Morreu o sheik de Agadir


Não foi mais uma vítima do “Rato”, o assassino de luvas negras que se esgueirava por entre as fendas das cortinas, por trás das colunas, nos vãos das tendas espalhadas pelo deserto.

Sobreviveu a Janette, a Madelon – e ao “vovô” Rubim, em cuja sala nos juntávamos após o jantar, para acompanhar a novela, naqueles anos sessenta do século passado, quando televisão era artigo de luxo e vizinhos entravam sem bater e só iam embora após a chamada para as cenas dos próximos capítulos.

Sobreviveu à revelação de que tudo aquilo era cenário, que as dunas do Saara ficavam em Cabo Frio, que Madelon se chamava Leila Diniz, que Janette Legrand era Yoná Magalhães, e que não podia se confiar em ninguém, nem na doce (e falsamente paralítica) filha do califa de Bassora – que, contra todas as probabilidades e evidências, era o “Rato”.

Sobreviveu ao Hotel Rubim, ao trem vertendo viajantes na praça da estação, ao meu avô me mostrando que a bandeira de vidro da porta principal tinha as cores da bandeira de Portugal, à minha avó explicando por que nunca chovia quando o céu estava estrelado (se chovesse, as estrelas cairiam junto com as gotas de chuva, e iriam embora na enxurrada).

Só hoje, com sua morte, descubro que o sheik de Agadir não se chamava Henrique Martins, mas Heinz Schlesinger, e que era tão alemão quanto os agentes da Gestapo que combatia na ficção.

Foi como se a novela tivesse mais uma cena após o último capítulo.

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