Empresa dos EUA vê oportunidade em canabidiol


Pesquisadores brasileiros dão sequência a pesquisa graças a ajuda do exterior

PUBLICADO EM 05/06/16 – 03h00

Junto com outros pesquisadores e médicos – Paulo Fleury e Leandro Ramires –, o neurocientista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Renato Malcher estuda o uso de substâncias canabinoides (presentes na erva de Cannabis sativa) aplicado a casos de autismo.

Ele trabalha no desenvolvimento de tecnologias assistivas (recursos para inclusão), por meio de tablets, para a educação desses pacientes. No entanto, até chegar a esse ponto, sua vida deu uma guinada. “A desconfiança de que meu filho, na época com 2 anos, poderia ser autista, se confirmou e dificultou meu engajamento na pesquisa, pois passei a me dedicar mais a ele”, conta.

‘Vaquinha online’ ajudou grupo da UFMG 

Antes disso, Malcher pesquisava como era o sistema endocanabinoide em modelos animais (ratos) – como os receptores cerebrais respondiam às substâncias da planta. Na época, seus seis artigos publicados tiveram mais de mil citações, mas, com a mudança no foco da pesquisa, mesmo com o respaldo da universidade, o cientista diz que percebeu que a atenção dos órgãos de fomento mudou. “Nem sempre os critérios são os mais adequados para estimular a inovação. Sem isso, cria-se uma barreira, e a pessoa não só deixa de ser favorecida, como passa a ser punida”, diz.

As pesquisas só não ficaram paradas porque Malcher foi procurado pela CBDRX – companhia norte-americana fornecedora de canabidiol, que irá investir no projeto. A proposta piloto é um estudo com oito pacientes autistas não epiléticos, em parceria com o Hospital da Criança, em Brasília, e outra clínica no Pará, por um ano e meio. “À medida que os dados concretos forem revelados, vamos expandir a possibilidade não só de oferecer alívio aos pacientes, como de ampliar o interesse da sociedade, das instituições e das indústrias sobre o assunto”, acredita Malcher. (LM)

Sabendo que o parasita causador da leishmaniose – doença que pode levar à morte –, chamado “leishmânia”, infecta os macrófagos, células que estão envolvidas nos processos inflamatórios, a equipe iGEM/UFMG, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desenvolve pesquisas para tentar modificar essa leishmânia para que ela morra ao entrar na célula, antes de causar a doença. Foi com essa proposta ousada que o grupo conseguiu representar o Brasil na competição International Genetically Engineered Machine, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, em 2015. Mas a viagem só saiu porque a equipe realizou uma “vaquinha online” (crowdfunding). “Quem ajudou muito foram os familiares e os alunos que foram mobilizados. Nossa profissão é um pouco essa, correr atrás dos recursos”, disse a professora Liza Felicori (foto), do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB e coordenadora do projeto. Ela reconhece que a ciência não pode ficar dependente desse tipo de alternativa. “Existem poucos recursos para participação em eventos”, disse. Para Liza, a importação é o grande entrave para a ciência no país. “Com dinheiro a gente até consegue se virar, dá um ‘jeitinho’. O pior é não conseguir ficar na ponta, porque precisamos importar quase tudo que é necessário para as pesquisas. Ano passado tive um projeto que ficou seis meses esperando, e outro que ficou parado quatro meses. Para o aluno que tem bolsa de um ano, ficar esperando seis meses é difícil”, critica. (Raquel Sodré)

“Voltar foi uma decisão fácil e lógica”

“Eu estou planejando voltar ao Brasil. Passei no concurso para ser professor do Departamento de Patologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e devo começar o meu laboratório, transferindo minhas pesquisas de Nova York para Belo Horizonte. Alguns colegas me perguntaram: por que voltar para o Brasil numa época de ‘crise’, em vez de ficar aqui, em Nova York, num dos institutos de pesquisa mais prestigiosos do mundo? Por mais estranho que pareça, voltar foi uma decisão bastante fácil e lógica para mim. A ciência do Brasil, em minha opinião, está em um nível muito bom e crescendo cada vez mais: é um privilégio tentar participar desse crescimento. Sempre sonhei poder conciliar ser cientista e professor universitário, como meus pais fazem. Nos Estados Unidos, na maior parte dos grandes centros de pesquisa, os pesquisadores são somente cientistas. Isso poderia ser visto como uma vantagem, mas eu vejo vantagens em ser professor universitário e pesquisador. A principal diferença que vejo entre os Estados Unidos e o Brasil é no investimento que se faz em ciência. Acredito que, se esse investimento fosse equivalente, o Brasil facilmente estaria na frente. Como as vantagens dos Estados Unidos são principalmente econômicas, isso pode ser mudado no Brasil investindo-se mais na ciência. Também nos cientistas que já estão no país fazendo trabalhos maravilhosos e publicando em revistas internacionais importantes em diversos campos da ciência.

Infelizmente, a maior parte dos meus contatos e colaboradores até agora era dos Estados Unidos e da Europa, mas espero fazer vários contatos e formar colaborações firmes e frutíferas com pesquisadores brasileiros. A melhor estratégia seria tentar manter os contatos que temos fora para ter apoio de qualquer coisa que necessitemos, como reagentes ou tecnologias que não tenha ainda no Brasil. Além disso, descobrir maneiras de tentar trazer da forma mais eficiente reagentes/equipamentos para o Brasil é uma das prioridades. E também tentar implementar esse intercâmbio que já ocorre em vários laboratórios brasileiros, de mandar pesquisadores do nosso laboratório pra fora, como também receber pesquisadores, para ter essa troca ativa de conhecimento.”

Alexander Birbrair
Biomédico, Pesquisa
Células-tronco nos EUA

Investimento

1,5% é a taxa atual que o Brasil aplica do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento

2,05% é quanto a China investia do seu PIB em 2014; o país pretende atingir 2,5% do PIB em 2020

30% do investimento mundial em ciência e tecnologia será feito pela China nos próximos anos

US$ 600 bi é o valor investido pelos Estados Unidos (3% do seu PIB) – o maior gigante global de pesquisa

Interação entre o setor público e o privado ainda engatinha

O Centro de Reprodução Humana Professor Franco Júnior, em Ribeirão Preto, no interior paulista, é uma clínica para tratamento da infertilidade, e, por ser da iniciativa privada, seu diretor clínico, José Gonçalves Franco Júnior, acredita que isso, muitas vezes, acaba sendo um dificultador a mais para lidar com os entraves burocráticos na prática da ciência no país.

“Todas as vezes em que pleiteamos algum suporte de verba para instituição governamental, nunca ganhamos porque o corpo de avaliação geralmente é formado por pessoas ligadas a universidades, e essas instituições todas têm certa aversão para colocar fundos em iniciativas privadas”, conta.
A alternativa encontrada pela clínica foi submeter seus projetos a financiamento estrangeiro. Com a pesquisa intitulada “Uso de biomarcadores genéticos para prever a resposta ovariana e a gravidez”, que pretende determinar um painel genético para prever a resposta ovariana das pacientes de fertilização in vitro e proporcionar um tratamento personalizado, eles ganharam o Grant for Fertility Innovation (GFI), um prêmio anual concedido pela farmacêutica Merck Serono, no valor de 300 mil.

Para Júnior, o governo precisa fazer verdadeiros intercâmbios entre universidades e iniciativa privada. “Na Coreia do Sul, a esfera pública e a privada são uma coisa só. Se a iniciativa privada está precisando de determinada pesquisa de engenharia para um tipo de componente de automóvel, por exemplo, eles entram em contato com a universidade e estabelecem laços de cooperação”, diz. (Raquel Sodré)

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