LEI 29 PLANEJE ATÉ O FIM


O desfecho é tudo. Planeje até o fim, considerando todas as possíveis conseqüências,
obstáculos e reveses que possam anular o seu esforço e deixar que os outros fiquem com os
louros. Planejando tudo até o fim, você não será apanhado de surpresa e saberá quando parar.
Guie gentilmente a sorte e ajude a determinar o futuro pensando com antecedência.
A maioria dos homens segue o coração, não a cabeça. Seus planos são vagos e, diante de
obstáculos, eles improvisam. Mas a improvisação o levará você até a próxima crise e não
substitui, jamais, a previsão das próximas etapas e o planejamento até o final.
Existe um motivo muito simples para a maioria dos homens não saber quando sair do
ataque. Eles não têm uma idéia concreta do seu objetivo. Obtida a vitória, eles querem mais.
Parar — visar a um objetivo e não se desviar dele —parece quase inumano, de fato; porém,
nada é mais importante para se manter o poder. Quem exagera nos seus triunfos cria uma reação
que inevitavelmente leva a um declínio. A única solução é planejar a longo prazo. Prever o
futuro com a mesma clareza dos deuses no Monte Olimpo, que vêem através das nuvens o
desfecho de todas as coisas.
Segundo a cosmologia dos antigos gregos, os deuses teriam a visão total do futuro. Eles
viam tudo que aconteceria, nos mínimos e intrincados detalhes. Os homens, por sua vez, eram
vítimas do destino, prisioneiros do momento e das suas emoções, incapazes de ver além do
perigo imediato. Heróis como Ulisses, capazes de enxergar além do presente e planejar vários
passos com antecedência, pareciam desafiar o destino, aproximar-se dos deuses na sua
capacidade de determinar o futuro. A comparação continua válida — quem pensa com
antecedência e, pacientemente, conduz seus planos à realização parece ter um poder divino.
Como a maioria das pessoas está presa demais ao momento para planejar com este tipo
de previsão, a capacidade de ignorar perigos e prazeres imediatos se traduz em poder. É o poder
de ser capaz de superar a tendência natural humana de reagir às coisas conforme elas vão
acontecendo, em vez de treinar dar um passo atrás, imaginar as coisas maiores tomando forma
além do seu campo imediato de visão. As pessoas, na sua maioria, acreditam que têm
consciência do futuro, que estão planejando e pensando com antecedência. Em geral, se iludem.
Na verdade, o que elas fazem é sucumbir aos seus próprios desejos, ao que elas querem que o
futuro seja. Seus planos são vagos, baseados na imaginação e não na realidade. Elas podem
acreditar que estão pensando em tudo até o fim, mas estão na verdade focalizando apenas o final
feliz, e se iludindo com a força do seu desejo.

Os perigos remotos, que avultam à distância – se pudermos vê-los tomando forma,
quantos enganos evitaríamos. Quantos planos abortaríamos instantaneamente se percebêssemos
que, evitando um pequeno perigo, só fazemos cair em outro maior. Há tanto poder, não no que
você faz, mas no que você não faz — naquelas ações tolas e precipitadas de que você se abstém,
antes que elas o metam em maiores confusões. Planeje todos os detalhes antes de agir — não
permita que a indefinição dos seus planos lhe cause problemas. Haverá conseqüências não
previstas? Surgirão novos inimigos? Alguém vai tirar proveito do meu esforço? Finais infelizes
são muito mais comuns do que os felizes — não se deixe iludir pelo final feliz que você está
imaginando.
As eleições de 1848 na França se resumiram a uma luta entre Louis Adolphe Thiers, o
homem da ordem, e o general Louis Eugène Cavaignac, o agitador de direita. Quando Thiers
percebeu que tinha ficado inevitavelmente para trás nessa corrida, procurou desesperado uma
solução. Seu olhar caiu sobre Luís Bonaparte, sobrinho-neto do grande general Napoleão, e um
modesto representante no parlamento. Este Bonaparte parecia meio imbecil, mas bastava o seu
nome para elegê-lo num país que ansiava por um governante forte. Ele seria um marionete nas
mãos de Thiers e, no final, seria empurrado para fora de cena. A primeira parte do plano
funcionou perfeitamente, e Napoleão foi eleito com grande vantagem. O problema foi que
Thiers não previu um fato muito simples: o “imbecil” era, na realidade, um homem de enormes
ambições. Três anos depois ele dissolveu o parlamento, declarou-se imperador e governou a
França por mais dezoito anos, para o horror de Thiers e o seu partido.
O desfecho é tudo. É ele que determina quem fica com a glória, o dinheiro, o prêmio. O
seu desfecho deve ser cristalino, e você não deve perdê-lo de vista. Você deve também
descobrir como se livrar dos abutres que ficam rondando lá em cima, tentando sobreviver das
carcaças da sua criação. E você deve prever as muitas crises possíveis que o tentarão a
improvisar. Bismarck venceu estes perigos porque planejou até o fim, manteve o curso em meio
a todas as crises e jamais deixou que lhe roubasse a glória. Alcançado o seu objetivo, ele se
encolheu como uma tartaruga no casco. Este tipo de autocontrole é divino.
Quando você prevê várias etapas com antecedência, e planeja seus movimentos até o fim,
não será mais tentado pela emoção ou pelo desejo de improvisar. Sua lucidez o livrará da
ansiedade e da indefinição que é a razão básica de tantos deixarem de concluir com sucesso as
suas ações. Você enxerga o desfecho e não tolera desvios.
Não entrar é tão mais fácil do que ter de sair! Devemos agir ao contrário do junco que, ao
primeiro despontar, lança uma haste longa e reta mas depois, como que exausto… faz vários
nós densos, indicando que não possui mais o vigor e o impulso original. É melhor começar
gentil e tranqüilamente, poupando o fôlego para o embate e os golpes vigorosos para concluir
o nosso trabalho. No início, nós é que orientamos os negócios e os mantemos em nosso poder;
mas, freqüentemente, uma vez colocados em ação, são eles que nos guiam e nos arrastam.
Montaigne, 1533-1592
Veja o desfecho, não importa o que esteja considerando. Com freqüência, Deus. permite a um
homem um de felicidade para, em seguida, arruiná-lo totalmente.
As Histórias. Herodoto. Século 5 a.C.
Quem procura videntes para saber o futuro está se privando, inconscientemente, de uma
sugestão interior mil vezes mais precisa do que qualquer coisa que eles possam dizer.
Walter Benjamin, 1892-1940
A experiência mostra que, prevendo com bastante antecedência os passos a serem dados, é
possível agir rapidamente na hora de executá-los.
Cardeal Richelieu, 1585-1642

O INVERSO
Entre os estrategistas, já é comum a idéia de que o seu plano deve incluir alternativas e
ter uma certa flexibilidade. Não há dúvida quanto a isso. Se você se prende a um plano com
muita rigidez, não será capaz de lidar com as súbitas mudanças na sorte. Depois de examinar as
possibilidades futuras e decidir qual é a sua meta, você deve aumentar as alternativas e estar
aberto a novos caminhos para chegar até lá.
A maioria das pessoas, no entanto, perde menos com o excesso de planejamento e rigidez
do que com a indefinição e a tendência a improvisar constantemente diante das circunstâncias.
Portanto, não há motivo para se cogitar no inverso desta Lei, pois nada se ganha recusando-se a
pensar no futuro e planejar tudo até o fim. Pensando com bastante clareza e antecedência, você
verá que o futuro é incerto e que deve estar disposto a fazer adaptações. Só um objetivo claro e
um plano de longo alcance lhe dará essa liberdade.

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