Índia geek


Boom tecnológico, novos investimentos em ciência e tradição matemática transformam o país no paraíso dos nerds

por Felipe Pontes
PRESENTE GEEK

Esse contexto foi fundamental para o boom de tecnologia iniciado em 1995, momento em que a indústria de TI da Índia explodiu com a terceirização de serviços de programação de softwares para companhias ocidentais. A abundância de mão de obra barata fluente em inglês (o país é uma ex-colônia da Inglaterra) aliada à facilidade das pessoas com a matemática fez com que as grandes empresas percebessem ali uma grande vantagem. Hoje, metade dos serviços de tecnologia da informação terceirizados em todo o mundo são fornecidos por indianos, um mercado que não para de crescer e rendeu US$ 35 bilhões no ano passado ao país. Para se ter uma ideia da modificação social que isso representa, o número de empregos no setor de engenharia cresceu 63% só no ano passado. Com esse impulso, as Câmaras Associadas de Comércio e Indústria do país estimam entre 10 e 15 milhões de vagas criadas neste ano, principalmente nas áreas de biotecnologia e TI. “A Índia verá mais 200 milhões de pessoas chegando à classe média até 2025”, diz Kiran Mazumdar-Shaw, indiana fundadora da Biocon, a maior companhia de biotecnologia da Ásia, e eleita pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo.

Aspirantes a cientistas e engenheiros lutam para ingressar nas melhores instituições do país e ocupar os postos mais altos desse mercado. A universidade mais disputada, a Meca dos geeks, é o Instituto Indiano de Tecnologia (IIT, em inglês). Com 16 unidades no país, aceita somente 800 estudantes por ano. “O IIT é um tesouro mundial”, afirmou Bill Gates, fundador da Microsoft e ex-patrão de muitos formandos da instituição durante uma palestra em 2003. De acordo com a associação de ex-alunos do instituto, seus antigos estudantes fundaram ao menos um quinto de todas as startups no Vale do Silício nas últimas duas décadas. A universidade é tão popular que tem até uma loja própria que vende cuecas com a sua marca.

Corbis/Jon Hicks

Sede da Infosys, uma das maiores empresas de tecnologia do país, no Vale do Silício indiano
Crédito: Corbis/Jon Hicks

 

CELEIRO DE NERDS

Há um ano, alunos do IIT em Nova Délhi fundaram um grupo de encontro para colocar em prática o conhecimento teórico aprendido em sala de aula. Batizado de Technocracy, o movimento ganhou um espaço livre para os participantes brincarem com gadgets e fuçarem em novas linguagens de computação sem a pressão dos testes e provas. O fato é considerado exemplo de uma transformação promovida pelo cenário geek: a indústria indiana de tecnologia está migrando da lógica de barateamento e cópia de sistemas de computação ocidentais para um celeiro de criatividade. Esse ambiente é estimulado dentro dos 800 centros de pesquisa em inovação do país.

Revista Galileu

Boa parte desse motor de novidades está na cidade de Bangalore, conhecida como Vale do Silício indiano. A região concentra um terço dos engenheiros ligados à tecnologia do país, conta com escritórios de grandes empresas (como IBM e Microsoft) e diversas startups. O ambiente anima jovens empresários a desenvolver projetos como a internet falada da IBM (que poderá ser acessível para qualquer um com comandos de voz no telefone celular) e um sistema de identificação biométrica de todos os cidadãos do país tocado pelo próprio governo. Com custos muito menores, o crescimento da área já preocupa funcionários de TI em fóruns de tecnologia dos Estados Unidos, que mencionam uma possível migração de empregos.

A cereja do bolo desse novo cenário é a construção já iniciada do que pode vir a se tornar um outro grande centro tecnológico no país: a cidade de Lavasa. O plano é que a área urbana, com capacidade para 300 mil habitantes, seja 100% informatizada, com uma extensa rede de fibra ótica ligada a um sistema de monitoramento que acusaria em computadores centrais eventos como o rompimento de canos, por exemplo. Ainda não há prazo para a construção do projeto, mas a casa dos novos geeks do país poderá ser mais um passo no sentido de equiparar a ciência e a tecnologia indiana com as de primeiro mundo. Se o esforço transformará um país marcado pelo analfabetismo numa superpotência científica é difícil prever. Mas não precisa ser gênio da matemática para ver que a maior concentração mundial de geeks já tem um novo endereço.

Ainda nesta matéria

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