LEILA FERREIRA – MAIO 2009


  • Belo Horizonte - Leila Ferreira - Brenda Lara
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Apaixonada por Minas Gerais e por sua Terra Natal, a jornalista revela seu pecado ao Descubraminas: excesso de mineiridade.

Por Brenda Lara

Descubraminas: Quem é a Leila, mineira de Araxá?
Leila Ferreira: Eu sou acima de tudo e antes de qualquer coisa, uma mineira de Araxá mesmo. Todas as minhas referências existenciais e efetivas estão em Araxá. Tanto que eu já morei em Brasília, Londres, México, Estados Unidos, recentamente em São Paulo e acabei voltando para Araxá. Eu acho que eu sou acima de tudo essa pessoa que foi criada no interior de Minas por uma família simples e que gosta das coisas simples da vida.

Eu, em Araxá agora, me reencontrei com as amigas da infância, com as amigas octogenárias da minha mãe, os bolos servidos no final da tarde, o café reacendendo a simplicidade, a generosidade nas casas onde a gente vai. Eu acho que as coisas que eu prezo na vida estão lá, mais do que em qualquer outro lugar. E meu coração insiste em voltar para lá sempre. Mês passado estava na Holanda, que é um país lindo, e contando os minutos para voltar para o bairro Santo Antônio em Araxá. Risos…

DM: Por que Minas Gerais é considerada um continente para você?
LF: Quando eu tinha o programa de entrevista, todo mundo falava “mas que pena, esse programa só é passado em Minas Gerais? Esse programa tinha que ser nacional. Por que você não está em rede nacional?” Eu falava: “Gente não importa, porque Minas para mim é um país. Por isso meu programa é nacional.” Depois eu falei: “Não, Minas é mais que um país para mim, é um continente”. Porque é uma soma de tantas paisagens, de tantos estados de espírito, de tantas particularidades, de tantos personagens.

Guimarães Rosa falava das muitas Minas, eu acho que são camadas e mais camadas de Minas. A alma do mineiro não é aquela coisa linear, retilínea, não é aquela coisa de superfície. E é isso que me fascina nesse Estado. É um Estado onde tudo é muito, porque são muitas manias, muitas receitas, muitas formas de falar, muitas idiossincrasias. E ao mesmo tempo a gente adota a filosofia do menos: falar menos, se exibir menos, ostentar menos. Então é a contenção e a profusão ao mesmo tempo, é a simplicidade e a complexidade, é a superfície e o que está abaixo da superfície.

Eu acho tão difícil falar de Minas, porque sempre que eu falo eu acho que estou falando muito aquém do que é. E não sei se isso é mineiridade, mineirice, eu não sei que substantivo ou adjetivo se aplica. O que eu sinto é que quem nasce nesse Estado e aprende a gostar dele desde o primeiro dia, carrega um mapa genético diferente. E onde quer que você esteja no mundo, e eu já andei muito por esse mundo, é nesse mapa genético que você pisa, Minas continua sendo seu chão.

DM: Em uma de suas entrevistas, você conseguiu algo que até então, nenhuma outra emissora brasileira havia conseguido: entrevistar a Rainha Sílvia no Palácio Real de Estocolmo, na Suécia. Conte-nos sobre essa experiência.
LF:
 Entrevistar a Rainha Sílvia foi uma das maiores alegrias que a gente teve no “Leila Entrevista”, porque nenhuma emissora do Brasil jamais tinha conseguido. Depois da gente, a Globo conseguiu, mas nós fomos os primeiros. Aí você pensa: “Ai que bom, a Rede Minas conseguiu…”

E graças a uma ex-funcionária da Rede Minas, a Ana Maria Otoni, que vendo minha vontade em conseguir a entrevista, moveu céus e terras e descobriu uma tia da rainha em São Paulo, que seduzida pela conversa da Ana Maria deu o telefone do irmão da rainha na Alemanha. Quando me dei conta, estava conversando com o irmão da rainha na Alemanha e ele me falando “Eu tentei falar com a Sílvia hoje, mas ela estava secando o cabelo”, eu pensei “meu Deus, eu já estou no palácio. Se eu já sei que a rainha está secando o cabelo é porque estou chegando em Estocolmo”.

Foi uma experiência muito rica porque eu cheguei lá aterrorizada, naquele palácio de 608 cômodos e sem saber se a entrevista seria em inglês ou em português e descobrindo na hora da entrevista que todas as anotações que eu tinha feito, porque ela exigiu as perguntas com antecedência, eu não estava enxergando nada porque havia feito com uma letra muito pequena e eu não podia gravar de óculos. Quando ela chegou com a doçura, a simplicidade e a gentileza dela, instantaneamente meu medo, minha timidez passou.

Eu nunca esperava entrevistar uma rainha em um lugar tão intimidante fosse uma experiência tão calorosa, descontraída. É muito gratificante você se ver diante de uma rainha, em um cenário impressionante de um palácio real e se sentir acolhida porque você está diante de uma pessoa simples e generosa. Eu já entrevistei tanta gente que me intimidou e que tratou nossa equipe com frieza, com distanciamento. Para mim foi uma lição de vida.

DM: Como surgiu o programa “Leila Entrevista”?
LF:
 O programa já existia e chamava “Entrevista”. Eu fui para a Rede Minas para ser editora de cultura do jornal e a apresentadora do programa “Entrevista” tive que tirar uma licença de alguns meses para fazer um outro trabalho. A produção me pediu para assumir o programa no dia seguinte. Era um programa que eu não conhecia, nunca tinha visto. Quando eu levantei do estúdio, depois da primeira entrevista, eu falei: “É isso que eu estou procurando a vida toda. Eu encontrei o que quero fazer”.

Era o que eu estava buscando a vida toda, uma coisa que me gratificasse, que me fizesse crescer, que me desse a chance de aprender. A reportagem de rua era muito acelerada, muito corrida e não era o meu tempo, eu queria um tempo mais lento que me permitisse aprofundar mais nas questões. Foi um presente da vida. Esse programa que fiz durante 10 anos, eu sempre brinco que ele saiu do ar, mas dentro de mim ele continua sendo exibido diariamente, muitas vezes com reprise. Foi muito difícil para mim tomar a decisão de deixar o “Leila Entrevista”. Foi uma decisão que teve que ser amadurecida ao longo de uns 2 anos.

Chegou uma hora que tive que fazer uma opção porque eu estava fazendo programa e palestras, viajando, escrevendo um livro e tinha perspectiva de começar outro livro que a editora Globo tinha pedido. Então pensei: “Depois dos 50 você fazer um programa de TV, viajando para palestra e escrevendo livro é uma atitude suicida, não dá”. Eu tinha que fazer uma escolha e como tinha feito TV há tantos anos, pensei: “É hora de mudar de caminho”.

DM: Com um jeito mineiro e bem humorado de ser, seu trabalho é reconhecido no Brasil e no mundo. Há essa preocupação em difundir a cultura mineira?
LF:
 Acho que às vezes eu até me excedo nisso. Uma vez, meu companheiro, Fernando, falou: “Você fala tanto de Araxá no seu programa que vai pegar mal, as pessoas devem achar que você tem algum acordo com a prefeitura de Araxá, que você deve estar ganhando por isso porque está exagerado”. E eu falei que não conseguia não citar Araxá. E é assim onde eu vou. Todo mundo sabe que eu sou de Araxá, conhece casos de lá.

Cheguei em São Paulo, com um mês, todo mundo sabia que eu era mineira de Araxá, não só pelo sotaque que é inconfundível, mas pelo tanto que eu falo de Minas e de Araxá. Se tem uma coisa que eu tenho convicção, é de que sou uma araxaense e mineira convicta e quanto mais eu puder falar disso com letras maiúsculas, melhor.

DM: Como é entrevistar personalidades como Marisa Monte, Sidney Sheldon, entre outros, e entrevistar o Zé, a Maria, etc, do interior de Minas?
LF:
 Eu sempre brinco que entrevisto os famosos por obrigação e os anônimos por paixão. É claro que isso é só uma frase de efeito. Porque existem famosos que são apaixonantes e anônimos que deixam a desejar. O mais atraente do jornalismo é exatamente essa possibilidade de você conversar em um palácio de Estocolmo um dia e no outro em um barraco do Vale do Jequitinhonha. Um dia no museu do Louvre em Paris, no outro na oficina artesanal de um celeiro em Araxá.

O jornalismo possibilita essas viagens geográficas e humanas. Eu adoro entrevistar pessoas anônimas e simples porque elas falam com o coração, elas expõem a alma sem medo. Os famosos tendem a repetir discursos decorados. Mas, de novo, isso é uma generalização, há exceções dos dois lados.

DM: Certa vez, o programa “Leila Entrevista”, que passava também na TV Sesc/Senat, não foi veiculado em São Paulo devido ao seu sotaque carregado. Qual foi sua reação? Você percebe algum preconceito de produções feitas fora do eixo Rio-São Paulo?
LF:
 Ah sim…Um dos diretores da TV Cultura assistiu meu programa em Belo Horizonte e quis levar para a TV Cultura de São Paulo. Eles assistiram a fita lá e falaram que infelizmente não dava porque eu era muito mineira. E eu sempre brinco que eles acharam que eu ia ser um pouco mais cearense ou gaúcha? Meu pecado foi excesso de mineiridade.

Eu acho que existe ainda um preconceito no Brasil. Quando um produto cultural é feito no Rio ou em São Paulo ele já chega com selo de qualidade independentemente dele ter qualidade ou não. Ele é endossado a priori, e eu acho isso profundamente injusto porque no Rio e São Paulo existem produtos que não têm qualidade, assim como existem produtos culturais ótimos, e em Minas Gerais, no Rio Grande do Norte, no Paraná é a mesma coisa, mas a gente ainda tem essa cegueira cultural. Mas a culpa não é só dos outros, nós temos uma grande parcela de culpa nisso.

O mineiro é muito tímido para expor suas criações, suas ideias. Eu sei porque eu sou assim. Eu chegava nos lugares para fazer entrevistas, em outros estados e países, agradecendo tanto, me desculpando por um eventual incômodo. Aí eu comecei a pensar “Meu Deus, por que estou agradecendo tanto e me desculpando tanto? Essa pessoa, afinal de contas, está achando bom ser entrevistada”. Mas é essa coisa histórica que a gente tem de não se mostrar muito, de ter medo de estar se exibindo, de estar se oferecendo.

Esse recato nosso nos prejudica muito nessa nossa tentativa de nos afirmar culturalmente. Eu acho que você ser discreto e ter um certo pudor, essas duas coisas são virtudes interessantes, mas existe limite. Nós temos que ter um pouco da assertividade do paulista e do carioca sem perder o nosso sotaque, sem perder nossas vocações, nossas particularidades, mas a gente tem que ter mais coragem de se mostrar.

DM: Como foi produzir um programa de TV mineiro para um público tipicamente mineiro?
LF:
 É uma experiência fascinante. Eu brinquei uma vez que o programa de entrevista é o jornalismo com roupa de ficar em casa. Fazer um programa em uma TV mineira para mineiros é como colocar um moletom mais velho, mas confortável, mesmo usando um terninho apertado. Foi um desafio encontrar pautas que interessassem o público daqui, levar pessoas que o público daqui não conhecia ou levar pessoas que o público já conhecia, mas tentando mostrar essas pessoas por um lado diferente. Foram dez anos de um desafio diário, de alguns sobressaltos, pouquíssimas decepções e imensas alegrias.

DM: Certa vez, você chegou a passar na prova da BBC de Londres para trabalhar no país e acabou voltando para casa. O que te “prende” a Minas Gerais?
LF:
 Estava fazendo mestrado em Londres e fui ao setor Brasileiro da BBC para visitar alguns colegas jornalistas e eles de brincadeira me disseram que tinha uma vaga para repórter, que era para eu fazer o teste, que ninguém era aprovado, que eles queriam ver se eu passava. Brincando eu fiz o teste e passei.

Mas minha mãe estava me esperando no Brasil porque pouco antes de eu embarcar para Londres com a bolsa de estudos do conselho britânico, eu perdi um irmão. E como eu iria dar a notícia para minha mãe de que eu não estava voltando no fim do mestrado? Que eu ia ficar mais 1 ano, ou 2 ou 5? E ela, sem saber que eu tinha passado no teste, me mandou uma carta dizendo que estava contando os dias e que para alegrar e iluminar a minha volta ela tinha mandado pintar a fachada da nossa casa de Araxá de branco.

E aí eu cheguei a conclusão que uma fachada branca com uma mãe amorosa diante dela valiam mais do que uma BBC, do que uma emissora de prestígio e um país de primeiro mundo no currículo.

DM: Em seu segundo livro “Mulheres, por que será que elas…?” a figura feminina é bem focada. Como surgiu a idéia de tratar especificamente a questão da mulher em um livro?
LF:
 Eu sempre me interessei pela condição feminina. Quando eu fiz jornalismo eu queria trabalhar em revistas femininas. Quando fiz meu mestrado eu queria fazer minha dissertação sobre o universo das revistas femininas, não fiz porque meu orientador me fez mudar de ideia, mas eu sou fascinada com a complexidade das mulheres, com a nossa lógica completamente particular que beira a falta de lógica muitas vezes. Com a nossa capacidade de sentir e de expor os sentimentos. Eu fui levada mesmo por um interesse antigo e que, felizmente, esse livro me deu a oportunidade de assumir e de aprofundar.

DM: Dentre as milhares personalidades que você entrevistou, qual ou quais você acha que mais marcaram sua vida e por que?
LF:
 De personalidade eu diria Sidney Sheldon, Isabel Allende, a própria Rainha Sílvia. Tantos aqui no Brasil, escritores apaixonantes. Você entrevistar um Zuenir Ventura, um Carlos Heitor Cony, na entrevista você aprende o equivalente a um curso de faculdade. Tanta gente interessante, Denise Fraga que acabei de entrevistar, falei no ar que eu queria levar ela para minha casa e coar café para ela porque ela é tão especial, tão gentil, tão calorosa.

As personalidades são muitas, agora se eu for pegar os anônimos eu fico aqui falando sem limites porque tem o seu Manoelzinho, cineasta e servente de pedreiro no Espírito Santo, a Sá Luiza, do Jequitinhonha, Maria do cemitério, que talvez seja a mais interessante de todas as personagens da cidade de Machado. Uma vez uma moça me falou: “Você parece com a Leila Entrevistas”, no plural, e eu cheguei a conclusão que eu sou mais ou menos isso, eu sou a Leila mais as entrevistas que eu carrego dentro de mim.

DM: Quais livros de escritores mineiros você recomenda para nossos internautas?
LF:
 Eu amo livros. Então por exemplo, eu adoro a ‘Ópera dos Mortos’ do Autran Dourado, acho ele um grande escritor. Adoro a poesia da Adélia Prado. Antenor Pimenta, muito talentoso, a Lúcia Castello Branco e tantos outros.

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