Removendo Problemas Mentais


Swāmi Satyānanda Saraswatī

Texto traduzido como lição para o curso «Oficina de Meditação», edição 2011, ministrado pelo Instituto Kaula.

Não existe uma pessoa neste mundo que não possua algum tipo de complexo profundamente enraizado como medo, conflitos e fobias. Qualquer um que pense que não possui problemas incrustados nos recessos mais profundos da mente está se iludindo e ao mesmo tempo impedindo seu progresso em direção a uma consciência mais refinada e o encontro da felicidade na vida, pois embora o problema definitivamente exista, mesmo não sendo admitido, nenhuma medida é tomada para removê-lo. Não existe mácula em admitir qualquer fonte de dificuldade mental, embora sempre haja um sentimento de desprezo, escárnio ou desdém, ou quem sabe medo, associado aquelas pessoas que sofrem de algum transtorno mais sério como esquizofrenia, bipolaridade ou mesmo melancolia e depressão. A razão disso não é certa; quem sabe todos nós tenhamos medo de nos tornarmos pacientes mentais. E existe um pouco de verdade nisso, pois não existe uma diferença óbvia entre pacientes mentais ou pessoas normais, salvo o padrão que subjaz o problema de forma mais intensa, conseqüentemente provocando sua manifestação de forma mais destacada.

As pessoas que sabem que possuem profundos problemas mentais apenas têm de removê-los. Isso não é fácil, mas também não é impossível e afinal você já aceitou que esses problemas existem, o que é o primeiro passo. As pessoas que não admitem seus problemas mentais primeiro têm de ser convencidas de que esses problemas existem e de que elas os possuem. Essa é a situação da maioria das pessoas. Existe um teste bem convincente que irá dizer se você está livre de problemas como pensa estar. Pergunte a si mesmo: eu estou feliz 24hs por dia, todos os dias? Se não, isso indica que você possui problemas mentais, pois se você está livre de qualquer distúrbio mental, deveria emanar felicidade e regozijo como um rio transbordante. Isso é claramente ilustrado pelos grandes yogīs, sábios e santos que, por terem esvaziados a si mesmos de todos os problemas, incessantemente irradiam paz e bem-aventurança.

Quanto mais infelicidade e insatisfação você tiver na vida, mais problemas mentais terá. Pergunte a si mesmo a questão do parágrafo anterior e responda com honestidade. De sua resposta concluirá se possui ou não problemas mentais. Mas isso não significa deixar de se zangar ou ter outras emoções, pois é possível expressar essas emoções e ainda sim ser muito feliz. Existem inúmeros casos de grandes yogīs e sábios que demonstraram muita cólera, mantendo sempre seu profundo estado de felicidade, gozo e bem-aventurança na vida. Não é das situações ou expressões que você demonstra ou manifesta que estamos falando; mas se você sente ou não uma maravilhamento, felicidade e contentamento durante todo o dia, por todos os dias de sua vida. Se você não sente, é porque possui algum tipo de problema mental. Se você pelo menos admitir que tem problemas, óbvios ou não, então não estará sozinho, pois estará acompanhado da maioria da população mundial. Tendo admitido a possibilidade de possuir distúrbios mentais subjacentes, terá que tomar as medidas necessárias para removê-los. Se você não admite sua existência, muito provavelmente também não admitirá a necessidade de empreender qualquer esforço para remover seus problemas.

Problemas mentais como fobias, medos e sua eliminação são fatores muito importantes a serem considerados na vida diária, por isso decidimos devotar algum tempo sobre esse tema. Mas devemos ter cuidado, contudo, pois é muito fácil falar e falar em termos teóricos sobre esses problemas, suas causas e repercussões e falharmos não conseguindo alcançar métodos práticos e verdadeiramente úteis para removê-los. Portanto, o objetivo desta lição e as discussões que a ela se sucedem nós próximos módulos é sugerir métodos práticos sem nos envolvermos em delongas teóricas. O objetivo é prover um guia com métodos que você possa realmente utilizar como passos para remover seus problemas, os bloqueios que impedem o fluxo natural da vida. Mas apenas você pode fazer isso. Estes métodos apenas irão lhe guiar e lhe estimular a manifestar e resolver seus problemas. Portanto, estamos interessados na prática e não na teoria.

Yoga e os problemas mentais

Um dos objetivos iniciais do Yoga como método científico é arrancar pela raiz a causa dos conflitos mentais. São estes problemas que atuam como bloqueios que impedem o influxo da consciência elevada, bem como a realização da felicidade na vida. É durante o período de perfeito equilíbrio mental que o buscador pode passar por suas realizações, flashes intuitivos e revelações, se estabelecendo na vida em um estado estável e superior de consciência. Essas experiências sutis não brilham quando a mente se encontra em estado de tumulto, um estado de desordem que vem desde as camadas mais profundas da mente subconsciente. Muitas pessoas se sentem relaxadas e felizes em um estado consciente, mas não passam por experiências elevadas. Mas a resposta para isso é simples: enquanto elas permanecem conscientemente relaxadas, os níveis subconscientes da mente não estão. A pessoa deve estar completamente alerta e desperta. Todo o sistema deve estar sintonizado em um alto grau de sensibilidade e receptividade. A maioria das pessoas quando se encontram relaxadas sentem sono e adormecem. Essa não é uma condição apropriada para que haja o influxo da consciência elevada.

Para se viver em um estado contínuo de consciência elevada o buscador deve sempre se manter relaxado e receptivo. Todos os problemas conscientes e subconscientes têm de ser erradicados. Portanto, a remoção destes problemas mentais é uma parte essencial do Yoga. Se o Yoga falhasse em limpar a mente, também falharia em prover os inúmeros benefícios que proporciona, especialmente nas esferas mais elevadas. É claro, uma pessoa poderia continuar praticando āsanas, obtendo inúmeros benefícios físicos, mas estes são muito elementares perto dos benefícios proporcionados pela prática mais profunda, embora sejam parte fundamental e essencial da vida yogī.

Yoga constatou que as pessoas devem passar pela infelicidade e seus conflitos associados antes de enxergarem o arco-íris do outro lado. Existe um ditado zen-budista que diz:

Sob a espada erguida nas alturas

Está o inferno irradiando seu estremecimento.

Mas continue caminhando…

Mais adiante há uma terra de bem-aventurança.

O significado é óbvio. Não importa o quão terríveis e traumáticas sejam suas experiências na vida, existe sempre um lugar além que agora parece ser impossível de ser alcançado, um lugar inimaginável. Alguns chamam este lugar de regozijo total, bem-aventurança, sabedoria espiritual e inúmeros nomes que não traduzem o verdadeiro significado da experiência. Assim você deveria caminhar através da neblina de um universo com ausência de significado, perseverando e transcendendo os problemas que fazem da vida – como ela se encontra agora – um inferno na terra. Hoje em dia muitas pessoas vêm até o Yoga porque possuem algum tipo de problema profundamente enraizado que precisam remover. Se não soubessem que possuem problemas ou que alguma coisa está faltando em suas vidas, jamais teriam começado a praticar Yoga; não haveria incentivo. A partir da interação com a prática do Yogaessas pessoas tomam conhecimento de muitos estados internos que não faziam idéia existirem, muito além da compreensão cotidiana. Portanto, os problemas mentais, embora sejam um bloqueio ao fluxo da consciência mais elevada, também servem de estímulo para que as pessoas procurem removê-los, bem como um trampolim para que eventualmente se engajem na vida espiritual. Sem algum tipo de problema mental é difícil ver uma pessoa, principalmente um ocidental, iniciar o caminho do Yoga. Assim, neste sentido, você pode considerar os problemas mentais de forma bem positiva, pois eles podem ser um recurso que lhe auxilie a fazer algo que valha a pena em sua vida, ao invés de se chafurdar no abismo da auto-complacência, auto-piedade e indolência. Você pode olhar para os problemas mentais deste ponto de vista. Mas é necessário enfatizar: eles têm de ser removidos para que haja a verdadeira felicidade; o que significa saúde mental, paz e o mais importante, consciência.

Há um ponto a ser notado aqui. Muitas pessoas não têm a menor idéia das funções de umaśram. É claro, existem muitas funções, mas o maior objetivo é possibilitar que seus moradores limpem suas mentes, removendo seus problemas mentais. Isso não significa esvaziar a mente, como pode ser equivocadamente entendido, mas eliminar complexos, bloqueios, fobias e neuroses que causam desordem e tumulto na mente. Passando pela experiência de um aśram conseguimos ver claramente a importância do Yoga na eliminação destes bloqueios mentais. Sem essa visão profunda do Yoga é muito fácil confundi-lo com um sistema limitado de exercícios físicos e respiratórios. Além do mais, enquanto o Yoga trabalha eliminando os problemas mentais, ao contrário de outros sistemas religiosos, sua prática não impõe dogmas. Todos os condicionamentos têm de ser eliminados e isso não se faz plantando novos condicionamentos. A mente deve ser esvaziada de todos os problemas para que possa espontaneamente refletir aquilo que existe em suas camadas mais profundas e que normalmente são desconhecidas. Não há necessidade para se atopetar a mente, apenas esvaziá-la. Essa é a essência do Yoga.

O que são problemas mentais

Esse parece ser um tópico desnecessário, pois a maioria das pessoas deve saber o que são problemas mentais; entretanto, a maioria de nós possui um limitado e quem sabe um cândido entendimento do significado e escopo total daquilo que nomeamos como problemas mentais.

O problema mental que mais acomete as pessoas é a falta de significado. Estudiosos como Jung reconheceram esse problema como uma das principais aflições do homem moderno. Jung corretamente apontou que a maior força motivadora na vida do homem moderno é a necessidade de encontrar um significado na vida. Contudo, essa necessidade é encoberta pelas inúmeras atividades ou conflitos diários que acabam fazendo com que as pessoas se esqueçam ou não vejam a profundidade de seus problemas mais arraigados. Talvez seja mais sensato dizer que as pessoas participam de tantas atividades diferentes para se esquecerem dos problemas que não conseguem enxergar significado na vida. Muitos problemas psiconeuróticos, bem como muitos problemas físicos, são causados por não conseguirmos dar a vida seu significado, quer dizer, simplesmente não conseguimos ver o verdadeiro significado da vida em si. Tudo parece não ter sentido, tudo parece ser fútil, estéril e o desespero que predomina a partir disso gera mais emoções negativas. O resultado é um colapso nas funções mentais e corporais.

Jung reconheceu esse processo escrevendo com uma simplicidade devastadora, embora com diretrizes e insight intuitivo: quando a vida perde seu significado e premissas fundamentais, então o pânico interrompe a liberdade da consciência… Isso nos parece o estado em que a maioria das pessoas se encontra. Elas vivem uma vida vazia, sem significado, sem esperança. Se você se encontra neste estado, então possui um problema mental, o mais fundamental que uma pessoa poderia ter. Se essa ausência de significação toma proporções esmagadoras, você precisa desde já tomar as medidas necessárias para remoção deste problema. Pois esteja cento de que há significado na vida, na vida de cada um de nós, mas você deve encontrá-lo por si mesmo. Se você simplesmente tenta se esquecer do vazio que acomete a sua vida, tenha certeza de que está fugindo; se você tenta anuviar a situação com asserções dogmáticas de que existe um significado desconhecido que jaz nas profundezas de seu ser, ainda estará fugindo. Você deve encontrar esse significado por si mesmo, através de sua experiência. O método é Yoga, no qual se encerra o processo da meditação. Dessa prática resultará o conhecimento e o entendimento de sua verdadeira natureza e sua incrível relação com a existência. O problema de falta de significado automaticamente irá se dissolver na medida em que experenciar os estados mais avançados de conhecimento e consciência.

Quando adquirir conhecimento elevado, então poderá suportar tudo na vida. Você passará através dos altos e baixos da vida facilmente.

Obviamente, existem muitos outros problemas mentais, alguns você tem consciência, outros não, pois se encontram nas camadas mais profundas da mente subconsciente. Algumas pessoas têm medo de insetos, outras de animais bestiais; algumas pessoas têm medo de lugares fechados, outras têm medo do sexo oposto ou de qualquer pessoa; algumas pessoas têm medo do escuro etc., a lista não tem fim. Algumas pessoas possuem complexos sexuais, como a impotência, por exemplo. Algumas pessoas têm aversão extrema a sua mãe, pai ou ambos, outras possuem um sentimento forte de regozijo em relação a outras pessoas, sejam quem forem; algumas pessoas desenvolvem pânico em relação à morte, quase sempre pelo falecimento de alguém próximo. Os exemplos são inúmeros e tomariam todo nosso tempo. Todos estes problemas têm de ser removidos pela raiz se você quer realmente ser feliz nessa vida.

Algumas pessoas tornam-se neuróticas porque se sentem diferentes de outras: se sentem normais ou até mesmo especiais quando comparadas com outras pessoas. Outras pessoas se tornam neuróticas por se sentirem mais habilidosas e, portanto, diferentes de outras pessoas. Todos nós possuímos um incrível potencial; somos todos gênios em potencial. Portanto, a verdadeira diferença entre os assim chamados normais e os proclamadostalentosos é que estes últimos utilizam mais seu potencial interno, nada além disso. Assim, não se preocupe se você se acha normal ou até mesmo anormal, pois todos nós possuímos uma notável habilidade adormecida. A questão é que algumas pessoas manifestam isso mais dos que as outras.

Algumas pessoas propagam que a inferioridade é algo que faz parte da verdadeira natureza humana. Nós rejeitamos essa suposição, pois existem muitos grandes yogīs e sábios que certamente não possuem complexo de inferioridade; e nem, por outro lado, vão ao outro extremo tornando atitudes e tendo um comportamento superior perante outras pessoas. O sentimento de inferioridade é um desequilíbrio emocional causado por falta de compreensão e entendimento da verdadeira natureza intrínseca. O resultado é uma inveja excessiva e uma necessidade de competição para reduzir o sentimento de insuficiência em relação aos outros.

Sendo normalmente aceitos, embora não reconhecidos como problemas mentais, nós classificamos até mesmo os condicionamentos como problemas mentais, com graus diferentes de manifestação. Todos aqueles que se apegam a dogmas ou conceitos fixos pré-estabelecidos, possuem problemas mentais. Orgulho de cidadania, raça, credo e habilidades intelectuais são problemas mentais nas pessoas com idéias fixas. A mente cessou seu reservatório de idéias espontâneas e em seu lugar originou-se um repositório de padrões de pensamentos fixos, rígidos e estereotipados. Isso é um bloqueio enorme a manifestação da consciência elevada. Em outras palavras, os condicionamentos são problemas mentais. Nessa categoria podemos incluir a aceitação de idéias sem reflexão e experiência pessoal. As pessoas acreditam em quase tudo que lêem ou escutam, mesmo sem relacionar as informações com suas experiências pessoais. Não acredite em nada que não tenha experienciado. Isso se aplica ao conteúdo de todo esse curso. Considere as opiniões e idéias dadas aqui, mas apenas as aceite na medida em que puder experienciar. Apenas acredite que a água é salgada após ter experimentado. Na verdade, nós consideramos a suscetibilidade cega e o apego a idéias pré-concebidas e acumuladas como um dos maiores problemas mentais. Portanto, esteja receptivo, mas não ingenuamente cego.

Como enfatizamos anteriormente, estes problemas necessitam ser removidos para que possamos experienciar a felicidade, a bem-aventurança e os estágios mais avançados da prática meditativa. A maioria dos problemas, contudo, se encontram abaixo do nível da percepção normal, no subconsciente. O que você sabe é que eles apenas causam infelicidade, depressão etc. na vida, sem realmente conhecer a razão ou a fonte. É necessário reconhecer e então eliminar a raiz do problema. O que nós sempre enfatizamos é que todos os problemas e bloqueios podem ser removidos, eles não precisam fazer parte permanente de seu caráter. Tudo o que se requer é a necessidade e o esforço para removê-los.

Prática racional

Para que a paz mental se estabeleça na vida, três pontos devem ser observados:

  • Primeiro: procure impedir a ocorrência de novos problemas e distúrbios. A qualquer custo esvazie sua mente dos complexos já existentes e permaneça aberto e suscetível a novas impressões adversas. É necessário fazer com que a mente se fortaleça e mantenha-se resiliente aos altos e baixos da vida.
  • Segundo: esgote todos os problemas de que tem consciência, quer dizer, os problemas que conhece e reconhece existirem em sua mente.
  • Terceiro: gradualmente descubra e remova os problemas subconscientes. Estes são problemas que lhe causam muita dor, infelicidade e angústia na vida, mas que estão enterrados profundamente nos reinos inexplorados de sua mente. Você sente o resultado destes problemas na forma de depressão etc., mas não reconhece a causa. Você atribui a causa a algum evento ou pessoa externa, mas a verdadeira causa reside nas profundezas de sua mente. Estes problemas subconscientes precisam ser reconhecidos e então removidos.

Estes três processos não ocorrem um após o outro, como listamos acima, mas simultaneamente. Eles se suplementam. Por exemplo, uma vez que um problema subconsciente (estágio 3) tenha sido reconhecido, automaticamente ele prosseguirá ao estágio 2. Na medida em que estes problemas são progressivamente removidos, então a habilidade de encarar as situações da vida sem se desequilibrar surgirá e crescerá automaticamente. Em outras palavras, quanto menos problemas mentais você tiver, mais será capaz de encarar a vida com calma e equanimidade. Assim, estes três estágios, juntos, operam na eliminação e prevenção de distúrbios mentais e na aquisição de paz, saúde e equilíbrio. Eles atuam juntos. Nós aqui fragmentamos essa equação para fins de explicação.

Nós voltaremos a discutir esses três estágios para eliminação dos problemas mentais nas próximas lições. Aqui nós apenas discutiremos métodos simples e efetivos para aquisição de paz e harmonia na vida em um nível consciente. Estes métodos são óbvios, por isso são matéria de senso comum, embora sejam raramente aplicados. É por isso que sentimos a necessidade de discuti-los. Remover os problemas subconscientes é a tarefa mais importante, mas resolvê-los em nível consciente é uma questão de urgência. De fato, esse é o primeiro passo para resolução dos conflitos mais profundos.

Auto-aceitação

Abrimos este tópico com algumas sugestões para que reprograme sua mente a fim de encontrar e eliminar profundos problemas de seu subconsciente:

  • Aceite a si mesmo e seus sentimentos.
  • Não se compare com os outros.
  • Use seus talentos particulares e execute aquilo que surge naturalmente de seu interior.
  • Não suprima as emoções, mas deixe que elas se manifestem através de você com consciência.
  • Não sinta culpa por eventos que já se passaram.

Muitas pessoas acham difícil, se não impossível, aceitar a si mesmas como são. A mente é sempre atormentada por um perpétuo sentimento de culpa, inferioridade, inadequação e inconformidade. As pessoas não conseguem esquecer o passado e se sentem insatisfeitas com a vida, em todos os sentidos. O tempo todo elas anseiam por algo mais, como um status mais elevado, que poderá lhes proporcionar grande respeito perante as pessoas. Não existe nada errado com a ambição em relação ao sucesso; isso é algo intrínseco a natureza humana, mas as pessoas deveriam pelo menos tentar aceitar a si mesmas, suas falhas e limitações. Ao mesmo tempo, alguma insatisfação é necessária, pois ela é a força que propulsiona e inspira todas as pessoas a buscarem níveis mais elevados de consciência. Portanto, seja sempre realista na avaliação de seus defeitos.

As pessoas sempre se comparam com as outras. Sentem-se inferiores porque não têm o que as pessoas possuem. Vêem o vizinho rico com seus três carros e TVs de plasma em todos os quartos e salas de sua suntuosa mansão e sentem-se aplacados por um profundo sentimento de inveja. Elas se comparam e se condenam por não terem a mesma prosperidade.

Algumas pessoas vêem os astros do cinema e desejam ter o mesmo talento, fama e popularidade. Contudo, essa comparação leva a uma profunda insatisfação e desilusão que provoca infelicidade e até depressão. As pessoas não querem ver e aceitar seus defeitos e limitações. Elas falham em compreender que embora o visinho e os atores exibam um sucesso exterior, os aspectos menos desejáveis de suas vidas estão ocultos ou mascarados. Embora o visinho e os astros irradiem sucesso em um nível material, eles podem estar completamente infelizes e deprimidos em um nível mais profundo. De longe as pessoas apenas vêem sucesso e felicidade e é com esse sucesso exterior que elas costumam se comparar. É a partir dessa exibição externa que a maioria de nós desenvolve sentimentos de inadequação e inferioridade em relação aos outros. Portanto, aceite a si mesmo e não se condene baseando-se em comparações injustificadas em relação a outras pessoas.

Todos nós temos talentos específicos, mas em algumas pessoas esses atributos são mais óbvios. Ademais, a sociedade em diferentes épocas valoriza alguns talentos mais do que outros. Se você é um bom jogador de futebol, um músico ou grande palestrante, isso será rapidamente reconhecido pelas pessoas e a sociedade em geral. Mas se você é bom trabalhando com crianças ao ponto de inspirá-las, ou constrói um belo jardim, ou é um bom mecânico, se é um bom pai e possui a capacidade de escutar e compreender os problemas das pessoas com compaixão, então essas qualidades podem ser consideradas talentos. Estes são talentos menos óbvios, que não costumam aparecer a um golpe de vista, contudo eles são tão importantes e substanciais quanto qualquer outros. Portanto, não são apenas os famosos que possuem talentos. Você possui talentos, talvez menos tangíveis, como sabedoria e benevolência ou a habilidade com as mãos, embora estes não sejam talentos rapidamente aceitos.

Tente trabalhar naquilo que gosta, naquilo que lhe satisfaz e está em concordância com sua natureza. Não se preocupe com o que as outras pessoas fazem, pois elas seguem os ditames particulares de suas personalidades. Na presente época em que vivemos, muito respeito e status são atribuídos a pessoas que executam determinados papeis na vida: atores, executivos, acadêmicos etc. Por essa razão muitas pessoas tentam ser bem sucedidas nessas áreas, mesmo quando a personalidade não se adéqua a situação. Isso leva a infelicidade. Portanto, aceite a si mesmo e faça aquilo que está em concordância com sua natureza. Faça as coisas que vêm espontaneamente, sem esforço excessivo, e que se adéqüem a seu temperamento. No Yoga nós chamamos isso de dharma e o consideramos como parte essencial da vida humana no caminho que leva a felicidade e a consciência elevada. Na Bhagavadgītā, o assunto dharma (o dever natural do homem), é discutido de capa a capa. Ignore status, pois este é um conceito social fundamentado sobre bases frágeis. O trabalho executado por qualquer pessoa não importa, é a atitude perante ele que sim. Um gari que executa seu trabalho com interesse e consciência está mais perto do caminho doYoga do que um cientista que trabalha de forma indiferente e sem consciência. Não se importe com o que as outras pessoas pensam. Lembre-se, elas julgam a partir do ponto de vista limitado de seu próprio preconceito e problemas mentais. Execute o seu dharma: trabalhe, se comporte e exerça todas as funções em concordância com sua natureza intrínseca.

Aprenda a aceitar suas emoções e sentimentos sem culpa. Se, por exemplo, você tem a tendência de ficar nervoso por qualquer coisa, aceite isso como parte de sua personalidade. Não sinta culpa. Mas da próxima vez que estiver nervoso, esteja consciente e testemunhe o nervosismo. Não suprima a raiva, pois suas impressões irão se acumular no subconsciente e eventualmente se manifestarão como problemas mentais e físicos. Não tenha medo de expressar suas emoções, mas ao mesmo tempo mantenha sua consciência alerta nelas. Isso se aplica a todas as emoções, não apenas a raiva e o nervosismo. É claro, não é sempre conveniente expressar suas emoções publicamente (talvez, contra o patrão, por exemplo), mas na medida em que purificar a mente através do Yoga e da meditação, as emoções se tornarão mais positivas e causarão menos atrito em relação a outras pessoas. Não existirá necessidade em suprimir as emoções sob nenhuma circunstância, pois elas deixarão de existir em um sentido negativo.

Muitas pessoas não conseguem aceitar as necessidades humanas mais instintivas que fazem parte de sua constituição. Todos têm impulsos sexuais, desejos por certos tipos de comida etc. As pessoas desenvolvem complexos a partir destas necessidades e impulsos, e sentem que estes anseios ou instintos são sórdidos ou bestiais; usualmente, após terem sido convencidas disso por pessoas em que confiam e respeitam, mas que também possuem seus próprios problemas mentais. Tente aceitar as suas necessidades como fatores naturais da condição humana. Reconheça que eles não estão separados ou são antagônicos a vida. Quanto mais você aceitar suas necessidades e impulsos, menos será aborrecido ou atormentado por eles.

Tente não se sentir culpado pelos eventos do passado. As pessoas são constantemente sobrecarregadas por arrependimentos e remorsos, culpa e desgosto por atitudes ou experiências passadas. Esqueça o passado, ele já passou. Viva o presente. O que aconteceu já passou, então por que se sentir atormentado? Use essa lembrança apenas como referência. Shakespeare, com simplicidade e profundidade de entendimento, sumarizou essa atitude quando disse: O que foi feito e o que passou são águas passadas. Isso se aplica aos maus tratos que por ventura você tenha passado. Se você sente um ressentimento contínuo, isso é um fator discrepante que transforma sua vida em um mar de infelicidade e tensão. Tente deixar de lado esse ressentimento – deixe as coisas do passado no passado. Se não, elas continuarão a causar distúrbios na sua vida e na vida daqueles que convivem com você. Embora seja mais fácil falar do que fazer, ao menos considere que este ressentimento está deixando seu presente e indo embora. Se os ressentimentos do passado têm um papel destacado em sua vida e estão profundamente impregnados em sua memória, é claro que será mais difícil removê-los. Mas eles podem, e serão removidos se você perseverar em suas práticas meditativas. É apenas uma questão de tempo. Essa ponderação consciente sobre seus ressentimentos e rancores é o primeiro passo.

Pratique as sugestões que estamos dando que estará no caminho da total auto-aceitação. No início a prática age em um nível bem superficial, mas este é o início de uma auto-aceitação em um sentido muito mais profundo. Automaticamente, na medida em que começar a aceitar a si mesmo, então começará a aceitar os outros, indiferente as suas falhas. Você perceberá que as pessoas agem de maneira que possam ser convenientemente aceitas tanto por si mesmas quanto pelas outras pessoas. Isso se aplica as pessoas que se comportam da maneira mais bizarra; apesar de suas ações parecerem completamente fantasiosas, é apenas o seu caminho – embora inadequado e estranho – uma maneira de expressar o conflito contra a aceitação de si mesmo. Na medida em perseverar em suas práticas meditativas, haverá um crescimento interior e você aprenderá a aceitar as pessoas como são e isso ajudará as pessoas lhe aceitarem como é. Este aumento de consciência é um crescimento positivo que trará harmonia para sua vida, tanto no mundo interior quanto no exterior.

A aceitação total de si mesmo ocorre com o advento de um conhecimento e entendimento mais refinado. É possível aceitar o escopo total de uma personalidade sem menosprezar as qualidades ou as limitações. Quando uma pessoa vive em um estado meditativo, é impossível não aceitar a si mesmo ou aos outros. Mas para conquistar essa experiência e continuar experimentando-a no decorrer da vida, você deve fazer um esforço positivo agora. O primeiro passo é aplicar conscientemente em sua vida o que acabamos de discutir. Isso deve ser suplementado pela prática meditativa e outras técnicas do Yoga que abordaremos nas próximas lições. Neste caminho, você irá erradicar progressivamente os problemas mentais e se tornará mais tolerante consigo mesmo e com os outros.

Relaxamento

Os problemas mentais somente podem ser confrontados e removidos se a mente estiver relaxada. O relaxamento pode ser induzido por:

  • A prática regular de técnicas relaxantes como a execução de śavāsana.
  • Reorientação das atitudes e comportamento através da aplicação dos códigos para reprogramação mental.
  • Remoção progressiva dos problemas mentais (este é um processo cíclico, pois a mente com menos problemas é capaz de relaxar mais profundamente e expelir problemas aterrados e acumulados nos rincões mais inacessíveis da mente).

Na medida em que a mente é purificada e esvaziada de seus problemas mais enraizados, ocorre um relaxamento em todos os aspectos da vida. O cultivo e a indução do relaxamento por estas técnicas auxilia tanto a limpar a mente do lixo acumulado bem como prevenir o surgimento de futuros problemas que possam surgir e causar novos desequilíbrios. Portanto, as técnicas de relaxamento são altamente recomendadas a fim de que possam arrancar pela raiz os problemas mentais. A psiquiatria já reconheceu o valor do relaxamento no tratamento de doenças mentais; é por isso que bons psicoterapeutas induzem seus pacientes a um relaxamento sistemático através de alguma técnica ou através da atmosfera de seus consultórios e sendo eles mesmos pessoas bem relaxadas. Relaxamento é absolutamente necessário se você quer purificar a sua mente.

O tema sobre relaxamento já foi discutido anteriormente e recomendamos que você retorne as lições anteriores a fim de que possa fazer uma reciclagem. Ambas as lições devem ser cuidadosamente estudadas porque elas constituem a base para se iniciar o processo de descondicionamento da mente. Nós descrevemos aquelas técnicas para uma indução rápida ao relaxamento, como a prática de śavāsana, que pode ser executada em poucos minutos. Em sua execução, o praticante pode sentir quase que de imediato os efeitos benéficos. Estes métodos não são nada além de práticas meditativas e, portanto, podem ser utilizados como um mergulho na mente e a exposição de seus problemas.

Nós sugerimos que você adote o décimo código: Tente se colocar no lugar de outras pessoas. Ao invés de reagir cegamente conforme seus padrões mentais, tente ver o ponto de vista do outro. Lembre-se sempre: sua reação é puramente automática. Isso trará um permanente estado de relaxamento na vida. Embora esse código possa parecer de alguma maneira superficial, ele é designado a reduzir o conflito e o atrito contínuo que a maioria das pessoas experienciam com seu meio ambiente e as pessoas ao seu redor. Com o tempo e prática o significado do código irá penetrar na mente subconsciente e irá auxiliá-lo a reorientar suas atitudes na vida. Muitas pessoas se encontram tensas e por conta disso não conseguem – e nem mesmo têm esperança para – resolver seus problemas. Esse código induzirá mais relaxamento e permitirá que você considere a vida como o divã do psicoterapeuta, onde você progressivamente esgota seus conflitos internos. O relaxamento é essencial na exploração da mente e no confronto de seus problemas. Sem o relaxamento, isso é impossível e por causa de muitas pessoas manterem-se tensas, não podem, sob circunstâncias normais, encarar seus problemas mais profundos face a face. Portanto, um razoável grau de relaxamento, mesmo que por vinte e cinco minutos, é um prelúdio essencial para o reconhecimento e confronto dos problemas mentais. Assim, antes de qualquer técnica, o relaxamento destaca-se como sendo de importância primordial.

Finalmente, nós gostaríamos de enfatizar que estados profundos de relaxamento por longos períodos de tempo, seja durante o almoço, o sono, trabalhando ou qualquer outra atividade, somente podem acontecer quando a mente está razoavelmente livre de seus problemas. Quanto mais você limpar e esvaziar a mente, mais será capaz de relaxar sob quaisquer circunstâncias. Além disso, quanto mais longo e profundo for o relaxamento, mais fácil será purificar a mente. Relaxamento induz a uma mente cada vez menos atribulada e uma mente menos atribulada induz a um relaxamento profundo. É uma via de mão dupla. Mas essa relação deve ser iniciada em um dado momento se você quer experienciar mudanças positivas em sua vida.

Sumário

Nós não delineamos técnicas definidas nessa lição, pois consideramos que o assunto auto-aceitação e relaxamento requerem tempo para uma assimilação mais profunda. Mas demos indicações de como proceder conscientemente com as sugestões propostas aqui. Contudo, colocar essas sugestões em prática no dia-a-dia em um nível consciente também leva tempo e requer esforço. Embora nós já tenhamos discutido o relaxamento, essa é uma boa oportunidade para praticar o material que já estudamos se ainda não o fez. Isso se aplica particularmente ao décimo código acima mencionado. Por esse motivo, nós sugerimos que gaste um pouco mais de tempo pensando ou repensando sobre o décimo código e sua aplicação no dia-a-dia.

Nas próximas lições sobre como remover os problemas mentais, discutiremos métodos mais tangíveis de identificar e esgotar os problemas mentais, tanto conscientes quanto subconscientes.

Tradução livre de Fernando Liguori.

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