Artigo: O legado de Marx: cem milhões de cadáveres


O jornalista Bruno Pontes escreve sobre os 200 anos de Karl Marx

20:23 | 04/05/2018

O fascínio que Karl Marx continua a exercer sobre os devotos, sobretudo aqueles especialmente ignorantes e levianos a quem damos o título de intelectuais, reside numa fixação que é infantil na melhor das hipóteses e, na pior, diabólica (a propósito, procurem os poemas do jovem Marx): a recusa de aceitar a realidade e a obsessão de curvar o universo a uma tese.

Há quem aplauda o filósofo afirmando que, apesar dos pesares, ele é unanimamente reconhecido como um economista arguto e visionário. Essa unanimidade só existe para quem nunca leu críticas às teses marxistas ou finge que elas não existem. A teoria da mais-valia, por exemplo, foi contestada por Eugen Böhm von Bawerk e outros economistas da linha austríaca. Além disso, Marx foi acusado por estudiosos contemporâneos dele de ter sabidamente usado dados falsos para embasar análises e previsões (sobre isso, ver o capítulo sobre Marx no livro do historiador Paul JohnsonIntellectuals).

>>

Intellectuals: From Marx and Tolstoy to Sartre and Chomsky

 

Segundo Marx, a verdadeira substância de uma ideia é a sua prática, e não o seu mero conceito. Sendo assim, a substância das ideias marxistas é a tirania, o campo de trabalho forçado, a fome, o assassinato em massa. Esses, em todos os lugares e épocas, foram os resultados da aplicação do marxismo, uma ideologia que, embora tenha sido mais mortífera que a soma das duas guerras mundiais e todos os terremotos, furacões e epidemias do século XX (ver O Livro Negro do Comunismo), continua a ser tratada com reverência por aqueles que mais se vangloriam do seu amor pela humanidade.

Um exemplo recente daquela fixação. A propósito do aniversário do ídolo, o esquerdista New York Times publicou, no começo da semana, artigo do professor de filosofia Jason Barker intitulado “Parabéns, Karl Marx. Você estava certo!”. Lá pelo meio do texto, depois de parágrafos de elogios, o professor menciona rapidamente a “problemática” experiência comunista no século XX e logo retorna à louvação do homenageado, concluindo assim o artigo: “Estamos destinados a continuar citando-o e testando suas idéias até que o tipo de sociedade que ele lutou para fazer acontecer, e que números crescentes de nós agora desejam, seja finalmente realizado”.
Primeiro, percebam a delicadeza do adjetivo escolhido para caracterizar a matança generalizada que os seguidores de Marx cometeram na Rússia, na China, no Camboja etc.: “Problemática”. Tentem imaginar um professor de universidade classificando como meramente “problemática” a experiência concreta das idéias nazistas no século XX. Ele escaparia ao menos intelectualmente impune?
Segundo, que tipo de culto é esse que, tendo produzido cem milhões de cadáveres, continua a pedir, de novo e de novo, mais um voto de confianca? Quando é que a humanidade deve parar de brincar de marxismo? Os devotos nos respondem de maneira simples. Eles nos asseguram, de novo e de novo: “Aquele não foi o verdadeiro comunismo. Deturparam Marx”.
É um fenômeno único na história. Aparentemente, Marx nunca disse o que disse. Ele sempre QUIS dizer alguma outra coisa, a depender do intérprete. Nunca alguém foi tão obstinadamente deturpado. E agora que o mestre faz aniversário, seus partidários vêm nos dizer, pela milésima e não última vez, ignorando os milhões de cadáveres da doutrina comunista: ignore a realidade. O que importa é transformá-la.
Bruno Pontes
Jornalista
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