Whitney Houston era uma deusa da música


Whitney Houston era uma deusa da música cujas cordas vocais não conheciam limites. Tendo coleccionado sucessos desde o início da sua carreira, é a única artista a solo a conseguir sete singles número 1 consecutivos na tabela Hot 100 da Billboard. I Will Always Love You, da banda sonora de O Guarda-Costas, de 1992, mantém-se como um dos singles mais vendidos de sempre, e a sua actuação ao lado de Kevin Costner é memorável. No entanto, no momento em que a vencedora de seis Grammys morreu na banheira de um quarto de hotel em 2012, tragicamente na véspera da cerimónia dos Grammys, o seu corpo encontrava-se destruído pelas drogas e a sua amplitude vocal tinha diminuído. Tinha 48 anos.

Whitney nasceu em Newark em 1963 e começou a cantar no coro de gospel aos 11 anos JACK VARTOOGIAN/GETTY IMAGES

A sua vida tem sido tema de muitos documentários para cinema e televisão, nomeadamente o filme Whitney: Can I Be Me, do realizador britânico Nick Broomfield, e que estreou no ano passado. Mesmo sabendo que o filme de Broomfield iria estrear primeiro, o galardoado realizador escocês Kevin McDonald avançou com o seu próprio filme, intitulado simplesmente Whitney.

“Eu e o Nick não somos amigos próximos, mas conheço-o, gosto dele e admiro os seus filmes”, diz McDonald. “Na verdade, quando eu estava a começar a fazer documentários, ele foi muito encorajador e generoso. Sabíamos sobre os filmes um do outro, e eu estava consciente que o filme dele ia estrear primeiro. Mas o tema prendeu-me de tal maneira que acreditei que podia contar a minha versão da história. Ter tido acesso à sua música, à sua família e a tanto material de arquivo completamente inédito foi um bónus incrível. Não faria um filme ao mesmo tempo que outra pessoa se não achasse que o meu ia ser o melhor.”

Pat Houston, cunhada, gestora e testamenteira da herança de Whitney, concedeu ao realizador escocês controlo absoluto sobre o filme. Isso foi essencial para o realizador, conhecido pelas suas posições políticas e que desliza entre ficção e não-ficção (incluindo Marley e Touching the Void – Uma História de Sobrevivência), e que recebeu inúmeros prémios por O Último Rei da Escócia, uma obra híbrida. Forest Whitaker recebeu o Óscar de Melhor Actor pelo seu retrato de Idi Amin. “As pessoas sentem um fascínio infinito pela história da Whitney, mas temos assistido a muitos rumores, mentiras, suposições e mexericos”, nota McDonald. “Creio que a razão que levou a família a aceitar que fizéssemos o filme e que lhes deu a coragem para me entregarem o final cut foi a esperança de que o filme recuperasse a simpatia das pessoas por ela.”

Inicialmente, o que atraiu McDonald foram os elementos misteriosos da história de Whitney. “Conheci a sua agente, Nicole David, e ela disse-me: ‘Eu amava mais a Whitney do que quase qualquer outra pessoa na minha vida, e trabalhei 25 anos com ela. Mas nunca a compreendi, e nunca entendi porque é que ela acabou da maneira que acabou. Tem de fazer um filme para descobrir’.”

Para arrancar com o projecto, Nicole David e Pat Houston trabalharam em conjunto com a produtora Lisa Erspamer, que tinha tido a ideia original em 2009, após ter dirigido a entrevista de Whitney no The Oprah Winfrey Show. Pediram ajuda aos premiados produtores de documentários Jonathan Chinn e Simon Chinn, que produziram o galardoado filme sobre o cantor Rodriguez, À Procura de Sugar Man, e que estão actualmente a trabalhar num filme sobre Tina Turner. Estes, por sua vez, contrataram McDonald.

Foi apenas no final das suas investigações que o realizador descobriu o passado de abuso sexual de Whitney, e decidiu que o assunto seria um “murro no estômago” apropriado para o final do filme.

O poder do abuso

Depois de Whitney ter estreado em Cannes, as notícias sobre o abuso de que foi vítima fizeram manchete por todo o mundo. Numa entrevista em separado, Pat Houston confirmou que a prima de Whitney, a falecida cantora Dee Dee Warwick, tinha molestado Whitney quando esta era criança. A irmã mais nova de Dionne Warwick ficava a tomar conta de Whitney quando a sua mãe, a cantora Cissy Houston, hoje com 84 anos, estava em digressão.

“Nos últimos anos da sua vida, a Whitney falou sobre o assunto com as pessoas com quem se sentia confortável. Comigo e com a Mary Jones”, revela Pat, referindo-se à assistente de longa data de Whitney, que aceitou fazer parte do filme por ter uma irmã também vítima de abuso infantil. Pat diz que Whitney também contou a Gary Houston, seu marido e meio-irmão de Whitney e que também foi molestado por Dee Dee.

“Acho que foi algo de libertador para ela. Sei que para o Gary foi. Ela abriu-se connosco porque não queria que isso se tornasse um tipo de situação geracional. No filme, conto como ela costumava protestar e gritar comigo quando eu não levava a minha filha connosco quando estávamos em viagem. Até que lhe perguntei: ‘Mas qual é o teu problema? Não compreendo.’ E ela gritou muito alto: ‘Aconteceu-me a mim!’ E foi quando me contou a história. Ela queria que eu soubesse que era uma coisa que a afectava muito, falámos sobre isso, e eu compreendi porque é que ela se sentia assim.”

Quanto tempo durou o abuso? “Não acho que tenha sido uma coisa prolongada. A Dee Dee não era um monstro, mas efectivamente agia de forma muito inapropriada”, diz Pat Houston.

Por esta altura, McDonald já tinha falado com Dionne Warwick, embora não tenha incluído a sua entrevista no filme. “Não quis arrastar a Dionne para isto. A culpa não é dela. Por que é que ela há-de responder por uma coisa que a irmã fez, e sobre a qual nada sabia?”, defende o realizador. Tem a certeza que ela não sabia? “Não posso ter a certeza, mas ela deixou bem claro à Pat que não sabia. A entrevista com a Dionne foi bastante dura, no sentido em que ela é uma artista da ‘velha guarda’. Não estava preparada para se abrir de uma maneira que encaixasse no tom do filme.”

Em geral, diz McDonald, foi difícil fazer com que as pessoas se abrissem. “Já fiz muitos documentários, e este foi de longe o mais difícil em termos de conseguir que as pessoas fossem frontais e honestas.” Foi difícil tomar a decisão de revelar o nome da abusadora no filme? “Discutimos muito sobre se isso era a coisa certa a fazer. Como isto aconteceu ao mesmo tempo que o movimento #MeToo estava a crescer, e que as conversas sobre assédio e abuso entraram muito mais no domínio público, acabámos por achar que sim. Pessoas que foram vítimas de abuso concordaram com a decisão, e algumas afirmaram que isso lhes deu a motivação necessária para revelarem o nome dos seus abusadores. Dizer o nome dos abusadores retira-lhes o poder, porque lhes retira também o anonimato. Não sou especialista no assunto, por isso segui o conselho das pessoas.”

Pat Houston concorda que a história de Whitney é um reflexo da de muitas outras mulheres. “Alguns dos relatos de abuso que ficámos a conhecer no último ano são de mulheres que mantiveram o silêncio durante 20 ou 30 anos. Com Whitney aconteceu o mesmo, ela era uma criança. As crianças não denunciam, especialmente se forem próximas das pessoas que abusaram delas. Sentem vergonha.”

Segundo McDonald, parte da vergonha que Houston sentia “devia-se a todos os rumores sobre ela ser lésbica ou bissexual. O facto de o abuso ter sido cometido por uma mulher torna tudo mais complicado e provavelmente tornou a sua vergonha ainda maior, particularmente nas comunidades religiosas afro-americanas, onde a homossexualidade é tão mal vista”.

“Tanto quanto sei, a Whitney teve apenas uma relação homossexual na vida, com a Robyn Crawford.” Uma vez que está a escrever o seu próprio livro, Crawford não foi entrevistada para o filme. “Li que a relação durou um par de anos, quando elas eram muito novas, e que depois se mantiveram amigas muito, muito próximas.”

O príncipe Bobby Brown

A culpa foi da família? “Sim, para mim isto é uma história familiar. É uma história sobre uma pessoa que ansiava por segurança, amor e família, e que nunca amadureceu emocionalmente por causa do abuso sexual. “Creio que isso acontece frequentemente. Quando o trauma ocorre, as vítimas ficam emocionalmente atrofiadas. Ela tinha sete ou oito anos, e nunca conseguiu tornar-se uma adulta plenamente madura.”

Tanto McDonald como Pat realçam que o marido de Whitney, Bobby Brown, não foi responsável pela sua morte, ao contrário do que os tablóides têm afirmado. “O Bobby não é um homem mau, acho que é só um bocado um caso perdido”, afirma McDonald. “Ela separou-se dele em 2006 e viveu mais cinco anos, por isso acho que teve tudo só a ver com ela. O facto de que ela própria era um enigma é o que a torna tão interessante. Ela nunca se exprimiu verdadeiramente em público, não compunha canções sobre si como a Amy Winehouse, não escrevia um diário. As suas entrevistas eram muito unidimensionais, excepção feita à incrível entrevista de 2002 com a Diane Sawyer a que fazemos referência no filme. Isso é incrivelmente poderoso.”

Ainda assim, não subsistem dúvidas de que o falhanço do seu casamento ajudou a propulsionar a sua espiral descendente. “Ela estava apaixonada, mas nos casamentos surgem contratempos”, diz Pat, casada com Gary há 24 anos. “Acho que havia demasiada gente metida na vida deles. Um casal de celebridades não tem o seu mundo privado, é muito difícil. Ainda por cima eram novos. O Bobby tinha 23 anos quando casaram, por amor de Deus!” Whitney era cinco anos e meio mais velha.

“Ela via-o como o seu príncipe encantado, e isso mostra um enorme erro de avaliação da sua parte”, nota McDonald. Afasta também a ideia de que foi Brown quem iniciou Whitney nas drogas. Michael, o irmão mais velho da diva, afirmou ter sido ele o responsável numa entrevista a Oprah Winfrey em 2013.

“Os irmãos da Whitney encorajavam Bobby, mas viam-no como um iniciante no que toca a drogas. Nesse aspecto, não era Bobby quem a puxava para a destruição. Creio que ele é um homem um pouco fraco, que sempre tentou mostrar-se maior e mais importante do que aquilo que é. A maneira como repetia que ‘Ela não é a Whitney Houston, é a Whitney Brown’ é muito reveladora. Para mim, um dos momentos mais comoventes é a parte em que alguém diz que a Whitney decidiu tornar-se pior porque ele não conseguia tornar-se melhor. E isso é culpa dela porque cresceu com aquela fantasia de princesa, achando que o seu príncipe encantado iria aparecer e resolver todos os seus problemas.”

O nascimento da sua filha, Bobbi Kristina Brown, alimentou essa fantasia. (Bobbi morreu três anos depois da mãe, em 2015, de forma tragicamente parecida, seis meses após ter sido encontrada drogada e inconsciente numa banheira.)

“Acho que, a princípio, a experiência da maternidade foi muito emocionante para ela”, diz Pat. “Mas, muitas vezes, gostarmos de crianças não faz de nós boas mães. A Whitney lamentava muito não ter estado presente, e nos seus últimos anos tentou ser uma melhor mãe para a Krissie. Lembro-me de estarmos em digressão na Austrália e a Krissie estava a almoçar comigo e com o Gary. Perguntei-lhe o que se tinha passado entre ela e a mãe, e ela respondeu: ‘A mamã bateu-me com um cinto, mas não me magoou.’ A Whitney estava a tentar discipliná-la, mas já era um bocado tarde, ela já era adulta.”

Whitney e Michael

Uma das pessoas com quem Whitney se abria era Michael Jackson, outro artista afro-americano que perdeu o rumo no meio do seu próprio sucesso. “Ambos começaram a actuar muito jovens e eram extremamente icónicos. Não há muitos artistas que consigam esgotar estádios como eles faziam, e tinham uma ligação muito forte. Quando estavam juntos era só brincadeiras e sorrisos”, afirma Pat Houston.

Porque acha que precisavam tanto de drogas? “Porque tinham de lidar connosco. Pusemo-los em pedestais, como se fossem imortais. Quando se chega a um certo ponto na vida em que se sentimos que estamos tão acima de tudo o resto que somos intocáveis, é muito fácil cair.”

O filme mostra como foi doloroso para Whitney perder a qualidade da sua voz. “Quando era criança, tudo o que ela queria era cantar”, observa Pat. “A música já fazia parte da família antes de ela nascer. A sua mãe era uma artista incrível, bem como as suas tias e primas, e ainda tinha outros parentes que eram cantores fenomenais. É triste, mas muitas vezes a vida prega-nos partidas. Sabemos que não devemos fumar e fazer outras coisas se queremos ter uma voz extraordinária. É preciso trabalhar para isso. Foi devastador, mas ela nunca desistiu.”

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Whitney Houston morreu em 2012, na véspera dos Grammys, depois de ter feito uma carreira de recordes na indústria musical PAUL BERGEN/REDFERNS/GETTY IMAGES

Gradualmente e à medida que o filme foi avançando, McDonald começou a identificar-se com as lutas de Whitney. “Quando comecei não gostava particularmente dela, mas acabei a sentir uma grande simpatia por ela e a admirá-la enormemente enquanto artista. Quanto mais tempo se passa com ela, quanto mais tempo se passa com aquela voz, mais poderosa se torna. É uma pena que não tenha feito mais música, mas a que fez é fantástica. Agora trata-se de a celebrar pela excelente artista que a Whitney era. Não precisamos de continuar com os boatos sobre ela. McDonald salienta que os media gozaram repetidamente com o seu vício, e lembra “momentos chocantes na Comedy Central e em Family Guy.”

Pode acontecer novamente a mesma coisa? “Não. A lição mais óbvia que se pode tirar deste filme é como os media, especialmente a imprensa tablóide, podem ser tão destrutivos e cruéis, e esquecerem que há uma pessoa que está a sofrer. Não é preciso perceber as razões do sofrimento de Whitney para ver que ela estava em sofrimento. O mesmo se passa com o pobre do pai de Meghan Markle e com outras histórias parecidas. As redes sociais, o Instagram e o Twitter, ainda tornam as coisas piores, porque as pessoas sentem-se mais desconectadas, não querem saber. Mas como cineasta que ocasionalmente é criticado pelos seus filmes, sei que dói quando alguém é realmente malcriado connosco. Mas quando se é a Whitney Houston e toda a gente está a falar de nós o tempo todo, isso pode ser devastador.”

No fim do projecto, McDonald tinha passado a admirar Whitney não só pela música, mas também pelo seu impacto nas relações raciais. “No Super Bowl de 1991, a Whitney mudou a forma como The Star-Spangled Banner [hino dos Estados Unidos] é cantado, e tornou-o em algo que os negros americanos sentem orgulho em cantar. Na digressão de O Guarda-Costas, em 1994, Whitney tornou-se no primeiro artista estrangeiro a tocar na África do Sul após o apartheid. E fê-lo quando não tinha quaisquer conotações políticas e, para mim, isso é fascinante.”

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Em 1994, Whitney Houston foi o primeiro artista estrangeiro a tocar na África do Sul após o apartheidMEDIA24/GALLO IMAGES
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