O que há por trás do bate-boca entre Dória e Márcio França


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Escrito por Gabriel Galo

Nas últimas semanas, com escalada em decibéis nesta última, assistimos a intenso bate-boca entre João Dória (PSDB), prefeito licenciado da capital paulista e Márcio França (PSB), vice-governador do estado, em exercício do mandato com a saída de Geraldo Alckmin (PSDB) para concorrer à Presidência a República. Se por um lado o vice-governador questionou o fato de Dória ter saído da Prefeitura mesmo tendo dado a palavra de que isto não aconteceria, por outro o ex-prefeito elevou o tom, referindo-se a França como “Márcio Cuba” e de “extremista”. Consequentemente, ameaças de processos foram feitas.

Mas, afinal, o que aconteceu para esta troca de animosidades entre eles?

É importante lembrar de um aspecto fundamental que os une: ambos são pré-candidatos ao Governo do Estado. São, portanto, adversários no pleito vindouro. De acordo com a última pesquisa do DatafolhaDória aparece como favorito, amealhando 29% dos votos, contra 20% de Skaf (PMDB) e 8% de França, empatado tecnicamente com Luiz Marinho (PT) com 7%.

Dória apelou para o discurso polarizador que se mostrou bem-sucedido para sua eleição na Prefeitura. Recicla o ataque a uma pretensa esquerda militante, que soa como música aos ouvidos do conservador interior. Na mesma tacada, cria o desvio de foco necessário para fazerem esquecer sua mal avaliada gestão (18% de Ótimo/Bom e 47% de Ruim/Péssimo) e sua precoce saída.

Acontece que os argumentos de “extrema esquerda” de Dória, em teoria, não cabem a França. O atual governador em exercício mostrou-se leal companheiro de chapa, mesmo contra correntes mais fortes do partido que insistiam em outro caminho. A partir de 2012, quando o PSB decidiu romper com o PT, influenciado pelo início do julgamento do Mensalão, o direcionamento nacional era o de apoiar adversários do PT em estados onde não tivesse candidatos próprios com chances de vitória. Naquele momento, portanto, o PSB era oposição ao principal alvo dos ataques de Dória.

França utilizou-se do rompimento para se aproximar ainda mais de Geraldo Alckmin. Seu plano era, inicialmente, ser ele o candidato a governador em 2014. Ao se ver sem chances de vitória, aliou-se àquele que poderia oferecer mais benesses. A aproximação rendeu frutos ao agora ex-governador e, em especial, à cúpula tucana. Com a união entre Eduardo Campos (PSB, morto em 2014) e Marina Silva (Rede), seus nomes ameaçavam fortemente a ida de Aécio Neves ao segundo turno. De uma única vez, esta coligação estadual minou um palanque importante para Marina Silva em São Paulo, opondo-se à indicação da Rede, facilitando o caminho de Aécio.

Este movimento fez de França um aliado importante de Geraldo Alckmin. Destacou-se como testa-de-ferro na interação com as prefeituras do interior do estado. Esta varredura faz de França um nome bem aceito pelos prefeitos, que prometeram palanque montado ao pessebista. Uma vantagem competitiva importante na disputa pelo voto.

É nesta briga por apoio que entra a discussão com Dória. Se por um lado é notória a incapacidade do ex-prefeito de São Paulo de lidar com críticas – costuma acossar seus opositores, fugindo do debate de ideias, numa estratégia suja ao refestelar-se de táticas ad hominem para se expor – Dória acredita fielmente num modelo de construção de conexões na base do “se não está com comigo, está contra mim.”

O desejo de Márcio França, aumentado desde 2014, era o de sair candidato ao Governo de São Paulo. Chegou a ser o principal nome que seria apoiado pelo ex-governador Geraldo Alckmin. Até por uma questão de alinhamento nacional. Agora com Joaquim Barbosa filiado ao PSB, esta seria uma aliança valiosíssima a Alckmin. Este apoio, entretanto, obtido foi interpretado por Dória como uma traição de seu padrinho político. Para ele, o PSDB deve sempre estar como cabeça de chapa em qualquer eleição. Seria, assim, inaceitável que França fosse o candidato apoiado pelo PSDB – mesmo estando ele com sua palavra empenhada em permanecer na Prefeitura.

Neste ínterim, a cúpula do partido percebeu que alijar-se da disputa poderia colocar a perder os mais de 20 anos de mandatos consecutivos no Estado. Mesmo que não fosse França o vencedor, certamente pavimentaria a estrada para Skaf e o PMDB por conta da falta de oponente viável. Era necessário, portanto, um nome forte. Dória topou o chamado – que também ajudou a construir.

Ao ver a irredutibilidade de França em aliar-se a ele, em vez de permanecer calado e deixar o assunto morrer na irrelevância de FrançaDória partiu para a estratégia de “terra arrasada”. Sedento por vitória, parece querer aniquilar o adversário. Para isso, utiliza o chulo argumento da “extrema esquerda” a alguém que até pouco tempo era aliado político. E mais: numa péssima consequência estratégica, pode afastar em definitivo uma coligação nacional com o PSB.

Esta aliança com França, no entanto, não foi construída por Dória, mas por Alckmin. Não há remorso. Dória fia-se na visão de que deve, sim, ser eleito sem maiores dificuldades Governador do Estado. Simultaneamente, acua os prefeitos que apoiariam o pessebista, trazendo-os, na marra, para dentro de sua campanha. Livra-se de danos graves, mesmo em detrimento de um projeto maior do partido.

Esta estratégia tem seus riscos, claro. Há de entender até que ponto o discurso raivoso+gestor será bem recebido e encobrirá outros elementos de válidas críticas à sua atuação. Até mesmo por conta de uma abalada lealdade entre Alckmin e Dória, questiona-se a validade de apoio a Dória dentro do próprio PSDB. Contudo, enquanto estiver funcionando e se elegendo, usará desta arma sem parcimônia, mesmo a contragosto de muitas alas do tucanato paulista.

Crédito da Foto: Cris Castello Branco/Sebrae-SP

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