LEI 32 DESPERTE A FANTASIA DAS PESSOAS


Em geral evita-se a verdade porque ela é feia e desagradável. Não apele para o que é
verdadeiro ou real se não estiver preparado para enfrentar a raiva que vem com o desencanto. A
vida é tão dura e angustiante que as pessoas capazes de criar romances ou invocar fantasias são
como oásis no meio do deserto: todos correm até lá. Há um enorme poder em despertar a
fantasia das pessoas.
Tal é o poder das fantasias que tomam conta de nós, especialmente em épocas de
escassez e declínio. As pessoas raramente acreditam que a origem dos seus problemas é a sua
própria iniqüidade e estupidez. A culpa é sempre de alguém ou alguma coisa externa — o outro,
o mundo, os deuses —e, portanto, a salvação também vem de fora.
Para conquistar o poder, você tem de ser fonte de prazer para as pessoas que o cercam —
e o prazer vem de brincar com as fantasias dessas pessoas. Não lhes prometa uma melhoria
gradual por meio do trabalho árduo; pelo contrário, prometa-lhes a lua, a grande e súbita
transformação, o pote de ouro.
A fantasia não atua sozinha. Ela exige a rotina como pano de fundo. É a opressão da
realidade que permite à fantasia enraizar-se e florescer. Na Veneza do século XVI, a realidade
era o declínio e a perda de prestígio. A fantasia correspondente descrevia uma súbita
recuperação das glórias passadas através do milagre da alquimia.
Quem consegue tecer com os fios da dura realidade uma fantasia tem acesso a poderes
incalculáveis. Na busca pela fantasia que vai dominar as massas, portanto, fique de olho nas
trivialidades que pesam tanto sobre todos nós. Não se distraia com os retratos glamourosos que
as pessoas fazem de si mesmas e das suas vidas; pesquise o que realmente as aprisiona. Uma
vez descobrindo isso, você tem a chave mágica que colocará em suas mãos um grande poder.
Embora os tempos e as pessoas mudem, vamos examinar algumas das realidades
opressivas que não mudam, e as oportunidades de poder que elas proporcionam:
– A Realidade: A mudança é lenta e gradual. Exige muito trabalho, um pouco de sorte,
uma quantidade razoável de sacrifício pessoal e muita paciência.
– A Fantasia: Uma transformação repentina provocará uma mudança total no destino de
uma pessoa, evitando o trabalho, a sorte, o sacrifício pessoal e a demora de um só golpe
fantástico.
Esta é a fantasia por excelência dos charlatões que até hoje ficam nos rondando. Prometa
uma grande e radical mudança — da pobreza para a riqueza, da doença para a saúde, da miséria
para o êxtase — e você terá seguidores.
O que fez o grande trambiqueiro alemão do século XVI, Leonhard Thurneisser, para se
tornar médico da corte do príncipe de Brandenburgo sem nunca ter estudado medicina? Em vez
de receitar amputações, ventosas e purgativos de gosto ruim (medicamentos da época),

Thurneisser oferecia elixires adocicados e prometia recuperação imediata. Os cortesãos
sofisticados, especialmente, queriam a sua solução de “ouro potável” que custava uma fortuna.
Se você fosse atacado por uma doença inexplicável, Thurneisser consultava um horóscopo e
receitava um talismã. Quem resistia a essa fantasia — riqueza e bem-estar sem dor nem
sacrifícios!
– A Realidade: A sociedade tem códigos e limites bem definidos. Nós compreendemos
estes limites e sabemos que temos que nos mover dentro dos mesmos círculos familiares, dia e
noite.
– A Fantasia: Podemos entrar num mundo totalmente novo, de códigos diferentes e com a
promessa de aventuras.
No início do século XVIII, toda a Londres se alvoroçou com os boatos sobre um estranho
misterioso, um jovem chamado George Psalmanazar. Ele acabara de chegar de uma terra que a
maioria dos ingleses julgava fantástica: a ilha de Formosa (hoje Taiwan), na costa da China. A
Universidade de Oxford contratou Psalmanazar para ensinar a língua que se falava naquela ilha;
alguns anos depois ele traduziu a Bíblia e, em seguida, escreveu um livro — que se tomou logo
um best -seller — sobre a história e a geografia de Formosa. A realeza inglesa recebia
prodigamente o jovem e ele, onde quer que fosse, divertia seus anfitriões com histórias
maravilhosas sobre a sua terra natal e seus costumes bizarros.
Quando Psalmanazar morreu, entretanto, seu testamento revelou que ele era apenas um
francês com uma fértil imaginação. Tudo que ele contara sobre Formosa — seu alfabeto, seu
idioma, sua literatura, toda a sua cultura — era invenção sua. Ele se baseou na ignorância de
seus ouvintes para inventar uma complicada história que satisfazia um desejo pelo que era
estranho e exótico. O rígido controle da cultura britânica sobre os perigosos sonhos das pessoas
lhe deu uma oportunidade ótima para explorar as suas fantasias.
A fantasia com o exótico, é claro, passa também pela fantasia sexual. Mas não precisa
chegar muito perto, porque o físico perturba o poder da fantasia; ele pode ser visto, agarrado, e
depois se toma cansativo — o destino da maioria dos cortesãos. Os encantos físicos da amante
só despertam o apetite do seu senhor por prazeres diferentes, é uma nova beleza a ser adorada.
Para dar poder, a fantasia deve permanecer até certo ponto irrealizada, literalmente irreal. A
dançarina Mata Hari, por exemplo, que ficou famosa em Paris antes da Primeira Guerra
Mundial, tinha uma aparência bastante comum. Seu poder vinha da fantasia que ela criou sobre
si mesma, como uma mulher exótica e estranha, impenetrável e indecifrável. O tabu com que ela
operava não era tanto o sexo em si, mas o desrespeito aos códigos sociais.
Outra forma de fantasia com o exótico é simplesmente a esperança de alívio para o tédio.
Os charlatões adoram brincar com a opressão do mundo do trabalho, com a sua falta de
aventura. Suas trapaças envolvem, digamos, a recuperação do tesouro espanhol, com a possível
participação de uma atraente señorita mexicana e uma conexão com o presidente de um país sulamericano
— qualquer coisa que ofereça um alívio para a rotina.
– A Realidade: A sociedade é fragmentada e cheia de conflitos.
– A Fantasia: As pessoas podem se juntar numa união mística de almas.
Na década de 1920, o trapaceiro Oscar Hartzell ficou rico de repente com o velho truque
de Sir Francis Drake — que prometia basicamente a qualquer otário que tivesse o sobrenome
“Drake” uma boa parte do desaparecido “tesouro de Drake”, ao qual Hartzell tinha acesso.
Milhares de pessoas de todo o Meio-Oeste caíram no logro, que Hartzell espertamente
transformou numa cruzada contra o governo e todos que tentassem impedir que a fortuna de
Drake chegasse às mãos de seus legítimos herdeiros. Criou-se uma união mística dos oprimidos
Drake, com encontros e comícios exaltados. Prometa uma união desse tipo e você conquistará
muito poder, mas é um poder perigoso que pode se voltar facilmente contra você. Esta é uma
fantasia para demagogos.
– A Realidade: Morte. Os mortos não voltam, não se muda o passado.
– A Fantasia: Uma súbita inversão deste fato intolerável.
Esta trapaça tem muitas variações, mas exige grande habilidade e sutileza.
Há muito tempo que se reconhece a beleza e a importância da arte de Vermeer, mas seus
quadros são poucos, e extremamente raros. Na década de 1930, entretanto, começaram a surgir
Vermeer no mercado de arte. Chamaram especialistas para conferir, e eles garantiram que eram

autênticos. Possuir um destes novos Vermeer seria o auge da carreira de um colecionador. Era
como a ressurreição de Lázaro: curiosamente, Vermeer tinha ressuscitado. Alterou-se o passado.
Só mais tarde se soube que os novos Vermeer eram obra de um falsário holandês de
meia-idade, um tal Han van Meegeren. E ele tinha escolhido Vermeer porque compreendeu o
mecanismo da fantasia: os quadros pareceriam reais exatamente porque o público e os
especialistas também queriam muito acreditar que eram.
Lembre-se: a chave para a fantasia é a distância. O que está distante fascina e promete,
parece simples e sem problemas. O que você está oferecendo, portanto, deve ser inalcançável.
Não deixe que se torne opressivamente familiar; é a miragem lá longe, que vai se afastando
conforme o tolo se aproxima. Não seja muito objetivo ao descrever a fantasia — mantenha-a
indefinida. Como um forjador de fantasias, deixe a vítima se aproximar o bastante para ver e se
sentir tentada, mantendo-a porém afastada o suficiente para continuar sonhando e desejando.
A mentira é um feitiço, uma invenção, que pode ser ornamentada como uma fantasia. Pode
estar revestida com idéias místicas. A verdade é fria, sóbria, não tão confortável de se
assimilar. A mentira é mais apetitosa. A pessoa mais detestável do mundo é a que sempre fala a
verdade, nunca romanceia… Eu acho sempre mais interessante e lucrativo romancear do que
dizer a verdade.
Joseph Weil vulgo “The Yellow Kid”, 1875-1976
O FUNERAL DA LEOA
Tendo o leão perdido subitamente a sua rainha, todos se apressaram a mostrar fidelidade ao
monarca oferecendo-lhe consolo. Mas infelizmente esses cumprimentos só esta vem deixando o
viúvo mais aflito. Noticiou-se por todo o reino a hora e o lugar do funeral, os oficiais
receberam ordem para ficar de prontidão, dirigir a cerimônia e distribuir as pessoas segundo
seus respectivos lugares na sociedade. Pode-se bem imaginar que não faltou ninguém. O
monarca deu vazão à sua tristeza e toda a caverna, visto que leões não têm outros templos,
ressoava com seus lamentos. Seguindo o seu exemplo, todos os cortesãos rugiram, em seus
diferentes tons. A corte é um lugar onde todos ficam tristes, alegres ou indiferentes de acordo
com o príncipe reinante; ou, se alguém não se sente assim, pelo menos tenta parecer que sente;
todos procuram imitar o senhor. Diz-se que uma só cabeça anima milhares de corpos,
mostrando nitidamente que os seres humanos não passam de máquinas. Mas voltemos ao nosso
assunto. Só o veado não chorava. Como ele era capuz disso, realmente? A morte da rainha era
uma desforra pura ele; ela havia estrangulado a sua esposa e o seu filho. Um cortesão achou
justo contar ao consternado monarca, e até afirmou ter visto o veado rir. A ira de um rei, diz
Salomão, é terrível, principalmente a de um rei-leão. “Miserável forasteiro!” Exclamou,
“ousas rir quando todos a sua volta se desfazem em lágrimas? Não sujaremos nossas garras
reais com teu sangue profano! Vingarás, bravo lobo, a nossa rainha imolando esse traidor a
sua augusta alma?” Ao que o veado respondeu: ‘Senhor, já não é mais hora de chorar, a
tristeza aqui é supérflua. Vossa reverenciada esposa acabou de aparecer para mim repousando
sobre um leito de rosas; eu a reconheci instantaneamente. ‘Amigo’. ela me disse, termine essa
pompa fúnebre, faça cessar essas lágrimas inúteis. Provei milhares de delícias nos campos
Elísios, conversando com santos como eu. Deixe que o desespero do rei permaneça por uns
tempos incontido, ele me gratifica.” Mal ele havia falado, quando alguém gritou: “Um milagre!
Um milagre!” O veado, em vez de ser punido, recebeu um belo presente. Deixe que o rei sonhe,
teça-lhe elogios, e conte-lhe algumas mentiras agradáveis e fantásticas: por mais indignado
que ele esteja com você, engolirá a isca e fará de você o seu melhor amigo.
FÁBULAS, JEAN DE LA FONTAINE. 1621-1695
Se quiser contar mentiras que pareçam verídicas, não conte a verdade na qual ninguém vai
acreditar.
IMPERADOR TOKUGAWA IEYASU DO JAPÃO,
SÉCULO XVII

Nenhum homem precisa se desesperar para convencer os outros das suas hipóteses mais
extravagantes se tiver arte suficiente para apresentá-las em cores favoráveis.
David Hume, 1711-1 776
O INVERSO
Se há poder em despertar as fantasias das massas, também há riscos. A fantasia em geral
tem um componente de jogo – o público percebe mais ou menos que está sendo enganado,
mesmo assim alimenta o sonho, se diverte e aprecia o afastamento temporário da rotina que
você está lhe proporcionando. Portanto, não exagere – não se aproxime demais do ponto onde se
espera que você produza resultados. Esse lugar pode ser extremamente arriscado.
Uma última coisa: não cometa, jamais, o erro de achar que a fantasia é sempre fantástica.
Ela sem dúvida contrasta com a realidade, mas a própria realidade é às vezes tão teatral e
estilizada que a fantasia se torna um desejo por coisas simples. A imagem que Abraham Lincoln
criou para si mesmo, por exemplo, como um simples advogado provinciano barbudo, fez dele o
presidente do povo.
P. T. Barnum criou um ato de grande sucesso com Tom Thumb, um anão travestido de
líderes famosos do passado, como Napoleão, e os satirizava maldosamente. O espetáculo
agradava a todos, até a rainha Vitória, porque apelava para a fantasia da época: basta com os
vaidosos governantes da história, o homem comum é que sabe das coisas. Tom Thumb inverteu
o modelo familiar de fantasia em que o ideal é o que é estranho e desconhecido. Mas o ato
continuava obedecendo à Lei, pois a base era a fantasia de que o homem simples não tem
problemas, e é mais feliz do que o rico e poderoso.
Tanto Lincoln quanto Tom Thumb representaram o plebeu que se mantinha
cuidadosamente à distância. Se você jogar com essa fantasia, deve também ter o cuidado de
cultivar o distanciamento e não deixar que a sua persona “plebéia” se torne familiar demais, ou
não se projetará como fantasia.

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