O caminho da felicidade: lições do Relatório Mundial da Felicidade de 2015


Happy Stockholmers soaking up the feeble spring sun at Kornhamn

ANNA_T/FLICKR
Happy Stockholmers soaking up the feeble spring sun at Kornhamn

Ficar mais rico, mas não mais feliz: é uma história familiar para pessoas e países. O objetivo do Relatório Mundial da Felicidade, agora em sua terceira edição, é lembrar governos, sociedade civil e indivíduos que, sozinha, a renda não garante nosso bem-estar. A verdadeira felicidade depende de capital social, não só de capital financeiro.

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As evidências são claras. Ao redor do mundo, o Gallup International pergunta às pessoas sobre sua satisfação com a vida. “Imagine uma escada com degraus numerados de zero, na parte inferior, até 10, no topo. O topo da escada representa a melhor vida possível para você, e a parte inferior representa a pior vida possível para você. Em que degrau você diria que está?” Os países variam muito, e sistematicamente, em suas notas médias. Usando essas notas, é possível determinar, estatisticamente, os motivos de satisfação com a vida ao redor do mundo.

Sim, renda é importante. O desenvolvimento econômico é importante, especialmente para sair da pobreza extrema. A saúde também importa, tanto física quanto mental. Sem surpresas até aqui. Mas nossas vidas de “animais sociais” talvez sejam o mais importante de tudo, para usar a famosa frase de Aristóteles. A satisfação na vida depende de fortes redes de apoio social, de generosidade e de voluntarismo, de “confiança generalizada” entre estranhos na sociedade, e de confiança no governo. As pessoas que vivem em países governados por corruptos sofrem com menos satisfação em suas vidas.

O argumento básico de que bem-estar não depende só de riqueza, mas também da qualidade das nossas relações humanas, é ao mesmo tempo óbvio (quem poderia negar?) e ausente da política e do nosso discurso diário. Não vemos manchetes declarando “a confiança está em queda nos Estados Unidos” (ela está caindo), mas temos infinitas notícias sobre a “desaceleração do PIB”.

Nossa sociedade cada vez mais dá valor às pessoas e a seus comportamentos de acordo com sua riqueza, não sua integridade. Muito de nossos principais CEOs presidem companhias que cometeram enormes crimes fiscais – fraude, manipulação de preços, negócios escusos na Bolsa e mais – e que pagaram dezenas de bilhões de dólares em multas; ainda assim esses CEOs são reverenciados por serem ricos e continuam sendo convidados a frequentar a Casa Branca justamente por essa razão. Dá para entender por que a confiança está em baixa nos Estados Unidos. A sociedade está mais desigual, e nossas principais empresas parecem driblar as regras como se não houvesse amanhã, sem falar em violar as leis.

O relatório pode ajudar, de forma gradual, a inverter esse declínio moral, a recuperar a confiança social e a fé no governo. É claro que isso não vai acontecer do dia para a noite. O dinheiro vai mais uma vez dominar a política na eleição de 2016; nossos candidatos já foram comprados. Mas comparando os países no topo dos rankings de felicidade com aqueles mais para baixo (como os Estados Unidos), temos muito a aprender e muito a mudar.

Os países mais bem colocados, especialmente os nórdicos, têm muito menos desigualdade que os Estados Unidos, e muito mais segurança social. Os Estados Unidos entregam os pobres à sua própria sorte. Não é o caso nos países mais felizes. Eles têm o que se chama de ethos “social-democrático”: a sociedade deveria cuidar dos seus, especialmente dos menos privilegiados. Os países do alto da lista não aceitam que seus CEOs levem milhões de dólares de salários anuais enquanto o trabalhador do chão de fábrica vê cair seu poder de compra. Os países líderes não aceitam a torrente de dinheiro na política e o lobby que virtualmente definem o sistema político americano de hoje.

O relatório deste ano delineia alguns caminhos possíveis para uma maior satisfação. Os governos podem avaliar suas escolhas de acordo com seu provável (e mensurável) impacto na felicidade. Governos podem garantir acesso a serviços de saúde mental, desenvolvimento na primeira infância e ambientes seguros, nos quais a confiança possa crescer. Educação, incluindo educação moral e treinamento da conscientização, podem desempenhar papeis importantes.

Estamos num estágio inicial da nova ciência da felicidade e da satisfação, e num estágio ainda mais prematuro no que diz respeito às implicações disso nas políticas públicas. Ainda assim, os antigos sábios e as pesquisas mais recentes nos dizem que devemos continuar avançando, colocando a felicidade de volta no centro das discussões públicas e o acúmulo de riquezas como só um entre vários objetivos. Governos de todo o mundo estão tomando nota e parecem prontos a fazer da felicidade (ou da satisfação com a vida) um dos indicadores importantes para os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável que serão adotados pela ONU no final deste ano. Seria um passo importante para garantir que o bem-estar da humanidade ocupe uma posição central das preocupações globais e nas escolhas políticas dos anos por vir.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.
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