A doença que deixou Nelson Motta 3 meses paralisado, sem andar


Aos 73 anos, o produtor musical ficou paralisado da cintura para baixo

Maya Santana, 50emais
Com o passar da idade, vão chegando as surpresas desagradáveis. E este caso de Nelson Motta ilustra isso muito bem. No ano passado, aos 72 anos, ele, que é um dos produtores musicais mais conhecidos do Brasil, acabou passando por um episódio traumático. Inesperadamente, não conseguia mais andar. “Minhas pernas viraram geléia”, lembra o ex-companheiro de Costanza Pascolato, que mora sozinho em Ipanema. Ficou assim durante três meses, vítima de uma doença que o paralisou da cintura para baixo. Nesta gostosa entrevista a Maria Fortuna, de O Globo, Nelson Motta fala não só da infermidade, mas um pouco de política, música e amor na maturidade.

Leia:

Uma fístula paralisou Nelson Motta da cintura para baixo, por três meses, no ano passado. Os médicos avisaram à família do produtor musical de 73 anos que ele tinha 50% de chances de voltar a andar. “Minhas pernas viraram geleia”, diz. Nelsinho só soube da gravidade do que vivia depois de duas cirurgias bem-sucedidas e isso talvez tenha sido fundamental para manter a cabeça criativa funcionando enquanto encarava as várias sessões de fisioterapia e os passos lentos em um andador.

“Gravei o Jornal da Globo aqui em casa, me botavam numa cadeira e eu falava, tipo Tancredo”, brinca. A clausura serviu para produzir coisas boas como o “Em casa com Nelson Motta”, um híbrido de jornalismo e entretenimento que vai ao ar na GloboNews, após as eleições, e tem a sala de estar de seu apartamento em Ipanema como cenário.

O período fértil, em que teve, ao pé da cama, a companhia do gato Max, deságua ainda na série de TV “101 canções que tocaram o Brasil” (que será exibida pelo Canal Curta!); no musical “O frenético dancin’ days”, sobre a lendária boate que foi uma ilha de liberdade em plena ditadura (estreia dia 24), e em músicas novas com Lulu Santos, DJ Memê e Guilherme Arantes. Isso sem falar no roteiro das cinebiografias de Roberto Carlos e Rita Lee.

De frente para o mar de Ipanema, o produtor, jornalista e escritor conversou com a coluna sobre política, música, a amizade recente com Anitta, a homossexualidade do parceiro de “Como uma onda” e a baiana de 48 anos, que, há sete meses, conquistou o inveterado namorador. “Vivemos de pequenas luas de mel”.

Caetano Veloso diz que você é o único crítico que não perdeu amigos, por quê?
“Como eu era jornalista e amigo de Chico Buarque, Edu Lobo, Vinicius e Tom, tomei a decisão de nunca perder amigo por causa de nota. Ganhei a confiança deles. A gente bebia, fazia loucuras e nunca cometi uma indiscrição. Então, me davam as notícias em primeira mão.”

Mas escrever roteiro para Roberto Carlos, que proibiu biografia, deve ser delicado…
É a história da vida dele contada por ele mesmo. Só disse o que quis. Mas entendeu que o personagem, para ser crível e humanizado, tem que sofrer, levar pé na bunda, trepar, beijar…

Quem chama sua atenção hoje na música brasileira?
Iza, Tim Bernardes e o Terno, Karol Conka e Silva.

Você também adora Anitta?
Existe preconceito. Anitta é ótima, seria uma maravilhosa cantora da bossa nova se tivesse nascido nos anos 60. Quando a vi entrando no Rock in Rio de Carmen Miranda Dolce & Gabbana, quase chorei. Gosto de conversar com ela pelo Whatsapp, é inteligente, engraçada, se sacaneia.

Ela lança muitas músicas. Hoje, poucos lançam disco…
Adoro isso. Quanta merda a gente teve que engolir de grandes artistas por causa do sistema comercial de obra? O LP deu origem a desperdícios e picaretagens. A era digital liberou: se tem uma música boa ou duas, lança!

Nego do Borel foi criticado pelo clipe em que beija um homem. O conceito de lugar de fala deve estar na música?
Acho o clipe superengraçado. Não se pode defender e apoiar uma pessoa diferente de você? O que interessa é que a coisa seja ouvida.

O que achou da saída do armário de Lulu Santos?
Finalmente! Fiquei feliz. Coincidentemente ou não, o Lulu está em uma das melhores fases da vida. Feliz, bonito, cantando bem, popularíssimo e uma flor de pessoa.

Chico Buarque foi acusado de machismo na música “Tua cantiga”. O que pensa disso?
A canção é ok, não me entusiasmou. Agora, pelo amor de Deus, o que o Chico Buarque já fez pelas mulheres, o que elas já falaram pela boca dele… Se a boca do Chico Buarque não é o o lugar de fala das mulheres, fala sério!

Fala isso como pai de três mulheres (Joana, 48 anos, Esperança, 43, e Nina, 38)?
Virei feminista quando elas nasceram. Não entendo como se pode ser machista tendo filha. Como o cara que tem filha sacaneia as dos outros? Meu único pacto com elas foi o de não mentir. O resto pode. Já deixei de fazer muita merda por elas….

Ainda usa drogas? É a favor da legalização?
Sempre fui a favor da liberação da maconha, fumo moderadamente e sou altamente produtivo e responsável há 50 anos. Tenho uma memória espetacular. Nos estados americanos em que a maconha foi liberada não mudou nada na vida das cidades. Só acabou o tráfico de maconha, que hoje se tornou uma indústria bilionária e paga altos impostos.

Viveu a ditadura, como vê a ascensão da direita?
A disputa não é mais entre esquerda e direita, que se deram mal, mas entre manter os partidos democráticos, ainda que corruptos, contra o pensamento extremista. Há uma multidão de descontentes que não aguenta mais a democracia representativa, o que é perigoso porque ainda é o melhor que podemos ter. A opção é o autoritarismo: Trump, Le Pen, Bolsonaro…

Teremos a eleição mais imprevisível da história?
O Brasil sempre me surpreende. Só lembro o que o meu pai dizia quando eu ficava enlouquecido: “Calma, o Brasil não vai acabar”.

Quais foram seus maiores fracassos na carreira?
O festival “Som, sol e surf”, em Saquarema. A chuva derrubou tudo e todo mundo entrou de graça, eu quase quebrei. O musical que fiz para a Marília (Pêra, então sua mulher), “Feiticeira”, é outro: foi fracasso de público e crítica e abalou o casamento.

Você sempre foi namorador. Quem gostaria de ter namorado, mas não rolou?
Teria namorado a Gal (Costa). Até os 40 anos, solteiro no Rio, dono do Morro da Urca… Era o paraíso. Mas não tenho mais tempo nem saúde para isso. Não estou mais atrás do grande amor, eu quero sossego, cumplicidade, amizade, como tenho com a Adriana, uma baiana que mora em Brasília e que reencontrei. Estamos juntos há sete meses.

Quem namoraria hoje?
Minhas amigas Sonia Braga, Maitê Proença, Marília Gabriela, Vera Holtz, Patrícia Pillar, Bruna Lombardi, Renata Sorrah… Já conheço e gosto. Mais recentemente, estou namorando Fabiula Nascimento, Adriana Esteves, Letícia Colin, Deborah Secco e Giovanna Antonelli simultaneamente! Não perco “Segundo sol”.

Como vê a questão do assédio?
Sou a favor da multa (contra cantadas) que aprovaram na França. Pau nesses vagabundos! Nunca falei barbaridade para mulher na rua. A última coisa que um cara desses quer é comer aquela mulher. Quer ofender, rebaixar, aviltar, diminuir. Terrível também é esse assédio de chefe, uma covardia. Nunca entendi o lance de teste do sofá. Se soubesse que a pessoa deu para mim para subir, ficaria humilhado.

Aos 73, que balanço faz da vida?
Me considero um privilegiado e faço o possível para devolver os privilégios. Escrevo para alegrar as pessoas. Minha vida de jornalista era um Facebook humano porque eu vivia de curtir e compartilhar.

Tem medo da morte?
Lido bem com a idade. Apesar dos problemas de saúde que enfrentei, minha cabeça sempre esteve boa. Não sei se há dez anos eu trabalhava tanto quanto hoje. Agora, tenho noção do ridículo, pavor de coroa metido a broto. Aprendi com a Costanza Pascolato (sua ex-mulher) que elegância é adequação. Tenho medo é de sofrer. Morrer, paciência.

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