biografia escrita sobre Edwin Hubble


DANIELA FALCÃO
DE NOVA YORK

O norte-americano Gale Christianson, professor de história da ciência da Universidade Estadual de Indiana, tomou um susto quando descobriu, em 1990, que não havia nenhuma biografia escrita sobre Edwin Hubble, considerado o maior astrônomo do século.
“Estava procurando um novo projeto e queria ver se havia alguma coisa recente sobre Hubble. Não acreditei quando descobri que não havia biografia alguma. Foi como ganhar um presente de Natal”, afirmou Christianson em entrevista à Folha, na terça-feira passada.
Ele passou quatro anos pesquisando anotações, cartas e recortes de jornais que faziam parte do arquivo pessoal de Hubble.
Também entrevistou as duas irmãs caçulas do astrônomo e teve acesso aos diários de sua mulher, Grace Burke.
No fim de 1994, Christianson tinha pronta a tardia, mas completa biografia “Edwin Hubble: Mariner of the Nebulae” -lançada nos EUA em agosto passado.
“Foi uma das pesquisas mais prazerosas que fiz porque, mais do que um cientista, Hubble é um homem interessantíssimo”, afirmou Christianson.
Para o biógrafo, a dificuldade que Hubble tinha com a gramática (ele cometia erros primários em suas cartas e anotações pessoais) e o fascínio que exerceu em estrelas holywoodianas como Charles Chaplin e irmãos Marx são prova de que ele era “intrigante” como homem.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Christianson concedeu à Folha.

Folha – Quando o sr. decidiu escrever sobre Edwin Hubble?
Gale Christianson – Foi em 1990. Eu havia acabado de escrever minha segunda biografia, sobre Loren Eiseley, e estava procurando um novo projeto. Fui a uma biblioteca e descobri que não havia nenhum trabalho sobre Hubble. Resolvi pesquisar mais e terminei me apaixonando por ele.
Folha – Quanto tempo o sr. levou para acabar a pesquisa?
Christianson – Mais ou menos quatro anos. Deveria ter demorado mais, só que dei sorte porque todos os manuscritos de Hubble, e os diários de sua mulher, Grace, estavam guardados em um só lugar: numa biblioteca em Pasadena (Califórnia), onde ele passou a maior parte de sua vida. Mesmo assim, tive que viajar para Princeton e Washington, atrás de cartas que ele tinha escrito para outros cientistas.
Folha – Qual a importância que os diários da mulher de Hubble tiveram na hora de o sr. escrever a biografia?
Christianson – Os diários foram fundamentais para recompor o período em que eles viveram juntos. Ela era minuciosa na hora de escrever, e toda a cronologia daquele período, os encontros e as impressões sobre eles estão registradas ali.
Folha – Hubble só começou a se dedicar integralmente à astronomia aos 29 anos. Por que tão tarde?
Christianson – Porque ele teve de esperar o pai morrer para poder se dedicar ao que realmente gostava. E não acho que a paixão pela astronomia fosse uma coisa precoce. Ele tinha fascínio por Marte, mas não era uma coisa clara.
Folha – A que o sr. credita a paixão de Hubble pelo Reino Unido?
Christianson – Ele era um “self-made man”. Sua família era do meio-oeste e tinha origem britânica, mas não chegava a ser tradicional. Quando foi estudar no Reino Unido, Hubble descobriu que essa era a melhor maneira de ele conseguir ter um status e classe que na verdade não tinha.
Folha – Em seu livro, o sr. insinua que Hubble seria elitista e racista…
Christianson – Nunca disse que ele era perfeito. Ele se considerava superior ao resto das pessoas. Para ele, só seus amigos e ele eram bons o suficiente. Quanto ao racismo, não era culpa de Hubble, mas um reflexo da sociedade da época.
Folha – Qual foi a importância do encontro de Hubble com Albert Einstein?
Christianson – Os dois se encontraram três vezes: em 1931, 1932 e 1933. O primeiro encontro foi, sem dúvida alguma, o mais importante, porque foi aí que Einstein anunciou que mudaria suas equações em função da descoberta de Hubble de que o universo não era estático como se imaginava e que vivia em expansão.
Folha – Eles chegaram a ser amigos?
Christianson – Amigos sim, mas não íntimos. Até porque Hubble era superficial em suas amizades. Ele gostava de ter pessoas ao seu redor, de frequentar a casa de Chaplin e de Aldous Huxley, mas era muito reservado. Grace (sua mulher) era quem fazia o papel de sociável. Ela era capaz de manter uma conversa acesa por horas e foi ela quem ciceroneava Einstein em suas visitas a Pasadena.
Folha – Depois dos encontros, os dois continuaram em contato?
Christianson – Não consegui achar nem sequer uma carta enviada por Hubble a Einstein ou vice-versa. Tudo leva a crer que os contatos se limitaram a esses três, mas não posso garantir.
Folha – No início do livro, quando o sr. narra a infância de Hubble, a impressão que se tem é que ele era uma criança arrogante e rejeitada pelos colegas. Quando aconteceu a transformação no homem que esbanjava charme e que conquistou Hollywood?
Christianson – Em primeiro lugar, Hubble nunca foi popular. Como eu disse, ele era um elitista esnobe. Seus amigos de Hollywood eram intelectualmente superiores ao resto da classe artística. Eles formavam uma panelinha e, nesse ponto, Hubble não mudou nada, continuava tão arrogante como sempre havia sido. Só que a temporada em que passou no Reino Unido (estudando direito) fez com que ele se tornasse mais sociável porque ele admirava a classe dos britânicos. No meio-oeste, ele achava todos inferiores e, por isso, não se adaptava bem.
Folha- Por que o sr. acha que nunca escreveram sobre a vida de Hubble?
Christianson – Não sei. É um mistério para mim. Mas acho ótimo (risadas).

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