A FALÊNCIA IDEOLÓGICA


“Do século XVI ao XIX, o inumano sistema comprara seres humanos de pele negra como se fossem animais e os encerrava nos porões funestos e fétidos dos navios, transportando-os como escravos para lugares distantes como a Europa e as Américas — atrás deles, ficaram os amigos, os filhos, a esposa, a liberdade. À frente deles estava o futuro amedrontador, a dor, o trabalho forçado e uma saudade incontrolável. Nos tempos atuais, o sistema parece ter fabricado novos escravos, só que lhes paga salários altos e dá-lhes uma série de benefícios. Atrás deles têm ficado os filhos, a esposa, os amigos, os sonhos. À frente deles está um futuro incerto, volátil, competitivo,apreensivo e um trabalho mental forçado. Como nos tem dito o vendedor de ideias — a história é cíclica.”

Augusto Cury, O vendedor de sonhos.

Somos todos espectadores de uma mudança assustadora, quase sem controle, nessa nova era.

Não existe um sistema, por não existir ideologia e sim um modo de produção e distribuição de mercadorias e serviços. O que existe é a política democrática e a democracia assume formas diversas, mas sempre baseada na liberdade de criação e de pensamento. Sem isso, não há nada. A teoria econômica era montada em parâmetros a partir das forças de mercado — a oferta e a procura resolviam tudo, era quase uma religião e o seu deus, a lei de mercado — a realidade provou que esse deus não é onipotente. E a prova disso é o estado de crise social da Europa, cujo maior índice, o que mais avança, é o desemprego, principalmente entre jovens.

Existe o mistério da fé e existe o mistério da economia… Será que não existe mistério? Antigamente, inventava-se locomotivas cada vez melhores, que transportavam passageiros ou mercadorias, em velocidades crescentes. Agora, se cria softwares que permitem a pronta comunicação, desde programas pela melhor organização dos embarques e desembarques até as palavras de forma instantânea para uma quantidade ilimitada de interlocutores, mesmo que esse falar seja vazio e não remova montanhas, a montanha da miséria crescente.

Tudo é o transporte. Transporta-se objetos, palavras, frases, ordens. A informática levou ao infinito a velocidade de execução dessas tarefas. Dalai Lama diz que nós, ocidentais, transportamos lixo nos bolsos — o lenço. Carregamos o sentimento da tristeza e que a alegria é construída a partir de encontros (principalmente virtuais…).

O mundo da publicidade, hoje, deu corpo à velha fábula “Rana rupta et bos” (A rã explodida e o boi), de Esopo, escravo romano — não se fazem mais escravos como antigamente, que contava: a rã e o boi estavam à margem de um riacho bebendo água, quando a rã perguntou ao boi como é que ele ficara tão grande e ela tão pequena. E ele respondeu que assim quiseram os deuses… A rã,inconformada, disse que ia ficar do tamanho dele. Dito isso, levantou a cabeça e começou a engolir ar sem parar. O ar engolido foi se expandindo dentro do corpo da rã. De vez em quando, a rã perguntava ao boi se ela já estava do tamanho dele. O boi respondia que não, que ainda faltava muito. E assim foi — continuou o diálogo à procura do impossível, até que a rã explodiu, feito uma enorme bolha.

É isso que estamos vivendo. A União Soviética tinha embaixo de si um sistema que seria a salvação, não da lavoura, mas do mundo, mas que revelou-se na sua integralidade falido, como dizia o seu filósofo criador — foi-se para o lixo da história, como o boi da fábula.

A China, na verdade, nunca havia entrado no sistema, o que vigia lá era uma escravatura de Estado que parcialmente já foi para o lixo da história, mas passou para a forma de um “capitalismo de Estado”, isto é, uma forma de neofascismo ou nazismo, como querem alguns.

A diferença entre fascismo, criado por Mussolini, e o nazismo, imaginado por Hitler, era a explicitação do racismo que informava o nazismo, ausente no fascismo original. Mussolini, quando pensou o fascismo, preocupava-se em dar organicidade à fragmentada Itália. O símbolo prático do fascismo era o horário dos trens. Aqui no Brasil, dizia-se que as ferrovias exibiam seus horários só para saber o tamanho do atraso da circulação efetiva dos trens… Nos países civilizados até os ônibus têm horário e obedecem. Aqui, no Rio, só se fala no intervalo — não se fala no horário dos ônibus…

O capitalismo visto por Marx foi tão equivocado quanto seu socialismo, porque de fato, não existe nem socialismo, nem capitalismo e, muito menos, comunismo. A estrutura socialista marxista, por sua natureza, é rígida — ela só pode ser mudada através das mudanças introduzidas no seu plano geral de funcionamento. Não é naturalmente dinâmica, como o é a sociedade dita capitalista, para o bem ou para o mal ou para o crescimento da crise.

Marx tinha imaginado que a eliminação da propriedade privada, “raiz de todos os males”, levaria a uma distribuição justa. Aí, que estava o engano dele. Porque não é verdade. A verdade, o que interessa numa sociedade, é a dignidade de vida das suas classes mais baixas monetariamente e a mobilidade de suas diversas camadas, significa que as novas gerações não precisam necessariamente repetir e pertencer à mesma classe social de onde se originaram.

Volto à frase de minha mãe: “Se não der para o estudo vai ser um operário honesto…” Definitivamente, não era isso o que eu queria para a minha vida!

Na Alemanha Nazista, tinha-se que pensar de acordo com a ideologia ditada e adotada pelo Estado. Na produção capitalista há liberdade de criação, a iniciativa é livre. Um exemplo é a internet, que nasce de uma estrutura fechada de comunicação, a intranet, que foi usada entre militares e depois entre universitários.

A partir do Iluminismo, fim do século XVIII, início do XIX, passou-se a acreditar que seria possível construir uma sociedade cientificamente organizada — por um lado, Marx e Lênin levaram isso ao pé da letra e, ao extremo; uma sociedade materialista em que a propriedade privada dos meios de produção e a liberdade individual foram banidas; por outro lado, Mussolini e Hitler criaram o fascismo e o nazismo, nos quais a propriedade privada foi preservada, desde que o proprietário do capital não fosse judeu, comunista ou socialista. A liberdade individual foi condicionada às diretrizes dos partidos fascista e nazista. Anteriormente, só as religiões pretendiam “organizar” o pensamento da sociedade. Voltaire não era contra a fé. Ele era anticlerical, isto é, contra a fé organizada como poder político.

A raiz de tudo está no Poder Político, no Poder de gerir a sociedade, e isso que é difícil — gerir a sociedade. Esse Poder pode ser totalitário ou difuso, isto é, democrático. No Poder Totalitário, o centro determina a ação de todos os níveis da sociedade e até mesmo os níveis da sociedade em si. O ideal totalitário é o comportamento das formigas, das abelhas e do “cada macaco no seu galho…”.

Hoje, tenho consciência do equívoco das teorias econômicas que me atribuíram o título de economista. Com o fim da possibilidade de existência de uma sociedade dita socialista, cujo objetivo seria o bem do ser humano, restou a sociedade baseada na liberdade de criação e produção, cujo objetivo central é o lucro crescente. Marx, na sua análise do capitalismo, pontificou que esse sistema trazia no seu cerne o germe de sua destruição. Continuasse a política estruturalmente rígida, o capitalismo hoje estaria se destruindo. Mas, como a estrutura política tem se mostrado flexível, pode-se ter esperança no surgimento de uma nova prática política que se constitua no caminho de saída da profunda crise em que mergulhou a partir do ano de 2008 e que ainda persiste em provocar sofrimentos em grande parte da sociedade mundial.

O que está mudando é o conteúdo da palavra produção e do capital. No princípio, produção era de alimentos, matéria concreta: aço, produtos químicos, máquinas, bens de capital e bens de consumo. O capital eram máquinas a serem acionadas de forma complementar pela força humana, os operários. Hoje, a produção passou a incluir matérias aparentemente abstratas, os programas e algoritmos cuja matéria-prima é a massa cinzenta, tornando a produção quase imaterial, com suas máquinas vivas capazes de repetir de forma automática movimentos que vão produzir outras máquinas e mercadorias. É melhor que escravos, servos e operários, substituídos por movimentos em sua maior parte programáveis a partir da massa cinzenta e aplicados por dispositivos autônomos, os robôs. A palavra robô tem sua origem no eslavônico — raby — isto é, escravo…

A propósito, Charles Chaplin teria que atualizar o seu famoso filme Tempos modernos. Aquele homenzinho, que é engolido pelas engrenagens, desaparece no processo de produção. Agora, ele está sentado diante de um painel computadorizado, imaginando como movimentar ferramentas virtuais de produção, como criar novos algoritmos, novos programas para computadores. Por outro lado, o bancário que anotava cheques, pagava dinheiro, anotava movimento das contas etc. foi substituído pelo próprio cliente do banco, que diante de uma máquina mágica, entrega-lhe dinheiro, transfere valores de sua conta para outras contas, faz pagamentos. Só que os mágicos, proprietários dessas “máquinas”, continuam se chamando banqueiros e capitalistas… Será que ainda o são?

Aliás, falando em Chaplin, lembrei-me que só encontraram em toda vida de Stalin um momento de ternura — ao fim de um filme do genial artista, diretor e produtor, em que ele vai se afastando para o fundo da tela, Stalin lembra-se do pai e deixa rolar uma lágrima. Ai daquela lágrima se rolasse sem a sua permissão… Ele via esse final repetidamente, em solidão, e tinha sempre aquela mesma reação…A propósito, lembro-me também de história contada por veterano sobrevivente de um gulag, segundo a qual só um filme era entregue a cada ano para ser visto na unidade prisional. O mesmo filme era passado na aldeia próxima. Resultado, tanto na aldeia quanto no gulag, as pessoas viam aquele mesmo filme inúmeras vezes — a diversão era observar o maior número de detalhes em cada cena. A alternativa era pior…

Melhorou-se a forma de explorar o ser humano, não mais por sua força e habilidade braçal, mas pela sua capacidade cerebral. Um antigo banqueiro, ao propiciar a circulação das riquezas materiais, via ali um meio de ganhar dinheiro, financiando a produção e transporte dessas mercadorias. O banqueiro moderno vê no transporte do próprio dinheiro o meio de fazer dinheiro. Hoje, o banqueiro faz dinheiro com as variações das taxas de juros dos empréstimos e da movimentação dos valores, criando um mercado das mudanças do primeiro acréscimo sobre o valor do capital, representado pelos juros, isto é, a variação do ritmo das mudanças das taxas de juros passa a ser também objeto de outro mercado, cria-se a coisa mais etérea até o momento do surgimento do capitalismo — o mercado de derivativos. O objetivo dessa nova economia é tão somente o lucro. O ser humano é apenas um detalhe e só desperta interesse como consumidor. O mercado financeiro sobrepôs-se ao mercado da produção, circulação das mercadorias e dos serviços.

Eu sou adepto da cosmologia. Quando vejo a Terra no contexto cósmico, sinto-me reduzido a uma simples partícula de um imaginário átomo minúsculo com meu movimento quase quântico, pois nada sei da minha vida. Não sei onde estou, não sei para onde vou, não sei por que estou aqui. Mas, sei que não existem sistemas e soluções definitivos, acabados, científicos. A ciência que é sinônimo de saber — muda e muda sempre, como dizia o filósofo grego Heráclito — nada mais permanente do que a mudança. Hoje, poderia-se dizer: a ciência opera de forma derivativa e o lucro pode surgir quando essa mudança tem aplicação tecnológica, isto é, no aumento ou na criação da produção. No mercado derivativo não há qualquer aumento ou criação de riqueza — é apenas a acumulação da especulação sobre a mudança financeira.

BACK TO TOP

LICENSE

A falência ideológica Copyright © 2013 by Maria Esther Rodrigues. All Rights Reserved.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s