Ter Asperger aos 50, sem saber


Cerca de 1% da população mundial tem algum Transtorno de Espectro Autista (TEA)

Francisco Violat, astrônomo que tem Asperger. VÍDEO: EL PAÍS

Francisco Violat Bordonau (52 anos) soube aos 48 anos que tem a síndrome de Asperger depois de ser alertado por uma pessoa: um homem que o viu dando uma palestra comentou ter observado, pela sua maneira de falar e de se movimentar, que ele tinha Asperger. Violat Bordonau fez os testes com um psicólogo e confirmou a sua condição. “Quando me diagnosticaram, fiquei aliviado. Eu disse: ‘já sei o que eu tenho, já sei o que preciso fazer, preciso reforçar a empatia, a integração social’, e fiz terapia durante muito tempo e estou muito bem”, conta o astrônomo e astrofísico.

Não se sofre da síndrome de Asperger, pois ela não é uma doença. A pessoa simplesmente tem Asperger, por ter uma condição neurológica diferente daquela que é a mais frequente na população. Trata-se de um Transtorno de Espectro Autista (TEA) que pode ser detectado entre os três e os quatro anos e meio de idade. O diagnóstico precoce é um dos principais objetivos das instituições que trabalham com esse tema. Mais de 10% dos casos que aparecem pedindo orientação são de pessoas adultas que souberam do problema já na maturidade. Na quinta-feira, 18 de fevereiro, foi lembrado o Dia Internacional da Síndrome de Asperger.

“A partir do diagnóstico, a minha vida mudou totalmente: minha ex-mulher se divorciou de mim depois de 19 anos e eu tive de aprender a viver sozinho, sozinho com os meus problemas, com a depressão que eu tinha, tanto por causa do diagnóstico quanto por ter ficado sozinho, e refiz a minha vida, e agora sigo em frente”, diz um ex-professor, que está desempregado.

Nix (nome fictício) não teria se dedicado ao ensino se tivesse sabido antes que tinha Asperger. Só soube que tinha um TEA há alguns anos — “aos quarenta e poucos” —, depois de passar a vida toda achando que era tímido, incompreendido, diferente. O professor mantém sob reserva a sua condição neurológica, a tal ponto que ninguém tem conhecimento dela em seu trabalho. “Nas poucas vezes em que abri isso, ninguém entendeu, e falaram de algumas características de pessoa conhecidas e as compararam com as minhas dizendo que eram muito esquisitas, adjetivos, como freak ou outros parecidos, bastante usados quando se referem a pessoas asperges ou autistas”, afirma o entrevistado.

Os casos de Nix e Francisco Violat são dois entre dezenas acompanhados de perto por organizações afiliadas à Federação de Asperger da Espanha. Ainda que estejam voltadas a crianças e seus pais, também atendem adultos que tiveram um diagnóstico tardio. “Os diagnósticos tardios não são os mais frequentes, mas tampouco são desprezíveis. Não dispomos de estatísticas muito abrangentes, mas calculo que estejamos falando de entre 12% e 15% das pessoas que solicitam acompanhamento através de programa”, afirma José Antonio Peralta, responsável técnico da Federação.

O diagnóstico tardio está ligado ao desconhecimento: nos anos quarenta, os psiquiatras austríacos Leo Kanner e Hans Asperger descreveram pela primeira vez os quadros clínicos dos TEAs. Mas foi apenas em 1994 que a Síndrome de Asperger foi oficializada como um distúrbio do desenvolvimento incluído no Manual Diagnóstico Estatístico da Associação Americana de Psiquiatria. Naquela época, Francisco Violat e Nix já tinham seus 30 e poucos anos, o que impossibilitou um diagnóstico na infância. “Na minha época, ou você era normal ou era autista, no sentido depreciativo de alguém que está fechado em si mesmo, algo muito agudo, muito avançado e muito profundo. Não havia essa distinção sutil que há hoje”, diz Violat.

Uma pessoa que chega aos 40 anos sem saber que tem Asperger tem que se reeducar, rever algumas decisões de vida e compensar algumas deficiências em sua forma de socializar. E essa falta de acompanhamento psicológico ao longo da vida deixa cicatrizes no que se refere à interação social: abuso, assédio e incompreensão. Nix diz que o mais difícil na convivência com a síndrome é justamente “não saber o que se tinha”, assim como “a rejeição de outras pessoas, a solidão de não poder contar com ninguém no terreno da amizade”. “[Incomoda] que me tomem por idiota por causa da minha pouca expressão facial e minha ingenuidade, ou que na área profissional ocorram assédios, o que, infelizmente, tive que viver”.

“Durante a infância, a adolescência e a entrada na vida adulta fui normal. Não tive muitos problemas. Já no ambiente de trabalho, algumas vezes sofri assédio, abuso e bullying. Eu pensava que era tímido e não era capaz de reagir. Até mesmo quando era casado, era minha ex-mulher quem me tirou desses apuros ao confrontar o abusador”, conta Violat. Para este astrônomo natural da Galícia, a convivência com outros pacientes com Asperger e que tiveram diagnóstico tardio ajudou-o a se integrar.

“Para uma pessoa com 35 ou 40 anos, no momento em que a síndrome poderia ter sido diagnosticada, era difícil fazê-lo porque não existia sensibilização nem conhecimento, e nem mesmo profissionais especializados em detectar, diagnosticar e intervir na Síndrome de Asperger”, explica José Antonio Peralta.

Nix acredita que ter descoberto sua condição mais cedo o teria ajudado a viver com menos ansiedade, ficar menos deprimido, assim como tentar conviver em um ambiente menos “estressante e opressivo”. “Em vez de ser professor, eu poderia ter escolhido um trabalho mais compatível comigo. Poderia ter refeito minha vida estudando outra profissão quando eu ainda tinha essa oportunidade”.

O responsável técnico da Federação de Asperger da Espanha diz que para facilitar a integração de pessoas com o distúrbio ou algum tipo de TEA é preciso ser flexível, estar disposto a aprender e a apreciar a diversidade humana. Francisco Violat afirma que a empatia ajuda: “Carne, sangue, espírito e sentimentos, somos exatamente iguais. A diferença é que, no melhor dos casos, temos mais dificuldades para nos revelarmos ou nos expressarmos. Mas, fora isso, não somos tão estranhos”.

Cerca de 1% da população mundial tem algum tipo de TEA, segundo dados dos Centros para o Controle e a Prevenção de Doenças do Governo dos Estados Unidos. E segundo a revista especializada Jama Pediatrics, mais de 3,5 milhões de norte-americanos têm autismo, enquanto no Reino Unido 604.000 pessoas são classificadas dentro desse espectro.

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