LEI 22 USE A TÁTICA DA RENDIÇÃO: TRANSFORME A FRAQUEZA EM PODER


Se você é o mais fraco, não lute só por uma questão de honra; é preferível se render.
Rendendo-se, você tem tempo para se recuperar, tempo para atormentar e irritar o seu
conquistador, tempo para esperar que ele perca o seu poder. Não lhe dê a satisfação de lutar e
derrotar você – renda-se antes. Oferecendo a outra face, você o enraivece e desequilibra. Faça
da rendição um instrumento de poder.
Se você é a parte mais fraca, não lucrará nada metendo-se numa briga inútil. Ninguém
aparece para ajudar os fracos – isso só traz prejuízos. Os fracos estão sozinhos e devem se
entregar. Lutar não lhe dará nada. além do martírio, e muita gente que não acredita na sua causa
morrera.
Fraqueza não é pecado, e pode até se tornar uma força se você aprender a jogar
corretamente.
A sorte muda e os poderosos quase sempre são derrubados. A rendição disfarça um
grande poder: despertando a complacência do inimigo, você tem tempo para se recuperar, tempo
para ir minando o terreno, tempo para se vingar. Não sacrifique este tempo em troca do mérito
de participar de uma batalha da qual não sairá vencedor.
O que nos causa problemas na esfera do poder é quase sempre a nossa própria reação
exagerada aos movimentos de nossos inimigos e rivais. Esse exagero cria dificuldades que
teríamos evitado se fôssemos mais sensatos. Tem também um efeito ricochete interminável,
pois o inimigo vai reagir com o mesmo exagero, como os atenienses fizeram com os melianos.
O nosso primeiro instinto é sempre o de reagir, enfrentar a agressão com outra agressão. Mas,
da próxima vez que alguém lhe der um empurrão e você perceber que está começando a reagir,
experimente isto: não resista nem brigue, ceda, dê a outra face, curve-se. Verá que isso quase
sempre neutraliza o comportamento deles — eles esperavam, até queriam que você reagisse
com energia e foram, portanto, apanhados desprevenidos e a sua não-resistência os deixou
confusos. Na verdade, ao ceder você passa a controlar a situação, porque isso faz parte de um
plano maior para que eles acreditem que o derrotaram.
Esta é a essência da tática da rendição; no íntimo você permanece firme, mas por fora
você se inclina. Sem mais motivos para se zangar, seus adversários ficam confusos. É
improvável que reajam com mais violência, o que exigiria de você uma reação. Em vez disso,
você tem tempo e espaço para armar um contramovimento para derrubá-los. No confronto entre
o inteligente e o bruto agressivo, a tática da rendição é a melhor arma. Mas é preciso ter
autocontrole: quem se rende de fato perde a liberdade, e pode ser esmagado pela humilhação da

derrota. Você deve se lembrar de só parecer que está se rendendo, como o animal que se finge
de morto para salvar a pele.
Vimos que é melhor se render do que brigar: diante de um adversário mais forte e da
garantia de uma derrota, quase sempre é melhor se render do que sair correndo. Na hora, a fuga
pode ser a salvação, mas o agressor acabará alcançando você. Rendendo-se, entretanto, você
terá oportunidade de se enroscar no inimigo e atacá-lo com unhas e dentes bem de perto.
Quando o comércio exterior começou a ameaçar a independência do Japão, em meados
do século XIX, os japoneses discutiram como derrotar os estrangeiros. Um ministro, Hotta
Masayoshi, escreveu um memorando em 1857 que influenciou a política japonesa durante
muitos anos: “Estou, portanto, convencido de que a nossa política deveria ser fazer alianças
cordiais, enviar navios a todos os países estrangeiros e fazer comércio com eles, copiar os
estrangeiros naquilo que eles fazem melhor, reparando assim as nossas próprias deficiências,
incentivando a nossa força nacional e completando nossos armamentos, e submeter, assim,
gradualmente, os estrangeiros à nossa influência até que, no final, todos os países do mundo
conheçam as bênçãos da perfeita tranqüilidade e a nossa hegemonia seja reconhecida no mundo
inteiro.” Esta é uma aplicação brilhante da lei: Use a rendição para ter acesso ao inimigo.
Aprenda com ele, insinue-se lentamente, conforme-se externamente aos seus hábitos, mas no
íntimo conserve a sua própria cultura. No fim você sairá vitorioso, pois enquanto ele o considera
fraco e inferior, e não toma nenhuma precaução para se defender, você usa este tempo para se
recuperar e ficar mais forte do que ele. Esta forma branda e permeável de invasão quase sempre
é a melhor, pois o inimigo nenhum motivo tem para reagir, nada para se preparar, ou resistir. E
se os japoneses tivessem resistido à influência ocidental pela força, poderiam ter sofrido uma
devastadora invasão que alteraria para sempre a sua cultura.
A rendição também é uma forma de você rir do inimigo, de virar o poder contra eles
mesmos, como fez Brecht. O romance A brincadeira, de Milan Kundera, baseado nas
experiências do autor numa colônia penal na Tchecoslováquia, conta que os guardas da prisão
organizaram uma corrida de revezamento, guardas contra prisioneiros. Para eles esta era uma
chance de exibir a sua superioridade física. Os prisioneiros sabiam que era para eles perderem,
por isso fizeram tudo para agradar — fingindo um esforço exagerado enquanto mal se mexiam,
caindo no chão depois de correr só alguns metros, capengando, andando cada vez mais devagar
enquanto os guardas disparavam na frente. Aceitando ao mesmo tempo participar da corrida e
perder, ele tinham obedecido aos guardas; mas o excesso de obediência tomou o evento ridículo
a ponto de arruiná-lo. A “superobediência” — a rendição — nesse caso foi uma demonstração
de superioridade ao inverso. A resistência teria colocado os prisioneiros num ciclo de
violências, rebaixando-os ao nível dos guardas. A superobediência, entretanto, colocou os
guardas numa situação ridícula, mas eles não podiam punir justamente os prisioneiros que só
fizeram o que eles tinham pedido.
O poder está sempre fluindo — visto que o jogo é por natureza fluido e uma arena de
lutas constantes, quem está com o poder quase sempre acaba se encontrando na descida do
pêndulo. Se você se vir temporariamente enfraquecido, a tática da rendição é perfeita para leválo
para cima de novo — ela disfarça a sua ambição; ensina a você a paciência e o autocontrole,
habilidades-chave para o jogo, e o coloca na melhor posição possível para tirar vantagem do
súbito deslize do seu opressor. Se você foge ou revida, não poderá vencer a longo prazo. Se
você se rende, é quase certo sair vitorioso.
Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao
perverso; mas a qualquer que vos ferir a face direita, voltai-lhe também a outra; e ao que quer
demandar convosco e tirar-vos a túnica, deixai-lhe também a capa. Se alguém vos obrigar a
andar uma milha, ide com ele duas.
Jesus Cristo, em Mateus, 5:38-41
Os fracos jamais cedem quando deveriam.
Cardeal de Retz, 16 13-1679

Voltaire vivia exilado em Londres numa época em que estava no auge ser contra os franceses.
Um dia, caminhando pelas ruas, ele se viu cercado por uma multidão irada. “Enforquem-no,
enforquem o francês”, gritavam. Voltaire calmamente se dirigiu a turba dizendo o seguinte:
Ingleses! Desejam me matar porque sou francês. Já não fui punido o suficiente por não ter
nascido inglês?” A multidão aplaudiu as suas palavras sensatas e o escoltaram de volta aos
seus alojamentos.
The Little, Brown
Book Of Anecdotes, Clifton Fadiman Ed. 1985
Lembre-se: quem está tentando exibir a sua autoridade ilude-se facilmente com a tática da
rendição. Se você se mostra submisso, eles se sentem importantes. Contentes, porque estão
sendo respeitados, tornam-se alvos mais fáceis para um contra-ataque, ou para uma zombaria
dissimulada como fez Brecht. Ao avaliar o seu poder ao longo do tempo, não sacrifique a
capacidade de manobra a longo prazo pelas glórias efêmeras do martírio. Quando o grande
senhor passa, o camponês sábio se inclina profundamente e peida em silêncio.
Provérbio etíope
O INVERSO
O objetivo da rendição é salvar a sua pele para quando você puder se firmar novamente.
É para evitar o martírio que alguém se rende, mas há momentos em que o inimigo não descansa,
e o martírio parece ser a única escapatória. Além do mais, se você estiver disposto a morrer,
outros poderão tirar do seu exemplo poder e inspiração.
Mas o martírio, o inverso da rendição, é uma tática confusa, pouco precisa, e tão violenta
quanto a agressão que ele combate. Para cada mártir famoso existem milhares que não
inspiraram religiões nem rebeliões, de forma que, se o martírio às vezes confere um certo poder,
isso é imprevisível. E, o que é mais importante, você não estará por aqui para usufruir desse
poder. E existe decididamente algo de egoísmo e arrogância nos mártires, como se achassem
que seus seguidores são menos importantes do que a sua própria glória. Quando o poder o
abandona, é melhor ignorar esta inversão da Lei. Deixe para lá o martírio: o pêndulo acaba
oscilando para o seu lado novamente, e você precisa estar vivo para ver isso.

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