Produtos importados baratos são tão prejudiciais à economia quanto a gratuita luz do sol


Quando o tema é protecionismo, nada mudou nos últimos séculos

Em meados dos anos 1800, o governo francês impôs tarifas de importação a uma enorme variedade de produtos, que iam desde agulhas até locomotivas. A intenção era proteger as indústrias francesas dos concorrentes estrangeiros mais eficientes, os quais eram capazes de produzir e vender aos franceses produtos mais baratos do que os similares produzidos nacionalmente.

À época, o economista francês Frédéric Bastiat publicou uma satírica proposta ao governo francês (a qual se tornou tão famosa, que hoje é conteúdo obrigatório em vários livros-texto de economia e comércio internacional) intitulada Petição dos fabricantes de velas.

Seu texto sarcástico tinha por objetivo ajudar os parlamentares franceses a entender que o protecionismo e o mercantilismo não só não podem transformar um país em uma potência econômica, como ainda encarecem a produção, aumentam todos os preços e criam várias ineficiências.

A seguir, uma versão encurtada e editada do clássico ensaio econômico de Bastiat:

Petição dos fabricantes de velas, candeias, lâmpadas, candelabros, lanternas, corta-pavios, apagadores de velas, e dos produtores de sebo, óleo, resina, álcool, e em geral de tudo relativo à iluminação.

Aos membros da Câmara dos Deputados.

Cavalheiros:

Sua principal responsabilidade é para com os interesses do produtor. Os senhores desejam protegê-lo da competição estrangeira e reservar o mercado doméstico para os produtores nacionais.

Estamos sofrendo a intolerável concorrência de um rival estrangeiro, o qual possui uma vantagem competitiva tão incrivelmente superior no que diz respeito à produção de luz, que ele consegue inundar nosso mercado doméstico com esse produto a um preço impressionantemente baixo.

No momento em que ele fornece seu produto, nossos consumidores nos abandonam e correm para esse nosso rival, e assim uma importante indústria nacional com inúmeras ramificações é deixada completamente estagnada.

Este rival, que vem a ser ninguém menos que o sol, faz-nos uma concorrência tão impiedosa, que suspeitamos ser incitado pela pérfida Inglaterra (boa diplomacia nos tempos que correm!), visto que o mesmo tem por aquela esnobe ilha uma condescendência que se dispensa de ter para conosco.

Pedimos-vos encarecidamente, pois, a gentileza de criardes uma lei que ordene o fechamento de todas as janelas, clarabóias, frestas, gelosias, portadas, cortinas, persianas, postigos e olhos-de-boi; numa palavra, de todas as aberturas, buracos, fendas e fissuras pelas quais a luz do sol tem o costume de penetrar nas casas, para prejuízo das meritórias indústrias de que nos orgulhamos de ter dotado o país — um país que, por gratidão, não deve nos abandonar agora em prol de tão desigual concorrência estrangeira.

Se os senhores impedirem ao máximo todo o acesso à luz natural, criando assim uma demanda por luz artificial, qual indústria francesa não se sentirá estimulada? Qual indústria francesa não será beneficiada por tal protecionismo?

Se mais sebo for consumido, terá de haver mais gado bovino e ovino; e, consequentemente, ver-se-á multiplicarem-se as pastagens, a carne, a lã, o couro e, sobretudo, o estrume, que é o alicerce de toda a riqueza agrícola.

Se mais óleos forem consumidos, estaremos estimulando a cultura da papoula, da oliveira e do nabo. Estas plantas ricas e erosivas oportunamente nos permitirão aproveitarmo-nos da crescente fertilidade que o rebanho adicional trará às nossas terras.

Nossas terras áridas serão cobertas com árvores repletas de resina. Numerosos enxames de abelhas recolherão, nas nossas montanhas, tesouros perfumados que emanam das flores – as quais hoje desperdiçam suas fragrâncias no ar desértico.  Não haverá, pois, um único ramo da agricultura que não se beneficiará enormemente de tal política.

As mesmas observações se aplicam à industrial naval. Milhares de barcos seguirão para a pesca da baleia e, em pouco tempo, possuiremos uma marinha digna de manter a honra da França e de atender às aspirações patrióticas de seus peticionários, os abaixo-assinados fabricantes de velas e outros.

Apenas tenham a bondade de refletir, cavalheiros, e os senhores se convencerão de que talvez não haja nenhum francês, desde o rico dono de carvoaria ao mais humilde vendedor de fósforos, cuja vida não será melhorada por essa nossa petição.

Dado que os senhores cavalheiros já rejeitam o carvão, o ferro, o trigo e os têxteis estrangeiros pelo fato de seus preços serem baixos, que inconsistência seria permitir a luz do sol, cujo preço é zero, durante todo o dia!

Lições econômicas

1. Se você não se opõe a receber a luz do sol gratuitamente, então você também não pode se opor a ter ao seu dispor produtos estrangeiros baratos e de qualidade, sejam eles produzidos na China, na Alemanha, no Vietnã ou no México. Não faz nenhum sentido econômico dizer que o fato de a população do país poder importar produtos mais baratos do que os similares nacionais é algo deletério.

2. Se você não se opõe ao fato de o sol “despejar”, todos os dias, luz gratuita na nossa economia, então você não deveria reclamar dos produtores estrangeiros que estariam “despejando” mercadorias baratas na nossa economia, a preços supostamente abaixo do custo de produção.

3. Vamos supor que o sol só seja capaz de nos fornecer luz gratuitamente porque os “habitantes do sol” subsidiam a produção de luz naquela estrela. Se você não se opõe que a luz do sol seja disponibilizada de graça devido ao fato de alguém subsidiar essa produção, então você não deveria ser contra o fato de mercadorias estrangeiras serem oferecidas de forma barata para você por causa de subsídios fornecidos pelos governos daqueles estrangeiros. Se eles querem pagar mais impostos apenas para poder vender a você produtos mais baratos, simplesmente aceite tão generosa oferta.

4. Se você não seria tolo ao ponto de acreditar que o sol está roubando nossos empregos, prosperidade e riqueza ao nos fornecer luz gratuita, igualmente não deveria ser tão tolo ao ponto de pensar que a China está roubando nossos empregos, prosperidade e riqueza ao nos fornecer produtos baratos.

5. Se você não se opõe ao fato de o sol nos fornecer uma enorme quantidade de luz gratuita sem que, em troca, “seus habitantes” comprem de nós qualquer produto fabricado aqui no país, então você também não deveria se opor ao fato de os cidadãos do nosso país comprarem (importarem) mais produtos do exterior do que vendem (exportam).

O medo da abundância

A força ideológica mais poderosa na defesa do protecionismo é o temor de que, com o livre comércio — isto é, com as pessoas podendo comprar coisas baratas do exterior —, haverá poucos empregos para os trabalhadores na economia doméstica.

Mas, ora, o que seria esse temor senão o medo de que o livre comércio irá gerar uma abundância tão plena, que ninguém mais terá de trabalhar para produzir? O que seria esse temor senão a noção de que, com o livre comércio, todos os desejos da humanidade seriam tão completamente satisfeitos, que chegaremos ao ponto em que não mais seremos úteis em fornecer bens e serviços uns aos outros?

O temor do cidadão comum em relação ao livre comércio se baseia em um entendimento completamente equivocado em relação à realidade do mundo. É um temor de que nós humanos (ou pelo menos os humanos de um determinado país) estamos no limiar de abolir a escassez e, consequentemente, de transformar o mundo (ou ao menos o nosso país) em um ambiente de superabundância.

Por isso, o protecionismo é uma política baseada no calamitoso e errôneo temor de que um dos maiores problemas enfrentados pelos seres humanos não é a escassez, mas sim a superabundância. O protecionismo é a política implantada para criar escassez e para impedir a abundância. Tal política é destruidora do padrão de vida humano. Não há meias palavras.

Conclusão

Quando o governo impõe uma sobretaxa aos produtos importados, o consumidor é o maior perdedor. O encarecimento artificial dos produtos importados significa que os produtores nacionais estarão agora livres e despreocupados para elevar seus preços e reduzir a qualidade de seus produtos. Como não há mais concorrência estrangeira a quem os consumidores nacionais recorrerem, estes agora são obrigados a pagar mais caro por bens nacionais de qualidade mais baixa.

Com o protecionismo, o intuito do governo é proteger as empresas nacionais e blindá-las contra os desejos dos consumidores — principalmente dos mais pobres, que ficam sem poder aquisitivo para comprar produtos bons e baratos feitos no exterior.

Pior: quando a população é obrigada a comprar produtos nacionais artificialmente mais caros, sobra menos dinheiro para investir ou gastar em outros setores da economia, como lazer, alimentação, educação, vestuário, o que acaba reduzindo o emprego e a renda nestas áreas.

Consequentemente, a capacidade de consumo e de investimento da população torna-se artificialmente reduzida. Isso é um desastre para todos, só que se manifesta mais intensamente sobre os mais pobres, que, além de não poderem comprar bens mais baratos do estrangeiro, tornam-se obrigados a bancar os grandes industriais.

Por isso, Frédéric Bastiat ensinava “Sempre trate todas as questões econômicas do ponto de vista do consumidor, pois os interesses dos consumidores são os interesses da raça humana”.

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