Como o pensamento estratégico dinamiza a criatividade


Pensamento estratégico e criatividade

No artigo anterior, falamos sobre criatividade e como desenvolver uma postura pessoal que estimula a geração de novas ideias. Prometi continuar o assunto focando no desenvolvimento da criatividade dinâmica, aquela que nos confere a habilidade de conceber soluções e ideias criativas rapidamente, sem precisar “pensar muito”. Esse tipo de criatividade é altamente desejável e até mesmo invejável. É o que gostamos de ver em filmes e séries quando o herói acha as saídas mais criativas e inusitadas para seus problemas, é aquela esperteza que nos permite navegar o cotidiano com segurança, sabendo que venha o que vier, nós vamos dar conta do recado.

Criatividade é uma parte significativa dessa equação da força e da autoconfiança pessoal. Muita gente se sente insegura para enfrentar o desconhecido porque se pega nos “e ses”. Mas e se tal coisa acontecer? O que é que eu faço? A criatividade abafa esse tipo de insegurança porque a pessoa confia que aconteça o que acontecer ela vai encontrar uma saída. Boa parte das soluções que a gente usa na vida advém da nossa própria criatividade. Confiar nessa força mental nos ajuda a ter mais confiança para enfrentar a vida.

Mas como desenvolver ou melhorar o nível desse tipo de criatividade?

A criatividade dinâmica depende muito da nossa capacidade de interagir com o nosso contexto, é o que eu chamo de inteligência contextual. Isso significa que olhar o exemplo dos outros ou pedir conselho é de pouca valia, já que o que funciona para outras pessoas ou mesmo o que funcionou para nós mesmos no passado pode não funcionar agora, nessa situação. É claro que parte do desenvolvimento dessa habilidade é se munir de exemplos de soluções criativas para formar um arsenal de ferramentas mentais. Saber o que os outros já fizeram ou o que funcionou para nós mesmos no passado cria uma espécie de dicionário mental de soluções. A criatividade, contudo, é saber usar essas informações dentro do contexto atual. Em algumas situações, nada do que nós sabemos ou já vimos antes funciona, mas isso pode servir como escada para que possamos chegar a uma outra conclusão. Boa parte das descobertas científicas e invenções funciona dessa forma. O conhecimento anterior funciona como embasamento, uma escadinha para que novos insights e ideias culminem em uma nova informação ainda não organizada.

O pensamento estratégico dinamiza todo esse processo, nos ajudando a compreender o contexto e tomar decisões rápidas e criativas. Para entender o que é pensamento estratégico, vamos começar entendendo o que é estratégia. Estratégia é um meio muito específico, focado, bem pensado de conseguir um resultado, usando os recursos disponíveis de uma forma inteligente e significativa. De uma forma resumida, estratégia é uma forma engenhosa de conseguir o que você quer. Pense na história do Cavalo de Tróia. Foi uma estratégia para invadir uma cidade fortaleza, anteriormente impenetrável. A solução foi fazer com que os próprios moradores deixassem com que os inimigos entrassem na cidade escondidos dentro de um cavalo de madeira, um suposto presente. O ponto mais importante que devemos entender é que estratégia é circunstancial, a mesma estratégia que funcionou para outra pessoa ou para você no passado pode não funcionar agora devido às circunstâncias. É por isso que o pensamento estratégico exige uma atenção especial para o contexto, o aqui e agora, a sua situação específica nesse exato momento.

Se estratégia é uma forma específica, bem pensada de conseguir alguma coisa, pensamento estratégico é a habilidade – o que se torna um hábito – de analisar rapidamente e imediatamente uma situação e todas as suas variáveis contextuais para tomar melhores decisões no cotidiano. Uma pessoa com essa habilidade bem desenvolvida é aquele tipo de pessoa esperta, que pensa rápido, que consegue identificar problemas e encontrar soluções e ser criativa no momento.

Se você não nasceu assim, você pode desenvolver essa habilidade, mas é preciso compreender que isso não acontece da noite pro dia. É necessário mudar o cérebro primeiro. Todas as nossas habilidades e hábitos são questão de conexões neuronais. É como aprender a tocar um instrumento musical. Nós começamos sem saber sequer o som de cada nota. A medida que vamos aprendendo, tanto na teoria quanto na prática, nosso cérebro vai criando sinapses entre os neurônios e essas conexões é que se traduzem em habilidade. Absolutamente tudo o que fazemos na vida funciona da mesma forma. Não é possível ter desenvoltura em algo cujas conexões neuronais não são fortes em nosso cérebro. Ainda não há explicação do porque algumas pessoas nascem com certas habilidades ou as desenvolvem com muita facilidade enquanto outras pessoas precisam fazer um esforço enorme, mas o cérebro evidencia que cada grupo de habilidades implica em uma área do cérebro com um conjunto de sinapses muito bem fortalecidas e integradas. Compreender esse ponto é essencial para fugir daquela ideia fantasiosa de que superar um problema de personalidade ou comportamento é algo que deve acontecer como um passe de mágica. Isso é evidenciado quando as pessoas reclamam de autoajuda. É comum ouvirmos coisas do tipo “eu já li tudo quanto é livro e nada nunca funcionou pra mim”. Livro não muda o cérebro! Prática muda o cérebro. Sinapses só são feitas e reforçadas quando há um engajamento intenso e contínuo. É como ler livros sobre como tocar piano e reclamar que “eles não funcionam” pois você nunca consegue tocar o instrumento quando tenta. Sinapses precisam não apenas serem formadas, mas precisam ser reforçadas continuamente. Mais uma vez, o exemplo do instrumento musical funciona perfeitamente para ilustrar essa situação. Quem toca qualquer instrumento sabe que a virtuosidade não é uma coisa preta e branca, ela é bem maleável. Todo o esforço e prática do mundo podem resultar uma virtuosidade invejável, mas que se não for reforçada continuamente com prática intensa, vai diminuindo com o tempo, até o ponto em que pessoas que tocaram instrumentos em sua juventude não conseguem se lembrar de muita coisa em uma idade mais avançada. As sinapses não usadas vão se enfraquecendo e com desuso simplesmente se desfazem.

O desenvolvimento do pensamento estratégico, e consequentemente da criatividade, é um processo lento que funciona de forma similar a tocar um instrumento. É preciso de informação, de teoria, para embasar a compreensão e formar o dicionário mental, e é preciso a prática continua e intensa para formar e reforçar as sinapses cerebrais que vão tornar aquele comportamento natural. Agora, isso não tem como acontecer se você não se programar pra fazer algum tipo de exercício todo dia ou com bastante frequência. Sem inserir alguma coisa que você quer aprender ou desenvolver em sua rotina diária, você simplesmente esquece daquilo e as tão necessárias sinapses cerebrais que você precisa pra incorporar aquilo ao seu comportamento não podem ser formadas. Aí você fica com aquela impressão de que o que você leu sobre esse assunto “não funciona” porque aquilo não se traduziu em resultado em sua vida!

O desenvolvimento do pensamento estratégico começa com a adoção de uma postura de independência mental, ou seja, uma crença de que você pode resolver qualquer problema em sua vida sem precisar pedir ajuda a terceiros ou se desesperar. Ajuda pode ser muito bem-vinda, mas no contexto do processo de aprendizado, é preciso passar por uma fase de desenvolvimento dessa independência. É essa sensação de que você consegue dar conta de solucionar seus problemas sozinho que o dará a segurança, a autoconfiança necessária para tentar soluções criativas e inusitadas. Se você é inseguro e sempre acha que suas ideias podem ser erradas ou inadequadas, é importante exercitar o músculo da autoconfiança, fazendo as coisas sozinho, errando, corrigindo esses erros, e descobrindo que você consegue fazer muita coisa sem ajuda, inclusive se errar. A desdramatização do erro, inclusive é um dos maiores benefícios desse tipo de exercício. Você aprende que errar não é grande coisa e deixa de ter medo de agir por medo de errar.

Outro exercício é sair da zona de conforto frequentemente. Há autores que sugerem fazer alguma coisa todos os dias que é difícil, desconfortável, ou que pode resultar em erros com muita probabilidade. Se pensarmos nos heróis das histórias que gostamos de assistir ou ler, vamos nos dar conta de que no centro de suas personalidades está a capacidade de sair de suas zonas de conforto. É importante mencionar que todos nós temos uma zona de conforto e nunca vamos nos livrar dela. Ela é necessária para nosso bem-estar psicológico. Uma pessoa totalmente desprovida de sua própria zona de conforto se desestabiliza emocionalmente. O que proponho aqui é aprender a sair dessa área e ampliá-la. Após cada excursão para fora dessa zona, nós sempre voltamos para nos recompor psicologicamente. Sair da zona de conforto às vezes pode ser algo tão simples quanto tomar a iniciativa de resolver um problema com o próprio computador, por exemplo, ao invés de frustrar-se e pedir ajuda. Isso vale mesmo para quem não tem familiaridade com informática, afinal, sair da zona de conforto significa se predispor a lidar com coisas nas quais não somos bons. Praticamente todo dia podemos encontrar oportunidade para exercitar essa flexibilidade e sairmos temporariamente da nossa zona de conforto para fazermos algo ou solucionarmos um problema que é estranho para nós, ou que envolve uma postura que nos deixa desconfortáveis. Nós não sentimos, mas essas experiências estão alterando nosso cérebro. Com o tempo e continuidade solucionar problemas vai se tornando cada vez mais fácil – as sinapses vão ficando mais fortes – e vamos dando vazão para a criatividade quando encontramos soluções inusitadas baseadas no contexto de cada situação.

Podemos também programar exercícios específicos com fim exclusivo de exercitar o pensamento estratégico e a criatividade. Aprender coisas como xadrez e improvisação teatral são formas para criar sinapses de criatividade. É claro que existe uma infinidade de opções, essas não são as únicas, mas são bons exemplos. Atividades programadas são boas porque remediam nosso principal problema: a correria da vida que nos faz esquecer das coisas que pensamos em desenvolver, mas que no dia-a-dia acabamos deixando de lado em prol das responsabilidades que chamam a nossa atenção. Uma atividade com horário marcado se insere automaticamente na rotina.

Aos poucos o pensamento estratégico se torna um hábito, o hábito de sempre observar as variáveis contextuais, passar rapidamente uma lista mental de opções e ferramentas que podem levar a uma solução e tentar criativamente as alternativas mais viáveis até que o problema seja solucionado. Nosso cérebro é alterado nesse processo e essa habilidade vai se refinando com o tempo. Quando a gente menos espera, a gente está solucionando problemas com confiança e assertividade.

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