Carta Capital – Mais impostos, menos aposentadorias: a conta da Copa para os russos


por Deutsche Welle — publicado 11/07/2018 00h15, última modificação 10/07/2018 12h28
Com cortes drásticos na proteção social, população já está pagando pelo Mundial mais caro da história. Depois do sonho, a realidade no país de Putin
A. Demianchuk/Imago
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Torcedor russo na Copa: país foi contagiado pelo evento

Por Mikhail Bushuev

interesse dos russos pelo futebol parece ofuscar tudo atualmente, até a preocupação com uma polêmica e drástica reforma da Previdência. É o que mostra um estudo recente do centro de análises Levada, uma ONG russa independente de pesquisas sociológicas e de opinião.

O entusiasmo é compreensível: inesperadamente, a seleção russa conseguiu chegar às quartas de final da Copa do Mundo. Só então foi eliminada pela Croácia. Mas até mesmo a eliminação da chamada “Sbornaia” não acabou com a empolgação dos torcedores russos. Em vez de frustração, o país se mostra grato aos jogadores que deram tudo para fazer do torneio um conto de fadas.

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Porém, a Copa acabará no domingo 15. Os torcedores estrangeiros voltarão para casa, e os russos retornarão ao cotidiano, priorizando novamente as odiadas reformas do próprio governo, que ameaçam reduzir ainda mais o já decrescente bem-estar dos cidadãos.

Ninguém espera um crescimento especial da economia russa em 2018. A previsão do ministério russo da Economia para o período foi reduzida de 2,2% para 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

Em 2019, a economia deverá crescer ainda mais lentamente: o prognóstico oficial prevê apenas cerca de 1,4%. Um dos motivos mais evidentes para isso é o aumento do IVA (Imposto sobre o Valor Agregado, uma tributação sobre o consumo).

A alta deverá valer a partir de 1º de janeiro de 2019. O Parlamento russo aprovou o projeto de lei do governo na primeira sessão. De acordo com o projeto, o imposto deverá subir de 18% para 20% sobre o preço de mercadorias e serviços.

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Mas a conta da Copa será ainda mais longa. Exatamente no dia da abertura do torneio, o governo russo anunciou mais encargos financeiros para os cidadãos e que aumentaria a idade da aposentadoria de 60 para 65 anos para homens e de 55 para 63 anos para as mulheres. O plano é pouco detalhado: esse aumento deverá ser gradual e acontecerá entre 2019 e 2028 para os homens e até 2034 para as mulheres.

Tido como liberal, o presidente do Tribunal de Contas russo, Alexei Kudrin, é um dos defensores dos planos de reforma. Segundo seus cálculos, o aumento da idade para a aposentadoria poderia inundar os cofres do governo com 100 bilhões de rublos (1,3 bilhão de euros) por ano até 2024.

O ministro do Trabalho, Maksim Topilin, promete que parte desse dinheiro deverá ser convertido para aumentar as remunerações da aposentadoria. Atualmente, a aposentadoria média na Rússia é de cerca de 200 euros mensais.

Os planos do governo não foram recebidos com entusiasmo e fizeram com que as taxas de aprovação do presidente Vladimir Putin e de outros políticos na liderança do país caíssem. Também por isso espera-se que a reforma previdenciária seja amenizada durante a avaliação pelos legisladores.

Provavelmente, o aumento da aposentadoria e do imposto sobre o consumo também teriam sido aprovados sem a realização da Copa. Mas, na situação atual, a população russa deverá sentir os efeitos dos encargos financeiros adicionais a partir de já.

É que eles já precisam pagar bem mais pela obtenção de documentos federais. Em vez de 50 euros, um passaporte passou a custar cerca de 70 euros. Há pouco tempo, a carteira de motorista custava menos de 30 euros. Agora, custa mais de 40.

No país, as despesas como água, eletricidade e administração do lixo, que são cobradas de forma central pelas grandes empresas (antigamente estatais), também aumentaram, em média, 4%.

Talvez uma forma de compensar os custos da Copa do Mundo mais cara da histórica: segundo o próprio governo, gastou-se mais de 680 bilhões de rublos (quase 10 bilhões de euros). O valor está relacionado a gastos diretos com o evento – como a construção de dez estádios – e não leva em conta muitos dos gastos com infraestrutura, como linhas de transporte expresso que beneficiaram mais os turistas do que os próprios russos.

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