O Orgulho é um filme que debate… debates


O novo filme do cineasta Yvan AttalO Orgulho (Le Brio, 2017) usa a filosofia clássica de Sócrates para gerar sua provocação, questionar. Mas também usa a obra de Schopenhauer – especificamente, a Dialética Erística para apresentar seu discursoNa estória, acompanhamos Neila Salah, vivida por Camélia Jordana, uma estudante de direito oriunda de um bairro pobre e periférico de Paris, que carrega consigo o “ônus” da descendência muçulmana.

o orgulho

Quando ela chega atrasada para uma aula em uma grande universidade francesa, se depara com o professor de retórica Pierre Mazard (Daniel Auteuil), que vem sendo contestado por ser pragmático e autoritário, e por não se encaixar na “nova” filosofia da sociedade. Neila acaba é humilhada por ele, devido ao seu jeito desleixado e pela falta de respeito ao chegar atrasada. No entanto, esse mesmo episódio acaba – meio à contragosto – criando um laço entre eles; na disputa de um concurso de retórica, eles terão que aprender a conviver com suas diferenças.

Num contexto onde o “politicamente correto” é o padrão imposto pela sociedade do novo milênio, e que quase ninguém questiona o quanto este pode estar certo ou errado, esta refinada comédia francesa apresenta um outro lado para esse debate, que mostra como o discurso pode ser manipulado para se vencer um debate, independente da verdade.

O uso do discurso da justiça social – que condena sem a devida análise – pode ser comparado ao Sofismo, anterior ao supracitado filósofo grego, famoso por sua forma de apresentar a incoerência de seus oponentes ideológicos apenas fazendo perguntas; a famigerada maiêutica socrática. Sua pretensa máxima, “só sei que nada sei”, deriva de sua suposta ignorância frente à “inteligência” de seus adversários de debate. Por trás de uma premissa que parece exaltar o antagonismo do professor, percebemos que a intenção é justamente questionar o quanto o pensamento atual apresenta conceitos de manipulação através de estratagemas.

o orgulho

Schopenhauer e justiça social

O filme cita abertamente o livro A arte de ter razão, do filósofo germânico Arthur Schopenhauer, e como é possível vencer um debate sem se basear na verdade ou na coerência.

Esse debate não é exatamente isento, já que ele pende bastante para o lado pensamento tradicional. Porém, o próprio filme faz uso das 38 estratégias descritas pelo filósofo alemão para defender sua posição, mostrando que o método pode ser usado pelos dois lados. Se formos comparar, O Orgulho seria o oposto do clássico Sociedade dos Poetas Mortos.

Os diálogos longos, mas afiados, do professor sempre procuram o lado do “politicamente incorreto” para ofender, e logo na sequência apresenta um argumento que o justifica, deixando na dúvida se ele é, realmente, um “brutamontes intelectual”, ou se está correto em tratar essa tendência com desdém. Morde e assopra. Com um roteiro bastante “formulaico”, mas extremamente bem desenvolvido, o filme não tenta ser profundo e intelectualizado.

Ele usa bem uma linguagem simples para atingir diversos públicos – principalmente o jovem, no qual a protagonista está inserida. De fato, por vezes, ele simplifica tanto a mensagem que parece até juvenil. Justamente aqui, a película nos desagradou um pouco: faltou ousadia tanto na direção quanto nos aspectos técnicos, como fotografia e montagem. Porém, sua mensagem é certeira.

O Orgulho um filme bastante interessante para se questionar, mas dificilmente vai fazer alguém mudar seus conceitos sobre moral e ética. Apesar disso, ele diverte e ensina um pouco sobre filosofia. Isso já é uma grande proposta para um filme. Vale a pena acompanhar como um debate inteligente, mas lembre-se que ainda assim ele pode não ser tão justo. Afinal o importante não é estar certo, e sim, ter razão.

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