LEI 30 FAÇA AS SUAS CONQUISTAS PARECEREM FÁCEIS


Seus atos devem parecer naturais e fáceis. Toda a técnica e o esforço necessários para sua
execução, e também os truques, devem estar dissimulados. Quando você age, age sem se
esforçar, como se fosse capaz de muito mais. Não caia na tentação de revelar o trabalho que
você teve – isso só despertará dúvidas. Não ensine a ninguém os seus truques ou eles serão
usados contra você.
Como uma pessoa de poder, você deve pesquisar e praticar exaustivamente antes de
aparecer em público, no palco ou outro lugar qualquer. Jamais exponha o suor e o esforço por
trás da sua pose. Há pessoas que pensam que essa exposição mostrará que são honestas e
diligentes, mas na verdade só parecerão mais fracas — como se bastasse a prática e o esforço
para qualquer um fazer o que elas fizeram, ou como se não estivessem à altura da tarefa. Guarde
para você o seu esforço e os seus truques, e parecerá ter a graça e a facilidade de um deus.
Ninguém jamais vê revelada a origem do poder divino; só se vê os seus efeitos.
A humanidade teve as suas primeiras noções de poder com os primitivos confrontos com
a natureza — um relâmpago riscando o céu, uma súbita enchente, a rapidez e ferocidade de um
animal selvagem. Estas forças não exigiam pensamento, nem planejamento — elas nos
assombravam com sua repentina aparição, sua graciosidade, e seu poder sobre a vida e a morte.
E este continua sendo o tipo de poder que estamos sempre querendo imitar. Usando a ciência e a
tecnologia recriamos a velocidade e o poder sublime da natureza, mas falta alguma coisa: nossas
máquinas são barulhentas e desajeitadas, elas revelam o esforço que fazem. Até as melhores
criações da tecnologia não anulam a nossa admiração por coisas que se movem rápida e
facilmente. O poder que as crianças têm de nos fazer ceder às suas vontades vem de um tipo de
encanto sedutor que sentimos na presença de uma criatura menos reflexiva e mais graciosa do
que nós. Não podemos voltar a esse estado, mas se pudermos criar a aparência deste tipo de
facilidade, despertaremos nos outros a reverência primitiva que a natureza sempre evocou na
humanidade.
Um dos primeiros escritores europeus a expor este princípio vinha de um dos ambientes
mais antinaturais, a corte renascentista. Em O livro do cortesão, publicado em 1528, Baldassare
Castiglione descreve os modos altamente elaborados e sofisticados do perfeito cidadão
palaciano. E no entanto, explica Castiglione, o cortesão deve executar esses gestos com o que
ele chama de sprezzatura, a capacidade de fazer o que é difícil parecer fácil. Ele recomenda ao
cortesão que “pratique em tudo um certo descaso que dissimula o talento artístico e torna o que
se diz e o que se faz aparentemente natural e fácil”. Todos nós admiramos a realização de algum
feito extraordinário, mas se ele for natural e gracioso nossa admiração é dez vezes maior —
“enquanto (…) esforçar-se no que está fazendo e (…) não fazer mistério disso revela uma
extrema falta de graça e faz com que tudo, não importa o seu valor, tenha um desconto”.

A idéia de sprezzatura vem principalmente do mundo da arte. Todos os grandes artistas
do Renascimento mantinham suas obras cuidadosamente em sigilo. Só depois de terminada, a
obra-prima era mostrada ao público. Michelangelo proibia até os papas de verem o seu trabalho
em andamento. O artista renascentista tinha sempre o cuidado de fechar a porta de seus estúdios,
seja para os patronos como para o público em geral, não por medo de imitações, mas porque a
feitura da obra prejudicaria a magia do efeito, e a sua estudada atmosfera de beleza fácil e
natural.
O pintor renascentista Vasari, que foi também o primeiro grande crítico de arte,
ridicularizava as obras de Paolo Uccello, obcecado com as leis de perspectiva. O esforço de
Uccello para melhorar a aparência de perspectiva era óbvio demais nas suas obras — suas
pinturas ficavam feias e elaboradas, sobrecarregadas com o esforço que ele fazia para conseguir
os efeitos que desejava. Reagimos da mesma forma quando vemos artistas representando de
uma forma muito exagerada: o excesso de esforço desfaz a ilusão. Também nos deixa
constrangidos. Os artistas calmos e graciosos, por sua vez, nos deixam à vontade, dando a ilusão
de naturalidade e de serem eles mesmos, mesmo se tudo que eles fazem implique muito trabalho
e prática.
A idéia de sprezzatura é relevante em todas as formas de poder, pois o poder depende
vitalmente das aparências e das ilusões que você cria. Suas ações em público são como obras de
arte: devem agradar aos olhos, criar expectativas, até divertir. Quando você revela o esforço da
sua criação, torna-se mais um mortal entre tantos outros. O que é compreensível não inspira
respeito — achamos que poderíamos fazer igual se também tivéssemos tempo e dinheiro. Evite
a tentação de mostrar como você é brilhante —você é mais esperto ocultando os mecanismos do
seu brilhantismo.
Ao aplicar este conceito à sua vida diária, Talleyrand ampliou muito a sua aura de poder.
Nunca lhe agradou trabalhar demais, portanto fazia os outros trabalharem por ele —
espionando, pesquisando, fazendo minuciosas análises. Com tanta força disponível, ele mesmo
nunca parecia se cansar. Quando seus espiões revelavam que uma determinada coisa estava para
acontecer, ele a comentava socialmente como se estivesse sentindo essa iminência.
Conseqüentemente as pessoas achavam que ele era clarividente. Suas declarações medulares e
sua espirituosidade pareciam sempre resumir uma situação perfeitamente, mas estavam
baseadas em muita pesquisa e raciocínio. Para quem estava no governo, inclusive o próprio
Napoleão, Talleyrand dava a impressão de um poder imenso — efeito que dependia totalmente
da aparente facilidade com que ele realizava suas proezas.
Existe um outro motivo para esconder seus atalhos e truques: se você deixa vazar essas
informações, estará dando aos outros idéias que poderão usar contra você. Você perde o
benefício do silêncio. Tendemos a querer que o mundo saiba o que fizemos — queremos
recompensar a nossa vaidade conquistando aplausos por nosso esforço e brilhantismo, e até
mesmo queremos simpatia pelas horas que levamos para fazer a nossa obra-prima. Aprenda a
controlar esta tendência a dar com a língua nos dentes, pois o seu efeito será quase sempre o
oposto do esperado. Lembre-se: quanto mais misteriosas as suas ações, maior será o seu poder.
Você fica parecendo a única pessoa capaz de fazer o que você faz — e a aparência de ser
possuidor de um talento exclusivo tem um poder imenso. Finalmente, como você consegue as
coisas com graça e facilidade, as pessoas acham sempre que, esforçando-se, você poderia fazer
mais. Isto desperta não só admiração, como um certo temor. Seus poderes são ilimitados —
ninguém sabe até onde eles chegarão.
Qualquer ação [indiferença], por mais banal que seja, não só revela a habilidade da pessoa
mas também, com muita freqüência, a faz ser considerada maior do que é na realidade. Isto
porque leva os observadores a acreditar que o homem que faz as coisas tão facilmente deve ser
mais hábil do que é na verdade.
Baldassare Castiglione, 1478-1529
Um verso [de um poema] nos tomará uma hora, talvez; Mas se não parecer a idéia de um
momento, O nosso coser e descoser terá sido inútil.
Adam’s Curse, William Butler Yeats, 1865-1939

Não deixe que ninguém saiba exatamente do que você é capaz. O homem sábio não permite a
ninguém sondar fundo os seus conhecimentos e as suas habilidades, se quiser ser respeitado
por todos. Ele permite que sejam conhecidos, mas não que sejam compreendidos. Ninguém
deve conhecer a extensão das suas habilidades, para não se desapontar. A ninguém ele dá
oportunidade de compreendê-las totalmente. Pois suposições e dúvidas quanto a extensão dos
seus talentos evocam mais respeito do que saber precisamente até onde eles vão, para que
sejam sempre excelentes.
Baltazar Gracián 1601-1658
O sábio não diz o que sabe, o tolo não sabe o que diz
Provérbio Chinês
O INVERSO
O sigilo com que você envolve suas ações deve aparentar despreocupação. O zelo em
esconder o seu trabalho cria uma impressão desagradável, quase paranóica: você está levando o
jogo muito a sério. Houdini tinha o cuidado de fazer o mistério dos seus truques parecer um
jogo, tudo era parte do espetáculo. Não mostre o seu trabalho antes de terminá-lo, mas se você
se esforçar demais para escondê-lo acabará como o um louco,
Mantenha o seu bom humor.
Há momentos também em que vale a pena revelar o esforço dos seus projetos. Tudo
depende do gosto da sua platéia, e da época em que você opera. P.T. Barnum percebeu que o
público queria participar dos seus espetáculos e adorava entender os seus truques, em parte,
talvez, porque ao espírito democrático americano agradasse desmascarar implicitamente quem
ocultava das massas a origem do seu poder. O público também apreciava o humor e a
honestidade do show-man. Barnum chegou ao exagero de publicar as suas próprias
mistificações na sua popular autobiografia, escrita no auge da carreira.
Desde que a revelação parcial de truques e técnicas seja cuidadosamente planejada e não
resulte de uma necessidade incontrolável de dar com a língua nos dentes, é o máximo da
esperteza. Dá à platéia a ilusão de ser superior e de participar, mesmo que grande parte do que
você faz ninguém veja.

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