Repressão a opositores ofusca aniversário de revolução na Nicarágua


Nicarágua vive uma onda de violência contra opositores a Daniel Ortega, que já deixou mais de 350 mortos e milhares de feridos.

Nicarágua completou nesta quinta-feira (19), 39 anos de uma revolução que derrubou uma ditadura. Mas o que se vê no país está muito longe de ser uma democracia. Dramaticamente longe.

No dia do aniversário da revolução que tirou o ditador Anastasio Somoza do poder, não havia muito motivo para comemorar.

O diretor da organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch, José Miguel Vivanco, diz que é um dia de dor, um dia de luto.

“Daniel Ortega e a mulher dele, que é vice-presidente, conduzem a Nicarágua há 11 anos como uma tirania: impõem as suas regras, não há instituições judiciárias independentes que possam prevenir abusos, tudo está perfeitamente controlado pelo casal. Os métodos repressivos que Ortega usa são muito parecidos com os métodos repressivos utilizados durante a ditadura de Somoza”, diz Vivanco.

Desde abril, a Nicarágua vive uma onda de violência, que já deixou mais de 350 mortos e milhares de feridos.

“Estamos enfrentando um banho de sangue cometido pelos agentes de estado, pela polícia e grupos armados que atuam em coordenação e proteção da polícia da Nicarágua. Ortega decidiu colocar um fim à crise política, social e econômica que enfrenta com a repressão brutal. Eles vão comunidade por comunidade, em plena luz do dia, e atiram para matar”, diz Vivanco.

Uma moradora é uma das vítimas da violência.

“Eu estou com medo, toda noite carros com gente do governo ficam passando aqui”, ela diz.

A tia de um estudante morto no fez um apelo:

“Por favor, povo, Nações Unidas, se unam para nos tirar da desgraça que estamos vivendo. Não é justo jovens inocentes mortos”.

O governo esquerdista da Nicarágua chama os manifestantes de terroristas e acusa a classe empresarial e os movimentos de direita de financiarem os protestos.

Na quarta-feira (18), a Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou a violência. O Brasil e outros 20 países aprovaram uma resolução pedindo novas eleições para presidente na Nicarágua.

Há exatos 39 anos, os sandinistas, como ficaram conhecidos os revolucionários, faziam festa na praça central da capital nicaraguense.

Estava derrotado o ditador, um dos mais corruptos e violentos da América Central.

Anastasio Somoza havia fugido do pais de avião, levando centenas de milhões de dólares. Na praça, os principais líderes guerrilheiros ainda estavam em uniforme de combate: um deles era Daniel Ortega.

A partir de 1980, logo depois de assumirem o poder, os sandinistas começaram a enfrentar ataques por parte de mercenários anticomunistas financiados pelo governo do então presidente americano Ronald Reagan – eram conhecidos como os contras. Na guerra entre os sandinistas e os contras, mais de 30 mil nicaraguenses morreram.

Agora, o ex-revolucionário Daniel Ortega está no quarto mandato presidencial, terceiro consecutivo. Com o apoio dos poderes Judiciário e Legislativo, controlados pelo Partido Sandinista, Ortega conseguiu acabar com o limite à reeleição.

A última vitória de Daniel Ortega nas urnas aconteceu dois anos atrás, porém, a oposição diz que 70% dos eleitores do país não foram às urnas.

Daniel Ortega, que tomou o poder vencendo um ditador responsável por mortes e opressão, agora é acusado dos mesmos crimes.

O professor de relações internacionais, John Zindar, da Universidade NYU, diz que a perspectiva história torna a situação na Nicarágua ainda mais trágica.

“A Nicarágua representa uma situação que, infelizmente, não é única, a de pessoas que tomam o poder com a promessa de mudança e que acabam governando de forma parecida com a do governo que foi derrubado por eles. É uma história comum no mundo”, disse.

O conflito tem dividido opiniões dentro dos movimentos de esquerda na América Latina.

O ex-presidente uruguaio José Mojica pediu a renúncia de Ortega. O Partido Socialista da ex-presidente chilena Michelle Bachellet defendeu o restabelecimento da democracia.

No Brasil, o secretário de Relações Internacionais do PSOL, Israel Dutra, disse ao jornal “Folha de S.Paulo” que Ortega está se tornando o Assad centro-americano – uma comparação com o sanguinário ditador sírio. O PSOL afirmou que a declaração do secretário é uma opinião pessoal, que não representa o partido.

O PT disse que lamenta as mortes e as eventuais violações de direitos humanos, mas diz que é preciso lembrar que os enfrentamentos a um governo legítimo não são novidade nas Américas, nem um fenômeno espontâneo.

Os governos de Nicolás Maduro, na Venezuela, Evo Morales, na Bolívia, e Raúl Castro, em Cuba, também declaram apoio ao presidente da Nicarágua.

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