Imaturidade nas redes sociais inviabiliza debates políticos


Sem argumentos sólidos e com falta de conhecimento político, o que sobra para as redes sociais são agressões verbais, ironias e falta de educação.

Escrito por Armenia Louise e Lana Carvalho

A crise política brasileira parece ter se tornado um estopim para diversas postagens e análises políticas. É nas redes sociais que as pessoas se sentem mais a vontade para despejar suas ideias, que na maioria das vezes demonstram grande imaturidade política da população.

Nesse mundo virtual – mais especificamente no Facebook, Twitter e WhatsApp -, a falta de reflexão e o ódio virtual ficam mais evidentes. Cada postagem sobre política nas páginas públicas de jornais, revistas ou emissoras de televisão e rádio geram discussões alimentadas principalmente por comentários violentos e apelativos.

Aldo Mattar é um frequente comentador político no mundo virtual. Para ele, as redes sociais são muito vulneráveis, com mentiras e postagens tendenciosas. “As pessoas com espírito democrático devem postar e opinar sobre política. E não somente isso, devem combater toda sorte de injustiças, sejam elas sociais, políticas ou de qualquer assunto. Lembrando que é saudável respeitar opiniões, discordar, mas assegurando o direito do outro de opinar e sustentar seu pensamento”, diz.

É comum ver nas redes sociais a propagação do discurso do ódio. Se duas pessoas possuem visões opostas sobre um tema, isso atualmente é motivo para criar-se uma “rivalidade” na internet. “Há muita intolerância em relação à política e outros assuntos nas redes sociais, inclusive grupos maldosos que disseminam ódio e mentiras, visando prejudicar pessoas e/ou instituições”, comenta Mattar.

O consultor político Rawlinson Rangel diz que uns dos maiores perigos discussões nas redes sociais é a superficialidade. “Mais do que em qualquer época da história, as pessoas estão expressando suas opiniões políticas. Mesmo que seja um “copia e cola”, mas, pelo menos estão querendo concordar ou dizer alguma coisa. Isso é bom. Tanto pelo lado da liberdade de expressão conferida pela Rede, quanto pela iniciativa da pessoa de postar algo com o que ela concorda”, diz.

Para Rangel, a população deveria estudar mais sobre política e ideologias para dar suporte aos seus argumentos e posicionamento. “Infelizmente temos muita gente que possui conhecimento de nível virtual e nenhum conhecimento intelectual. Isso empobrece o debate em termos de argumentos e ideias. Por falta de argumentos, as pessoas se estapeiam. Sempre foi assim. Nas redes ou na rua, não é diferente. Como não existe um debate intelectual, existe um debate passional, e isso sempre leva à pancadaria. Além de não produzir nada, ninguém se convence de nada. Só gera ódio e agressividade.”

Simone Carvalho, estudante de Ciências Políticas na Universidade Federal do Paraná, passou por uma situação constrangedora na sua página do Facebook. Ela compartilhou um vídeo em que o deputado federal Jair Bolsonaro diz que, se eleito, irá acabar com o financiamento para ONGs e com as demarcações para terras indígenas. Ela comentou que era contra a postura do deputado, sem ofendê-lo. Entretanto, foi atacada com comentários na rede social por pessoas que defendem a opinião do deputado. Para a estudante, a falta de conhecimento aprofundado faz com que as pessoas tomem essas atitudes.

“Não fiquei mal pela discussão no Facebook. Fiquei mal por conta das pessoas serem tão agressivas e alienadas politicamente nas suas opiniões. E também pela falta de interesse em se informar melhor antes de brigar e discutir por um assunto ou um candidato”, diz.

Ela concorda que há falta de maturidade para debate nas redes sociais. “O que aconteceu comigo foi claramente falta de instrução. As pessoas não queriam apenas debater o vídeo, mas defender a todo custo o deputado Bolsonaro”, diz.

Esse tipo de comportamento também acontece nas redes sociais do jornal paranaense Gazeta do Povo. Nossa redação tirou alguns prints de postagens sobre política do Facebook do jornal para analisar a reação dos leitores. Na primeira imagem há uma charge do Temer. Alguns comentários são: “vai pastar militonto comedor de alfalfa”, “lá vem mais um alienado petista. Pior que crente essa raça”, entre outros. Em outra publicação da Gazeta que fala sobre o depoimento de Lula e Dilma contra Gleisi Hoffmann, foram publicados comentários como “Tu merece cana dura! Safada, vagabunda, sem vergonha!”.

O jornalista político Rogerio Galindo, da Gazeta do Povo, não tem uma opinião otimista para o futuro das discussões nas redes sociais. “A impressão é de que é um diálogo de surdos, em que o mais importante para cada parte é ter razão e aniquilar o adversário da maneira mais definitiva possível, o que inclui o uso de argumentos grosseiros, toscos e sem fundamento”, diz. Ele acrescenta dizendo que, mesmo com internautas imaturos, não dá para generalizar.

Os leitores mais sofisticados se abstêm de comentar justamente por não valer a pena entrar em debates infrutíferos. “Certamente, o nível educacional poderia ajudar a melhorar isso, mas não há como ter ilusões de que só isso resolveria, já que vemos pessoas com boa formação e todas as oportunidades educacionais se comportando como asnos na Internet”, comenta Galindo.

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