maior.” (Ronningstam, 2016)

A repetição de ações/rotina rígida costuma ser muito mais acentuada no portador de SA do que num quadro de TPN, pois a dificuldade de regulação da repetição de ações tem como base um déficit neurobiológico no autismo, ou seja, boa parte desse comportamento é muito menos moldada por escolhas intencionais do sujeito, sendo este mais um fator que contribui para o diagnóstico diferencial. A pessoa autista tende a insistir mais na mesmice e a desenvolver hiperfocos mais duradouros – que podem até mesmo permanecer por toda uma vida – do que o portador do transtorno narcisista que, apesar do estabelecimento de uma rotina rígida, apresenta maior interesse em variar experiências e buscar novidades, inclusive reciclando e reinventando seus interesses com maior frequência, e uma descompensação emocional (explosões e impulsividade) menor quando sua rotina é quebrada ou quando algo inesperado acontece do que a observada em pessoas com autismo.

Outro ponto diferencial, ainda relacionado à rigidez mental, está no cumprimento de regras ou acordos. Pessoas com a síndrome de Asperger são muito mais propensas a cumprirem com algo que tenha sido acordado e a esperarem das outras pessoas a mesma aderência rígida a alguma condição previamente estabelecida, uma vez que tendem achar que os outros sentem e agem como elas próprias, dada a dificuldade com a Teoria da Mente, que limita a capacidade que possuem em perceber a perspectiva do outro. Elas dificilmente mudam de opinião ou sentimento em relação a alguma coisa.

Pessoas com o transtorno narcisista, por outro lado, mudam de ideia ou sentimento com frequência, flexibilizando suas normas internas conforme lhes convier para o momento, quebrando regras ou desconsiderando acordos com muito mais facilidade que a pessoa com autismo. Em ambiente profissional, é notável a responsabilidade e esforço da pessoa com Asperger em cumprir com o que quer que lhe tenha sido atribuído, o que costuma ser bastante valorizado por seus empregadores, embora haja considerável dificuldade da pessoa com SA em aceitar as falhas alheias, de modo que se saiam melhor em atividades individuais do que em grupos. Enquanto a pessoa com Asperger cumpre com o que se espera dela por uma necessidade interna em seguir a regra e ‘fazer o que é certo’, a pessoa com TPN, quando cumpre uma responsabilidade profissional, costuma fazê-lo por outros motivos, tais como mostrar-se boa o bastante (pois sempre compete para ser a melhor), manter o emprego ou, então, pelo desejo de conseguir boas avaliações que lhe permitam subir na hierarquia organizacional, pois geralmente almejam o poder conseguido através de cargos de liderança. A preocupação com o poder e cargos de chefia não costuma fazer parte das características do portador de SA.

Outro aspecto diferencial entre a SA e o TPN é que o narcisista esconde suas reais motivações dos demais por ter consciência e receio da reprovação social a que estará sujeito, tendo maior capacidade de portar-se conforme o contexto, algo que a pessoa autista não consegue fazer tão bem, sendo comuns falas indevidas em situações  impróprias e observações que, por vezes, podem soar rudes aos demais.

A distinção entre Asperger e Narcisismo depende, ao menos num primeiro momento, do conhecimento da real natureza e forma de pensar por trás do comportamento observado, em vez de somente da análise do comportamento em si. Sem o conhecimento da essência subjacente ao comportamento observado, é provável que, a princípio, o indivíduo receba o diagnóstico de autismo – tanto pela relutância em revelar-se mais abertamente ao médico, como pelo fato de serem comuns consultas apressadas ou médicos pouco experientes – para apenas mais tarde, após acompanhamento e avaliação mais aprofundada, chegar-se à conclusão de que o quadro real seja de Transtorno de Personalidade Narcisista, ou mesmo Sociopatia ou Psicopatia, configurando o Transtorno de Personalidade Antissocial.

Geralmente, o médico psiquiatra vai, aos poucos, observando no paciente uma capacidade de compreensão do estado mental das outras pessoas muito mais desenvolvida do que seria de se esperar para um quadro de autismo, maior adequação/controle social durante a interação, bem como falas, pensamentos e intenções específicas que denotem outras nuances do transtorno narcisista, tais como: preocupações acima da média com autoimagem, humilhação ou temas acerca de poder e controle; investimento em relacionamentos interpessoais com foco na análise de custo/benefício que a relação oferece em vez da valorização do parceiro ou do sentimento em si; pensamento de grandiosidade acentuado (evidente ou mascarado) e, muitas vezes, não correspondente à realidade de vida atual do indivíduo; ações manipuladoras e/ou desprovidas de remorso e compaixão. Tais características não costumam estar presentes num quadro de Asperger, conforme poderá ser observado nos artigos traduzidos mais adiante.

É Possível Identificar o Transtorno de Personalidade Narcisista na Infância?

O transtorno narcisista pode revelar indícios desde a infância, assim como ocorre na sociopatia e psicopatia. Porém, como crianças costumam naturalmente ter comportamentos narcisistas, a presença de tais traços não costuma despertar alerta e é, por vezes, difícil estabelecer uma linha divisória entre normal e patológico. No entanto, frieza emocional, falta de remorso e tendência a maus tratos aos animais são sinais que nunca devem ser ignorados, pois podem relacionar-se ao extremo mais severo do espectro do narcisismo, mais precisamente à psicopatia. Se a criança apresenta tais traços, é importante levá-la para uma avaliação psicológica e desenvolver estratégias para lidar com o problema o quanto antes, na tentativa de interferir positivamente na formação da personalidade antes que ela se consolide.

O reconhecimento clínico oficial do TPN não se dá antes da adolescência, assim como ocorre com qualquer transtorno de personalidade, uma vez que crianças ainda estejam em processo de formação de identidade e a psiquiatria entenda que não seja possível diagnosticar um transtorno numa personalidade que ainda não se constituiu por completo. Por isso, costuma-se reconhecer o transtorno como tendo início apenas no começo da fase adulta, que é quando seus traços se tornam realmente evidentes, inclusive pelo fato de que certos traços narcisistas que antes teriam sido considerados normais por pertencerem à infância, não deveriam mais estar presentes na fase adulta. O mesmo já não ocorre com o autismo, que é um transtorno diagnosticado muito cedo, de forma que a criança já possa ser reconhecida como portadora em torno dos 3 anos de idade (ou até 7 ou 8 anos em casos muito leves).

Uma vez que o transtorno narcisista tenha como fator central de suas causas a vivência de traumas e um ambiente familiar perturbado, é possível que a criança demore a iniciar o processo de fala, apresente comportamentos ansiosos, transtornos alimentares ou tendência ao isolamento social, que são todas manifestações possíveis diante de quadros traumáticos ou de negligência parental, o que poderia levá-la a ser confundida, num primeiro momento, com uma criança com autismo. Os sintomas são parecidos, mas as causas são diferentes. Pais de crianças com autismo que ainda não tenham um diagnóstico, sofrem, algumas vezes, acusações injustas de pessoas que interpretam esse tipo de sintomatologia como relacionada a traumas ou problemas na criação. No entanto, alguns fatores são determinantes na diferenciação entre estas duas condições na primeira infância. A presença dos elementos a seguir relaciona-se ao autismo e não a um transtorno de personalidade:

  • Comportamento excessivamente rígido, repetitivo, ritualístico.
  • Hiperfoco em assuntos obsessivos e interesses restritos, geralmente referentes a objetos.
  • Explosões emocionais constantes e intensas (‘birras’ ou choro excessivo) por coisas aparentemente insignificantes ou pelo não cumprimento de algum dos rituais existentes.
  • Descompensações emocionais e comportamentais frente a mudanças na rotina.
  • Hipersensibilidades sensoriais (audição, toque, paladar, visual ou olfato).

Impacto nas Relações Sociais

Embora o convívio com pessoas com os ambos os transtornos possa ser emocionalmente custoso, especialmente nas relações onde haja maior proximidade (parceiro afetivo, filhos, irmãos, pais), é fundamental compreender as implicações de cada caso.

O narcisismo é um déficit em se importar com os outros. A síndrome de Asperger é um déficit de compreensão social. Essa diferença tem implicações cruciais. Enquanto portadores de TPN costumam não sentir remorso pelo mal causado apesar da consciência do mesmo, pessoas com autismo sentem remorso quando conseguem tomar consciência do impacto de suas ações. Portanto, será o indivíduo narcisista o que mais gerará abuso emocional e danos à integridade – física, moral e/ou emocional – das pessoas com quem conviver.

Na SA, o déficit na Teoria da Mente faz com que o indivíduo tenha dificuldade em compreender a perspectiva das outras pessoas, levando à falta de consciência do impacto de suas ações nos demais, além da tendência repetitiva e obsessiva do seu funcionamento cerebral, que costuma isolá-lo por horas dos demais ao dedicar-se ao seu hiperfoco, de modo que tal indiferença não seja intencional. No TPN, por outro lado, a capacidade de compreensão da perspectiva alheia está preservada e, portanto, também a consciência do impacto das ações no outro, e o que ocorre é uma escolha consciente em excluir os demais quando imerso em atividades de interesse, de forma que a indiferença observada seja intencional.

Pessoas no espectro do narcisismo não têm empatia afetiva. Isso significa que elas não podem “sentir” a dor do outro, embora tenham consciência dela. Em contraste, pessoas no espectro do autismo não têm empatia cognitiva. Isso significa que elas têm dificuldade para compreender o estado mental do outro, mas sua capacidade de sentir está intacta.

Portanto, uma diferenciação importante entre indivíduos no espectro narcisista e indivíduos no espectro do autismo está nos diferentes tipos de deficiência da empatia. Alguns pesquisadores sugerem a hipótese de que uma mesma pessoa possa apresentar ambos os tipos de déficits simultaneamente, mas tal ocorrência seria bastante rara e quase não há menção a casos assim na literatura médica, mesmo porque certas características do narcisista (compreensão social, capacidade de manipular/fingir e agir do modo certo quando lhe convém e frieza emocional) não costumam integrar o perfil de pessoas autistas, o que, por si só, costuma tornar um diagnóstico excludente do outro. Há especulações em relação a alguns casos de atiradores em massa, cujos assassinos teriam sido identificados como portadores de autismo, quanto à real confiabilidade do diagnóstico, e se não teriam tido um Transtorno de Personalidade Antissocial, com eventuais comorbidades, confundido com autismo, pois a frieza e premeditação dos crimes não são características comumente encontradas em pessoas autistas, cujas eventuais manifestações de raiva e violência tendem ser impulsivas e imediatistas, ou seja, reativas no ‘calor do momento’.

Em ambiente profissional, colegas de trabalho ou, especialmente, chefes com perfil narcisista costumam levar seus subordinados (ou um deles, que seja o alvo do momento) à exaustão mental e emocional e é frequente o afastamento da pessoa afetada por motivos de stress intenso, descompensação emocional e psicológica, sensação de estar ficando louca dadas as situações manipuladoras e enganosas a que foi submetida sem que houvesse testemunhas, de modo que lhe seja difícil explicar ou provar sua inocência em tramas em que se veja envolvida, além de sofrer traumas, fobias e danos à autoestima que podem trazer repercussões sérias para toda uma vida, em especial se a pessoa não tiver acesso a tratamento profissional. O portador de TPN tende a manipular, desvalorizar, enganar e – dependendo do subtipo de narcisismo a que pertence – expor o outro. O portador de SA, por outro lado, poderá causar inimizades e afastamento dos colegas devido a falas ásperas e aparente desinteresse em socializar-se ou participar das brincadeiras e trivialidades típicas sociais, mas não estará engajado em manipulações e ataques intencionais aos colegas ou subordinados.

Outras relações sociais com perfis narcisistas sofrerão impactos similares, tais como amizades (sendo maior o dano quanto mais próxima for a interação e maior a confiança depositada no narcisista) e parceiros afetivos, sendo estes últimos os mais especialmente afetados, dada a natureza íntima da relação.

Relacionamentos Amorosos com Portadores de TPN

O indivíduo com funcionamento narcísico costuma causar feridas emocionais profundas, colapso, despersonalização e esvaziamento emocional em seus parceiros através de um padrão típico de relacionamento disfuncional narcísico conhecido como “valor, desvalor e descarte”.

No início do relacionamento, o parceiro costuma receber um “bombardeamento” de amor, ou seja, o narcisista dará demonstrações excessivas de atenção e afeto, como o envio de mensagens diárias, esforços incansáveis para encontrar a outra pessoa a todo instante, exagero de elogios tais como dizer que o parceiro é um ser divino, a pessoa mais importante dentre todas, um magnífico príncipe ou princesa, oferta constante de presentes e rápidas promessas de uma vida juntos, casamento, filhos, etc. Esta primeira fase se parece  com o que comumente se vê nos estados típicos de apaixonamento, exceto pelo fato de que um estado de apaixonamento convencional costuma ser menos exagerado, as promessas de vida não surgem de imediato e o efeito do apaixonamento costuma durar de seis meses a dois anos, em média, diminuindo gradativamente e dando lugar a um maior companheirismo, enquanto para o narcisista essa fase dura um mês ou dois, em média, e acaba repentinamente, literalmente de um dia para o outro, causando um estado de confusão e sentimento de rejeição e inadequação no parceiro, que, num primeiro momento, costuma achar que fez algo errado que tenha decepcionado o narcisista.

Esse resfriamento repentino, quando tudo parecia tão bem, é o início da fase conhecida como desvalorização. Nessa etapa do relacionamento, o outro passa a ser (aberta ou disfarçadamente) desvalorizado, invejado, inferiorizado, depreciado (muitas vezes falando mal do parceiro para os outros), rejeitado (são comuns falas que façam o parceiro se sentir pouco interessante ou desejado, demonstrações de aversão ao toque ou de falta de interesse em sexo) e criticado por suas ‘imperfeições’, que são, na maioria das vezes, projeções exageradas ou não existentes, para que, finalmente, geralmente de forma abrupta e inesperada, ocorra – inevitavelmente – a terceira fase, conhecida como descarte. O parceiro narcisista costuma simplesmente sumir sem qualquer explicação, passa a não responder mais as mensagens ou atender as ligações do parceiro, oferecendo apenas completo desprezo, desconsideração e frieza emocional, como se tivesse descartado um objeto em vez de um ser humano.

O portador do TPN não é considerado psicótico, ou seja, não apresenta perda do contato com a realidade, pois mantém intacta a noção de certo e errado e é capaz de organizar conscientemente suas ações. No entanto, estão presentes no transtorno processos de distorção da realidade através de projeções acentuadas, que são centrais ao quadro. Como seu ego frágil evita continuamente entrar em contato e reconhecer suas próprias falhas e limitações, o narcisista projeta o que é dele no outro, quer seja numa única pessoa, quer seja num grupo social específico, que idolatre ou passe a odiar.

Assim, no início do relacionamento, ele projeta seu ideal de perfeição no outro, mas, quando se dá conta da presença de alguém na relação que não seja ele mesmo (no mito que deu origem ao nome desse transtorno, Narciso apaixonou-se por si mesmo), e sim uma outra pessoa com desejos, necessidades e qualidades próprias que, portanto, não pertençam unicamente a ele ou que não sirvam apenas aos desejos dele, o narcisista se ressente e passa a projetar toda a sua baixa autoestima, fraqueza de caráter, sadismo, insuficiências e raiva de si mesmo no outro, como forma precária, comodista e egocêntrica de preservar o falso self grandioso que criou para lidar com o próprio sentimento de menos valia e auto desprezo, depositando no parceiro toda a culpa e detrito interno que, na verdade, a ele possuem. Ao descartar o parceiro, portanto, ironicamente descarta a si mesmo. Quanto mais a relação o lembrar de suas próprias falhas e ameaçar seu senso de grandiosidade, maior será o ataque à outra pessoa.

Quadros mais leves de narcisismo ou, então, interesses secundários que tornem o parceiro especialmente ‘valioso’, tais como status, vantagens financeiras/materiais, um parceiro que funcione como ‘secretário’ para os assuntos do dia a dia ou que seja uma fonte importante de subsistência, podem permitir a existência de relacionamentos de longo prazo, porém geralmente às custas de constantes desvalorizações, traições (que podem ser de diversos tipos), desprezo e humilhações infligidas ao parceiro, que acaba se submetendo ao relacionamento abusivo em que se vê enredado por não encontram meios – práticos (como uma mãe que depende da ajuda do parceiro para criar os filhos, por exemplo) ou psicoafetivos (comuns em vítimas de abuso) – para se livrar do abusador.

Caso a relação ocorra com um membro familiar que não possa ser fisicamente ‘descartado’ através de um rompimento completo das relações e comunicações, como no caso de um cônjuge, pai ou filho, por exemplo, o descarte se torna emocional, através de desprezo.

Finalmente, é comum que esse ciclo se repita com novos parceiros, ou se reinicie com o parceiro atual, havendo nova valorização, para posterior desvalorização e descarte, de modo que o relacionamento jamais se torne funcional, normal ou saudável, de forma que o abuso emocional e psicológico do parceiro nunca tenha fim.

O portador do TPN, assim como ocorre com a maioria dos transtornos de personalidade, costuma manter o mesmo padrão de funcionamento por toda a vida, de modo que permanecer na relação esperando que a pessoa mude ou melhore seja, infelizmente, uma opção embasada apenas em ilusão, que somente acarretará sofrimento e decepção.

Relacionamentos Amorosos com Portadores da Síndrome de Asperger

O padrão de relacionamento acima descrito para portadores do Transtorno de Personalidade Narcisista não costuma ser observado em portadores da síndrome de Asperger que, apesar de também apresentarem dificuldade na reciprocidade típica das relações humanas, podem ser capazes de manter relacionamentos de longo prazo e demonstrar maior compaixão e consideração pelo sentimento do outro (alguns, inclusive, demonstram isso quando tentam esforçar-se em melhorar) uma vez que consigam compreender a perspectiva alheia. Também não costuma haver manipulação e estilo predatório, bem como frieza emocional e indiferença diante da constatação do sofrimento do outro.

No entanto, a queixa comum das pessoas que convivem com alguém com SA, especialmente quando se trata de um relacionamento amoroso, é de que se sentem vítimas de “privação de afeto”. É comum que o parceiro se ressinta da falta de demonstrações típicas de afeto, como palavras e gestos, ou seja, de expressões mais tangíveis de amor.

Num primeiro momento do relacionamento afetivo, é possível que a pessoa com SA tente reproduzir coisas que aprendeu em filmes ou que leu a respeito como sendo desejáveis num relacionamento, embora sem exageros e sem muito sucesso. O estilo geralmente reservado e frequentemente intelectual e excêntrico do portador de SA pode ser atraente para o parceiro, que, apesar das expressões amorosas contidas, parece ter encontrado um relacionamento seguro e estável, o que costuma realmente ser o caso, pois pessoas com Asperger tendem a ser responsáveis, transparentes e leais. Porém, no decorrer no relacionamento, especialmente após o casamento e instalação da rotina, o parceiro neurotípico deixa de receber as singelas demonstrações românticas que ainda faziam parte da relação, uma vez que o portador de SA vai ganhando intimidade e liberdade para ser ele mesmo, relaxando as preocupações em agir de forma romanticamente adequada que haviam no início do relacionamento, uma vez que demandam alta energia mental e causam stress, envolvendo-se no próprio mundo com a frequência e intensidade típicas de sua condição natural. Não é um processo planejado, e o portador de SA, muitas vezes, sequer se dá conta das necessidades do outro, ou então, caso o parceiro lhe diga do que sente falta, pode não ser compreendido, de fato. Como a pessoa com SA tem dificuldade de expressão emocional, acaba se abstendo de qualquer reação, focando a atenção unicamente naquilo que compreende, dentro do seu mundo lógico e racional.

A dificuldade com a expressão das próprias emoções não significa que não existam, pelo contrário, podem senti-las com intensidade, mas a forma de expressão costuma ser diferente, como, por exemplo, demonstrar seus sentimentos por alguém em termos mais concretos e práticos, consertando algo ou comprando alguma coisa que a pessoa precise. Além disso, costumam ter menor necessidade de vivências afetivas que a pessoa neurotípica. Seria como se a necessidade afetiva fosse, para o portador de SA, como um copo, sendo rapidamente preenchido, causando stress em caso de transbordamento, enquanto o parceiro neurotípico tivesse um balde precisando de muito mais conteúdo para enche-lo. Não nos esqueçamos, no entanto, que tudo isso ocorre num espectro, bem como do fato de que mulheres com Asperger tendem a ser mais expressivas no afeto que homens com a síndrome, embora menos se comparadas a mulheres neurotípicas.

Como o autismo costuma causar um estilo mental de extremos, muitas vezes, o portador de SA pode ser excessivamente interessado em sexo ou tornar-se assexual, sendo o segundo caso o mais comum, especialmente depois do casamento ou da chegada dos filhos. É frequente que o parceiro sem SA se veja num relacionamento onde existe a estabilidade do compromisso (por exemplo, sem ameaças de divórcio ou traições), mas se sinta emocionalmente exausto, negligenciado e carente, muitas vezes enfrentando deterioração da saúde mental e quadros de depressão.

A falha na habilidade de compreender a perspectiva alheia acarreta no parceiro sentimentos de ressentimento pela falta de empatia, de gestos de conforto frente a mágoas ocorridas ou de expectativas não correspondidas. Enquanto pessoas neurotípicas costumam ser capazes de ler a expressão corporal e facial do outro com mais eficácia, conseguindo, portanto, compreender o sentimento do parceiro naquele momento, bem como o que pode ter gerado tal reação e o que é possível ser feito como reparação, o mesmo costuma ser bastante difícil para alguém com SA que, ou não consegue ler a linguagem não-verbal apropriadamente, ou não sabe o que dizer ou fazer na situação.

O portador de SA pode encontrar dificuldade em assumir certos aspectos práticos da vida que o parceiro neurotípico pode acabar tendo que arcar de forma que se sinta sobrecarregado, como se exercesse o papel de cuidador.

O diagnóstico acertado se torna crucial para que o portador de SA conheça suas limitações e busque estratégias para melhorar seus relacionamentos interpessoais, e para que o parceiro entenda melhor as dificuldades existentes e leve certos aspectos da relação para um lado menos pessoal, compreendendo inclusive a inabilidade comunicativa do portador de SA, que se agrava quando sob pressão, ansiedade ou stress, podendo torná-lo verbalmente abusivo nessas situações. Geralmente, a pessoa com SA se arrepende do que diz, mas, ainda assim, não sabe como reparar o ocorrido.

É possível obter melhora no relacionamento e no comportamento do portador de SA, mas, para tanto, é preciso um longo trabalho, geralmente com auxílio de um terapeuta que entenda de Asperger, além de muita paciência e dedicação.

Prognóstico

A adequada compreensão de qualquer condição mental existente será fundamental tanto para seu portador – posto que a consciência das próprias dificuldades possibilitará maiores chances de encontrar recursos adaptativos mais adequados para lidar com elas – como para aqueles que convivem com a pessoa acometida.

Pessoas no espectro do autismo podem evoluir e progredir, melhorando suas relações sociais uma vez que desenvolvam maior compreensão da realidade do outro, o que costuma motivá-las a um esforço em melhorar seu padrão comportamental e tornarem-se mais bem ajustadas socialmente. Além disso, a natureza neurobiológica do quadro também alcança, ainda que lentamente, melhorias pelo próprio desenvolvimento/amadurecimento natural do organismo, uma vez que o cérebro tem sempre tendência a buscar reparar prejuízos existentes.

Personalidades narcisistas, em contrapartida, tendem a um padrão permanente de funcionamento, ou seja, propenso a muito pouca ou nenhuma alteração, dado o fato de que a personalidade é, dentre outras coisas, uma adaptação psíquica do ser humano em relação ao ambiente e à sua forma de existir no mundo, sendo fortemente moldada na primeira infância e irradiando seus construtos-base por toda a vida.

Todo ser humano tem potencial para evoluir, de forma que sempre exista a possibilidade de que melhoras sejam obtidas. Porém, em se tratando da modificação de estruturas mais rígidas, como é o caso da personalidade, é preciso muita motivação pessoal, disposição para autoanálise e engajamento em processos terapêuticos para que se obtenha progresso. Nesse ponto, pessoas com um transtorno narcisista acabam tendo chances de melhoria reduzidas dada a pouca motivação em engajar em processos de transformação pessoal, não somente porque não costumam achar que seu comportamento deva ser modificado, como também pelo fato de obterem proveitos que alimentem sua natureza perversa e abusiva.

Outro fator crucial para a obtenção de benefícios em qualquer trabalho terapêutico é tomar para si a responsabilidade do mesmo. Perfis narcisistas não costumam assumir a responsabilidade pelos próprios atos, frequentemente projetando e culpando os outros por suas próprias falhas, e assim o farão também com o terapeuta, que, em dado momento, após uma fase inicial de idealização, passará pela fase de desvalorização, não sendo mais considerado bom o bastante, e inevitável descarte, com o abandono da terapia. Todo esse funcionamento faz com que raramente procurem ajuda profissional, ou, se procuram, o fazem geralmente motivados por quadros de depressão, ansiedade ou outros distúrbios que acompanham o transtorno e geram desconforto para eles próprios, e raramente por alguma preocupação com o desconforto do outro (tudo isso varia num espectro), mas acabam abandonando o tratamento pouco tempo depois, pois, sobretudo, não têm capacidade de vínculo, confiança e comprometimento com outro ser humano (o terapeuta), o que é um pré-requisito central em qualquer terapia.

Quanto à questão do espectro em que as doenças mentais se dão, vale citar que um indivíduo narcisista de grau leve pode eventualmente apresentar algum grau de empatia e consideração, que menor será quanto mais próximo estiver da extremidade severa que adentra a sociopatia ou até mesmo a psicopatia, assim como um indivíduo no espectro do autismo de grau leve pode apresentar maior capacidade de entendimento da perspectiva do outro, embora sempre vá haver um déficit substancial o bastante que justifique o diagnóstico.

Os elementos “consciência” e “perversidade” presentes no quadro narcisista – e não comumente no quadro autista – são os fatores responsáveis pela repulsa geralmente observada na sociedade para com os indivíduos portadores de TPN, afinal, embora esses indivíduos provavelmente tenham sido vítimas no passado, acabaram por constituir uma forma de adaptação psíquica para lidar com sua dor através do desprezo pela dor do outro, ou seja, tornando-se eles próprios os algozes cujas escolhas – agora conscientes – os tornam intencionalmente responsáveis por danos consideráveis às vidas de outras pessoas, o que, aliás, é ilustrado pela ampla gama de publicações na mídia feitas por ‘vítimas’ (como se auto intitulam) de relacionamentos abusivos com pessoas portadoras desse transtorno, evidenciando o elevado grau de sofrimento psicoafetivo e destruição pessoal a que estas pessoas foram submetidas.

Assim, a questão do estigma social é outro fator que pode fazer com que o médico relute em fornecer ao paciente um diagnóstico de transtorno de personalidade.

 

Importante: é preciso estar claro que nenhum ser humano é igual ao outro e variações – tanto em relação ao funcionamento interno do sujeito, quanto às ocorrências específicas de história de vida – evidentemente estarão presentes, alterando a intensidade e severidade dos sintomas, de modo que o presente artigo tenha como único objetivo oferecer uma base informativa geral, não sendo de modo algum a última palavra sobre o assunto ou uma ferramenta diagnóstica, devendo este tipo de avaliação ser feita por um médico da área de psiquiatria.

 


Para saber mais sobre as características, causas e diferenciações entre os dois quadros, seguem traduções de três  artigos: os dois primeiros, escritos por especialistas, apontam as similaridades e não similaridades entre as duas condições, e o segundo traz, ainda, dicas para quem convive com portadores de cada perfil; o terceiro artigo trata especificamente do Transtorno de Personalidade Narcisista e traz uma reflexão da condição sob dois pontos de vista, o de opressor e o de vítima da própria doença mental.

 

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