Socialismo X Capitalismo: a falência dos dois modelos aplicados à realidade brasileira


Uma reflexão acerca da necessidade de um novo sistema que seja capaz de atender aos pleitos dos diversos grupos sociais que compõe a população brasileira.

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Murilo Wya Almeida, Estudante
Publicado por Murilo Wya Almeida
há 4 anos

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A Revolução Russa de 1917 e a consequente ascensão dos bolcheviques ao poder puseram fim ao despotismo dos autocratas que governaram a Rússia durante longas décadas. A partir de então, o mundo conheceu a experiência da adoção de um sistema socialista que, entre histórias de sangue e glórias, ainda permanece como orientação política de muitos brasileiros.

De fato, o Brasil nunca viveu uma experiência socialista. O governo do Presidente João Goulart, de caráter reformista e encarado pelos setores conservadores da sociedade como uma ameaça comunista, foi prontamente usurpado pela ditadura militar. Após a abertura política, o Brasil ainda passou um bom tempo nas mãos de setores conservadores, até que um partido político, então de origem esquerdista, assumiu a Presidência da República em 2003. De lá pra ca houve um significativo aumento nas políticas públicas que reafirmaram o compromisso do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional, previsto na Constituição Federal de 1988. Por outro lado, esse mesmo governo foi alvo de muitos escândalos…

Esse partido político de origem esquerdista que está na Presidência da República desde 2003 não é o mesmo do passado. Não segue mais as ideologias pautadas na reinvindicação da classe operária. E nem poderia seguir. A verdade é que o Brasil, acompanhando o panorama mundial, já se entranhou no modelo capitalista e seria impossível estabelecermos uma nova ordem ou, como alguns liberais gostam de falar, “estabelecer a ditadura do proletariado”. Não sem o uso da força. Até mesmo as classes que, pelo menos na teoria, seriam as mais beneficiadas com a implantação do socialismo, não aceitariam a organização econômica, política, social e cultural advinda do modelo marxista. Não com tanta complacência. As pessoas se acostumaram a viver numa sociedade consumista, regida pela competição de marcas, exaltação das liberdades individuais, defesa da propriedade privada e dinâmica social de classes.

O capitalismo por sua vez, norteado pelo dizer liberal do “laissez-faire”, se mostrou um modelo insustentável e intensificador de desigualdades. Ora, não me parece justo aplicar a ideologia liberal a uma república herdeira de uma sociedade escravocrata cujas dores são sentidas até hoje, principalmente pelos afrodescendentes. Não sem ao menos efetuarmos “os devidos reparos”. Gosto sempre de usar a analogia de uma maratona em que os atletas dão a largada na mesma posição. Assim deveria ser a implantação do modelo liberal no nosso país: dando condições para que as pessoas que nunca tiveram “castas” pudessem ascender socialmente e competir, de igual para igual, com aqueles que sempre receberam privilégios econômicos e políticos. É muito fácil defender o capitalismo quando se nasce em berço de ouro ou quando se ascende socialmente pisando nos próximos.

Talvez a existência de um modelo capitalista tão extremista em suas manifestações de desigualdade seja fruto da ganância daqueles que detém a maior quantidade de riquezas materiais. Sabemos que a maior parte do dinheiro existente na nossa economia está nas mãos de uma pequena e selecionada minoria e que a concentração de renda no Brasil é assustadora. O coeficiente de Gini brasileiro era de 0,553 em 2001 e, em 2012, caiu para 0,519, segundo o documento “The World Factbook” publicado no site da CIA. Quanto mais próximo de 0, maior a igualdade de renda entre a população e quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade de renda. A realidade brasileira revela-se ainda mais assustadora quando se verifica que o país ocupa a posição de sétimo maior PIB do mundo.

Os números só refletem uma realidade que todo brasileiro está cansado de saber. As ruas das principais metrópoles sofrem com o aumento no número de moradores de rua; a população carcerária acompanha o ritmo crescente da violência; e o inchaço urbano, evidenciado pelo crescente número de moradias improvisadas, já é realidade de quase todas as cidades brasileiras. Crises inflacionárias esporádicas juntamente com uma pequena geração no número de empregos tendem a piorar o quadro das desigualdades, levando ao aumento do mercado de trabalho informal, da criminalidade e do número de pessoas endividadas.

Não bastando a falência explícita dos dois modelos comentados acima, encontramos uma população que ainda se auto segrega por causa de convicções políticas antagônicas, de maneira tão irracional, tal como fazem os torcedores de times de futebol adversários. Causa-me tristeza ver a juventude se rotular em ideologias mortas que nunca viveram ou que vivem atualmente e sentem as dores decorrentes do modelo existente. A inovação política que deveria surgir dessa juventude não consegue florescer porque, da mesma forma que não se mistura água e óleo, não é possível misturar o arroubo juvenil com os interesses mesquinhos de velhas raposas interessadas em perpetuar sua casta. Dessa forma, muitos desses mesmos jovens que hoje definem-se A ou B e dispensam suas energias em apoio a partidos políticos, amanhã acabam por tornar-se tão mesquinhos quanto as velhas raposas que lhes serviram de referência. Mais do que perpetuar as castas já existentes, acabamos por aumentar a quantidade de castas, quando deveríamos eliminá-las ou proporcionar um pouco menos de distância entre elas e o povo.

A democracia brasileira se reflete na composição de sua própria sociedade e não cabe mais ao nosso país definir-se aliado ao modelo capitalista ou socialista, alimentando a ridícula Guerra Fria propagada há décadas pelos EUA e a ex-URSS. Entramos em uma nova era aonde a educação, mais do que nunca, é o ingrediente fundamental para a realização dos nossos objetivos republicanos.

Educar não é reproduzir conhecimento ultrapassado; é incentivar o novo, desbravar possibilidades.

Escrever um texto expondo a falência de dois sistemas que fundamentam as orientações políticas de tanta gente não é algo simples, sobretudo quando as pessoas estão mais preocupadas com as facilitações de vida decorrentes destes sistemas. Mas o intuito aqui pretendido foi tão somente possibilitar uma reflexão sobre a criação de um modelo brasileiro próprio, que exalte nossa diversidade e não as nossas diferenças econômicas. Um modelo pautado na redução das disparidades entre as classes e que promova oportunidades iguais para que cada um ascendesse por seus méritos. A política de cotas nas universidades públicas é uma ação condizente com essa justiça social, onde se possibilita que o jovem pobre da periferia possa competir de igual para igual com o jovem rico do bairro nobre. Mas isso ainda não é bastante quando lembramos o processo histórico no qual grande parte da população foi posta no abandono e esquecimento pela elite brasileira. Mais do que isso: essa mesma elite se formou através da opressão e exploração dessa população pobre.

Por fim, ouso afirmar que tal modelo incentivado nesse texto, aos poucos, está se maturando em nossa sociedade. Ainda que alguns insistam em permanecer na defesa de ideologias ultrapassadas, a realidade nos força a clamar por algo novo: seja no desejo de uma política menos corrupta ou no anseio de uma melhor distribuição de renda, a tendência é caminharmos para o fim de privilégios que acentuam as desigualdades sociais. Pelo menos é isso que o índice de Geni brasileiro tem mostrado nos últimos anos e é isso que se espera da democracia brasileira quando ela estiver consolidada. Nem a selvageria capitalista e nem a ditadura socialista podem servir como orientação para a construção da sociedade que desejamos.

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