LEI 11 APRENDA A MANTER AS PESSOAS DEPENDENTES DE VOCÊ


Para manter a sua independência você deve sempre ser necessário e querido. Quanto
mais dependerem de você, mas liberdade você terá. Faça com que as pessoas dependam de você
para serem felizes e prósperas, e você não terá nada o que temer. Não lhes ensine o bastante ao
ponto de poderem se virar sem você.
Poder é a capacidade de conseguir que os outros façam o que você quer. Se você
consegue isso sem forçar nem magoar as pessoas, se elas de boa vontade lhe dão o que você
deseja, então o seu poder é intocável. A melhor maneira de alcançar esta posição é criando uma
relação de dependência. O senhor precisa dos seus serviços; ele é fraco, ou incapaz de funcionar
sem você, que se misturou de tal forma no trabalho dele que, eliminando-o, ele ficaria em
grandes dificuldades, ou pelo menos perderia um tempo precioso para treinar outra pessoa para
substituir você. Uma vez estabelecida uma relação dessas, você é quem tem o controle, a
influência para forçar o senhor a fazer o que você quer. E o caso clássico do homem por trás do
trono, o servo do rei que na verdade controla o rei.
Não seja como tantos que se enganam acreditando que poder é independência. O poder
implica um relacionamento entre as pessoas; você sempre vai precisar dos outros como aliados,
peões, ou até como senhores fracos que servem de fachada para você. O homem totalmente
independente viveria numa cabana na floresta — estaria livre para ir e vir à vontade, mas não
teria poder. O máximo que você pode esperar é que os outros fiquem tão dependentes de você
que você passa a usufruir um tipo inverso de independência: a necessidade que eles sentem de
você o deixa livre.
Você não precisa ter o talento de um Michelangelo, basta uma habilidade que o destaque
da multidão. Você deve criar uma situação tal que possa sempre se apegar a outro senhor ou
patrono, mas que o seu senhor não seja capaz de encontrar facilmente outro servo com o seu
talento particular. E se, na realidade, você não for mesmo indispensável, deve encontrar um jeito
de parecer que é. Aparentar ser dono de um conhecimento e uma habilidade especializados lhe
dá uma margem de segurança para fazer os seus superiores acharem que não vivem sem você. A
dependência real por parte do seu senhor, entretanto, o deixa mais vulnerável a você do que a
falsa, e você sempre poderá tornar a sua habilidade indispensável.
Isto é o que se entende por destinos entrelaçados: como a hera que vai se agarrando no
muro, você está tão enredado na origem do poder, que será muito traumático arrancá-lo dali. E
você não precisa necessariamente ficar entrelaçado com o senhor; outra pessoa ficará, desde que
ela também seja indispensável na cadeia.
Para fazer com que os outros dependam de você, um caminho a tomar é a tática do
serviço secreto. Sabendo o segredo das outras pessoas, guardando informações que elas não
gostariam de ver divulgadas, o seu destino fica selado ao delas. Você fica intocável. Os
ministros da polícia secreta mantiveram esta posição por séculos: eles podem fazer ou derrubar
um rei.
Um último aviso: não pense que o seu senhor, porque depende de você, vai amá-lo. De
fato, ele pode se ressentir e ter medo de você. Mas, como disse Maquiavel, é melhor ser temido
do que amado. O medo você pode controlar; o amor, não. Depender de sentimentos tão sutis e
inconstantes como amor ou amizade só deixa você inseguro. É melhor que os outros dependam
de você por temer as conseqüências de perdê-lo do que por gostar da sua companhia.
O INVERSO

O lado negativo de fazer os outros dependerem de você é que você, de certa forma, fica
dependente deles. Mas não aceitar isso significa livrar-se dos seus superiores — ficar sozinho,
sem depender de ninguém. Esse é o impulso monopolista de um J. P. Morgan ou de um John D.
Rockefeller — eliminar toda a concorrência, ficar no controle total. Se você pode encurralar o
mercado, melhor.
Toda independência tem o seu preço. Você é forçado a se isolar. Os monopólios com
freqüência se voltam para dentro e se destroem pela pressão interna. Eles também despertam
fortes ressentimentos, fazendo os inimigos se unirem contra eles. O impulso para o controle
total é muitas vezes pernicioso e inútil. A interdependência é a regra, a independência uma rara
e quase sempre fatal exceção. É preferível se colocar numa posição de dependência mútua,
portanto, e seguir esta regra do que procurar o inverso. Você não sofrerá a insuportável pressão
de estar no topo, e o senhor acima de você é que será o seu escravo, pois ele é quem vai
depender de você.
Faça as pessoas dependerem de você. Ganha-se mais com essa dependência do que cortejandoas.
Quem já saciou a sua sede, dá logo as costas para a fonte, não precisando mais dela. Não
havendo dependência, desaparece também a civilidade e a decência, e depois o respeito. A
primeira coisa que se aprende com a experiência é manter viva a esperança, porém nunca
satisfeita, manter até um patrono real sempre precisando de você.
Baltasar Gracián, 1601-1658

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