A revolução permanente mexicana


‘Tsunami’ eleitoral que levou a esquerda ao poder chegou com a promessa de tornar realidade uma sociedade mexicana mais igualitária

Apoiadores de López Obrador festejam a vitória.
Apoiadores de López Obrador festejam a vitória. EDGARD GARRIDO REUTERS

É inevitável que as revoluções, como as estrelas longínquas, mantenham restos de seu fulgor muito tempo depois seu fogo se extinguir. Desaparecido o império soviético sob a maré da história, restam duas democracias, França e México, cujo discurso oficial ainda mantém e celebra de uma forma ou de outra a iconografia e retórica revolucionárias.

Em sua versão longa, segundo François Furet, a Revolução Francesa terminou com a queda do II Império, em 1870 (na versão curta, terminou com o golpe do 18 Brumário). Para os franceses, a revolução significa a ascensão da burguesia ao poder político e econômico e o pacto republicano que manteve a nação unida até o século XXI (só agora começa a rachar). É, portanto, um caso encerrado desde o começo do século passado. No México, pelo contrário, a palavra revolução representa a promessa permanentemente frustrada de uma maior igualdade. Por isso, ao contrário da França, a revolução no México continua sendo um caso em aberto. E por essa fissura irrompeu no domingo o tsunami eleitoral que levou a esquerda ao poder.

Inserindo-se nessa grande tradição nacional, Andrés Manuel López Obrador prometeu durante a campanha eleitoral uma revolução cujos contornos vagos e às vezes contraditórios não o impediram de colher o respaldo de milhões de cidadãos. A quarta, segundo sua peculiar contagem, depois da Independência (1821), da Reforma (1855-63) e da Revolução de 1910 propriamente dita. A revolução permanente, em outras palavras.

À ânsia eternamente insatisfeita de progresso social se somou nos últimos anos o desespero pelos descontrolados níveis de insegurança e violência, assim como o pasmo com a corrupção generalizada, a qual a cidadania observa como se fosse uma catástrofe natural, uma erupção vulcânica ou uma chuva torrencial, entre a resignação e a impotência.

O resultado não poderia ser mais claro: mais de 50% dos votos em um país com um sistema eleitoral de turno único, que permite ser presidente da República com pouco mais de um terço dos votos válidos. Enrique Peña Nieto foi presidente com 38,5% dos votos. Felipe Calderón, com 35,91%. Os aproximadamente 30 milhões de votos que López Obrador recebeu no domingo (dez milhões a mais que Peña Nieto há seis anos) fazem dele, de longe, o presidente mais votado na história do México.

Não há dúvida alguma de que esta enorme margem lhe confere um claro mandato democrático, embora ninguém pareça saber com exatidão em que ele consiste. Em não pouca medida porque o candidato buscou calculadamente a ambiguidade: ao seu próprio partido, o Morena, acrescentou as muletas de uma formação minoritária, mas ultraconservadora e abertamente evangélica; intranquilizou os empresários para depois, em um grande golpe de efeito, distender o ambiente e marcar um gol; muitos jovens viam com receio a sua agenda sobre direitos sociais, casamento homossexual e aborto. Entretanto, isso não os impediu, a julgar pelas cifras do domingo, de votar maciçamente em López Obrador, impondo assim um golpe definitivo ao regime do PRI e PAN, que se revezaram no poder nos últimos 30 anos.

Isto vem ao caso pelo que parece ser outra das chaves subterrâneas do ocorrido no domingo, ou seja, o encerramento de um longo período histórico que começou com a eleição de Carlos Salinas de Gortari em 1988, que por sua vez deu lugar a uma sucessão de governos do PRI e do PAN que consolidaram um modelo econômico liberal, ortodoxo nas contas públicas e que procurou inserir o México na pista central da economia mundial.

Mas o México, ou pelo menos muitos de seus intelectuais e acadêmicos, nunca foi um país especialmente afeito ao livre mercado e à globalização, fora de controle para os mais críticos. O país suportou as políticas econômicas da época de Salinas em diante em troca da promessa de melhoras substanciais: no poder aquisitivo, nas condições sociais (educação, saúde) e, de forma mais geral, na redução dos níveis de corrupção e no salto para a modernidade.

Desse pacto implícito, pouco ou nada se cumpriu. Consequentemente, os mexicanos se sentem lesados e, francamente, é difícil não lhes dar razão. Salinas e seus sucessores realinharam o México com promessas que não puderam ou não quiseram cumprir. Em resposta a isso, os eleitores mexicanos decidiram neste domingo enterrar o experimento.

Metade deles tem menos de 39 anos. Um em cada cinco vota pela primeira vez. As gerações mais velhas viram os anos passarem com seus salários estancados e o futuro em risco tanto para si como para seus filhos. Estes, os millennials, 40 milhões com menos de 29 anos, como em qualquer lugar compõem a geração mais bem formada, que prega em um deserto de empregos escassos e mal remunerados. É uma coalizão certamente heterogênea, embora todos compartilhem um traço em comum: sua paciência se esgotou.

A tarefa que espera o recém-eleito presidente, portanto, é enorme. Nenhum dos problemas que assolam os cidadãos e que o levaram aos píncaros do poder tem solução fácil ou de curto prazo: a corrupção em todos os níveis da vida política, os inimagináveis níveis de violência e insegurança, o decepcionante crescimento econômico e a mais decepcionante ainda distribuição desse crescimento.

A tudo isso convém somar os riscos inerentes a qualquer revolução, por mais descafeinada que seja. Não poucos temem que a ampla maioria obtida por López Obrador desemboque em um exercício do poder presidencial sem limites, no qual as contas públicas se descontrolem e o déficit dispare em uma espiral infernal, que a América Latina conhece bem demais. Junte-se a isso um retrocesso na independência judicial ou na liberdade de imprensa, e aí estará o barro com o qual se constroem os pesadelos dos mais críticos com o futuro presidente do México.

O enfraquecimento dos demais partidos, tanto do PRI como do PAN e do PRD, altera de forma radical o tabuleiro político existente. Em outras palavras, o desaparecimento do regime de 1988 não contribui exatamente para os equilíbrios necessários em uma democracia: a tentação de um presidente sem contrapesos políticos pode ser forte demais para uma democracia jovem como a mexicana.

Talvez por isso, em seu primeiro discurso após ganhar a eleição López Obrador se apressou em tranquilizar o país, reafirmando seu compromisso com a estabilidade financeira, o bom governo e o diálogo com o resto das forças políticas. Expressou também seu compromisso com as liberdades sociais e individuais (com uma menção específica à comunidade LGBT).

É um bom reflexo e um sinal de que o próximo governo do México está perfeitamente consciente do risco para a estabilidade mexicana, e mesmo latino-americana, da avalanche de votos que levou López Obrador ao palácio de Los Pinos, e também da natureza contraditória tanto das suas promessas como das esperanças da nação.

A Revolução Francesa, deixando de lado inevitáveis convulsões, proporcionou estabilidade e legitimidade à propriedade da burguesia que a propiciou, frente aos direitos da aristocracia e do clero. A quarta revolução do presidente López Obrador terá que tecer uma tapeçaria imensamente mais complicada: crescimento com ortodoxia financeira; uma distribuição equitativa desse esforço, que alcance também os mais desfavorecidos; ampliação dos direitos dos cidadãos e sua proteção efetiva contra a criminalidade e a violência; consolidação do tecido civil e das instituições que o México conseguiu, apesar de tudo, construir nos últimos anos, e programas efetivos para acabar ou reduzir a corrupção a níveis toleráveis. Em suma, a inserção definitiva e irreversível do país na modernidade do século XXI. Uma tarefa hercúlea, na verdade.

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