Neuroses e seus diferentes mecanismos de defesa


Neuroses e seus diferentes mecanismos de defesa

A neurose é uma das maneiras que o organismo psíquico encontra para se defender de conflitos que não foram passíveis de sofrer total recalcamento (Nasio, 1991). Com a ocorrência de um trauma, origina-se no psiquismo uma força excedente de energia que necessita ser recalcada, contudo, o processo de recalque também origina força no psiquismo no que tenta dominar essa carga, de modo que as forças entram em conflito. O que acontece no caso das neuroses, é o fato de que o recalque falha, de modo que a energia excedente originada pelo trauma, que também podemos denominar de gozo inconsciente e doloroso, vence a força do recalque, colocando o sujeito a mercê de profundo sofrimento, de modo que se desenvolve a neurose como a forma do organismo se proteger, transformando esse gozo doloroso sem que ele seja totalmente destrutivo para o sujeito.

Dentro do campo das neuroses há basicamente três grupos de categorias pelas quais os processos de defesa se desenvolvem: a histeria, a obsessão e a fobia. Os três tipos de neurose têm como objetivo comum substituir um gozo inconsciente e perigoso por um sofrimento consciente e suportável, contudo, podemos distingui-los entre si de acordo com os principais mecanismos de defesa utilizados nessa transformação da carga excedente, havendo, então, três formas diferentes de se viver a neurose (Nasio, 1991).

A neurose enquanto obsessão refere-se ao sofrimento consciente no pensamento. Nesta condição o gozo inconsciente e perigoso é deslocado para o pensamento, para o campo das ideias conscientes (Nasio, 1991). Como coloca Freud, a carga afetiva é separada de sua ideia original e ligada a outras representações toleráveis. De acordo com a teoria freudiana, na neurose obsessiva ocorre a substituição da representação original ligada ao trauma por representações que fazem parte da vida da pessoa no momento em que expressa os sintomas obsessivos, podendo essa substituição ser consciente ou não (Macedo, 2005). Um exemplo deste tipo de neurose pode ser encontrado em pacientes que possuem rituais de um valor religioso particular, que realizam esses rituais em função de crenças que desenvolvem de que se não realizadas elas trarão péssimas consequências, que acreditam em presságios, em grande parte sem importância. Esses pacientes acabam por ter suas lembranças embaralhadas, sua sequencia de tempo na memória alterada, o que dá sustentação aos pensamentos neuróticos, às crenças ritualísticas (Oliveira, 2011).

A neurose enquanto fobia refere-se ao sofrimento consciente com relação ao mundo externo. Nesse caso, o gozo inconsciente e intolerável é projetado para fora do sujeito, sendo cristalizado em algum elemento do ambiente externo, o qual passa a ser o objeto ameaçador (Nasio, 1991). Um exemplo de sujeito que apresenta esta condição pode ser encontrado no estudo freudiano sobre o Pequeno Hans, onde Freud discute que a fobia apresentada por Hans com relação a cavalos representa na verdade a angústia que surge em Hans no que ele percebe a falta do falo em mulheres e relaciona isso à punição paterna, a angústia que surge no que, de acordo com Freud, meninos vivenciam o final do complexo edípico com o complexo de castração, sendo que essa mesma situação pode ser evidenciada no caso do Homem dos Lobos, onde, no lugar do medo de cavalos, há o medo de lobos (Henckel & Berlinck, 2003).

Por último, neurose enquanto histeria refere-se ao sofrimento vivido no corpo. O gozo inconsciente e doloroso é convertido em sofrimento corporal, o que antes correspondia ao investimento energético de um conteúdo inconsciente, passa a expressar-se em uma rede somática (Nasio, 1991). Na conversão, o que chama a atenção é o seu valor simbólico, a tal ponto que os sintomas obedecem a uma anatomia puramente fantasmática (Andrade, 1995). Um exemplo de caso que remonta a neurose histérica pode ser encontrado no filme “Dirigindo no Escuro” (Allen, 1995), onde o protagonista sofre de cegueira histérica. No momento em que o personagem retoma o contato com situações conflitantes da sua vida, ocorre o retorno de um conflito psíquico que havia sido recalcado e que vence o recalcamento, convertendo-se em uma cegueira, a qual não possui causas orgânicas visto que é um processo histérico. Ou seja, por não recalcar plenamente o que promove seu conflito psíquico e por não conseguir lidar conscientemente com ele, o conflito se transforma no sintoma corporal.

Referências:

Nasio, J. D. (1991). A histeria: teoria clínica e psicanalítica. (V. Ribeiro, Trad.) Rio de Janeiro: Zahar.

Macedo, M. M. K. (Org.) (2005). Neurose: leituras psicanalíticas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2. Ed.

Henckel, M. & Berlinck, M. T. (2003) Considerações sobre inibição e sintoma: distinções e articulações para destacar um conceito do outro. Estilos da Clínica. 3(14), 114-125.

Andrade, L. F. G. de. (1995). Comunicação apresentada no Encontro de Medicina Psicossomática. Pernambuco.

Oliveira, I. H. P. (2011). Paranóia e Neurose Obsessiva. available on http://www6.ufrgs.br/psicopatologia/wiki/index.php/Paran%C3%B3ia_e_Neurose_obsessiva

Allen, W. (2002). Dirigindo no Escuro.[filme-vídeo] DreamWorks. EUA.

Thaís de Lima Müller

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