Umbanda completa 110 anos em meio a ataques e queda no número de devotos


  • 2 junho 2018
Zélio Fernandino de Moraes em reunião na Tenda Espírita Nossa Senhora da PiedadeDireito de imagemACERVO TENSP
Image captionZélio Fernandino de Moraes em reunião na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade

Até hoje, a família de Zélio Fernandino de Moraes não sabe explicar ao certo o problema de saúde que ele teve aos 17 anos. Só sabe dizer que, por vários dias, o estudante que sonhava seguir carreira na Marinha não conseguia sequer levantar da cama.

Preocupada, sua família, uma das mais tradicionais de São Gonçalo, a 25 km do Rio, o levou a inúmeros médicos. Nem o tio do rapaz, o psiquiatra Epaminondas de Moraes, quis arriscar um diagnóstico. O máximo que uma “rezadeira” conseguiu foi aconselhá-lo a desenvolver sua mediunidade. Um dia, Zélio acordou bem disposto e aparentemente curado. Na dúvida, um amigo sugeriu uma visita à Federação Espírita do Estado do Rio, em Niterói. Era o dia 15 de novembro de 1908.

Chegando lá, o médium José de Souza, que dirigia a sessão espírita kardecista, pediu que Zélio sentasse à mesa. A certa altura, espíritos de caboclos (ancestrais indígenas brasileiros) e pretos velhos (escravos africanos) começaram a se manifestar. Na mesma hora, o dirigente, alegando que eram espíritos “atrasados”, pediu que se retirassem.

Logo, Zélio foi incorporado por uma entidade que saiu em defesa das demais: “Se não houvesse ali espaço para espíritos de negros e índios cumprirem sua missão, ele (espírito) fundaria, já no dia seguinte, um novo culto na casa de Zélio”.

Quando perguntaram seu nome, a entidade respondeu: “Caboclo das Sete Encruzilhadas”. E, em seguida, completou: “Para mim, nunca haverá caminhos fechados”.

“Há várias maneiras de definir a umbanda. Espiritismo abrasileirado é apenas uma delas. A religião valorizou o papel de caboclos e pretos velhos como entidades espirituais”, explica o antropólogo Emerson Giumbelli, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

No dia seguinte ao de sua primeira manifestação, 16 de novembro de 1908, o Caboclo das Sete Encruzilhadas voltou a incorporar Zélio de Moraes. Dessa vez, para traçar as diretrizes da nova religião: vestir roupas brancas, usar guias de contas coloridas e, entre outras faculdades mediúnicas, priorizar a incorporação de espíritos.

“Com os que sabem mais, aprenderemos. Aos que sabem menos, ensinaremos. Mas, a ninguém viraremos as costas”, teria dito, na ocasião, Zélio de Moraes. Por outro lado, proibiu o jogo de búzios, o uso de atabaques e o sacrifício de animais.

“Um dos princípios básicos da umbanda é jamais fazer o mal. Isso inclui querer algo que pertença à outra pessoa, interferir no livre-arbítrio de terceiros ou cobrar para fazer consultas ou atendimentos”, exemplifica Leonardo Cunha, bisneto de Zélio.

Leonardo Cunha dos Santos (bisneto do Zélio) e Lygia Maria Marinho da Cunha (neta de Zélio)Direito de imagemPEDRO PAULO FIGUEIREDO
Image captionLeonardo Cunha dos Santos (bisneto do Zélio) e Lygia Maria Marinho da Cunha (neta de Zélio) são dirigentes espirituais da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade

Psicólogo do pobre’

Se o dia 15 de novembro entrou para a história como o Dia Nacional da Umbanda, o 16 de novembro ficou marcado pela fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. A casa situada no número 30 da rua Floriano Peixoto, em Neves, São Gonçalo, já nem existe mais. Foi demolida em 2011. Hoje, funciona em Cachoeiras de Macacu, a 97 km da capital, e, pelo menos uma vez por mês, atende uma média de 120 pessoas.

“A umbanda pratica a caridade e não cobra um centavo de ninguém. O preto velho é o psicólogo do pobre”, afirma Fátima Damas, presidente da Congregação Espírita Umbandista do Brasil.

No Brasil, a liberdade de credo é assegurada desde a primeira Constituição da República, de 1891. Mesmo assim, a intolerância religiosa nunca deixou de existir. O Código Penal de 1890, vigente no ano em que a umbanda foi fundada, criminalizava a prática dos cultos afros.

Por essa razão, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade foi alvo constante de batidas policiais. “Meu avô enfrentou preconceito até mesmo dentro de casa. Sua família era predominantemente católica”, relata a neta, Lygia Maria Cunha.

Zélio de Moraes dirigiu a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade até 1946, quando passou o comando para as filhas Zélia e Zilméa, ambas já falecidas. Quando ele morreu, em 3 de outubro de 1975, Lygia, sua neta, tinha 38 anos, e Leonardo, seu bisneto, 11.

Atual dirigente espiritual da Piedade, como a família se refere à tenda espírita, Lygia conta que seu avô não sabia nadar e até de piscina tinha medo. No entanto, quando incorporava a entidade Orixá Malet, era capaz de entrar no mar e arriscar umas braçadas por entre ondas fortíssimas.

“Da areia, acompanhávamos tudo, apavorados. Já imaginou se a entidade resolvesse deixá-lo antes de ele estar são e salvo na praia? Felizmente, isso nunca aconteceu”, relata.

Adeptos

O atual presidente da Piedade, Leonardo Cunha, explica que o nome umbanda só veio muito depois de sua fundação. Originalmente, o nome do culto era alahbanda – em homenagem à entidade Orixá Malet, que fora muçulmano em sua encarnação anterior. De origem árabe, Alá ou Alah significa Deus. Já “banda”, palavra coloquial do idioma português do século 15, é sinônimo de lado. “Umbanda pode ser entendida como Ao lado de Deus ou Com Deus ao lado”, explica.

Zélio é Zélio Fernandino de Moraes e sua mulher, Maria Isabel Morse de MoraesDireito de imagemACERVO TENSP
Image captionZélio é Zélio Fernandino de Moraes e sua mulher, Maria Isabel Morse de Moraes, foram os fundadores da umbanda

Segundo dados do Censo de 2010, o número de umbandistas hoje no Brasil, 110 anos depois de sua fundação, chega a 432 mil. Uma queda de 20% em relação ao Censo de 1991.

Para Fátima Damas, da Congregação Espírita Umbandista do Brasil, esses números não correspondem à realidade. “Muitos umbandistas não admitem publicamente que são umbandistas. Por medo ou vergonha, preferem dizer que são católicos”, justifica.

Os casos de intolerância religiosa, segundo a Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI), aumentaram, só no Rio de Janeiro, 56% em relação ao primeiro trimestre de 2017. São 25 denúncias entre janeiro e abril contra 16 no mesmo período do ano passado.

Em alguns casos, vândalos depredam os terreiros, destroem imagens e fazem pichações: “Fora macumbeiros!”, “Não queremos macumba aqui!” e “Só Jesus expulsa demônio das pessoas!”. Em outros, pais, mães, filhos e filhas de santo são impedidos de vestir branco, usar guias e até de entoar cânticos.

‘Muita religião para pouco devoto’

Dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos (MDH), revelam que os ataques a terreiros de umbanda e candomblé, entre outras, não estão restritos ao Rio. Em 2011, o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) atendeu 15 casos. Em 2015, foram 556. Ano passado, saltou para 759.

“Há uma teologia que se dedica a ganhar territórios ‘para Cristo’ e a enfrentar ‘inimigos’. Alguns identificam esses inimigos entre os praticantes de religiões com elementos espíritas e entendem a metáfora de ‘guerra espiritual’ no sentido literal da palavra”, analisa Giumbelli, da UFRGS.

Para o sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo (USP), a intolerância religiosa nasce do preconceito racial e agrega que “há muita religião para pouco devoto. Por essas e outras, algumas igrejas neopentecostais chegam a impor metas de conversão de umbandistas aos seus pastores”.

Em quase 110 anos de fundação, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade sofreu um único caso de vandalismo. Foi nos anos 1980 quando um invasor, durante um surto psicótico, teria quebrado alguns santos e ateado fogo no terreiro. As chamas não se alastraram.

Para os dias 15 e 16 de novembro, Leonardo avisa que não vai ter festa. No máximo, bolo com champanhe. “Na umbanda, espírito não desce para dançar, desce para trabalhar. Nossa vida só tem sentido quando nos colocamos à disposição de Deus para servir ao próximo”, afirma.

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