2010 – Reintegrado à UFRJ, Canecão está abandonado – Notícia de 2010 e estamos em 2018


RIO – “Nesta casa se escreve a história da música popular brasileira”. Ou melhor, se escrevia.

O Canecão já não faz jus ao seu clássico slogan – que costumava receber o público do alto do saguão – desde o dia 16 outubro, quando Bibi Ferreira encerrou as atividades da casa de shows mais tradicional da Zona Sul carioca. Depois de uma acirrada batalha judicial que atravessou gerações, o prédio onde o Canecão funcionava desde 1967 voltou há dois meses para as mãos de seu verdadeiro dono, a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desde então, permanece fechado e sem previsão de reabertura. Apesar da bandeira da instituição de ensino fincada na fachada, demarcando o território, a impressão de quem passa por ali é de abandono.

Veja imagens atuais do abandono do Canecão

Pichações nas paredes externas reproduzem palavras de ordem que reafirmam a decisão judicial (“O Canecão é da UFRJ”). Vidros quebrados, reboco aos pedaços, placas com anúncio de shows há muito passados (o de Edu Lobo, marcado para o último 19 de junho, sequer chegou a acontecer, por causa de um dos inúmeros fechamentos que a casa enfrentou este ano) e até galhardetes de políticos completam o triste cenário. A UFRJ reconhece a situação precária do importante espaço cultural carioca, mas alega não poder fazer muito a respeito neste momento:

– Estamos aguardando a Justiça determinar a retirada dos bens. Enquanto os administradores antigos não buscarem seu material, não podemos entrar no Canecão. O que faremos, em breve, é pintar as placas dos shows de preto e cobrir os letreiros para diminuir o aspecto desagradável – explica o professor Hélcio Carlos Gomes, diretor de Gestão Patrimonial da universidade e Fiel Depositário do Canecão – Mas, no momento, apenas eu e os seguranças do Canecão podemos entrar no prédio – afirmou em entrevista por telefone ao site do GLOBO, sem saber que o fotógrafo que registrou as imagens que ilustram esta reportagem passeou livremente por algumas áreas do prédio de 37 mil metros quadrados.

Segundo Gomes, a lentidão da Justiça acarreta na lentidão do processo para retomar as atividades normais da casa. O novo nome e o foco da programação – que deve contar com patrocínio de empresas privadas -, no entanto, não começaram sequer a ser discutidos.

– Este assunto passa por várias instâncias da universidade até que se decida o que vai ser feito com a casa. Diversos setores serão consultados para se chegar a um consenso, que será submetido aos órgãos colegiados da universidade – justificou, explicando os trâmites burocráticos – Por isso, não posso nem dar uma previsão para a reabertura do Canecão – lamenta.

Enquanto essas decisões não são tomadas, a população carioca perde um importante espaço e os artistas ficam sem um palco de médio porte para suas apresentações. É o caso dos mineiros do Skank, que costumavam abrir suas turnês pelo Canecão com séries de dois ou três shows, para poder receber seu enorme público.

– Era um lugar com história, gostoso de se tocar, uma vibração muito boa. Fora que é muito bem localizado, com um estacionamento enorme perto – relembra o tecladista Henrique Portugal, que se apresentou pela última vez naquele palco em novembro de 2009. Com os problemas judiciais do Canecão, o show de lançamento do disco gravado ao vivo diante de 50 mil pessoas no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, foi deslocado para o Vivo Rio.

A ligação de Jorge Vercillo com o local é ainda mais estreita. Seu primeiro sucesso, “Final feliz”, estourou em 2000 e, para aproveitar o embalo da música nas rádios, Vercillo bancou seu show no Canecão do próprio bolso. A experiência o levou a exaltar o local em verso e prosa no samba “Tudo que eu tenho”.

– Aquela noite ficou lotada e isso me deu muita visibilidade. Foi muito especial. Por isso, até o ano passado todos os meus lançamentos foram lá, gravei dois discos ao vivo no Canecão e até compus uma música autobiográfica que fala da casa: “Atravessava Túnel Novo a pé até o Canecão pra descobrir aquilo que me fez quem sou” – cantarola – Na última vez em que estive lá encontrei com Milton Nascimento no backstage e nós dois lamentamos o iminente fechamento. Aquela poderia ter sido a última vez que fomos ao Canecão e acabou sendo.

Mesmo com o futuro incerto e nebuloso, o diretor da UFRJ garante que o empreendimento que ocupar o lugar do antigo Canecão vai manter a “vocação” do espaço, abrigando atividades acadêmicas relacionadas e apresentações culturais.

– Recentemente cedemos um palacete na Praça da República por dez anos para o Iphan, pois eles se comprometeram a reformar o espaço, já que a universidade estava sem recursos. Mas não há a possibilidade de cedermos o prédio do Canecão, pois o funcionamento da casa como espaço cultural é do interesse da UFRJ – finalizou.

Procurado pelo GLOBO, o empresário Mário Priolli, responsável pelo Canecão, não foi localizado.

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