A meditação e o comportamento compassivo


compassion-300x217

Essas questões estavam no coração de um estudo recente liderado por Paul Condon, um estudante de pós-graduação em psicologia social, do Dr. David DeSteno na Northeastern University. O experimento ofereceu aos participantes oito semanas de instruções de meditação. Em encontros de duas horas por semana, para a metade dos participantes foram ensinadas técnicas para a prática da atenção plena, e a outra metade foi treinada em compaixão. Um grupo controle de pessoas que também estavam interessadas em aprender meditação receberam treinamento depois que o estudo terminou.

Após oito semanas de treinamento, os participantes passaram por vários testes cognitivos, acreditando que o experimento era medir o efeito da meditação em coisas como atenção e memória. No entanto, o verdadeiro objetivo era compreender as mudanças no comportamento de ajuda compassiva. Nesse ponto é que o experimento foi elegantemente inteligente.

O arranjo era o seguinte: quando o participante chegava para os testes cognitivos, ao final do estudo, ele ou ela entrava em uma sala de espera onde encontrava três cadeiras, duas das quais estavam ocupadas. Sem o conhecimento do participante, as outras duas pessoas na sala de espera eram “cúmplices” – colegas que fizeram parte do estudo, mas colocados como espectadores. Naturalmente, o participante tomava o terceiro assento e aguardava. Depois de um minuto, um terceiro cúmplice – uma mulher – aparecia com muletas e botas. Ela fazia uma careta de dor enquanto caminhava, parava perto das cadeiras e olhava para seu telefone celular; em seguida, de forma audível suspirava de desconforto e recostava-se contra uma parede. Os outros dois participantes “cúmplices” continuavam esperando, sentados. Esta cena durava mais dois minutos.

O verdadeiro teste era: o participante se sentiria movido a responder com compaixão, e oferecer sua cadeira para a mulher de muletas? Condon e seus colegas descobriram que havia uma clara diferença de comportamento: os que haviam sido submetidos a treinamento de meditação (seja em compaixão ou atenção) eram cinco vezes mais propensos a desistir de seu assento para a mulher de muletas do que aqueles que não tinham praticado meditação. Isso é um efeito enorme.

Um pequeno gesto? Talvez. Mas alguns argumentam que esses tipos de medidas comportamentais podem ser mais significativas do que as derivadas de um EEG ou de um aparelho de ressonância magnética – investigam como nós respondemos ao próximo.

Este resultado é ainda mais impressionante considerando que as probabilidades estavam contra o participante. “O aspecto verdadeiramente surpreendente deste achado é que a meditação tornava as pessoas dispostas à ação virtuosa – para ajudar o outro que estava sofrendo – mesmo contrariando uma norma”, disse DeSteno. “O fato de que os outros atores estavam ignorando a dor cria um “efeito do espectador” que, normalmente, tende a reduzir a ajuda.” Talvez você já tenha experimentado este efeito, ao sentir-se menos inclinado a ajudar alguém em necessidade, quando está em uma rua cheia de outras pessoas que estão fingindo que a situação não existe. O fato de estes participantes estarem tão dispostos a ajudar, mesmo diante dessa pressão implícita para permanecer sentado, sugere um efeito poderoso da meditação sobre o comportamento social.

Condon reflete: “Nós sabíamos que a meditação melhora o bem-estar físico e psicológico, mas agora temos evidências de que a meditação aumenta realmente o comportamento compassivo.” Aqueles que estão familiarizados com a meditação sabem que às vezes é fácil sentir compaixão quando se está sentado pacificamente (e sozinho) sobre a almofada, mas é em nossas vidas diárias e nas interações com outros que está o verdadeiro desafio.

mindandlife

Nós, do Mind and Life Institute, ficamos emocionados ao ver esse tipo de pesquisa, sobre os efeitos reais da prática contemplativa. O estudo de Condon foi financiado pelo Prêmio de Pesquisa Francisco Varela, do Mind and Life Institute, e será publicado em breve na revista Psychological Science.O co-autor Gaelle Desbordes, do Hospital Geral de Massachusetts e da Universidade de Boston é também um ganhador do Prêmio Varela.

Condon recentemente recebeu o Mind and Life 1440 Award para continuar este trabalho, que, juntamente com o estudo descrito acima comporá sua tese de doutorado. Considerando o papel do Mind and Life Institute no desenvolvimento de sua carreira, ele observa, “O Mind and Life Institute tem sido um recurso muito bom para mim. A comunidade me proporciona uma base científica para estudar meditação, e uma oportunidade de interagir com especialistas em neurociências e em práticas contemplativas. O financiamento do Mind and Life Institute me permitiu realizar pesquisas interessantes sobre os efeitos sociais da meditação, que eu não teria sido capaz de realizar de outra forma. Eu provavelmente não teria buscado a meditação como um tema de pesquisa, sem o apoio da comunidade Mind and Life e estes prêmios.”

Como acontece com qualquer estudo, este experimento tem limitações, e precisa ser feito um seguimento do trabalho. Uma potencial ressalva é que o grupo de comparação não havia sido exposto às interações sociais e à presença de um professor envolvente, que ocorria com o grupo de meditação semanalmente. É possível que o aumento observado no comportamento de ajuda não tenha relação especificamente com a meditação, mas com essas outras influências sociais. As medidas indicam que tanto o grupo controle quanto os de meditadores tiveram níveis semelhantes de interação social em suas vidas durante o curso do estudo, tornando essa possibilidade pouco provável, mas a investigação futura terá de descartá-la de forma conclusiva.

Estamos ansiosos pelos resultados do próximo estudo de Paul, que irá investigar os efeitos da meditação sobre as respostas comportamentais e fisiológicas da raiva, em contextos do mundo real. Felizmente, estudos como este nos ajudarão a entender como os benefícios da meditação se estendem para “fora da almofada”, para aliviar o sofrimento na vida cotidiana.

Wendy Hasenkamp, PhD

http://www.mindandlife.org/can-meditation-change-compassionate-behavior/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s