LEI 20 NÃO SE COMPROMETA COM NINGUÉM


Tolo é quem se apressa a tomar um partido. Não se comprometa com partidos ou causas,
só com você mesmo. Mantendo-se independente, você domina os outros – colocando as pessoas
umas contra as outras, fazendo com que sigam você.
PARTE 1: NÃO SE COMPROMETA COM NINGUÉM, MAS SEJA CORTEJADO
POR TODOS
Deixando que outros sintam que o possuem de alguma forma, você perde o poder sobre
eles. Não comprometendo seus afetos, eles se esforçarão mais para conquistá-lo. Mantenha-se
distante e você conquistará o poder que vem das atenções e dos desejos frustrados dessas
pessoas. Faça o papel da Rainha Virgem: Dê esperanças, jamais a satisfação.
Visto que o poder depende tanto das aparências, você precisa aprender alguns truques
para realçar a sua imagem. Recusar comprometer-se com alguém ou com um grupo é um deles.
Quando você se retrai, não desperta raiva, mas um certo respeito. Você parece instantaneamente
poderoso porque se torna inatingível, em vez de se render a um grupo ou a um relacionamento,
como faz a maioria das pessoas. Com o tempo, essa aura de poder só faz crescer: conforme
aumenta a sua reputação de pessoa independente, mais desejado você será, todos querendo ser
aquele que fará você se comprometer. O desejo é como um vírus: se vemos alguém ser desejado
por outras pessoas, tendemos a achá-lo desejável também.
Assim que você se compromete, foi-se o encanto. Você se torna igual a todo mundo. As
pessoas tentarão todos os métodos escusos possíveis para levar você a um compromisso. Vão
lhe dar presentes, encher você de favores, tudo para colocá-lo na situação de devedor. Incentive
as atenções, estimule os interesses, mas não se comprometa de forma alguma. Aceite os
presentes e favores se assim desejar, mas tenha o cuidado de se manter intimamente distante.
Você não pode se permitir, inadvertidamente, sentir-se devedor com relação a ninguém. Mas
lembre-se: o objetivo não é livrar-se das pessoas, ou fazer com que elas achem que você é
incapaz de um compromisso. Como a Rainha Virgem, você tem que agitar as coisas, estimular o
interesse, atrair as pessoas com a possibilidade de ficar com você. Você tem de se dobrar às suas
atenções ocasionalmente, portanto — mas não demais.
O general e estadista grego, Alcibíades, era mestre neste jogo. Foi ele quem inspirou e
liderou a forte armada ateniense que invadiu a Sicília em 414 a.C. Quando, em casa, os
invejosos atenienses tentaram derrubá-lo com acusações falsas, ele passou para o lado do
inimigo, os espartanos, para não ter de enfrentar um julgamento na sua própria cidade. Depois,
quando os atenienses foram derrotados em Siracusa, ele trocou Esparta pela Pérsia, apesar de o
poder de Esparta estar em ascensão. Mas agora, tanto os atenienses quanto os espartanos
cortejavam Alcibíades por sua influência com os persas; e os persas o enchiam de homenagens

devido ao seu poder sobre os atenienses e espartanos. Ele distribuía promessas para todos os
lados, mas não se comprometia com nenhum, e no final quem dava as cartas era ele.
Se você quer ter poder e influência, experimente a tática de Alcibíades: coloque-se no
meio de duas forças concorrentes. Atraia um dos lados prometendo ajuda; o outro, sempre
querendo superar o inimigo, seguirá você também. Enquanto os dois disputam a sua atenção,
você se torna logo uma pessoa que parece muito desejada e de grande influência. Você terá mais
poder assim do que se comprometendo precipitadamente com um dos lados. Para aperfeiçoar a
sua tática, você tem de se manter intimamente livre de envolvimentos emocionais, e ver todos a
seu redor como peões para a sua ascensão. Você não pode se permitir servir de lacaio de
nenhuma causa.
No meio das eleições presidenciais nos Estados Unidos, em 1968, Henry Kissinger
telefonou para a equipe de Richard Nixon. Kissinger se aliara a Nelson Rockefeller, que tinha
falhado na sua tentativa de ser indicado pelo partido Republicano. Agora Rockefeller estava
oferecendo à campanha de Nixon informações privilegiadas de grande valor sobre as
negociações para a paz no Vietnã, que estavam sendo realizadas em Paris. Ele tinha um homem
no grupo de negociadores que o mantinha informado sobre os últimos acontecimentos. A equipe
de Nixon aceitou com prazer a oferta.
Ao mesmo tempo, entretanto, Kissinger também abordou o candidato dos democratas,
Hubert Humphrey, e ofereceu a sua ajuda. O pessoal de Humphrey lhe pediu informações
confidenciais sobre Nixon, e ele deu. “Veja”, disse Kissinger ao pessoal de Humphrey, “há anos
que detesto o Nixon.” De fato, ele não tinha interesse em nenhum dos dois lados. O que ele
queria na verdade foi o que conseguiu: a promessa de um posto de alto nível no ministério, tanto
de Nixon quanto de Humphrey. Não importando qual dos dois vencesse nas eleições, a carreira
de Kissinger estava garantida.
O vencedor, claro, foi Nixon, e Kissinger teve o seu cargo no ministério. Mesmo assim,
ele teve o cuidado de não se parecer demais com um homem de Nixon. Quando ele foi reeleito,
em 1972, homens muito mais fiéis do que Kissinger foram despedidos.
Kissinger foi também o único alto funcionário do governo Nixon que sobreviveu a
Watergate e serviu ao presidente seguinte, Gerald Ford. Mantendo uma ligeira distância, ele
prosperou em épocas turbulentas.
Quem usa esta estratégia com freqüência nota um estranho fenômeno: as pessoas que
correm para apoiar os outros tendem a ser pouco respeitadas, pois sua ajuda é obtida com muita
facilidade, enquanto as que se retraem se vêem cercadas de pedintes. O distanciamento delas é
poderoso, e todos as querem ao seu lado.
Picasso, passados os primeiros anos de pobreza e já o artista de maior sucesso no mundo,
não se comprometeu com este ou aquele marchand, embora o cercassem por todos os lados com
ofertas atraentes e promessas formidáveis. Pelo contrário, ele parecia não se interessar por seus
serviços. Esta técnica deixava os marchands loucos, e enquanto o disputavam o preço das suas
obras subia. Quando Henry Kissinger, como secretário de Estado dos Estados Unidos, quis
relaxar a tensão com a Rússia, não fez concessões nem gestos conciliatórios, mas cortejou a
China. Isto enfureceu e até assustou os soviéticos — eles já estavam politicamente isolados e
temiam ficar ainda mais se os Estados Unidos e a China se unissem. O movimento de Kissinger
os empurrou para a mesa de negociações. A tática tem um paralelo na sedução: se quiser
conquistar uma mulher, aconselha Stendhal, seduza primeiro a irmã dela.
Mantenha-se distante e as pessoas se aproximarão de você. Será um desafio para elas
conquistar o seu afeto. Desde que você imite a sábia Rainha Virgem e mantenha acesas as
esperanças, estará sempre atraindo o interesse e o desejo.
Não se comprometa com ninguém nem com coisa alguma, pois isso é ser escravo, escravo de
todos os homens… principalmente, mantenha-se livre de compromissos e obrigações — esses
são artifícios do outro para mantê-lo em seu poder…
Baltasar Gracián, 1601-1658

Homens espertos são lentos no agir, pois é mais fácil evitar compromissos do que se sair bem
de um deles. Nessas ocasiões teste o seu bom senso; é mais seguro evitá-los do que sair
vitorioso de um deles. Uma obrigação leva a outra maior, e você chega à beira do desastre.
Baltasar Gracián 1601-1658
PARTE II: NÃO SE COMPROMETA COM NINGUÉM – NÃO ENTRE NA BRIGA
Não se deixe arrastar para brigas mesquinhas e discussões. Pareça interessado e
prestativo, mas encontre um jeito de se manter neutro; deixe que os outros briguem enquanto
você se retrai, observando e aguardando. Quando as partes litigantes se cansarem, estarão
maduras para a colheita. Você pode fazer disso uma prática, incentivar as discussões entre as
pessoas, depois se oferecer como mediador, conquistando o poder como intermediário.
Quando você entra numa briga que não foi você que começou, perde a iniciativa. Os
interesses dos combatentes tornam-se os seus interesses; você passa a ser uma ferramenta que
eles usam. Aprenda a se controlar, a reprimir a sua natural tendência a tomar partido e entrar na
briga. Seja amável e encantador com cada um dos combatentes, depois se afaste e deixe que eles
se enfrentem. A cada batalha eles ficam mais fracos, enquanto você se fortalece a cada batalha
que evita.
Para ganhar no jogo do poder, você deve dominar suas emoções. Mas, ainda que você
consiga esse autocontrole, não poderá controlar o temperamento das pessoas a sua volta. E aí é
que está o perigo. A maioria das pessoas vive num redemoinho de emoções, constantemente
reagindo, alimentando discussões e conflitos. O seu autocontrole e autonomia só vai deixá-las
aborrecidas e furiosas. Elas tentarão arrastá-lo para o turbilhão, implorando para que você tome
partido nas suas intermináveis batalhas, ou faça as pazes por elas. Se você sucumbir às suas
súplicas emocionais, pouco a pouco verá a sua mente e o seu tempo ocupados com os problemas
delas. Não permita ser sugado por uma compaixão ou piedade qualquer que você possa sentir.
Deste jogo você não sai vencedor; os conflitos só se multiplicam.
Por outro lado, você não pode ficar totalmente de fora, pois seria uma afronta inútil. Para
fazer bem esse jogo, você deve parecer interessado nos problemas da outra pessoa, às vezes até
tomar o seu partido. Mas, ao mesmo tempo que demonstra externamente o seu apoio, você deve
manter interiormente a sua energia e sanidade íntegras, não se deixando envolver
emocionalmente. Não importa o quanto as pessoas tentem atrair você, não deixe que o seu
interesse pelos negócios e discussões delas passem além do superficial. Dê-lhes presentes, ouça
com ar de simpatia, até ocasionalmente banque o sedutor — mas por dentro mantenha distância
dos reis amáveis e dos pérfidos. Recusando-se a se comprometer e mantendo assim a sua
autonomia, a iniciativa continua sendo sua: seus movimentos continuam sendo escolha sua, e
não reações defensivas ao puxa-empurra dos outros ao redor.
Demorar para escolher as suas armas já pode ser, por si só, uma arma, especialmente se
você deixar os outros se exaurirem lutando para depois se aproveitar da exaustão deles. Na
antiga China, o reinado de Chin certa vez invadiu o reinado de Hsing. Huan, o governante de
uma província vizinha, achou que devia correr em defesa de Hsing, mas seu conselheiro lhe
disse para esperar: “Hsing ainda não vai ser destruída”, falou ele, “e Chin ainda não está
exausto. Se Chin não está exausto, [nós] não podemos influenciar muita coisa. Além disso, o
mérito de apoiar um estado em perigo não é tão grande quanto a virtude de ressuscitar um
estado em ruínas.” O argumento do conselheiro venceu e, como ele tinha previsto, Huan mais
tarde teve a glória de salvar Hsing à beira da destruição e depois de conquistar um Chin exausto.
Ele ficou de fora da briga até que as forças envolvidas nela se exauriram mutuamente, quando
foi seguro para ele intervir.
Esta é a vantagem de se manter longe da confusão: você ganha tempo para se posicionar,
para se aproveitar da situação assim que uma das partes começar a perder. Você também pode
levar o jogo um pouco mais adiante, prometendo apoio a ambos os lados num conflito enquanto
manobra para ser você a levar vantagem na luta. Foi isso que Castruccio Castracani, governante
da cidade italiana de Lucca, no século XIV, fez quando tinha seus planos para a cidade de
Pistóia. Um cerco seria muito caro, em termos de vidas e dinheiro, mas Castruccio sabia que em
Pistóia existiam duas facções, os Negros e os Brancos, que se odiavam. Ele negociou com os
Negros, prometendo ajudá-los contra os Brancos; depois, sem que eles soubessem, prometeu

aos Brancos que os ajudaria contra os Negros. E Castruccio manteve as suas promessas —
enviou um exército para um dos portões da cidade controlado pelos Negros, que as sentinelas, é
claro, deixaram entrar. Enquanto isso, outro exército seu entrava por um portão controlado pelos
Brancos. Os dois exércitos se encontraram no meio do caminho, ocuparam a cidade, mataram os
líderes das suas facções, terminaram a guerra interna e entregaram Pistóia a Castruccio.
Preservar a sua autonomia lhe dá opções quando as pessoas chegam às vias de fato —
você pode bancar o mediador, o agente da paz, enquanto está na realidade garantindo os seus
próprios interesses. Você pode prometer ajuda a um lado, e o outro terá que atraí-lo com uma
oferta maior. Ou, como Castruccio, você pode parecer que está apoiando ambos os lados, depois
representar o antagonista de um e de outro.
Freqüentemente, num conflito, fica-se tentado a tomar o partido do mais forte, ou do que
lhe oferecer as vantagens evidentes de uma aliança. Esse é um negócio arriscado. Primeiro,
quase sempre é difícil prever qual dos lados prevalecerá a longo prazo. E mesmo que você
acerte e se alie com o partido mais forte, poderá se ver engolido e perdido, ou convenientemente
esquecido, quando eles se tomarem vitoriosos. Fique do lado do mais fraco, e você está
condenado. Mas faça o jogo da espera, e não poderá perder.
Na França, depois de três dias de rebeliões durante a revolução de julho de 1830, o
estadista Talleyrand, já idoso, sentou-se à sua janela em Paris ouvindo o repicar dos sinos que
indicavam que as lutas tinham acabado. Voltando-se para um assistente, ele disse, “Ah, os
sinos! Estamos ganhando..” ‘Nós’, quem, mon prince?”, perguntou o assistente. Fazendo um
gesto para o homem se calar, Talleyrand replicou, “Nem uma palavra! Amanhã lhe direi quem
somos nós”. Ele sabia muito bem que só os tolos se precipitam — que se comprometendo
rápido demais você perde a capacidade de manobra. As pessoas também respeitam você menos
por isso: quem sabe amanhã, pensam elas, você vai se comprometer com outra causa diferente,
visto que se entregou tão facilmente a esta. A boa sorte é uma divindade volúvel que muda de
lado com muita freqüência. O compromisso com uma das partes tira de você a vantagem do
tempo e o luxo da espera. Deixe que os outros se apaixonem por este ou aquele grupo; mas
você, não se apresse e nem perca a cabeça.
Finalmente, há ocasiões em que é mais sensato abandonar qualquer pretensão de parecer
prestativo alardeando, pelo contrário, a sua independência e autoconfiança. A atitude
aristocrática independente é importantíssima para quem precisa conquistar o respeito. George
Washington reconheceu isso no seu esforço para dar à jovem república americana uma base
firme. Como presidente, Washington fugiu à tentação de se aliar à França ou Inglaterra, apesar
das pressões que sofria nesse sentido. Ele queria que o país conquistasse o respeito mundial por
sua independência. Embora um tratado com a França talvez o tivesse ajudado no curto prazo,
com o passar do tempo ele sabia que era mais eficaz estabelecer a autonomia da nação. A
Europa tinha de ver os Estados Unidos como uma potência no mesmo pé de igualdade.
Lembre-se: a sua energia e o seu tempo têm limite. Todos os momentos desperdiçados
com os problemas alheios são subtraídos da sua energia. Você pode temer ser acusado de
insensibilidade, mas no final, mantendo-se independente e confiante em si próprio, você será
mais respeitado e conquistará o poder de escolher quando deve, ou não, tomar a iniciativa de
ajudar os outros.
Quando a narceja e o mexilhão brigam, quem leva a melhor é o pescador.
Antigo ditado chinês
Considere que não se comprometer exige mais coragem do que vencer uma batalha, e lá onde
já existe um tolo interferindo, cuidado para não existirem dois.
Baltasar Gracián, 1601-1658
O INVERSO
Ambas as partes desta lei se voltarão contra você se você exagerar. O jogo proposto aqui
é delicado e difícil. Se você colocar muitos partidos se enfrentando, eles acabarão percebendo a
manobra e conspirarão contra você. Se você deixar um número cada vez maior de pretendentes
esperando demais, não vai despertar o desejo mas, sim, a desconfiança. As pessoas vão começar

a perder o interesse. Você vai acabar achando que vale mais a pena se comprometer com uma
das partes — nem que seja só pelas aparências, para provar que é capaz de ser solidário.
Mesmo nesse caso, entretanto, a chave será manter a sua independência interior — não se
permitir envolver emocionalmente. Preservar a opção tácita de poder sair a qualquer momento e
reclamar a sua liberdade, se o partido ao qual você se aliou ameaçar vir abaixo. Os amigos que
você fez, enquanto estava sendo cortejado, lhe oferecerão um lugar para ir depois de abandonar
o navio.

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